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O programa irá articular-se em torno de textos produzidos em diferentes momentos no tempo e que, no seu conjunto, servem como ponto de partida para o desenvolvimento de uma proposta de interpretação daquilo a que chamarei a “cultura do conhecimento”. A palavra cultura, neste contexto, tem significados múltiplos. Em primeiro lugar, serve para distinguir uma apro ximação diferente daquela que, provavelmente, os filósofos empreen deriam, ao estudar a génese e o desenvolvimento das teorias do conhecimento na modernidade. Ou seja, não se irá procurar identificar e explicitar uma “Teoria do Conhecimento”, mas antes, tentar perceber um conjunto de discursos que tratam o conheci - mento humano e o saber dele decorrente como instrumentos para o domínio da natureza, da pessoa e da sociedade. Um segundo significado da palavra “cultura”, neste contexto, indicia a apropriação das ideias individualmente expressas por cada um dos autores nos respectivos textos por uma comunidade de leitores progressivamente alargada, bem como a contaminação destas ideias em outros discursos. Ou seja, nesta segunda acepção, a “cultura do conhe cimento” indicará a preocupação crescente, nas sociedades ocidentais modernas, em particular no universo anglo-saxónico, com o saber e a educação nos seus diferentes patamares, até à generalização da expressão “sociedade do conhe cimento” para designar os mais recentes desenvolvimentos no mundo ocidental que parecem

libertar um número cada vez maior de pessoas de actividades laborais físicas e manuais para se dedicarem a actividades intelectuais. Num terceiro sentido, que decorre deste, a “cultura do conhecimento” indica um conjunto de sistemas e de instituições que transferem para a prática a teoria dos pensadores selec - cionados.

As dificuldades que envolvem o estudo e o uso da palavra cultura têm sido tratadas por um sem número de autores. Mas, aqui, parece-me relevante lembrar uma referência feita por Zygmunt Bauman (1973, 2000), na Introdução à sua revisão de Culture as Praxis. Bauman recorda que, no início da década de setenta, entendera a cultura como um “facto social”, entre outros, que poderia ser apreendido, descrito e representado. Mas, trinta anos depois, aponta cami - nhos para a análise da cultura que passam ao lado da dimensão sociológica que antes lhe atribuíra: “Another ‘social fact’, not a puzzle calling the effort of an archaeological dig or needing to be ‘deconstructed’. There was as yet no Foucault nor Derrida around to help.” (Bauman Culture as Praxis: ix). O que se pretende, neste programa, é partir de uma metodologia de análise cultural que não tratará a cultura como um “facto social” e, por isso, não recorrerá a métodos de análise

antropológicos, etnográficos, ou sociológicos4. Partindo de textos, não deixará,

porém, de tentar enquadrá-los em esquemas mentais, em convenções sociais, em aplicações institucionais que são relevantes para a sua análise, bem como para a apreciação das suas repercussões.

Os textos seleccionados requerem uma grelha de análise compatível com a dimensão cultural que se pretende emprestar ao seu estudo. De entre as várias possibilidades que se perfilavam, pareceu-me que a modalidade desenvolvida por Michel Foucault em The Order of Things e The Archaeology of Knowledge serviria os propósitos deste seminário: convidar à leitura, à reflexão, à discussão. Convidar, também, a um exercício de questionamento e interpelação sobre categorias aparentemente fixadas por outras disciplinas académicas, como a História, a Literatura, a Linguística ou a Filosofia. As duas obras de Foucault que referi oferecem essa grelha de análise que permite, por um lado, situar os textos em estudo em enquadramentos diferenciados e, por outro, atenuar o peso de leituras sancionadas por uma tradição de análise que refere os movimentos do pensamento dentro de uma grande narrativa de desenvolvimento ou evolução. As duas obras nem por isso obrigam a uma leitura estruturalista. Como diz Foucault, em The Archaeology of Knowledge:

In short, this book, like those that preceded it5does not belong – at least directly, or in the first instance – to the debate on structure (as opposed to genesis, history, development); it belongs to that field in which the questions of the human being, consciousness, origin, and the subject emerge, intersect, mingle and separate off. (Foucault Archaeology: 186) O desenvolvimento das várias sessões de seminário deverá deixar claro o modo como a análise foucaultiana se aplica aos textos seleccionados.

