Eixo Mediação, Produção e Circulação para o Acesso, Uso e Apropriação da Informação
3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Com a conclusão do levantamento realizado em 2010, verificou-se a existência de 55 IFES, com 517 bibliotecas universitárias, e 41 IES Estaduais, com 436 bibliotecas, distribuídas pelas cinco regiões brasileiras como demonstrado na Figura 1.
Figura 1
Distribuição regional das universidades públicas brasileiras
De acordo com a Figura 1, observa-se que as regiões que contam com o maior número de IFES, e de bibliotecas universitárias, são as Regiões Sudeste (34,5% das IFES e 34,6% das bibliotecas universitárias) e Nordeste (25,5% das IFES e 27,7% das bibliotecas universitárias). A Região Centro-Oeste conta, em relação às demais regiões, com a menor quantidade de universidades (9,1%) e, consequentemente, com a menor quantidade de bibliotecas universitárias (5,0%) prestando serviços de apoio à produção do conhecimento.
A realização de atividades que potencializem uma utilização maior das informações disponíveis no acervo da biblioteca, como também daquelas indicadas por meio dos serviços de referência e fontes de recuperação da informação, podem estimular o processo de apropriação da informação e a produção do conhecimento, o que as tornam relevantes para o cumprimento da missão da biblioteca.
As bibliotecas, e consequentemente os bibliotecários, na condição de mediadores da informação, devem apoiar os usuários na geração e no desenvolvimento de competências e habilidades que possibilitem não apenas o acesso imediato, mas o uso consciente e proficiente da informação, fomentando o desenvolvimento do protagonismo cultural e social.
Quando a biblioteca universitária passa a atuar nessa perspectiva toma a apropriação da informação como paradigma, realizando a mediação em toda sua extensão, compreendendo-a como
[...] toda ação de interferência-realizada pelo profissional da informação- direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural, individual ou coletiva; que propicia a apropriação de informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma necessidade informacional. (ALMEIDA JUNIOR, 2008). Entre as atividades de mediação de uma biblioteca universitária estão aquelas voltadas a apoiar os usuários na realização de leituras mais proficientes. Como destaca Carvalho et al., 2006), “Aos bibliotecários cabe a importante função de mediadores no processo de interação da leitura e de letramento no sentido de ensinar e facilitar o manejo das fontes de informação indiferente do suporte.” Limitar suas ações a proporcionar o acesso e uso da informação torna insuficiente a contribuição da biblioteca ao desenvolvimento do protagonismo cultural e social. Para tanto, é fundamental que a biblioteca universitária coloque na centralidade de suas ações a formação de um usuário-leitor, capaz de acessar os recursos informacionais, de se apropriar dos conteúdos neles contidos, produzindo com autonomia e comportamento ético seus trabalhos acadêmicos.
A biblioteca universitária também precisa firmar seu compromisso com o apoio à produção escrita e com a leitura, auxiliando seus usuários no desenvolvimento de competências que favoreçam a apropriação da informação. Como destacam Paulo e Silva (2007),
A informação e a leitura andam juntas. Travam uma interdependência. Por isso, o profissional bibliotecário em seu papel de agente disseminador, social e educador deverá, sempre, compactuar com as práticas de leitura e, conseqüentemente, desempenhar bem seus diversos papéis na sociedade e no mercado de trabalho de forma satisfatória.
Ao apoiar a leitura, a biblioteca não apenas auxiliará seus usuários a ampliarem suas habilidades e competências no ato de ler enquanto técnica que possibilita a decodificação de uma informação registrada em determinado material, mas essencialmente enquanto processo de compreensão, apropriação e construção de conhecimentos. Enfim, a biblioteca atuará em favor da formação de “leitores do mundo”, “leitores de ações”, ou seja, de “sujeitos leitores” preparados para interpretar as atividades humanas, a produção intelectual e cultural, transformando-se em sujeitos ativos, enfim, em protagonistas sociais.
