6. A PERTURBADORA SEMELHANÇA ENTRE HUMANOS E MÁQUINAS
6.1 APRESENTANDO OS FILMES ANALISADOS
6.1.7 Apresentando o Filme Minority Report – A Nova Lei (2002)
Ficha Técnica
Título Original: Minority Report Gênero: Ficção Científica Tempo de Duração: 146 minutos Ano de Lançamento: 2002
Site Oficial: www.minorityreport.com
Estúdio: 20th Century Fox / Amblin Entertainment / DreamWorks SKG / Cruise-Wagner Direção: Steven Spielberg
Sinopse
Não há crimes em Washington D. C. há seis anos, graças à uma impressionante tecnologia que identifica os assassinos antes que eles possam cometer seus crimes. Mas quando o próprio chefe da Divisão de Pré-Crime (Cruise) é acusado de um futuro assassinato, ele tem apenas 36 horas para descobrir quem está querendo destruí-lo ou tornar-se-á uma vìtima do sistema “perfeito”, que ele ajudou a criar. Um thriller de ação tão eletrizante, que “nos faz lembrar do porquê vamos ao cinema” (Roger Ebert, Chicago Sun-Times).
Recontando a história do filme
O filme inicia com imagens de dois assassinatos. O primeiro é o de um casal, durante o ato sexual, e o segundo o de uma mulher de meia idade que é afogada em um lago. Na primeira cena, as imagens apresentadas são a previsão de um crime, que acontecerá em poucos minutos; já na segunda, as imagens reapresentam um caso já solucionado. Portanto, o trabalho da polícia será prender o futuro assassino do casal que aparece nas primeiras imagens. Esse é o caso 1108 de assassinato futuro. Como é explicado no filme, essas imagens são captadas e gravadas valendo-se de um sistema informatizado, ligado a três seres mutantes que têm a capacidade de prever crimes de assassinato - os pré-cogs-, que são mantidos completamente isolados do mundo, passando seus dias mergulhados em um líquido (chamado de leite fotônico), que facilita a captação das imagens dos crimes. O local em que vivem é chamado de Templo e os três mutantes são Agatha158, Arthur e Dashiell. Ao longo do filme, tais seres são frequentemente referidos como seres supremos ou deuses e não como seres humanos, o que leva muitos policiais a entenderem seu trabalho como a ação de sacerdotes, que protegem as pessoas que poderiam vir a ser vítimas de crimes brutais, e que podem,
158 A atriz Samantha Morton.
também, alterar o “destino” ou o curso dos acontecimentos. Tais serem precisam ter suas funções vitais constantemente monitoradas (incluindo os seus níveis de dopamina e serotonina) e passam suas vidas fazendo a previsão imagética de assassinatos que poderão ocorrer. Como o filme narra, com freqüência, eles vêem tais imagens várias vezes e só descansam quando o sistema de recepção de imagens é desligado.
As imagens captadas por esses pré-cogs constituem-se no material que a polícia da cidade de Washington, D. C. se vale, desde 2048, para evitar que ocorram assassinatos, passando-se o filme no ano de 2054. Como é destacado no filme, essa forma de prevenção de assassinatos, em funcionamento há seis anos, reduzira tais crimes a zero, fazendo com que a população da cidade passasse a ter grande confiança no sistema de previsão referido. O sistema funcionaria do seguinte modo: após a captação e gravação das imagens, o sistema infomatizado interpretaria alguns dados produzindo-se, com base neles, duas esferas nas quais são esculpidos nomes, sendo um deles o nome do assassino e o outro o da futura vítima. Além disso, a polícia passaria a ter acesso à data e ao horário previsto para o crime bem como à informação de ser esse premeditado ou não.
Com as imagens e as informações obtidas, os policiais submetem imediatamente o futuro criminoso a um estranho julgamento no qual ele nem sequer sabe do que está sendo acusado e, por conseqüência, não tem direito à defesa. Assim que o julgamento é concluído, os policiais efetuam a prisão do provável futuro assassino. Cabe destacar que o sistema assume o pressuposto de ser o futuro pré-determinado e que, portanto, os crimes com certeza aconteceriam independentemente de qualquer outra ação que pudesse evitá-los.