Estes textos de Foucault poderão parecer, hoje, ultrapassados e tornados obsoletos por todo um conjunto de desenvolvimentos teóricos surgido nas últi - mas décadas no campo da análise da cultura. A sua relação com o estruturalismo, e a violência das críticas que, nos anos sessenta e setenta se desencadearam sobre o estruturalismo em geral e as obras de Foucault em particular, poderiam servir de aviso dissuasor à formulação desta proposta de estudo. Porém, a opção que tomei foi ponderada face a um conjunto de razões que se prendem, por um lado, com a centralidade inquestionável dos trabalhos de Foucault para os estudos de cultura e, por outro, com a possibilidade de proceder, agora, a uma apreciação mais distanciada das propostas contidas nestes textos, esvaziando- -as da carga polémica que tiveram há três décadas atrás, e recuperando processos fundamentais de análise que me parecem ser, hoje ainda, consistentes e adequa - dos à análise da cultura. Por fim, estes textos dirigem-se à questão central do programa de mestrado em Estudos Anglísticos em que este seminário se situa: “Cultura e Poder”. A reperspectivação de The Order of Things e de The Archaeology

of Knowledge foi, aliás, várias vezes retomada por Foucault, no curso de extensas

entrevistas onde lhe foram solicitadas apreciações dos seus livros. Nestas entrevistas, estes textos são enquadrados no conjunto da obra do autor e das circunstâncias políticas envolventes à sua produção, mas são também revistos face às críticas que desencadearam, no sentido de serem esclarecidos os seus objectivos, definidas as suas limitações assumidas, ponderadas algumas das

críticas mais contundentes7.

Os tópicos abordados neste programa foram seleccionados não para se articularem como uma proposta de história do conhecimento na modernidade, muito menos como uma história da ciência, mas antes como a identificação de três momentos exemplares de viragem no pensamento britânico. Até certo ponto será possível emprestar a estes momentos o adjectivo “paradigmático”, dentro do conceito de paradigma estudado por Thomas Kuhn: “[Paradigms]

I take to be universally recognized scientific achievements that for a time provide model problems and solutions to a community of practitioners” (Kuhn Structure

of Scientific Revolutions: viii). Mas o estudo sobre a estrutura das revoluções

científicas supõe um conceito de ciência que não coincide completamente com o conceito mais amplo e flexível de “saber” ou de “conhecimento” que será proposto neste curso. Para Kuhn, são Copérnico, Newton, Lavoisier e Einstein os grandes protagonistas das revoluções científicas. Ao longo dos capítulos desta obra, o autor reflecte sobre a ciência normal, sobre o aparecimento da anomalia, sobre a crise e a emergência das teorias científicas, sobre a natureza das revolu - ções científicas, dentro de uma perspectiva evolucionista. Apenas no último capítulo, “Progress through revolutions”, se interroga sobre o pressuposto de uma linearidade progressiva no desenvolvimento das ciências da natureza, acabando por a assumir, não obstante a possibilidade – problematizada após a publicação de The Origin of Species em 1859 – de não existir qualquer plano que

organize o processo de evolução das espécies8. No programa que se pretende

desenvolver procurar-se-á evitar a possibilidade de se considerarem as viragens identificadas como passos de um percurso evolutivo, conducente a um futuro estado de perfeição sobre o conhecimento. Pretende-se, antes, entender o diálogo, em termos de discordância, concordância e descoberta, entre diferentes

protagonistas que podem formar comunidades científicas9; mas também alargar

o conceito de comunidade científica para lá das unidades que partilham uma determinada especialidade.