Essa atuação da biblioteca universitária, tendo em especial atenção os estudantes em nível de graduação, a coloca na importante função de mediadora do processo de afiliação acadêmica que, conforme Coulon (2008), consiste em uma etapa de grande complexidade, por meio da qual o estudante recém-ingresso na universidade pode ir se integrando e sendo incorporado à vida acadêmica.
Sob essa perspectiva, procurou-se nesta pesquisa verificar quais tipos de atividades vem sendo realizadas por essas bibliotecas para a formação do usuário e, em especial, para apoiar a leitura e produção escrita.
Como resultado, constatou-se que das 263 bibliotecas das IFES analisadas, 104 (39,5%) oferecem treinamentos aos usuários, sendo as bibliotecas das IFES das Regiões Sudeste (34,6%), Sul (30,8%) e Nordeste (23,1%) as que mais desenvolvem essa atividade, conforme demonstra a Tabela 1.
Tabela 1
Distribuição percentual das bibliotecas da IFES quanto à oferta de atividades de apoio a leitura e produção escrita
Somente uma pequena parcela delas (4 – 1,5%) realizam atividades de apoio à leitura, enquanto nenhuma das bibliotecas das IFES atua no apoio à produção escrita. Já entre as bibliotecas das IES estaduais, um número bem maior delas (202 - 69,7%) oferece treinamentos aos seus usuários. Do mesmo modo, um percentual maior de bibliotecas (37 -12,8%) realiza algum tipo de atividades de apoio às práticas de leitura, como demonstra a Tabela 2.
Tabela 2
Distribuição percentual das bibliotecas da IES quanto à oferta de atividades de apoio a leitura e produção escrita
Por outro lado, embora apenas 11 (3,8%) delas desenvolvam algum tipo de ação de apoio à produção escrita de seus usuários, essas ações realizadas representam iniciativas exclusivas das bibliotecas universitárias vinculadas às universidades públicas estaduais, já que entre as bibliotecas das IFES não se identificou a oferta de atividades dessa natureza, o que se pode constatar comparando os dados apresentados nas Tabelas 1 e 2.
Depois de verificar a distribuição percentual da oferta de atividades de apoio à leitura e produção escrita, buscou-se também identificar quais os tipos de atividades vem sendo realizadas por essas bibliotecas que auxiliem na formação dos usuários, ampliando suas competências para o uso e apropriação da informação. Como resultado verificou-se 7 atividades (4 voltadas à leitura e 3 relacionadas à produção escrita), conforme demonstra o Quadro 1.
Quadro 1
Atividades de mediação em apoio às práticas de leitura e produção escrita Atividades de mediação em apoio às práticas
de leitura
Atividades de mediação em apoio às práticas de produção escrita
Oficinas de leitura Semana da escrita científica Realização de levantamentos bibliográficos
(indicação de leituras)
Treinamento para elaboração de trabalhos acadêmicos
Treinamento para uso de base de dados (acesso às indicações de leitura)
Workshops de capacitação de pesquisadores para publicação científica
Disseminação seletiva da informação (indicações de leituras)
As atividades identificadas guardam relação com as práticas de leitura e escrita, podendo vir a ser mais bem exploradas para intensificar a mediação da informação pelas bibliotecas. Além disso, percebe-se uma tendência por parte das bibliotecas por realizá- las, já que esta é um dispositivo de cultura estreitamente ligado à formação e desenvolvimento de coleções de textos para a promoção da leitura, em especial em instituições de educação formal, que têm associam a leitura ao processo de ensino- aprendizagem. Conforme Campos (2008), “[...] aprendizagem da leitura é basilar para a aprendizagem de todas as disciplinas do currículo [...]”