Os policiais devem, então, prender o provável assassino. O caso 1108, apresentado nas cenas iniciais, envolve, por exemplo, um crime passional, sem premeditação. O homem preso é o personagem Howard Marks159, condenado pelo assassinato de sua esposa e o do seu amante, a quem flagrou em sua própria cama. Ao ser levado para a prisão, o personagem se declara inocente, por não ter cometido crime algum, mas há na prisão 1107 apenados, na mesma condição que ele.
As operações de prisão são comandadas pelo personagem policial John Anderton160, que é o chefe da referida Divisão Pré-Cime. Esse personagem, tal como os dos filmes O Quinto Elemento (1997) e Eu, robô (2004), também é um homem solitário, usuário de drogas, que se separara da esposa, a personagem Lara161, após o rapto e morte do filho do casal, o pequeno
159 O ator Arye Gron.
160 O ator Tom Cruise.
161 A atriz Kathryn Morris.
Sean162. Ele vive em um apartamento confortável, embora esse esteja sempre sujo e desorganizado, no qual passa o tempo recordando os bons momentos vividos com Sean e Lara, a partir de gravações de imagens holográficas dos dois.
Como o filme narra, no mesmo dia da prisão do personagem Howard Marks, é enviado pelo Senado Federal norte-americano, à cidade de Chicago, um personagem investigador federal, chamado Danny Witwer163, que deve procurar eventuais falhas do sistema de previsão de crimes, em função de um movimento para a expansão desse sistema para todo o país. No entanto, os senadores temem não ser correto prender pessoas que não cometeram crime algum, sendo esse o motivo da investigação, que busca apurar a possibilidade de que estejam sendo efetuadas prisões indevidas. Em algumas cenas, o personagem Anderton mostra-se apreensivo com a investigação, por ter sido advertido pelo personagem Lamar Burgess164, que é o principal responsável pela criação do sistema, de que essa investigação pode ser uma tentativa de retirar da polícia o comando do Pré-Crime.
Ao mesmo tempo, imagens mostradas pela pré-cog Agatha para o policial Anderton o levam a descobrir falhas no arquivamento das imagens das previsões de crimes. O personagem policial descobre, por exemplo, que entre os registros das previsões feitas a respeito do assassinato futuro da personagem Anne Lively, não consta a previsão da pré-cog Agatha. Além das previsões dos outros pré-cogs, constam dos arquivos informações acerca da impossibilidade de identificação do homem condenado, porque ele fez uma cirurgia justamente nos olhos, órgão em que está localizada a íris, estrutura responsável pela identificação dos sujeitos neste filme. Consta também, no arquivo, a informação de que a vítima (Anne Lively) é uma mulher viciada em drogas, com muitas passagens em conhecida clínica de recuperação e que se encontra desaparecida.
O personagem policial teme que essas falhas nos registros cheguem ao conhecimento do investigador Witwer e leva o caso da falha no arquivamento das antevisões ao conhecimento do criador do sistema (Lamar Burgess165) para que possam corrigir o problema antes que esse seja divulgado.
Em cenas seguintes, o personagem policial Anderton acompanha mais uma previsão de assassinato no distrito policial. Desta vez, a vítima é um sujeito chamado Leo Crow166 e o assassino é o próprio personagem John Anderton. O sistema informa que este será o caso
