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NUANCES PESSOAIS QUE INTERFERIRAM NAS ESCOLHAS PELA

Os relatos das quatro orientadoras de estudos apresentadas, quando analisadas na perspectiva da teoria praxiológica de Pierre Bourdieu com a noção de trajetória social precisam ser vistas como agentes “a partir de seu habitus; da estrutura do campo em que estão inseridos e dos capitais em disputa no interior do campo”

(KNOBLAUCH, LOPES e SANTANA, 2021, p. 17).

Esses três elementos quando analisados de modo dialógico refletem o agente e suas disposições de práticas na sua integralidade.

Quando observadas as motivações que levaram as quatro agentes a escolherem a profissão docente, encontra-se pessoas, lugares e até objetos (livros) como aqueles que contribuíram para incorporação de um habitus que as conduziram à vontade de ser professora, quer pelas condições (curso profissionalizante existente), quer por já conhecerem o trabalho docente (acompanhando a mãe, dando aulas a pedido da escola, ensinando outras crianças no hospital, ouvindo histórias do avô).

Cada uma destaca eventos importantes, contudo pode-se perceber disposições de práticas parecidas entre Alice e Mônica que contribuíram para forjar o habitus docente. Desde criança brincavam de dar aula, Alice diz que inclusive dava aula para suas bonecas, primas e até para as plantas de sua casa.

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51 A Rede Municipal de Educação de Curitiba é dividida em 10 núcleos regionais. São elos intermediários entre a Secretaria Municipal de Educação e as unidades educativas.

Além desse fator, elas têm outro em comum: adultos que as motivaram desde cedo a se envolverem com aspectos da docência. No caso de Alice, ao acompanhar sua mãe ao local de trabalho, era solicitada por outras professoras, colegas de sua mãe, a corrigir atividades. No caso de Mônica, o pedido foi feito pelas freiras da sua escola que solicitavam que ela, ainda na 8ª série, assumisse o trabalho de professores de séries anteriores, quando esses faltavam.

Logo, estavam envolvidas em instâncias socializadoras (família e escola) nas quais vivenciaram práticas da docência que se instauravam nesses espaços e que serviram de canal para conduzir suas “escolhas” pela profissão de professoras.

O habitus, disposto nessas instâncias primárias de socialização, foi definido por Bourdieu (1983a, p.65) como “um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações”.

Para Setton (2010, p. 24), as aprendizagens dos espaços de socialização se constituem como um “conjunto de disposições de cultura, disponibilizados pela família e pela escola e acumulado no percurso das trajetórias dos indivíduos e dos grupos”.

Concordando com essa afirmação, Penna (2012) afirma que o habitus dos agentes se constitui pelas experiências educativas que fizeram parte de sua trajetória de vida.

Assim, os processos de socialização, ou seja, a relação com o mundo social, segundo Bourdieu (2003b, p.83), “não é a relação de causalidade mecânica que frequentemente se estabelece entre o meio e a consciência, mas sim uma espécie de cumplicidade ontológica”.

Diante disso, no que se trata dos relatos da Alice, as aprendizagens para se tornar professora estavam instauradas no âmbito familiar desempenhando uma sensação de aptidão, que foi se forjando e fazendo com que ela se sentisse destinada a um caminho que, de certa forma, já lhe estava reservado (PENNA, 2012).

Nas palavras de Bourdieu (2003b, p. 83)

Essa espécie de empenhamento ontológico que o senso prático instaura, é uma relação de pertença e de posse na qual o corpo apropriado pela história se apropria, de maneira absoluta e imediata, das coisas habitadas por essa história”.

Mônica, entretanto, foi se constituindo professora, sobretudo, no espaço de socialização escolar. Segundo ela, definido por dois principais fatores: o primeiro

aconteceu quando substituía os professores nas turmas de 5ª séries, ainda na adolescência, e o segundo, pelas boas referências de professores que teve.

A instituição escolar enquanto instância secundária de socialização contribui, em diferentes proporções e significados nos processos socializadores dos agentes.

Knoblauch, Lopes e Santana (2021, p. 14) afirmam que “as relações estabelecidas dentro do ambiente escolar e acadêmico influenciam e constituem o habitus dos professores, mesmo que de modo secundário, mas não menos relevante”.

Os aspectos evidenciados por Simone como principais agentes socializadores (avô, os livros e a relação com as crianças do hospital) comprovam as hipóteses de Setton (2002b, p. 60) “de que o processo de socialização das formações modernas pode ser considerado um espaço plural de múltiplas relações sociais”.