As obras de Foucault acima referidas obrigam, desde logo, à clarificação do uso de alguns termos cujo sentido não é coincidente na tradução para diferentes idiomas. Em especial, as palavras “saber” e “conhecimento”, poderão ser, desde logo, esclarecidas através de uma nota incluída em The Archaeology of Knowledge, que lida, justamente, com o problema do significado dos termos connaissance e savoir, em francês e em inglês. A versão inglesa traduz o esclarecimento de Foucault:

By connaissance I mean the relation of the subject to the object and the formal rules that govern it. Savoir refers to the conditions that are necessary in a particular period for this or that type of object to be given to connaissance and for this or that enunciation to be formulated.

O tradutor da obra para inglês, acrescenta:

The English ‘knowledge’ translates the French ‘connaissance’ and ‘savoir’. Connaissance refers here to a particular corpus of knowledge, a particular discipline – biology or economics, for example. Savoir, which is usually defined as knowledge in general, the totality of the connaissances, is used by Foucault in an underlying, rather than an overall, way. (Foucault Archaeology: 16-7)

Noutra ocasião, Foucault voltaria a esclarecer:

I use the word “savoir” [“knowledge”] while drawing a distinction between it and the word “connaissance” [“knowledge”]. I see “savoir” as a process by which the subject undergoes a modification through the very things that one knows [“connaît”] or, rather, in the course of the work that one does in order to know. It is what enables one to both modify the subject and to construct the object. Connaissance is the work that makes it possible to multiply the knowable objects, to manifest their intelligibility, to understand their rationality, while maintaining the fixity of the inquiring subject (Foucault Power: 256).

A tradução para inglês usará a palavra “knowledge”, para referir connaissance e savoir, seguida do termo em francês entre parêntesis, quando necessário. Em português será possível distinguir connaissance e savoir, para traduzir a palavra

knowledge, que é fulcral no estudo que desejamos empreender.

Como é óbvio, as obras de Foucault não serão as únicas utilizadas para a construção de uma grelha de análise. A interpretação dos textos seleccionados como centrais neste programa terá que incluir um acervo de outras referências que facilitem as necessárias contextualizações e relações. Ao propor estudar a “cultura do conhecimento”, proponho ao mesmo tempo construir uma ponte entre duas modalidades de análise e interpretação: uma, de raíz europeia continental, outra, de raíz anglo-saxónica. A primeira incluirá referências de carácter predominantemente teórico; a segunda, referências de índole socio - lógica e histórica. Os textos de Foucault, construindo uma arqueologia do saber, proporcionam as categorias, e a reflexão sobre elas, que definem os epistemas, ou seja, as condições anteriores ao próprio conhecimento articulado, necessárias à sua articulação. Estas propostas permitem a construção de uma grelha de análise que, em si mesma, é sobretudo descritiva. A história das ideias poderá conferir uma dimensão interpretativa, que articule os epistemas com outras

grelhas de significados: os que virão articular as condições do conhecimento como as condições do poder.

A expressão usada por Francis Bacon knowledge is power serve de ponto de partida e de proposta global para o desenvolvimento dos conteúdos propostos para este seminário de mestrado. As perguntas a que pretendemos responder, ainda que de forma parcelar e provisória, são: como se estrutura o conhe ci - mento/saber, na modernidade? Quais as condições que determinam as formas de expressar o conhecido? Qual será a relação entre saber e poder? Que formas de poder se desenvolvem, assentes no saber? A investigação e o debate em torno do tema central do mestrado, Cultura e Poder, poderiam sugerir de ime dia - to a construção de um programa de seminário articulado sobre o pensamento político e jurídico dos autores seleccionados. Bacon, em The Advancement of

Learning dedica uma secção ao conjugate and civil knowledge, os Two Treatises of Government de Locke seriam uma escolha óbvia, bem como o Leviathan de

Hobbes e vários ensaios de Hume; a lista de possíveis escolhas, dentro desta temática, seria ainda mais vasta, à medida que nos aproximássemos de textos de finais do século XVIII e das primeiras décadas do século XIX. Mas o estudo das teorias políticas pareceu-me menos estimulante, num contexto de articulação entre cultura e poder, num programa de Mestrado em Estudos Anglísticos, do que o estudo das estruturas menos visíveis da construção da atitude moderna sobre o saber, e o modo como o domínio dessas estruturas veio precipitar novas formas de autoridade e poder, novos regimes de verdade.

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