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LISTA DE GRÁFICOS

CAPÍTULO 2 FORMAÇÃO, DESENVOLVIMENTO E DINÂMICA DO MERCADO DE TERRAS AGRÍCOLAS NA ECONOMIA BRASILEIRA.

2.2 Desenvolvimento e dinâmica recente do MTA

2.2.1 Apropriação privada da terra e Política Fundiária: 1889/

No Brasil, o governo monárquico existiu até 15 de novembro de 1889. A partir daí, constitui-se enquanto Estado-nação, ou ainda, formou-se um governo do tipo republicano.

No plano da política fundiária, a Constituição editada em 24 de fevereiro de 1891 - a exemplo da Constituição de 1824 - garantia aos Estados federativos autonomia, para emitir leis a fim de poder administrar as terras, ou ainda, para efetuar a transferência de terras devolutas para

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domínio privado. Essas ordenações baseavam-se na LT de 1850 e/ou nos regulamentos editados em 1854.

Assim, na prática, cada Estado tinha sua própria Política de Terras que, na maioria das vezes, favorecia os membros da aristocracia rural, ou seja, os comandantes do poder político - tanto em nível municipal, quanto em nível estadual e/ou regional.

Nesse contexto, os conflitos envolvendo a propriedade da terra eram - invariavelmente - acompanhados de processos sociais violentos, fruto de expropriações, usurpações, etc. Assim, a Constituição de 1891 não garantiu aos índios a posse de seus territórios e a cobiça pelas suas terras motivou o extermínio de tribos inteiras (SILVA, 1996b, p. 44).

Ademais, desde a libertação de escravos (através da edição da Lei Áurea, de 1888), os senhores das terras passaram a se descapitalizar, já que perder escravos significava perder parte de seu investimento passado e que havia construído parte expressiva de seu patrimônio pessoal. Desse modo, diante dessa conjuntura economicamente desfavorável, os proprietários procuraram compensar aquelas perdas, dentre outras razões, através da expansão de seus domínios territoriais. Com isso, mantiveram-se como comandantes de largas extensões de terras mantendo- se, pois, a tendência de elevados níveis de concentração da terra.

Na sequência, em 1916, foi editado um novo Código Civil. Nessa institucionalidade, surgiram as primeiras disposições legais para regulamentar o arrendamento e a parceria de terras agrícolas. Além disso, ordenava-se a usucapião - ou seja, a forma de acesso que conferia o direito de posse de terras públicas a quem, efetivamente, usasse-as produtivamente. Nesse caso, teria direito sobre a terra quem a tivesse ocupado durante certo tempo, previsto em Lei. Essa mesma normatização, ainda, obrigava a realização do registro do imóvel, em cartório 28.

Os registros daquelas terras, que tinham sido cedidas desde a economia colonial, ficavam sob a responsabilidade do vigário local. Primeiro, pela aliança política do Estado com a Igreja; segundo, pela capilaridade que tinha a Igreja, no território nacional, o que facilitava a existência de um registro. Dessa forma, a partir da constituição do Governo Republicano, esse

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A respeito dos serviços notariais e de registro que são desempenhados pelos Cartórios de Registro de Imóveis, das origens à atualidade constitucional, veja-se Melo (2004).

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registro seria executado pelos Cartórios de Registro de Imóveis, e, o título imobiliário, emitido a partir de então, concedia ao detentor da terra, sua propriedade privada.

Ora, na medida em que o acesso a esse tipo de informação legal era mais fácil para os grandes proprietários, e, em que os custos processuais eram relativamente mais acessíveis a esse tipo de proprietário, então, é possível deduzir que esse Código favoreceu, principalmente, a realização de registro de terras de latifundiários, sobretudo aqueles que demonstraram interesse em fazê-lo 29.

A anteriormente mencionada legislação de 1916, ainda, foi praticamente omissa no tocante às terras indígenas. Porém, como eram terras consideradas não utilizadas e não demarcadas, gradativamente, foram sendo transferidas para os Estados federativos que transferiam a interesses privados, ou ainda, eram incorporadas na qualidade de terras da União. Essa expropriação “legalizada” alimentou o conflito agrário, tal como foi observado junto a áreas de colonização, principalmente, na região Sul do país 30 e contribuiu para destruir a forma original de acesso e uso da terra comandada pelos habitantes originários. Ou seja, uma transformação em constante processo em direção à propriedade privada da terra.

No período situado entre 1889 e 1930 há registros de que houve uma ampliação do confronto entre os interesses privados e os interesses públicos r com tendência para ampliar, ainda mais, a supremacia daqueles sobre estes. Dessa maneira, a concepção de uma República Federativa, em vez de representar a união entre os Estados federados, de fato, significou uma descentralização do poder em favor desses Estados, que eram dominados politica e economicamente pelas oligarquias rurais e/ou pelos “coronéis das terras”.

Essa expansão do comando privado sobre as terras, no início desse período republicano, também se fez pela força e/ou violência. Isso ocorreu, por exemplo, mediante ações comandadas por pistoleiros, jagunços etc., a mando dos coronéis e que redundou numa expansão da forma posse, tanto a partir de terras devolutas, quanto por intermédio de captura de terras ocupadas por pequenos posseiros em favor de grandes posseiros. Isto é, de um lado, o coronelismo impôs sua

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“Como nenhum caboclo vai encontrar esse cartório, quase ninguém registrou jamais terra nenhuma por esta via. Em consequência, a boa terra não se dispersou e todas as terras alcançadas pelas fronteiras da civilização, foram, de maneira competente, apropriadas pelos antigos proprietários que, aquinhoados, puderam fazer de seus filhos e netos outros tantos fazendeiros latifundiários". (RIBEIRO, 1978, p. 16).