Ou ainda, pode ser entendido pelo campo das disposições e práticas proposto por Abrantes (2011). Este autor denomina as experiências vividas pelos agentes no mundo social como importantes reguladores das práticas, mas é na forma como os agentes desenvolvem as relações, as competências, as identidades e como incorporam as representações de si e de mundo que determina seu processo de socialização.

Simone estabeleceu uma relação afetiva com os livros, pois eles foram de certa forma, uma outra linguagem para continuidade das histórias orais que ouvia de seu avô. Além disso, ampliou essa relação a outros espaços de socialização. Seu relato pontua que foi na relação iniciada com o avô e apreço pelos livros que ela, num determinado momento da vida, usou para estabelecer relações com as crianças do hospital e desse engendramento tornou-se professora.

Valéria, apesar de citar logo de início que é fruto da escola pública, não pontua fatos ou relações da infância como determinantes ou influenciadores da sua escolha pela profissão docente, muito pelo contrário, na infância criou mecanismos para subjugar as condições objetivas nas quais vivia para poder estudar e a escolha pelo magistério como curso do ensino médio se deu por falta de opção. Destaca, em seus relatos, aspectos voltados a sua família, o esposo e filhos aparecem constantemente em suas falas, demonstrando o valor que eles têm nesse processo socializador e também questões de gênero pelas quais as mulheres precisam esperar (a formação do marido, filhos crescerem, etc.) para concluírem sua escolarização e ingressarem no mercado de trabalho.

No entanto, ela salienta como principal definidor da escolha pela profissão docente, um evento religioso. Segundo Valéria, ela se encaminhou para essa profissão, “num momento radical da minha vida, num momento em que eu estava buscando a Deus, [...] comigo aconteceu algo muito forte que foi um divisor de águas na minha vida”52.

Porém, por trás de uma prática, há disposições que são complexas e impossíveis de se analisar como únicas que determinaram toda uma trajetória profissional. Berthelot (1988) formula o social como “fundamentalmente, e simultaneamente: estruturas, atores, sentidos e história”.

Neste sentido, outros elementos como a pré-disposição já inscrita ao escolher o curso do magistério no ensino médio, o apoio da família para fazer a graduação e logo em seguida o mestrado, demonstram que as relações estabelecidas e os sentidos que Valéria incorporou em ações, independente do período de sua vida, se constituem num forte agente socializador.

Conclui-se com essa análise inicial que as disposições que impulsionaram as quatro professoras para a docência quando comparadas entre elas, apresentam-se próximas para Alice e Mônica e variadas para com as duas outras (Simone e Valéria).

Apesar de muito parecidas as instâncias socializadoras determinantes da docência para Alice e Mônica, cada uma delas interpretou e estabeleceu relações sociais muito particulares e singulares que as constituíram.

Simone e Valéria apresentam as instâncias socializadoras diferenciadas da trajetória das duas primeiras, pois nos indicadores das disposições para a profissão docente encontram-se o avô, os livros e nas relações com as crianças do hospital para Simone.

Já o tardio ingresso a carreira docente para Valéria deve-se ao papel de esposa e mãe que teve prioridade na sua vida. Nessa trajetória apresenta-se a instância religiosa, como preponderante para sua decisão pela profissão de professora de matemática.

Estas múltiplas e variadas instâncias socializadoras que determinaram a profissão docente das quatro professoras, corroboram e representam cada uma a seu modo e intensidade, os processos que perpassam pelos sentidos, pelas emoções,

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52 Valéria não deu maiores detalhes sobre esse evento religioso.

pelas relações de poder, pela visão de si e do mundo social e pelas interações que engendraram seus habitus.

Estes elementos compõem os campos e as dimensões que Setton (2002a, 2005, 2010), Berthelot (1988) e Abrantes (2011) apresentam como processos de socialização da sociedade contemporânea e que são, segundo Bourdieu (2006) manifestos na trajetória social dos agentes.

Knoblauch, Lopes e Santana (2021, p. 18) contribuem com essa conclusão ao destacarem que, na tentativa de analisar como os agentes apreendem as práticas sociais,

Segundo o referencial bourdieusiano, não deve ser analisado como um agente singular, pleno de suas “escolhas” e ações, alheio às influências de classe e de campo, mas sim considerando que cada agente é forjado nas e pelas relações sociais que vivencia.