5. Dados e métodos
5.3 Apresentação temporal e espacial dos dados
O mapeamento das ocorrências, feito com o intuito de entender onde os problemas associados às chuvas extremas se deram com mais frequência e quais foram os estratos sociais mais afetados, foi feito de acordo com o Atlas da Vulnerabilidade Social feito pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
Nesta etapa, foram desconsiderados os municípios de Engenheiro Coelho, Santo Antonio de Posse e Holambra. Os dois primeiros, devido a razões já explicadas. No caso de Holambra, apesar de algumas fontes de dados terem sido consultadas, as informações organizadas e estas constarem em algumas tabelas ao longo da pesquisa, o município não fez parte dos mapeamentos uma vez que não consta na base do Atlas do IPEA. Tal fato é explicado pela ausência de setores censitários nos censos de 1991 e 2000, não só para Holambra, mas para os outros dois municípios mencionados.
Cabe ressaltar que qualquer que seja a metodologia adotada, a análise ficará incompleta e não expressará a totalidade e complexidade que envolvem a questão da vulnerabilidade. Entretanto, por mais que o uso de um índice ofereça limitações à pesquisa, justamente por não representar fielmente a realidade, estes trazem informações que podem caracterizar determinadas áreas e comunidades, mostrando, por exemplo, desigualdades sociais dentro de uma região ou de um município.
Dessa maneira, optou-se por fazer uso do Atlas como base para a espacialização das ocorrências em virtude de dois aspectos: o primeiro diz respeito às ocorrências terem sido reportadas, em sua maioria, tanto pelos jornais quanto pela Defesa Civil de Campinas (a única que disponibilizou dados), de acordo com os bairros em que aconteceram. Como os setores censitários do IBGE são unidades espaciais diminutas, que compreendem uma área de cerca de apenas 300 domicílios (IBGE, 2000) e não são compatíveis com as delimitações dos bairros, a espacialização das ocorrências de acordo com essa unidade espacial traria alguma dificuldade; o segundo aspecto diz respeito à facilidade de acesso às informações do Atlas, que além de ter seus dados disponíveis na internet de maneira bastante didática apresenta divisões dos municípios em unidades maiores, o que facilitou a espacialização das ocorrências, como será visto a seguir. Acima de tudo, ele permite resultados mais precisos e, assim, mais robustos.
O Atlas da Vulnerabilidade Social é uma plataforma de consulta ao Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), composto por 16 indicadores e calculado a partir da média aritmética de três subíndices. Segundo o Atlas, “Essas dimensões correspondem a conjuntos
de ativos, recursos ou estruturas, cujo acesso, ausência ou insuficiência indicam que o padrão de vida das famílias encontra-se baixo, sugerindo, no limite, o não acesso e a não observância dos direitos sociais.” (IPEA, 2015).
Os índices são detalhados a seguir:
- IVS Infraestrutura Urbana, que aborda as condições de acesso ao saneamento básico e mobilidade urbana, fatores que impactam de maneira significativa o bem estar da população.
- IVS Capital Humano, que envolve as questões de saúde e educação, aspectos que determinam de maneira direta as perspectivas atuais e futuras de inclusão social.
- IVS Renda e Trabalho, que agrupa indicadores de renda e outros que possam configurar uma situação de insegurança de renda.
