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LISTA DE GRÁFICOS

3.2 Registros de comércio de terras (1822/1895)

A economia potiguar, no início do século XIX, contava predominantemente com fazendas autossuficientes que apresentavam baixo grau de comercialização de mercadorias e, ainda, tinham uma pequena importância econômica relativa no contexto da economia nordestina.

Nesse contexto econômico - que sucede a independência do Brasil e antecede a edição da Lei de Terras Estadual (1895) - é importante registrar exemplos de compra e de venda de terras, extraídos da literatura regional disponível. Estes, ainda que sejam esparsos, remetem à tese apresentada no final do item anterior - de que houve uma comercialização de terras antes dessa ordenação legal. Logo, havia uma semente de comercialização da terra agrícola antes mesmo da fixação daquela mencionada LT estadual.

Assim, no caso do Vale do Açu (RN), a família Montenegro, de origem espanhola, ali aportou nos idos do século XIX, proveniente de Pernambuco, e se instalou naquela região por intermédio da chegada de Ovídio de Melo Montenegro que foi designado por Dom Pedro II, em 1822, para ocupar o cargo de Tabelião da Comarca.

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Em 1835, Ovídio obteve uma sesmaria de 6 (seis) léguas quadradas, adquirida posteriormente - em 1845 - e que constituiu a origem da Fazenda Itu 55, que, nas suas origens, tinha uma extensão de 36 (trinta e seis ) léguas quadradas. Esse é um primeiro registro histórico que aponta, primeiro, a constituição gradativa, no tempo, da constituição de um latifúndio como característica da ocupação inicial das terras; segundo, porque a aquisição da terra mostra a latência da forma mercantil e monetária de acesso à terra, que foi efetivada meio século antes da edição da LT estadual, que data de 1895.

Em 1845, ainda no âmbito da mesma família, Manoel de Melo Montenegro adquiriu uma segunda fazenda de gado, desta vez do Coronel Antônio da Rocha Pita, então denominada de Fazenda Sacramento. Estas terras deram origem ao atual município de Ipanguaçu (RN) - igualmente situado no Vale do Açu (RN) e que faz divisa com o município de Assú (RN) e que contribuíram para ampliar o domínio territorial dessa família naquela região semiárida.

Um terceiro registro histórico de compra e venda de terra foi efetuado igualmente em período anterior à formulação da LT estadual, deu-se com Manuel Alves Barbosa de Medeiros. Esse comerciante adquiriu terras em 1866, especificamente a propriedade rural denominada Cariri, na localidade conhecida como Oficinas (nomenclatura devida às oficinas de gado) e situada no atual município de Assú (RN) 56.

De outra parte, desde a perspectiva dos movimentos comandados pelo Governo da Província do RN, houve uma primeira tentativa de regulamentar os limites das propriedades e o acesso à terra, em 1858, quando então foi criada a Repartição de Terras Públicas (RTP). Todavia, esse organismo foi extinto logo após - isto é, em 1860 -, sob a alegação de falta de agrimensores.

Os inventários - elaborados por famílias tradicionais, à época – também se constituem em mais uma fonte de informações sobre as formas de acesso, transferência e valoração da terra agrícola, nesse período. Pois, esses documentos continham uma estimativa de um preço para seus bens materiais em geral, e as terras, em particular. E, desse modo, podiam mensurar suas riquezas materiais que eram deixadas em herança. Além da contribuição deixada pelo professor Hélio Galvão, citado acima, cabe o registro de que, em 1879, inventários disponíveis no município de

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Veja-se: www.ipanguacu.rn.gov.br. Acesso em 17 jul. 2013.

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Eram terras que ficavam na área de várzea do rio Piranhas/Açu e foram adquiridas pelo equivalente a 600$000 Cf. Melo (1985, p. 159).

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Boa Saúde (RN) - situado na região Agreste do Estado -, registravam que a família Silva Sacca, declarava possuir terras em herança, que tinham sido “ ... adquiridas por compra a Francisco Paiva Rocha”, acrescentando-se a isso detalhes locacionais das terras e os respectivos preços estimados para essa terra 57. Então, também nesse caso houve compra e da venda de terra, em períodos que antecederam à edição da LT estadual.