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vontade e expandiu seu domínio territorial; e, de outro, contribuiu para a ampliação da exclusão social ao se apossar de terras de agricultores familiares 31, portanto, agravando a questão do acesso à terra.

O processo de desenvolvimento da privatização da terra agrícola, na economia agrária brasileira, entre 1889 e 1930, apontou para a existência dos seguintes fenômenos: a) políticas fundiárias comandadas pelos Estados federativos que apontavam para a defesa dos interesses da oligarquia rural; b) conflitos fundiários - seja pela ocupação de terras indígenas, seja pela disputa por terras entre proprietários e posseiros; c) legislação que previa ordenar uma diversidade de relações sociais em torno do acesso à terra - arrendamento, parceria e usucapião; d) o acesso à terra ainda era dificultado, visto que a terra mantinha-se concentrada nas mãos de grandes proprietários - estes, os organizadores da economia primário-exportadora e/ou investidores que também viviam a qualidade de líderes políticos; isso marca a continuidade de uma questão da terra, nesse período; e, por fim, e) tinha prosseguimento, o desenvolvimento da forma posse, até então, muito presente na base fundiária nacional; este fato, tal como lembrou Silva (1996.b), é uma manifestação da fragilidade do Estado em regulamentar as formas de acesso e/ou promover Política Agrária, característica da economia brasileira, nesse período.

Em suma, o movimento de privatização da terra agrícola, a exemplo do caso europeu, anteriormente estudado, foi marcado por conflitos. No caso brasileiro, as políticas fundiárias existentes, ao invés de mediar essa questão, contribuíam para o agravamento dos embates, pois fortaleciam a manutenção do poder político local, comandado pelo senhoriato rural originário e, portanto, em detrimento dos interesses dos pequenos agricultores. Portanto, havia um Estado fraco o suficiente, para não conseguir regular o acesso amplo e promover ordenação da base fundiária, junto à realidade brasileira até os anos 1930, mas, que agiu em defesa dos interesses

31 Em torno dessas três primeiras décadas do século XX também houve a ocorrência de inúmeros conflitos sociais no campo

brasileiro. Inicialmente, registre-se o movimento do Contestado (1908/1916), no Sul do país, que é uma revolta contra a ocupação de terras, mediante desapropriação, para dar lugar à Política Oficial de Colonização, anteriormente mencionada. Em segundo lugar, cabe fazer o registro da expulsão de camponeses em terras situadas no Estado do Ceará, num movimento denominado de Cadeirão, num conflito que está situado entre 1926 e 1938. E, por fim, o Cangaço, que foi um movimento de resistência comandado por agricultores contra a violência e a opressão dos coronéis das terras sertanejas do Nordeste e que se acirravam durante os períodos de ocorrência de seca - ocasião em que aumentavam os saques e as invasões. Veja-se Alves (1995, p. 91).

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ruralistas hegemônicos 32. Nesse sentido, a questão da terra, no Brasil, esteve historicamente ligada à constituição e aos movimentos do poder político que teve o controle de uma elite agrária.

De outra parte, desde o final do século XIX, havia uma tendência de diversificação produtiva no interior da economia agrícola brasileira. Assim, especificamente na economia paulista, diferentemente de se constatar a presença de movimentos sociais pleiteando terras, vivia-se a expansão cafeeira e/ou expansão do trabalho assalariado. Essa economia, ainda, anotou movimentos de expansão do comércio de terras agrícolas de onde resultou um “[...] movimento de conquista do solo, entre 1890 e 1900, que foi uma vasta especulação, financeiramente falando” (MONBEIG, op. cit., p. 108).

Isso ocorria, tanto pelos movimentos da atividade econômica, quanto pelas variações observadas na dinâmica do mercado de terras agrícolas. Nessa oportunidade houve o registro de participação de vários tipos de investidores, tais como: advogados, arquitetos, engenheiros, dentistas, médicos, etc. -, residentes nas principais cidades do Estado de São Paulo (SP) e, portanto, não necessariamente ligados à produção de riqueza agrícola. Além disso, surgiram os “capitalistas mercadores de terras” que, ao lado das demais categorias, também especulavam com terras agrícolas.

Dessa maneira, decorrente da expansão econômica daquele período, até 1930, “[...] a especulação generalizou-se e a terra virgem produziu lucro antes de produzir colheitas e os preços não cessavam de aumentar” (MONBEIG, op. cit., p. 212).

Por fim, o movimento da economia brasileira coloca em relevo as teorias de Marx e de Polanyi, no que diz respeito aos conflitos envolvendo transformações na condição social da terra. E, ainda, tal como asseverava Braudel, também para o caso da base fundiária brasileira, não foi possível ter um mercado sem que houvesse a decisiva participação do Estado. E, por fim, dá razão aos autores que apontaram a existência de diferentes funções econômica para a terra agrícola, incluindo a função de investimento (Moore Jr e Braudel).

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Sampaio (1996) adverte que, a elite rural nacional apesar de demonstrar força e impor domínio sobre os demais segmentos sociais mostrou-se frágil ao ter projetos que dependiam da força do movimento emanado pelo capital externo.

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