4 ANÁLISE DOS DADOS
4.5 TIPOS DE PODER APRESENTADOS
4.5.1 Apresentação dos dados
O quadro de análise parcial, apresentado a seguir, foi utilizado como ferramenta para coleta e análise dos dados relativos ao poder. Observa-se que foi introduzida a coluna com a base teórica de cada elemento de análise, o que facilitou a associação dos dados com os conceitos teóricos de cada um dos autores relacionados.
QUADRO 2 – QUADRO DE ANÁLISE PARCIAL 1
Categoria Analítica Elemento de Análise Base Teórica
Tipo de Poder Poder de Recurso
Poder de Posição Poder de Perícia Poder Pessoal
Kotter (2000), Handy (1978) e Etzioni (1974) Kotter (2000), Handy (1978) e Etzioni (1974) Kotter (2000) e Handy (1978)
Kotter (2000) e Handy (1978)
Fonte: Autor.
Kotter (2000) afirma o quanto é importante os gerentes lançarem mão do poder, com habilidade, para alcançarem os resultados nas suas organizações, em um ambiente que a cada dia se torna mais complexo.
Através da classificação dos eventos realizada nos tópicos anteriores, que foram separadas de acordo com suas características e complexidades, constatou-se a prática do poder por parte do Cliente 1 e a forma como esse poder foi interpretado pelos diversos atores. Essa prática refletiu uma certa habilidade, proposta por Kotter (2000), e seu mapeamento contribuiu para o maior entendimento desse assunto. Definição
Observando a atuação do Cliente 1 no evento Definição 1, contatou-se que ele estava utilizando o poder de perícia, afinal, as metas que estavam incutindo nos diversos atores eram repassadas através de argumentos técnicos fortes, fazendo referência aos prazos possíveis de implantação para cada umas das atividades.
A entrevista realizada com o Cliente 1 mostrou um outro ponto de vista. Ele entendia que as metas eram “agressivas” e mesmo argumentando de forma técnica, sabia que apenas uma postura “dura” e benefícios claros pelo sucesso na sua realização produziriam um alto grau de envolvimento – poder de recurso. Ele apresentou seu ponto de vista da seguinte forma:
CLIENTE 1 - Sabia que as datas eram agressivas e fiz todos entenderem que deveriam dar o máximo de si para atingirem as metas. Para isso sinalizei que poderia designar novas obras no futuro.
O Ator 2 interpretou da mesma forma que o Pesquisador sobre o tipo de poder utilizado pelo Cliente 1. A razão de ter havido o mesmo entendimento foi o esforço empreendido pelo Cliente 1 em convencer, de forma técnica, sobre a viabilidade de cumprir cada uma das atividades previstas no projeto.
Para o evento Definição 1, a grande maioria dos atores (Ator 1, 3, 4, 5 e 6) interpretou que o Cliente 1 estaria utilizando o poder do tipo posição. Vejam, pelas suas colocações, que as suas interpretações estão compatíveis com a fundamentação teórica:
ATOR 5 - O Cliente 1 utilizou toda a hierarquia possível para informar, conscientizar e ‘ameaçar’ as pessoas para que elas cumprissem suas metas.
ATOR 3 - O Cliente 1 ‘forçou’ um pouco nessas metas.
Em uma situação como essa, de definições iniciais do projeto, a “leitura” da maior parte dos atores apontou para uma postura mais rígida, uma relação cliente/fornecedor do tipo que segue estritamente as normas para definição dos papéis e obrigações.
Como Handy (1978) afirma que o poder de posição pode ser explicado como aquele que surge como resultado do papel ou posição que A assume em uma organização, os diálogos apresentados anteriormente corroboram para essa interpretação.
Advertência geral
Nos eventos do tipo advertência geral foram aplicados diferentes tipos de poder, segundo o Cliente 1.
Resumidamente, ele afirmou que quando era necessária uma “chamada de atenção” por questões de desempenho, não “lançava mão” da perícia, recurso ou posição. Ele normalmente falava de forma geral, utilizando uma postura pessoal, conscientizando de maneira “natural” todos os participantes.
Por outro lado, quando a advertência geral envolvia questões de atendimento aos procedimentos, ou de fluxo de informações, ele utilizava a perícia ou a posição hierárquica para fazer cumprir as necessidades de controle, o que o permitia ter o projeto “na mão”.
No primeiro comentário o Cliente 1 se refere ao evento Advertência 1, já no segundo comentário ao evento Advertência 2.