A ação mediadora voltada a apoiar as práticas de leitura e produção escrita deve ter como objetivo a preparação dos usuários para localizar, selecionar e recuperar fontes para leitura. No entanto, o trabalho informacional tem como meta final favorecer o processo de apropriação da informação, o que torna relevante a busca, por parte das bibliotecas, da ampliação do espaço de “voz” de seus usuários, em quaisquer das atividades que desenvolve, incluindo-se naquelas voltadas ao apoio ao debate em torno das leituras realizadas, assim como de redes de cooperação que promovam melhores condições para a produção escrita.
Tomando-se como referência Vygotsky e Luria (1996), esse espaço de “voz” assegurará o fortalecimento da interação entre os usuários, deles com as fontes lidas, deles com a biblioteca, enfim garantirá uma interação que enriquecerá as competências de produção acadêmica, na qual a leitura e produção escrita individual se fortalecerão, fomentando também a escrita colaborativa e a leitura agregada ao debate.
A abertura das possibilidades de interação, de comunicação e de participação dos sujeitos também deve ser prevista pelas bibliotecas quando realizam atividades de apoio à leitura e escrita, assim como treinamentos, já que essas atividades se inter- relacionam e se beneficiam da discussão, troca e interação entre os usuários.
Ao intensificar e melhor qualificar a promoção de atividades de mediação em apoio às práticas de leitura e produção escrita, a biblioteca tornar-se-á mais claramente compreendida como uma midiasfera, na perspectiva dos estudos de Debray (1995), atuando mais diretamente no processo de apropriação da informação e produção do conhecimento.
Alcançados esses resultados, e na perspectiva de se ampliar o escopo do estudo, redimensionou-se o delineamento da pesquisa para identificar na literatura outros resultados de pesquisas que permitissem a análise de todas as atividades de mediação realizadas pelas bibliotecas, buscando-se compreender seus atributos e estabelecer indicadores que norteiem o redimensionamento delas, com o objetivo de intensificá-las e torná-las mais efetivas no apoio ao desenvolvimento de competências dos usuários, o que direta ou indiretamente fortalecerá a formação do usuário leitor e produtor textual, enfim a formação de protagonistas da produção do conhecimento.
Na segunda etapa da pesquisa, partiu-se para a leitura de reconhecimento e seletiva de artigos publicados nos periódicos científicos da área, de trabalhos publicados em anais de eventos científicos, bibliotecas digitais de teses e dissertações e bases bibliográficas disponíveis na web. Inicialmente foram identificados: 54 artigos de periódicos, 64 trabalhos publicados em anais de eventos científicos, 28 dissertações de mestrado e 12 teses de doutorado, perfazendo um total de 158 textos, conforme demonstra o Quadro 2.
Quadro 2
Ao se analisar as atividades identificadas na primeira etapa da pesquisa em associação à análise dos conteúdos dos textos levantados até o momento tornou possível o estabelecimento de 7 grandes categorias de atributos das atividades de mediação da informação e mais de 25 subatributos, como se pode observar no Quadro 3.
Ressalta-se, que a categorização criada nesta fase do estudo não é estática, já que essas sete grandes categorias de atributos, assim como seus respectivos subatributos, se interligam e têm um caráter interveniente no desenvolvimento das atividades informacionais. Essa categorização inicial foi realizada para delinear uma representação, também inicial, e subsidiar o processo de análise, complementação e ampliação do elenco de atributos e subatributos, ainda em andamento.
A análise dos atributos permitiu o delineamento, também inicial, dos indicadores de qualidade que devem nortear as ações dos profissionais da informação, de maneira que estes possam planejar, executar e avaliar com maior consciência as atividades de mediação direta e indireta, tendo como foco central a efetividade da mediação da informação no desenvolvimento de leitores proficientes e protagonista da produção acadêmica e científica.