162 Cujas imagens correspondem a atuações dos atores Dominic Scott Kay e Tyler Patrick Jones.
163 O ator Colin Farrel.
164 O ator Max Von Sydow.
165 O ator Max Von Sydow.
166 O ator Mike Binder.
1109, um crime premeditado que ocorrerá dentro de alguns dias. O interessante é que o personagem policial não conhece o homem que iria assassinar, o que o leva a desconfiar que a previsão resulte de alguma conspiração promovida pelo personagem Witwer para afastá-lo da chefia do Projeto Pré-Crime. A narrativa transcorre com a fuga do personagem Anderton dos policiais, que agora são comandados pelo personagem Witwer. Enquanto isso, seu chefe (Lamar Burgess) oferece-lhe proteção até que tudo seja esclarecido. As cenas que mostram a perseguição ressaltam as muitas tecnologias das quais se valem tanto o fugitivo, quanto os policias e que incluem desde a identificação da íris dos transeuntes, feita a partir de cartazes publicitários que enviam mensagens aos policiais, até os sistemas de leitura de íris instalados nos locais públicos, para controlar o fluxo de pessoas. Além disso, a população também é informada sobre a existência de um novo fugitivo através dos jornais que, mesmo sendo focalizados na cena nas mãos dos leitores, funcionam como se fossem páginas da Internet.
Durante a perseguição, no entanto, o personagem policial consegue despistar várias vezes os seus perseguidores, indo à procura da personagem cientista, Hineman167, uma das criadoras do sistema Pré-Crime, para inteirar-se das possibilidades de as previsões serem fraudadas. Ele é informado por ela da impossibilidade de fraude do projeto Pré-Crime por ser ele resultado de uma série de erros na pesquisa genética que ela, e outros pesquisadores, desenvolviam para salvar crianças filhas de drogados, que nasciam com a capacidade de prever assassinatos. Tais crianças viviam muito angustiadas e usualmente morriam antes dos doze anos de idade. Três dessas crianças sobreviveram confinadas – os três pré-cogs -, passando a ser utilizadas no sistema Pré-Crime. Mas a cientista também lhe informa que a única chance de Anderton provar sua inocência é encontrar uma previsão divergente para colocar em dúvida a validade da acusação. Ciente dessa possibilidade, o personagem policial considera que uma previsão divergente poderia ser a que lhe fora referida por Agatha. Como lhe informou a cientista, esse seria um arquivo dissonante, um “Minority Report”, expressão que dá nome ao filme. Ainda surpreso com essa possibilidade de divergência, o personagem Anderton dá-se conta que poderiam ser colocadas sob suspeita todas as condenações já ocorridas no Projeto Pré-crime.
Além disso, tal possibilidade colocaria em dúvida o pressuposto de que o futuro pudesse ser pré-determinado. De qualquer forma, o personagem se agarra a essa possibilidade, que parece ser a única de livrá-lo da intenção de matar um homem que nem sequer conhecia. As cenas seguintes mostram as tentativas do personagem ir clandestinamente ao Templo para acessar informações que estão na mente da pré-cog Agatha. A primeira providência consiste em se submeter a uma cirurgia, na qual troca seus olhos pelos olhos de um outro homem, o Sr
167 A atriz Lois Smith.
Yakamoto. O local onde a cirurgia é feita é afastado das áreas mais nobres da cidade, lá vivendo a população mais pobre carecendo, portanto, de cartazes publicitários, o que também determina uma redução nas possibilidades de vigilância sobre a população. Em outra cena, o personagem Witwer analisa as imagens da antevisão do assassinato de Leo Crow e descobre que a mulher que estará presente na cena do crime é a pré-cog Agatha. Isso o faz deduzir que Anderton buscará acessar a mente da pré-cog, na tentativa de buscar provar algo a seu favor, sendo isso, exatamente, o que Anderton faz - ele consegue entrar no Templo e fugir com Agatha levando-a para uma loja de experiências virtuais que pertence a um conhecido pirata informático, Rufus T. Riley (o ator Jason Antoon). Neste local, o personagem Anderton o força a usar seus equipamentos para escanear a mente de Agatha, mas ele constata a inexistência de um relatório minoritário, pois a previsão da pré-cog coincide exatamente com a previsão dos outros dois mutantes. Mas Agatha torna a mostrar a Anderton cenas do assassinato de Anne Lively, tentando auxiliar o policial a não cometer o crime, pois ela crê que o futuro não é pré-determinado e que, portanto, Anderton tem escolhas a fazer. Nas cenas seguintes, o policial leva Agatha ao local previsto para o crime, pois ele quer saber quem é Leo Crow. Lá ele encontra inúmeras fotografias de crianças desaparecidas, estando entre essas a de seu filho Sean. Leo Crow aparece e confessa ter raptado e assassinado o menino e Anderton compreende, então, que irá de fato matar aquele homem. Porém, na hora exata prevista para o crime, ele não aciona sua arma e dá voz de prisão ao homem. Crow, um ex-presidiário, fica desesperado e diz que Anderton deveria tê-lo matado, isso porque ele estava se passando por assassino de Sean para ser morto em troca de uma indenização a ser recebida por sua família. Sem saber o que fazer, o homem usa a arma do policial e se mata. Anderton foge com Agatha para a casa de campo de sua ex-esposa Lara, prevendo que será condenado pelo crime. Lá ele conta detalhes do caso de Anne Lively, que era a mãe da pré-cog, para Lara.
