Este escrito recorta um trecho do texto dissertativo defendido junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRN em 2010. A pesquisa se caracterizou por uma disser- tação com prática, modalidade possível no referido Progra- ma e teve como objeto de reflexão, a relação entre processo de criação, dança e morte. Destacamos para esta reflexão o modo como caminhamos na construção coreográfica do pro- cesso de criação de Nós, Sós, que teve como tema norteador
as experiências vividas com a morte por suas três intérpretes: Ana Cláudia Viana, Larissa Marques e Suzy David.8
O processo de criação coreográfica foi finalizado em 2009, de forma coletiva, e partiu de uma escolha intencional e do interesse das três intérpretes-criadoras pelo aconteci- mento da morte. Partiu também de reconhecermos que as
8 As três intérpretes são professoras de dança e artistas-pesquisadoras e
desenvolvem, respectivamente, suas atuações profissionais na Casa da Ribeira e no Espaço a3 (Ambos são centros culturais da cidade de Natal-RN); no Departamento de Artes da UFRN no Curso de Licenciatura em Dança e na Pós-Graduação em Artes Cênicas; e, em uma escola particular e da rede pública da cidade de Natal.
experiências existenciais, artísticas, estéticas e técnicas vi- venciadas por todas contemplavam a realização do processo criativo, tecido nas tramas e fios de nossas partituras moto- ras, tatuagens corporais, improvisações, conversas e ensaios, apoiado nos diálogos com a dança butô, improvisação e ele- mentos advindos da dança-teatro.
No ensejo de compartilhar os procedimentos de in- vestigação coreográfica e a arquitetura das cenas em tor- no da temática da morte, iniciamos as leituras, discussões e ensaios necessários à construção do estudo dissertativo alimentado, concomitantemente, pelos referenciais teóricos pesquisados e pela própria feitura do processo coreográfico que foi sendo gestado.
A escolha por um trabalho dissertativo envolvendo a construção de uma composição coreográfica, em que, am- bas, orientanda, Ana Cláudia Albano Viana, e orientadora, Larissa Kelly de Oliveira Marques, estavam envolvidas na elaboração tanto do percurso coreográfico quanto textual, atualizando o processo no seu próprio caminho, colocou-nos diante dos riscos e desafios de estarmos inseridas, por assim dizer, de forma visceral no processo, com o olhar manchado pelas implicações de um envolvimento que pudesse con- fundir o distanciamento, por vezes necessário, a uma refle- xão acadêmica. Admitimos que a experiência do corpo e o que se pode dizer sobre ele são dimensões de significâncias distintas. Mas é desse modo que o conhecimento se con- forma: no reconhecer do inacabamento de nossos olhares e reflexões sobre um dado fenômeno, no reconhecer que estamos atados aos nossos universos de investigação (MER- LEAU-PONTY, 1999).
A pesquisa em Artes Cênicas nos coloca diante de uma especificidade em que muitas vezes o objeto de estudo é interrogado e construído ao mesmo tempo. O processo prá- tico de criação e o processo de tessitura escrita se inventam e reinventam conjuntamente. Se por um lado essa especificida- de concede uma escrita bastante autoral dos seus modos de registro e uma ampliação dos trajetos metodológicos possí- veis, por outro lado impõe o desafio de se manter o rigor epis- têmico que constitui um trabalho investigativo. Para Romanini Júnior e Bonfitto (2015), é importante buscarmos um equilí- brio entre razão e sensibilidade, entre não recair em uma fixa- ção inoperante de natureza metodológica e uma subjetivação excessiva, entre deixar-se ao inesperado, mas sem se perder.
Mesmo reconhecendo esses riscos, lançamo-nos nes- sa investigação com o intuito de produzir dados e descrevê- -los, compreendê-los e expor resultados na forma oral, escrita e performática. Dessa forma, o trabalho nos solicitou a escolha de um caminho metodológico que considerasse a possibili- dade de investigação a partir das experiências vividas e que pudesse promover a interlocução entre estas dimensões dis- tintas – a linguagem criadora produzida pelo corpo e o que se fala dela, admitindo as tensões existentes entre ambas. Nessa busca, encontramo-nos com a fenomenologia de Merleau- -Ponty, que em sua obra Fenomenologia da Percepção (1999) versa sobre três conceitos que foram fundamentais para nossa construção: o mundo vivido – lebenswelt, a redução fenome- nológica e a intencionalidade da consciência.
“O Mundo Vivido, da atitude natural, é a fonte para o conhecimento, devendo a Filosofia despertá-lo para uma maior compreensão e engajamento no mundo” (NÓBREGA,
2005, p. 57). Aponta-nos para a compreensão de que o mundo e suas coisas são por nós apreendidos primariamen- te pela percepção.
A percepção não é uma ciência do mundo, não é nem mesmo um ato, uma tomada de posição deliberada; ela é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e ela é pressuposta por eles (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 6).
Pela redução fenomenológica ocorre a suspensão do fenômeno estudado, sem a pretensão de isolá-lo do mundo, mas sim de compreendê-lo em sua facticidade, na existência; desta forma, ela é eidética. Ela realiza a tentati- va de aproximação com o existente antes das teorizações e conceitos. Quando nos referimos à intencionalidade da consciência, apontamos para a perspectiva de que a cons- ciência não é em si mesma, imutável e puramente inte- lectual, ela intenciona e se realiza na existência enquanto projeto, é inconclusa; não tem a pretensão de abarcar o mundo por inteiro, mas sim saber sobre ele, compreendê- -lo a partir do olhar que intenciona desvelá-lo (MERLEAU- -PONTY, 1999).
As tramas da obra Nós, Sós foram sendo tecidas nesse trajeto metodológico ao considerar as nossas percep- ções e experiências tatuadas nos corpos acerca da morte e da própria dança, ao suspender esses fenômenos e recortar partituras dançantes que foram se revelando mais significa- tivas para configurarmos uma composição em dança e uma escrita sobre esse compor.