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“Arqueologia” e “História das Ideias”

No Prefácio a The Order of Things, Foucault definiu os objectivos daquilo a que chamou a “arqueologia do saber”. Importa definir esse espaço de análise como um espaço intermédio, situado entre os códigos de uma cultura e as teorias científicas ou interpretações filosóficas que os explicam. A análise de Foucault é orientada pela procura e descoberta de um princípio de ordem. Essa será a ideia central que percorrerá este programa, onde o estudo dos textos nos permitirá problematizar as interpelações feitas ao conhecimento e ao saber, em diferentes momentos, constatando-se o questionar do adquirido e a elaboração de novos sistemas de análise, que buscam novas tabelas ou novos processos de organização do conhecido.

Irão surgir, no entanto, ao longo do percurso de estudo, situações onde se irão operar desvios às propostas de Foucault. Interessa, assim, caracterizar de modo mais preciso a proposta foucaultiana. Foucault distingue entre os códigos de uma cultura – que governam a sua língua, os seus esquemas de percepção, as suas trocas, as suas técnicas, os seus valores, a hierarquia das suas práticas – e estabelecem as ordens empíricas com as quais irá lidar, das teorias que explicam as razões por que existe ordem, a que princípios e leis universais ela obedece, e as razões por que se estabeleceu uma determinada ordem e não outra. Entre

a região do olhar codificado (encoded)10e a do saber reflexo, situa-se uma região

intermédia, mais confusa, mais obscura, mais difícil de analisar. É aqui que uma cultura se desvia das ordens empíricas prescritas pelos códigos primários, institui uma primeira separação relativamente a eles, se confronta com o facto de poder existir, abaixo do nível das suas ordens espontâneas, uma outra ordem, que põe

em causa os códigos de linguagem, percepção e prática, e os torna parcialmente inválidos. Será com base nesta ordem que as teorias gerais se irão construir. A obra de Foucault irá, justamente, procurar analisar a experiência da ordem e os seus modos de ser, a partir do século XVI, na cultura ocidental.

Será necessário, neste ponto, reflectir um pouco sobre os pressupostos que informam Foucault, quando fala numa cultura such as ours (Foucault Order: xxiii). O próprio texto, começando com uma referência a um passo de uma obra de Borges, onde se descreve uma “enciclopédia chinesa”, alertara desde logo para a pressuposição de uma comunidade de pensamento marcada pelo tempo e

pelo espaço (our age, our geography)11. Utilizando como referência estudos

de Max Weber, Anthony Giddens, David Harvey e Frederick Jameson12sobre a

constru ção da modernidade, dever-se-ão perspectivar os traços específicos dos conceitos de “ocidente” e de “moderno”. É de sublinhar, também, que o uso de termo “moderno” no programa de mestrado não irá coincidir com o de Foucault, que distingue entre um período “clássico”, correspondendo sensivelmente ao século XVII, e um período “moderno”, que começa no princípio do século XIX. Para ele, estes dois momentos denotam as duas grandes descontinuidades no

epistema da cultura ocidental, e como tal, a sua análise reveste-se de especial

interesse. Desde logo há que notar que é possível que a cultura inglesa manifeste descontinuidades ligeiramente diferentes da francesa, que serão oportunamente

evidenciadas13. Há que notar, ainda, que a terminologia de raíz inglesa que iremos

utilizar no seminário situa a “modernidade” num período histórico que começa sensivelmente no século XVI e se prolonga até aos nossos dias. É possível uma sub-periodização que refere o advento da modernidade (early modernity), a moder nidade plena (modernity), a modernidade tardia (late modernity), e a pósmo dernidade (postmodernity). A constatação das diferenças no sistema de periodização abre, desde logo, a possibilidade de confrontar a versão anglo- -saxónica da “história das ideias”, com a versão estruturalista de Foucault: as continuidades implícitas na terminologia anglo-saxónica contrastam com as descontinuidades expressas na oposição “clássico” e “moderno”. Como se verá, Foucault situa a grande ruptura epistemológica no final do século XVIII, e conside ra para sempre perdido o epistema do período “clássico” na cultura contemporânea.

É fundamental, à partida, definir o que Foucault entende por epistema14

embora extensa, justifica-se pela sua centralidade no entendimento da proposta foucaultiana:

Quite obviously, such an analysis does not belong to the history of ideas or of science: it is, rather an inquiry whose aim is to rediscover on what basis knowledge and theory became possible; within what space of order knowledge was constituted; on the basis of what historical a priori, and in the element of what positivity, ideas could appear, sciences be established, experience be reflected in philosophies, rationalities be formed, only, perhaps, to dissolve and vanish soon afterwards. I am not concerned, therefore, to describe the process of knowledge towards an objectivity in which today’s science can finally be recognized; what I am attempting to bring to light is the epistemological field, the episteme in which knowledge, envisaged apart from all criteria having reference to its rational value or to its objective forms, grounds positivity and thereby manifests a history which is not that of its growing perfection, but rather that of its conditions of possibilty; in this account, what should appear are those configurations within the space of knowledge which have given rise to empirical science. Such an enterprise is not so much a history, in the traditional meaning of that word, as an ‘archaeology’. (Foucault Order: xxiii-xxiv)

E, sobre o que entende por “arqueologia”, diz:

With the idea of archaeology, it’s precisely a matter of recapturing the construction of a connaissance, that is, of a relation between a fixed subject and a domain of objects, in its historical roots, in this movement of savoir which makes the construction possible. (Foucault Power: 256) Embora Foucault rejeite qualquer associação do seu projecto a um modelo disciplinar de história das ideias, não elimina do seu estudo as referências espacio-temporais relevantes, e adopta, como vimos, uma grelha de sequência temporal, embora não linear nem progressiva. No desenvolvimento deste seminário de mestrado serão, não obstante, convocadas referências históricas, bem como referências a uma história das ideias convencional. Em The Archaeology

of Knowledge o autor define com maior precisão as diferenças que distanciam a

sua posição da história das ideias. Será, por isso, de interesse percorrer a síntese que apresenta e confrontar os dois modelos em conflito. Neste confronto, poderá perceber-se melhor que existe, na proposta que apresento, uma moldura de história das ideias que, desejavelmente, não terá que entrar em conflito com a

arqueologia foucaultiana. Usa, na verdade, algumas das linhas de análise desen - volvidas por Foucault, mas articula-as com outros discursos, como é próprio da história das ideias. Assim, ter-se-ão que assumir algumas debilidades próprias de uma área disciplinar que Foucault condenou como “um objecto incerto, com fronteiras mal definidas, métodos emprestados de diversos lugares, uma abordagem falha de rigor”(Foucault Archaeology: 153), mas evidenciar alguns pontos de discordância com a ferocidade com que Foucault julgou e condenou a história das ideias.

Na história das ideias, Foucault vê dois papéis. O primeiro refere-a como uma narrativa das margens da história: não a história das ciências, mas a das opiniões, do saber não informado que não chega a ser científico, das filosofias obscuras, dos rumores tangenciais que não chegam a ter o estatuto de “obra”; assim, não é uma história das ciências, da filosofia ou da literatura, mas antes ocupa-se do estudo de escritos transitórios, como as subliteraturas, almanaques, revistas, jornais, êxitos temporários autores anónimos. Segundo esta definição, a história das ideias ocupa um espaço intersticial e insidioso nas relações e representações que circulam anonimamente entre as pessoas. É a disciplina de “lingua gens flutuantes, obras disformes, temas desconexos. A análise de opiniões e não de saberes (knowledge), de erros e não de verdade, de tipos de mentalidade e não de formas de pensamento” (153).

Por outro lado, a história das ideias propõe-se cruzar fronteiras disciplinares e lidar com as disciplinas a partir do exterior, reinterpretando-as. Neste segundo sentido, Foucault considera-a um “estilo de análise, uma perspectivação”. Embora nesta acepção considere também a história das ideias como uma prática inde - sejável, a sua descrição aproxima-se dos núcleos de perspectivação propos tos neste seminário, e será, por isso, de interesse passá-la em revista:

[The history of ideas] takes account of the historical field of the sciences, of literature, of philosophy: but it describes the knowledge that has served as an empirical, unreflective basis for subsequent formalizations; it tries to rediscover the immediate experience that discourse transcribes; it follows the genesis, which, on the basis of received or acquired representations, gives birth to systems and oeuvres. It shows, on the other hand, how great figures that are built up in this way gradually decompose: how the themes fall apart, pursue their isolated lives, fall into disuse, or are recomposed in a new way. The history of ideas, then, is the discipline of beginnings and ends, the description of obscure

continuities and returns, the reconstitution of developments in the linear form of history. But it can also, by that very fact, describe, from one domain to another, the whole interplay of exchanges and intermediaries: it shows how scientific knowledge is diffused, gives rise to philosophical concepts, and takes form perhaps in literary works; it shows how problems, notions, themes may emigrate from the philosophical field where they were formulated to scientific or political discourses; it relates work with institutions, social customs or behaviour, techniques, and unrecorded needs and practices; it tries to revive the most elaborate forms of discourse in the concrete landscape, in the midst of the growth and development that witnessed their birth. It becomes therefore the discipline of interferences, the description of concentric circles that surround works, underline them, relate them to one another, and insert them into whatever they are not. (153-4)

Nos papéis que atribui à história das ideias, Foucault apresenta a conde - nação – ou até a sentença de morte – de um modelo de reflexão que sintetiza como a descrição contínua de transições: da não filosofia para a filosofia, da não cientificidade para a ciência, da não literatura para a oeuvre, propriamente dita. A história das ideias dedica-se, pois, aos temas da génese, continuidade e tota - lização. Foucault propõe-se desconstruir as grandes narrativas sobre o saber, próprias da história das ideias, contrapondo-lhes um processo de análise que não visa descobrir continuidades, nem atribuir-lhes um sentido progressivo: interessa-lhe, sobretudo, a construção de uma grelha de análise, dotada de capacidade descritiva. É neste sentido que as suas propostas me parecem eficazes na coordenação deste programa, embora à análise se venha acrescentar uma dimensão interpretativa que terá que recorrer, como já referi, a outros instrumentos. Há que considerar, ainda, que o que o termo “história das ideias” designa, não é consensual, e que outras designações têm competido com esta, para nomear um área de estudo da história e respectivas metodologias, que não se encontram claramente definidas. History of Ideas parece ter uma origem americana, instituída por Arthur Lovejoy no título que deu ao Journal of the

History of Ideas, que fundou em 1940, enquanto em França os historiadores dos Annales se dedicavam a estudos no âmbito da histoire des mentalités, psychologie historique, histoire sociale des idées e histoire socio-culturelle; na Alemanha Geistesgeschichte era o termo frequentemente usado, provavelmente como

No programa que se vai desenvolver procurar-se-á distinguir entre estas duas modalidades de análise. Uma das funções da coordenadora dos trabalhos será, decerto, alertar para o necessário rigor no uso das fontes mas estar, ao mesmo tempo, atenta às possibilidades de as articular, na busca de respostas às perguntas que acima foram formuladas.

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