Ao saber da prisão de Anderton, Lamar marca um encontro com Witwer no apartamento do policial recém preso. Lá Lamar mata Witwer com a arma que pertencia a Anderton. O motivo para o assassinato é que Witwer, em suas investigações, descobrira que a previsão de Agatha acerca das circunstâncias da morte de Anne Lively não fazia parte dos arquivos policiais. Essa previsão tem uma importante diferença em relação às previsões feitas pelos outros dois pré-cogs, pois são imagens do mesmo crime ocorrido em outro horário. A prova disso é que as ondas na água onde Anne Lively foi afogada movimentam-se no sentido contrário nas diferentes previsões. Ou seja, não se trata de imagens de uma previsão, mas sim
do verdadeiro assassinato de Anne Lively, realizado tal como ocorreu na previsão dos mutantes.
Os policiais prendem Anderton, que é acusado de também matar Witwer. Lara vai até a casa de Lamar para buscar objetos pessoais de Anderton e descobre que este sabia detalhes sobre o caso de Anne Lively. Ela resolve investigar o caso e ajudar Anderton, obrigando o homem responsável por vigiar os apenados, Gideon168, a libertá-lo. Juntos, eles conseguem as provas de que foi Lamar o assassino da mãe de Agatha. Ele usou a previsão feita pelas crianças mutantes como forma de orientação sobre como deveria executar o crime, realizando-o exatamente da forma como ele se apresentava nas imagens. Assim, todos pensariam que as imagens do assassinato da mesma mulher seriam apenas uma repetição do mesmo acontecimento. Descobre-se, então, que essa seria a única forma de burlar o sistema Pré-Crime e matar sem ser pego, ou seja, conhecer como um assassinato irá ocorrer e executá-lo exatamente da mesma forma. Matar Anne Lively era importante para evitar que ela lutasse para que sua filha não fosse mantida como uma pré-cog. Assim que é desmascarado por Anderton, seu chefe Lamar planeja matar o policial. Neste momento, os pré-cogs registram a previsão do assassinato no qual a vítima é John Anderton e o assassino Lamar Burgess.
Quando Lamar e Anderton se encontram, o policial lhe conta sobre a última previsão de assassinato. Lamar fica diante de um dilema, que é comentado pelo policial: se não ocorrer o assassinato fica provado que os pré-cogs erram e o sistema acaba, se o assassinato ocorrer o sistema permanece, mas ele, Lamar, será preso.
Diante do dilema, o personagem Lamar comete suicídio. Dessa forma, fica provado que o principal pressuposto do Pré-crime – o de que o futuro é pré-determinado – não está correto.
O sistema é abolido, os prisioneiros são libertados e os três mutantes passam a viver em um local afastado da cidade e dos aparatos tecnológicos. Anderton e Lara se reconciliam e esperam outro filho.
168 O ator Tim Blake Nelson.