Quadro 2: Subíndices, indicadores e pesos que formam o IVS
Subíndice Indicador Peso
IVS
Infraestrutura Urbana
a) Percentual de pessoas em domicílios com abastecimento de água e esgotamento sanitário
inadequados 0,300
b) Percentual da população que vive em domicílios
urbanos sem serviço de coleta de lixo 0,400
c) Percentual de pessoas que vivem em domicílios com renda per capita inferior a meio salário mínimo e que gastam mais de uma hora até o trabalho no total de pessoas ocupadas, vulneráveis
e que retornam diariamente do trabalho 0,400
IVS Capital Humano
a) Mortalidade até 1 ano de idade 0,125
b) Percentual de crianças de 0 a 5 anos que não
frequentam a escola 0,125
c) Percentual de pessoas de 6 a 14 anos que não
frequentam a escola 0,125
d) Percentual de mulheres de 10 a 17 anos de idade
que tiveram filhos 0,125
e) Percentual de mães chefes de família, sem fundamental completo e com pelos menos um filho menor de 15 anos de idade, no total de mães chefes
de família 0,125
f) Taxa de analfabetismo da população de 15 anos
ou mais de idade 0,125
g) Percentual de crianças que vivem em domicílios em que nenhum dos moradores tem o ensino
fundamental completo 0,125
h) Percentual de pessoas de 15 a 24 anos que não estudam, não trabalham e possuem renda domiciliar per capita igual ou inferior a meio salário mínimo, na população total dessa faixa
etária 0,125
IVS Renda e Trabalho
a) Proporção de pessoas com renda familiar per
capita igual ou inferior a meio salário mínimo 0,200
b) Taxa de desocupação da população de 18 anos
ou mais de idade 0,200
c) Percentual de pessoas de 18 anos ou mais sem
fundamental completo e em ocupação informal 0,200
d) Percentual de pessoas em domicílios com renda
per capita inferior a meio salário mínimo e
dependentes de idosos 0,200
e) Taxa de atividade das pessoas de 10 a 14 anos de
idade 0,200
Todos os indicadores foram calculados a partir dos Censos Demográficos de 2000 e 2010 do IBGE e normalizados numa escala de 0 a 1, onde o zero corresponde à situação ideal (menor vulnerabilidade) e o 1, à pior situação (maior vulnerabilidade), dando origem ao IVS, conforme mostra a Figura 5:
Figura 5: Valores e classificação de vulnerabilidade de acordo com o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS). Fonte: Atlas da Vulnerabilidade Social
(http://ivs.ipea.gov.br/ivs/)
Nota-se que as áreas com valor de IVS entre 0 e 0,200 são classificadas como áreas de muito baixa vulnerabilidade; entre 0,201 e 0,300, de baixa vulnerabilidade; de 0,301 a 0,400, média vulnerabilidade; entre 0,401 e 0,500, alta vulnerabilidade e finalmente de 0,501 a 1, muito alta vulnerabilidade.
O IPEA calculou o IVS para 5.565 municípios e 20 Regiões Metropolitanas, incluindo a Região Metropolitana de Campinas. Com o intuito de conhecer aspectos da realidade socioeconômica de cada região no nível intramunicipal, também foi calculado o IVS para porções menores do território, denominadas UDHs (Unidades de Desenvolvimento Humano), referentes a “agrupamentos de setores censitários com feições urbanísticas, sociais e econômicas homogêneas.” (IPEA, 2015).
Tendo em vista que a presente pesquisa tem como intuito entender onde e em quais estratos sociais as ocorrências relacionadas às chuvas extremas se deram com maior frequência, a utilização do IVS por UDHs pareceu bastante adequada.
A maior dificuldade encontrada nessa etapa da pesquisa foi a falta de compatibilidade entre as ocorrências levantadas em jornais e Defesas Civis (reportadas por bairros) e a delimitação das UDHs, que seguem os limites dos setores censitários. Assim, utilizou-se o programa Google Earth para a compatibilização dos dados. Isso foi possível porque os mapas das UDHs disponíveis no site do Atlas da Vulnerabilidade Social trazem, ao fundo, como marca d´água, a mesma base disponível no Google Earth, com as vias, mancha urbana e nome de bairros para cada município. Desta forma, se, por exemplo, ocorrências foram registradas no Jardim Chapadão em Campinas, o nome do bairro foi colocado no Google Earth e comparado ao mapa disponível no site do Atlas. A partir daí, foi possível
identificar em qual UDH estava localizado o referido bairro. Embora não existam limites oficiais dos bairros nos municípios estudados, essa foi a maneira encontrada para a delimitação das ocorrências, ainda que, em algumas situações, a metodologia utilizada tenha acarretado em sub ou superestimar a quantidade de casos por UDHs.