Seja para um evento ou para outro, a grande maioria dos atores identificou nas atitudes e palavras do Cliente 1 uma utilização do poder de posição. Algumas de suas declarações apontam nessa direção:
ATOR 4 - Todos têm que dançar conforme a música.
ATOR 1 - A reunião semanal é demais, é uma cobrança para estarmos sempre em dia. Mas é uma exigência do cliente.
ATOR 2 - Utilizou a posição de gerente para solicitar que todos seguissem o procedimento.
Handy (1978) afirma que esse tipo de poder está mais ligado à posição do que ao indivíduo e nas declarações dos atores, percebe-se que eles compreendiam que nos momentos de advertência não havia uma questão pessoal envolvida, era a organização que se manifestava através do Cliente 1.
Pontuais
Quando ocorrem problemas técnicos ou necessidades de explicações sobre o escopo, é natural adotar a perícia para resolver os conflitos. Avaliando com cautela os dois eventos classificados como Pontual 1 e Pontual 2, vê-se que no primeiro realmente ocorreu uma verificação técnica para definição da solução, enquanto no segundo, por se tratar de uma situação envolvendo processos de duas organizações, envolveria uma ação “política”, uma atuação institucional, para resolver o impasse.
Foi com base nas considerações acima que o Pesquisador apontou o poder de perícia para o evento Pontual 1 e o poder de posição para o Pontual 2.
O Cliente 1 utilizou basicamente os mesmos argumentos para justificar esses mesmos tipos de poder, ratificando que o uso de desenhos durante a reunião objetivou encontrar na técnica a solução para os problemas (Pontual 1); acrescentou, entretanto que, como estava demorando para surgir uma solução para
Pontual 2, “utilizou o que considera ser seu último recurso”, que foi o poder de
posição.
De forma geral, os demais atores interpretaram a utilização desses mesmos tipos de poder. Algumas das opiniões para o evento Pontual 1:
ATOR 3 - O Cliente 1 foi técnico pois desenhou e explicou os elementos que poderiam estar apresentando problemas.
ATOR 5 - O Cliente 1 utilizou de perícia para discutir o assunto e propor uma solução.
ATOR 6 - O Cliente 1 adotou uma postura totalmente técnica, demonstrando ter conhecimento. Coletava informações para ter certeza de onde poderia vir o problema.
Handy (1978) afirma que no poder de perícia há o reconhecimento da perícia de A por B. No evento Pontual 1 a maior parte dos atores reconheceu a perícia do Cliente 1.
Vale apontar que nem todos foram unânimes. O relato abaixo demonstra como em um mesmo evento, mesmo com a utilização de recursos técnicos claros, pode haver interpretações diferentes sobre a forma de utilização do poder:
ATOR 1 - As empresas pisaram na bola, tanto a Y como a Z, e o Cliente 1 utilizou da posição para exigir uma solução.
Cabe registrar a opinião exclusiva dos dois atores, cujas organizações provocaram o problema do evento Pontual 2. Segundo eles houve dois momentos:
um primeiro em que o Cliente 1 utilizou uma postura de cliente, mandando fazer, corrigir, resolver, o que na verdade provocou um “patinamento” na solução do problema; em um segundo momento, a atitude do Cliente 1 nos bastidores foi a de contribuir para resolver o problema de forma técnica e essa atitude serviu como catalisador para a solução do problema.
Tensões
Um dos eventos que mais chamou a atenção foi o Tensão 1, afinal, houve a participação de um diretor regional da empresa contratante e a percepção dos atores seria construtiva para o andamento da pesquisa.
Houve uma mudança de postura, um mudança nos tipos de poder utilizados pelo Cliente 1?
Na opinião do Pesquisador a presença do diretor regional causou modificações no comportamento de todos. O Cliente 1, por exemplo, ficou mais sério, circunspecto, cujas atitudes e utilização de poder foram mais para o de posição.
O Cliente 1 comentou que após essa reunião se havia produzido estresse nos demais atores, foi conversar com o diretor regional, mostrando a ele que poderia confiar naquele grupo, na sua forma de conduzir os trabalhos e que, ao término dos prazos os resultados seriam satisfatórios – o que realmente ocorreu. O Cliente 1 afirmou não ter alterado sua conduta e forma de utilização de poder, continuando a utilizá-lo de acordo com a situação.