Em 1888, emerge a libertação dos escravos negros. Nesse período, uma família de escravos libertos fugiu da seca, que também abatia o Vale do Açu (RN), indo em direção às terras do atual município de Macaíba (RN), mais próximas da área litorânea, onde, a dificuldade de acesso à água e/ou de sobrevivência era relativamente menor. Segundo ainda relato de um desses retirantes que ocuparam originariamente aquela terras, o acesso à terra deu-se mediante a compra da terra ocasião em que se formou a Comunidade denominada de Capoeira dos Negros 58.

Em seguida, conforme apontam Takeia e Lima (1987:32), no ano de 1893, o secretário de Estado responsável pelos assuntos fundiários elaborou um relatório de trabalho em que chama a atenção do Governador para dois pontos, a saber: a) necessidade de se fazer o registro das terras do Estado; e, em seguida, b) dever-se-ia esclarecer aos proprietários rurais a necessidade de ordenamento da base fundiária. Neste sentido, aquele governante afirmava que “ ... não faltam especuladores que incutam no ânimo do povo ser o registro de terra um laço, uma cilada do Governo para apoderar-se dos seus haveres”.

Quer dizer, em primeiro lugar, no plano local, também foram observadas resistências à ordenação fundiária. E, em seguida, nota-se que a razão dessa resistência se deve à presença de especuladores com terras, no final do século XIX.

Dessa maneira, ainda que tenham sido uns poucos exemplos, não faz sentido atribuir a mercantilização das terras às políticas governamentais relativamente recentes, tal como fez Gomes (2004), quando afirma que, a partir da PGH, “[...] as terras do Vale do Açu passaram a ser demandadas, especialmente, por grandes grupos econômicos, o que fez surgir um precário mercado de terras até então inexistente ...”.

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Consulte-se Souza; Araújo (s/d.)

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Neste caso, o pagamento estipulado foi feito com a entrega de 12 (doze) cavalos precoces cotados ao equivalente à aquisição de uma área de 36 (trinta e seis) quilômetros quadrados. Na atualidade, essa área está muito reduzida, porque alguns de seus moradores originários venderam o quinhão que lhes cabiam nessas terras e foram em direção às cidades próximas. Veja-se Tribuna do Norte (2010).

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No mesmo sentido, não tem respaldo na História Econômica Regional atrelar a origem do mercado de terras à ação do grande capital, pós PGH, tal como descrito na citação abaixo:

“ ... foi a presença de agentes do grande capital comprando terras que possibilitou o estabelecimento de um mercado de terras cuja dinâmica jamais tinha sido sequer imaginada para a região. E a ação desses agentes se concentrou exatamente nos municípios de Açu e Ipanguaçu” . (SILVA, 1992:27).

Pelo exposto ao longo deste capítulo reafirma-se que, ao longo da História Econômica Regional, houve comercialização de terras antes mesmo da formação do MTA regional. Esse foi um processo histórico que envolveu tanto os movimentos do Estado (legislação), quanto os movimentos de produção agrícola (mercado), que, juntos, expressaram os interesses mercantis de uma parte do senhoriato rural regional.

Em resumo, entre 1822 e 1895, a economia fundiária do RN continha as seguintes formas de acesso à terra: a) terras indígenas remanescentes e incrustradas na região Oeste do estado, que pelo difícil acesso permitiam a reprodução social do indígena, ainda que em pequenos grupos; b) terras de posse, tanto de pequenos quanto de grandes proprietários; algumas dessas terras tinham sido obtidas mediante transação comercial; c) terras devolutas que invariavelmente não estavam ocupadas e/ou tinham potencial para serem ocupadas; d) um insipiente comércio de terras que era feito com objetivo de formação de patrimônio e/ou reprodução da riqueza material que antecede a publicação da LT estadual, em 1895; e, por fim, e) a origem do MTA no RN data, oficialmente, de 1895, este, mais um exemplo de uma origem tardia - deste fenômeno em relação ao caso da economia brasileira.

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