5. Dados e métodos
5.2 Levantamento e tratamento dos impactos
É importante frisar que os dias em que ocorreram eventos excepcionais foram pesquisados em todos os municípios. Desta forma, se houve uma chuva extrema no dia 2 de fevereiro de 2000 apenas no posto de Americana, por exemplo, essa data foi pesquisada em fontes de todos os municípios da RMC, criando-se datas fixas para todos eles.
De posse dos dias em que ocorreram os eventos extremos de chuva, foi feito o levantamento dos impactos com o intuito de procurar o maior número de fontes confiáveis, a fim de se obter informações da maneira mais fidedigna possível. Desta forma, para cada município, a consulta foi feita nos seguintes órgãos: Arquivos Públicos Municipais, Bibliotecas Municipais, Defesas Civis, Corpo de Bombeiros, Guardas Municipais, Museus, jornais impressos e online e Secretarias de Meio Ambiente, Obras e Planejamento. É importante ressaltar que nem todos os municípios possuem os órgãos citados, como é o caso de Artur Nogueira, por exemplo, que não conta com os serviços do Corpo de Bombeiros municipal. Todas as fontes, assim como o período consultado, estão nos Anexos II a XVIII.
Os municípios de Engenheiro Coelho e Santo Antonio de Posse não foram considerados, uma vez que não houve fonte de dados a ser consultada, pois nenhum órgão público arquiva informações referentes às chuvas extremas, o jornal Correio Popular, de maior cobertura regional, não abrange os dois municípios e o único periódico local, o jornal “O Regional”, não autorizou a pesquisa.
Por mais que o uso de informações provenientes da imprensa para o levantamento de dados relacionados aos impactos relativos às chuvas seja frequente (CAMBRA e NETTO, 1997; BRANDÃO, 2001; DANNI-OLIVEIRA et al., 2004; IDE, 2005; CANDIDO, 2007; MAIA, 2007; KLANOVICZ, 2010; ZEZERE et al., 2014), ele apresenta vantagens e desvantagens, explicitadas a seguir.
Por um lado, houve limitações em alguns periódicos, principalmente nas décadas de 1970 e 1980, quando as notícias de chuva não ganhavam destaque nos meses de fevereiro (com a cobertura do carnaval) e outubro (com as eleições), por exemplo. Além disso, como na época as informações demoravam mais a chegar às redações dos jornais, tendo em vista a inexistência da internet e de meios de comunicação mais rápidos e em tempo real, muitas vezes, no caso de ocorrências mais “brandas” (como a queda de uma árvore ou uma via que tivesse sido interditada pela invasão da água), os jornalistas demoravam a saber do fato e, no momento da averiguação, a situação já estava normalizada (no exemplo citado acima, a árvore já teria sido retirada e a via liberada para o trânsito). Desta forma, a ausência de evidências (no caso, uma foto que pudesse chamar a atenção do leitor) que comprovassem o impacto poderia ser decisiva para a não divulgação do fato em reportagens, tendo em vista que o uso de imagens catastróficas é ferramenta utilizada pela mídia como chamariz às notícias. Outro fator limitante está no fato dos jornais serem empresas privadas e, portanto, reportarem acontecimentos de acordo com interesses de determinados grupos particulares, o que poderia
gerar dados tendenciosos ou simplesmente não haver a divulgação de determinadas ocorrências.
Contudo, a pesquisa em jornais tem como ponto a favor o fato de ser fonte histórica única de acontecimentos que, em algumas situações, só ficaram registrados na imprensa. No caso dos municípios pesquisados, os jornais foram fonte exclusiva em todos eles, com exceção de Campinas, onde a Defesa Civil disponibilizou dados a partir de 1991. Assim, o presente estudo não poderia ter sido realizado sem a consulta aos jornais impressos, já que instituições públicas (especificamente nesse estudo, municipais), normalmente não tem dados históricos temáticos para consulta. Ressalta-se, portanto, a importância da pesquisa, no sentido de auxiliar o poder público no que diz respeito ao levantamento e organização de tais informações, com o intuito de contribuir com a manutenção das histórias dos municípios, além de poderem ser respaldo para possíveis ações de planejamento.
O levantamento dos dados se deu com algumas especificidades. No caso de jornais consultados online, a pesquisa abrangeu o dia anterior, o dia da chuva registrada e o dia seguinte, já que o valor identificado nos postos refere-se a precipitações ocorridas entre as 7h00 do dia anterior às 7h00 do dia registrado, podendo haver a possibilidade de o evento ter ocorrido no dia anterior ao identificado no posto. Como ainformação é colocada praticamente em tempo real na rede, sendo divulgada poucos momentos depois da ocorrência do evento, haveria a necessidade de se pesquisar também o dia anterior ao evento. Nos casos dos jornais impressos, a maioria da fonte de consulta, foram pesquisados os dias identificados como extremos nos postos pluviométricos, assim como o dia seguinte. Deste modo, se a observação mostrou que houve um evento extremo no dia 10 de janeiro de um determinado ano, por exemplo, pesquisaram-se os dias 10 e 11.
As informações levantadas foram organizadas por décadas e para cada município, no programa Excel (versão 2010), de maneira a identificar quais foram os problemas mais recorrentes em cada um deles, ao longo do tempo.
Na presente pesquisa, os termos “casos” e “ocorrências” foram utilizados como sinônimos.
É importante ressaltar que em algumas figuras onde informações para todos os municípios são apresentadas em separado, não foi possível manter as mesmas escalas, uma vez que os dados são muito discrepantes entre as cidades. Um exemplo são os casos de desabrigados, onde Campinas se destaca perante os demais, já que apresentou perto de 3.500 casos na década de 1990, enquanto foram apenas 62 para Itatiba. Portanto, padronizar as escalas traria dificuldades para a visualização e o entendimento dos dados.