Com esse propósito, 10 indicadores já foram estabelecidos para possibilitar a avaliação da intensidade e qualidade da mediação da informação realizada pelas bibliotecas como:
a) avaliação permanente do usuário dos produtos/serviços da biblioteca; b) acesso e uso da informação indiscriminadamente;
c) grau de confiabilidade das fontes de informação; d) relações interpessoais pautadas na afetividade;
e) articulação das atividades da biblioteca com os laboratórios acadêmicos e as salas de aulas;
f) bom dimensionamento espacial da biblioteca (localização, setorização: contiguidade entre os setores e espaços, conforto ambiental e segurança);
h) uso intenso dos recursos das TIC para promover a interlocução com os usuários e para o acesso e uso da informação;
i) diversidade de atividades, produtos e serviços de referência; k) livre acesso ao acervo;
l) articulação entre as atividades dos diferentes setores da biblioteca, com plena integração entre os trabalhos das equipes gestora e executora.
Quadro 3
Atributos e subatributos de atividades de mediação da informação
Atributos de Atividades de Mediação S ubatributos
Promove o acesso e a disseminação da informação
Disponibiliza conteúdos informacionais em ambiente digital;
Adota mecanismos de facilitação do acesso à informação em qualquer tipo de suporte; Adota os recursos das tecnologias da informação e comunicação;
Assegura e realiza a recuperação da Informação.
Desenvolve competências em informação Atua no desenvolvimento da autonomia dos usuários no acesso, uso e apropriação da informação; Atua no desenvolvimento de competências e habilidades na busca e seleção das informações.
Organiza e representa a informação viabilizando seu acesso e uso Descreve, Classifica, Resume e Indexa as informações contidas em itens informacionais Adota e desenvolve linguagens documentárias;
Efetiva a recuperação da informação. Realiza estudos de usuários, de suas necessidades e comportamentos de uso da
informação
Identifica e analisa o perfil e especificidades dos usuários;
Subsidia o atendimento das necessidades informacionais dos usuários;
Analisa a comunidade de pertencimento do usuário para contextualizar o estudo; Analisa a satisfação dos usuários em relação aos produtos e serviços da biblioteca. Realiza serviços de referência Assegura o acesso e uso de fontes de informações pertinentes e de confiabilidade;
Orienta a busca, acesso, seleção e recuperação da informação pelos usuários; Atua na formação de usuários.
Apoia e incentiva práticas de leitura e produção escrita Atua no desenvolvimento de competências para leitura e produção escrita; Atua no incentivo à leitura e na ampliação do espaço de interlocução e debate;
Produz e promove saraus, feiras, fóruns, entre outros, com enfoques culturais e científicos; Produz e promove atividades e oficinas de leitura e produção escrita;
Realiza e promove ações culturais. Explora os domínios das tecnologias da informação e da comunicação para
potencializar o acesso, uso e apropriação da informação
Disponibiliza conteúdos informacionais em ambiente digital;
Disponibiliza informações digitais e eletrônicas, explorando os ambientes virtuais; Utiliza os dispositivos de comunicação da web social para interação com os usuários; Produz e promove o uso de repositórios eletrônicos;
biblioteca universitária precisa criar, definir e reestruturar permanentemente suas atividades, mas para tanto, tornar-se necessário o estabelecimento de indicadores que mostrem caminhos que promovam a sua execução com um elevado grau de efetividade.
A definição de atributos das atividades de mediação e o estabelecimento de seus indicadores de qualidade constituem o foco mais central desta pesquisa, já que estes representam elementos relevantes para que, como enfatizam Gomes e Santos (2009), a biblioteca universitária desenvolva, no espectro da sua missão, ações contributivas ao crescimento intelectual e à formação de profissionais e pesquisadores de excelência.
A imagem da biblioteca universitária poderá ganhar novo significado entre seus usuários e na sociedade em geral, caracterizando-se como um ambiente que se preocupa e se responsabiliza pelo atendimento das necessidades informacionais, mas também pela geração do conhecimento e produção científica, firmando-se como um dispositivo cultural que, ao mesmo tempo, preserva, organiza, disponibiliza materiais, produtos e serviços para o acesso e uso das informações de caráter científico, mas também acolhe, orienta e contribui para a formação e afiliação acadêmica de seus usuários.