2 JUNTANDO AS PEÇAS
FLORES VILA DO
5.1 Moradias Rurais da Lagoa Grande
5.1.3 Apropriação da Terra e Implantação da Moradia
Com relação ao modo como as famílias autopromovem a sua moradia, identificamos três tipos: aquisição de casa construída, moradia emprestada e construção da casa. A aquisição de casa construída ocorre em raros casos, sendo geralmente adotada por famílias que não possuem terreno nem recursos suficientes para empreenderem a compra da terra e a construção. O terreno das casas é bastante reduzido, e por conta
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disso esta modalidade é adotada ou por famílias cujas atividades econômicas não estão ligadas à terra, ou por aquelas na condição de meeiros80, ocorrendo, neste último caso, a
desagregação espacial entre casa e roçado, ainda que estes mantenham suas características fundamentais de consumo e produção, respectivamente. No entanto, por conta de uma tradição cultural de utilizar os recursos da terra, é comum que se pratique nestas casas a criação de pequenos animais, como galinhas, e o cultivo de pequenas hortas e árvores frutíferas, ainda que em espaço reduzido. Isto é feito inclusive pelas famílias cujas atividades econômicas principais não estão ligadas à terra (Figs. 45 e 46).
Figura 45 – Quintal da casa da Dona Marcleide (vendedora autônoma): criação de galinhas.
Fonte: Produzida pela autora.
Figura 46 – Quintal da casa da Dona Isa (enfermeira): árvores frutíferas.
Fonte: Produzida pela Dona Isa.
Nesta modalidade, a escolha da casa se deve mais à sua localização do que ao seu tamanho ou desenho, sendo considerado como fator decisório a proximidade com as casas dos parentes. Sua aquisição se dá por meio de compra, troca ou doação, sendo estas transações feitas geralmente entre parentes. Aliás, devido à escassez de recursos das famílias que adotam esta modalidade, a realização da moradia só é possível com o apoio dos parentes:
Essa casa aqui era dum cunhado meu e eu tinha outra do outro lado ali, num sabe? Só que era de taipa. Aí eu fui e troquei nessa aqui mais ele, porque ele ia vender, né? Aí aqui é mais perto da família, né? Aí ele vendeu a outra. (Seu Ivan) A minha casa de lá, foi num tempo que o inverno foi muito grande, aí caíram duas paredes. Aí a minha irmã, que a minha vó tinha dado esse quarto pra ela, aí ela deu pra mim. (Dona Marcleide)
Logo que possível, a família empreende uma modificação na casa existente para adequá- la às suas necessidades. Pode se tratar de uma reforma, quando há apenas a modificação
80 Os meeiros são agricultores que arrendam a terra de outros para produzir, pagando-a com parte desta
na divisão interna dos ambientes e uma reorganização do uso dos cômodos (Figs. 47 e 48), ou de uma ampliação, na qual ocorre a construção de novos cômodos (Figs. 49 e 50).
Figura 47 – Planta da casa da D. Isa conforme adquirida.
Fonte: Produzida pela autora.
Figura 48 – Planta da casa da D. Isa após reforma: transformação do corredor em
quarto e reorganização de cômodos.
Fonte: Produzida pela autora. Figura 49 – Planta da casa da Dona
Marcleide conforme adquirida.
Fonte: Produzida pela autora.
Figura 50 – Planta da casa da Dona Marcleide após ampliação: construção de novos cômodos.
Fonte: Produzida pela autora.
A moradia emprestada corresponde àqueles casos em que a família do trabalhador rural mora em casa cedida pelo patrão. Aqui, as famílias também que não possuem terreno nem recursos para a construção e, além disso, são "vindas de fora", não possuindo parentes na localidade para lhes dar suporte. Por ser emprestada, a família não tem a possibilidade de escolher a sua moradia, sendo esta decisão tomada pelo proprietário. Conforme citado anteriormente, o fato de não serem donos da casa trás à família uma sensação de insegurança com relação à sua moradia, ainda que desenvolvam boas relações com o dono. Apesar disso, a família pode empreender reformas para adequar a casa às suas necessidades, acordando tudo previamente com o dono. Os recursos são
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sempre mobilizados pelos moradores. Caso haja desavença ou necessidade de sair da casa, reclama-se aquilo que foi empregado.