Apesar de o levantamento de dados para toda a RMC ter se dado desde 1970, os mapeamentos, feitos no ArcMap (versão 10.1), foram realizados apenas para as décadas de 1990 e 2000. Os dados referentes à década de 1990 foram analisados de acordo com o IVS do ano 2000 e os dados da década de 2000, de acordo com o IVS de 2010. A razão da escolha do período se deu pelo fato dos censos de 2000 e 2010 apresentarem maior detalhamento e confiabilidade em relação aos censos anteriores, além dos valores do IVS serem disponibilizados exatamente para esses intervalos de tempo.
Algumas UDHs do censo do ano 2000 não puderam ter seus IVSs estabelecidos, uma vez que não possuíam dados amostrais suficientes, já que não foram alcançados os 400 domicílios amostrais que o IBGE determina para construir uma área de ponderação (IPEA, 2015).
Apenas alguns tipos de impactos foram mapeados, sendo eles: desabrigados, imóveis invadidos pela água, vias invadidas pela água, feridos, mortos e total de ocorrências. A escolha se deu em virtude de os três primeiros terem sido os mais frequentes nas décadas analisadas para todos os municípios (vide Tabela 6) e os feridos e mortos serem referentes aos casos de maior gravidade quando da ocorrência de um evento extremo.
Três tipos de mapas foram confeccionados a partir dos dados levantados.
No primeiro, constam os valores absolutos das ocorrências registradas para cada UDH, para os tipos e impactos mencionados e nas duas décadas já citadas.
No segundo, é possível perceber quais UDHs mostraram aumento ou diminuição nas ocorrências entre 1990 e 2000. Para tanto, foi utilizado o Índice de Mudança, proposto por Berry (1993), conforme fórmula a seguir, onde, como período antigo, utilizou-se a década de 1990 e, como período novo, a década de 2000:
IM = [(VPA – VPN)/ VPA] x 100 IM = Índice de Mudança
VPA = Valor do período antigo VPN = Valor do período novo
O terceiro tipo de mapeamento aborda a junção de dados qualitativos e quantitativos, mostrando a relação entre os dois períodos. Por dados quantitativos, entende-se a quantidade de ocorrências em números absolutos, para cada município, em cada uma das décadas. Os dados qualitativos foram baseados nas cinco faixas de vulnerabilidade do Atlas da Vulnerabilidade Social do IPEA. As representações de melhora ou piora qualitativa e quantitativa de um decênio para o outro foram feitas de acordo com cores, mostradas no Quadro 3:
Quadro 3: Classificação qualitativa e quantitativa dos municípios
Cor Quantidade Qualidade
Melhora Melhora
Piora Melhora
Piora Piora
Igual Melhora
Melhora Piora
Elaboração: Marina Sória Castellano
Desta forma, um município que teve melhora quantitativa foi aquele que apresentou diminuição nas ocorrências de 1990 para 2000; da mesma forma, o que teve piora, registrou aumento no número de casos.
Em relação à análise qualitativa, o município que apresentou melhora foi aquele onde, na década mais recente, as ocorrências se deram, em sua maioria, em áreas de menor vulnerabilidade em comparação com a década mais antiga. Analogamente, as áreas com piora foram aquelas em que grande parte dos eventos se deu em porções mais vulneráveis no decênio de 2000. A ideia de utilizar os termos “melhora” e “piora” se deu tendo em vista que, de maneira geral, os estratos sociais menos favorecidos são mais vulneráveis e menos resilientes, havendo, portanto, maior dificuldade de se reestabelecerem diante de eventos adversos.
No caso da análise de algumas UDHs que se destacaram, foram citadas as densidades demográficas de tais áreas, averiguadas pela elaboração de mapas não apresentados no presente documento e com base nos dados de população e área das UDHs, divulgados no Atlas da Vulnerabilidade Social.