O Ator 6 percebeu essa postura por parte do Cliente 1 e afirmou:
ATOR 6 - O Cliente 1 modificou muito pouco a sua postura, mesmo com as colocações do diretor regional. Manteve a forma de trabalho e os mesmos argumentos. O Cliente 1 tem a visão global da empresa, o que significou a utilização de todos os tipos de poder em função da situação.
O Ator 3 também afirmou que o Cliente 1 não alterou seu comportamento e continuou utilizando o mesmo tipo de poder utilizado antes da participação do diretor regional – mas nesse caso o Ator 3 afirmou que o Cliente 1 estava sendo técnico.
Tanto o Ator 2 como o Ator 4 fizeram a “leitura” de que o Cliente 1 havia assumido uma postura de cliente mais enfática. Isto teria reforçado a utilização do poder de posição. A seguir a colocação do Ator 4:
ATOR 4 - A presença do diretor regional fez com que o Cliente 1 tivesse que demonstrar que tinha o controle sobre o fornecedor e habilidade para cumprir o projeto.
No evento Tensão 2 ocorreu um consenso geral de que o Cliente 1 teria utilizado o poder de posição. O Pesquisador relacionou esse evento ao poder de posição em função da presença de um “poder legal” ou “legítimo”, que, segundo Handy (1978), caracteriza a utilização desse tipo de poder.
O Cliente 1 reconheceu-se utilizando esse tipo de poder, entendendo que a utilização de “rompantes calculados” são necessários para dar um “empurrão” nos participantes nas fases finais do projeto.
Todos estavam cansados na fase de conclusão do projeto. A pressão ocasionada pelo desejo de sucesso no empreendimento fez com que ficassem tensos. As interpretações dos atores, nesses momentos de exercício do poder de posição pelo Cliente 1, enfatizaram colocações mais “duras”:
ATOR 2 - Eles utilizaram frases como ‘nossa meta tem que ser cumprida’, por isso entendo uma forte utilização do poder do cargo.
ATOR 1 - Eles são clientes e todos têm que estar ali para responder o que eles querem.
Informativo
O evento Informativo 1 foi interpretado por todos os atores como uma utilização do poder de recurso, como uma forma de se oferecer um “prêmio”, uma recompensa pelo esforço final de todos, para o cumprimento final dos prazos do projeto. Etzioni (1974) afirma que nesse tipo de poder há o controle sobre os recursos materiais, sejam eles salários, recompensas, gratificações, adicionais ou outros.
O Cliente 1 admitiu que “passou pela cabeça dar uma injeção de ânimo para cumprirem as metas desse projeto”, mas também pensou nos futuros projetos e que o fornecimento da programação futura serviria para evitar uma desmobilização. Esses dois sentimentos informados pelo Cliente 1 foram “capturados” pelos atores como se pode observar nas frases a seguir:
ATOR 2 - No caso ele estava utilizando uma ‘cenoura’, para evitar a desmobilização.
ATOR 3 - Poder de recurso, mas com tom educativo e preventivo. Não houve intenção de forçar a ‘barra’ para a conclusão do que estava em andamento.
ATOR 1 - Tentar fechar o que faltava, dar a motivação final para atender as metas, utilizando o poder financeiro.
ATOR 4 - Motivação para a turma com a possibilidade de novos negócios.
ATOR 5 - ‘Açúcar do cavalo’.
Tabela resumo
Na Tabela 4 lançou-se todas as opiniões coletadas ao longo das entrevistas. Sua apresentação facilitou a realização das considerações finais que são abordados no tópico seguinte.
TABELA 4 – RESUMO DOS TIPOS DE PODER COLETADOS
Evento Cliente 1 Pesquisador Ator 1 Ator 2 Ator 3 Ator 4 Ator 5 Ator 6
Definição 1 Recurso Perícia Posição Perícia Posição Posição Posição Posição
Advertência 1
Pessoal Posição Perícia Perícia Recurso
Posição Posição Posição Todos
Advertência 2 Posição Perícia
Posição Posição Posição Ausente Ausente Ausente
Posição Perícia Pontual 1
Perícia Perícia Posição Perícia Pessoal
Perícia Ausente Perícia Perícia
Pontual 2
Posição Posição Recurso Posição Perícia Pessoal Pessoal Posição Perícia Posição Perícia Posição Pessoal Tensão 1
Todos Posição Perícia Posição Perícia
Posição (coercivo)
Ausente Todos
Tensão 2 Posição Posição Posição Posição Ausente Ausente Ausente Posição
Informativo 1 Recurso Recurso Recurso Recurso Recurso Recurso Recurso Todos
Fonte: Autor.