Esse terreno aqui num é nosso, tá entendendo? Num é nosso! [...] Quando eu ia construir um compartimento desse, eu ia lá [...] no dono da terra. [...] Aí só fazia uma coisa aqui com a autorização dele. Que eu num ia fazer uma coisa no terreno dos outros pra... sem autorização do dono, né? (Seu Francimar)
Ele (o dono) mesmo num bota boneco não mas tem a família, né? Um dia [...] se eles entender de querer [...] entrar em questão com a casa, a gente mesmo já falou pra ele, em questão não, a gente procura o direito só daquilo que a gente gastou. Do que é dele, do que ele fez ninguém vai atrás. (Dona Nilce).
A construção da casa, por sua vez, é a modalidade mais empregada de autopromoção de moradias, sendo adotadas tanto por famílias "nativas" como por famílias "vindas de fora". O terreno pode ser adquirido por meio de herança, compra de familiares ou de terceiros, troca por serviços ou por outra propriedade, ou de doação de familiares, não havendo um modo predominante, sendo estas formas de transação bem distribuídas. Somente nos casos de compra e troca a família tem a possibilidade de escolher o terreno. Esta escolha, assim como no caso de aquisição de casa construída, é fundamentada nas características locacionais, sendo importantes, além da proximidade com casas de parentes, as condições de acesso e centralidade.
Eu fui olhar outro terreno, muito bonzinho também, lá... Mas aí depois outra pessoa me informou esse e eu comprei mais esse porquê? Porque pra começar o outro não tinha muito acesso, não tinha muita comunicação, não ia carro lá [...] era sem acesso! Aí esse aqui eu achei o terreno mais central, com acesso à cidade, com acesso mais ao movimento, né? E aí eu fui e comprei. (Seu João). A doação de terreno por familiares é mais frequente entre pais e filhos. Quando envolve outros graus de parentesco, se prefere efetuar a compra ou a troca, como modo de garantir a propriedade da terra para os filhos no futuro. A doação de terra entre outros graus de parentesco, só ocorre nos casos em que não há outra possibilidade de promoção da moradia. Quando doado, a escolha do terreno é feita pelo doador, que pode indicar inclusive o local de implantação da casa quando esta for construída na mesma porção onde se localizam outras moradias da família.
Aquele (terreno) ali era do meu irmão. Ele queria me dá, mas eu num quis. Disse 'Não, você tem filho, eu também, eu prefiro comprar.'. (Seu César). Porque ela (a mãe) que decidiu ser nesse cantinho aqui. Porque aqui era o início do terreno, né? Aí pra começar a fazer as casas, começar na linha reta. Mas aí num foi (feito) porque (os irmãos) fizeram tudo dividido, né, cada casa num canto. Primeiro foi a minha, aí foi feita nesse ponto. (Dona Martinha).
O terreno foi doado, da minha tia. Ela me deu o cantinho p'reu fazer, mandou marcar onde ela queria me dá, marquei, construí a minha casa. (Seu Alex). Os tipos de autopromoção das moradias possuem uma hierarquia de preferência para as famílias, sendo a construção da casa, seja em terra própria, seja em terreno doado por familiares, a situação considerada ideal, uma vez que permite à família maior autonomia na definição da sua moradia. Além disso, o esforço empreendido para a sua realização intensifica o sentimento de pertencimento e o grau de identidade entre morador e moradia, contribuindo para uma maior sensação de segurança com relação à casa:
Foi um sacrifício grande que eu tive [...] pra hoje a gente ter a casa da gente. Eu sofri muito aqui, amanhecia aqui no serviço. Num podia botar um servente, né? Quem fazia era eu. Eu sinto assim que foi uma batalha e Deus protegeu a gente, né? [...] Eu sinto alegria, de ter uma casa própria. Mesmo a gente no interior não é tão fácil de ter uma casa pra gente morar [...] e a casa da gente é pro resto da vida da gente, né? Me casei em 75, em quantas casas num morei de um e de outro? E hoje a gente tem a casa da gente, é pro resto da vida da gente, né? Se sente bem, satisfeito de ter uma casinha própria da gente, né? (Seu César) Esta sensação de segurança também ocorre na aquisição da casa construída. Aqui, o esforço não mais se relaciona com o trabalho na construção, mas com a mobilização dos recursos. Por outro lado, a autonomia na definição da casa é diminuída, e ainda que se possa modificar a estrutura existente, o tamanho reduzido do terreno e o modo de implantação da edificação acabam limitando as possibilidades. Por isso, esta modalidade de autopromoção ocupa o segundo lugar na hierarquia de preferência pelas famílias.
Finalmente, em terceiro, encontra-se a casa emprestada, modalidade na qual não há nem as relações de identidade e segurança, nem a autonomia da família na definição da forma e dos espaços da moradia, uma vez que, ainda que empreenda modificações, estas sempre têm de ser autorizadas pelo dono da casa.