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Apropriações / Encerramento da Universidade

ESTRUTURA CURRICULAR DA UNIVERSIDADE DE ÉVORA NO SÉC XVI 15

6. Apropriações / Encerramento da Universidade

7. Apreciação Final 8. Fontes e Bibliografia

A morte de D. João V, no ano de 1750, encontra o país empobrecido, apesar da ri- queza incomensurável em ouro e pedras preciosas que provinham do Brasil. Amplia- va-se uma administração desorganizada, praticamente desmantelada e anacrónica, e uma autoridade real comprometida, justificando, em grande parte, a índole autori- tária da política que se iniciou com D. José I, através do seu primeiro-ministro, o Mar- quês de Pombal. Consequentemente, o estado desolador, de Portugal, da primeira metade do século XVIII, deu lugar ao aparecimento de ideias novas, já então tidas por antiquadas e ultrapassadas no resto da Europa culta, de que decorreu uma conten- da sem tréguas entre escolásticos e cartesianos.

A concepção educativa baseada na máxima “magister dixit” sofria uma derrota perante uma concepção de ciência que não se contentava com o resultado, mas pre- tendia, sobretudo, conhecer o “como” e o “porquê” dos fenómenos. Refere Rómulo de Carvalho1 que uma das características mais impressionantes da Companhia de

Jesus era a severidade, a rigidez das suas regras, o espírito de obediência pertinaz e cega. Dentro desse código, tornou-se extremamente moroso o processo de transfor- mação da mentalidade jesuíta, mais do que é normalmente necessário para que os homens de qualquer época aceitem as novidades que se lhes impõem. Além de que os mestres da Companhia de Jesus não eram uns homens quaisquer, mas um escol de capacidades notáveis, como tantas provas deram. Diz Miguel Monteiro que

se por um lado, a Companhia não alterou profundamente a sua “filosofia peda- gógica” nos séculos XVII e XVIII, isso não significa que não estivesse a par das mudanças filosóficas e científicas que iam ocorrendo na Europa e que não hou- vesse inacianos muito interessados e conhecedores dessas transformações, gente de altíssima craveira intelectual que não tivesse tomado consciência do real valor das novas propostas e também dos seus erros e perigos para a orto- doxia2.

1 Carvalho, Rómulo de, op. cit., p. 386.

2 Monteiro, Miguel Maria Corrêa, O Padre Inácio Monteiro (1724- 1812) – Um Jesuíta Português na Dispersão:

Contribuição para a História da Companhia de Jesus durante a Época das Luzes, Universidade de Lisboa, 2000,

Na época em que havia sido fundada a Companhia, os Jesuítas souberam conci- liar as necessidades temporais e os seus objectivos espirituais. Os Jesuítas deram, assim, satisfação ao

desejo que a burguesia em ascensão pretendia na formação dos seus filhos. O latim e a cultura em geral eram um meio de se conseguir os cargos de medicina, da magistratura ou das chancelarias, a possibilidade de se poder chegar às mais altas posições. E o latim era a língua em que assentava a educação prestada pela Companhia como língua internacional utilizada na diplomacia e na ciência3.

A Companhia de Jesus manteve-se resistência à introdução de alterações pro- fundas nos seus métodos pedagógicos e nas matérias leccionadas. O seu ensino continuou ligado ao conceito humanista, à base do latim. O humanismo, que deveria abranger tudo o que pertence ao homem e ao espírito humano, continuou na esfera das humanidades clássicas e de um conceito puramente literário de formação. Esta limitação da cultura agravou-se com o desenvolvimento das ciências modernas e da literatura nacional4. Em Portugal, na primeira metade do século XVIII, a cultura

e o ensino continuaram sob o domínio quase completo dos inacianos. Outras Or- dens religiosas, embora com menos preponderância instaladas no país e dedicadas igualmente ao ensino, tais como a Ordem dos Clérigos de S. Caetano, estabelecida em 1648 e a Congregação do Oratório de S. Filipe Néri, introduzida em Portugal no reinado de D. João IV, por Bartolomeu de Quental, sendo mais abertas às tendências culturais do século, preocuparam-se com o ensino quer das ciências experimentais, quer do português. Vieram, pois, a ter um papel activo nas reformas educativas em- preendidas pelo Marquês de Pombal.

A Congregação do Oratório5, fundada em Roma, em 1550, e introduzida em Por-

tugal pelos Padres Bartolomeu de Quental e Francisco Gomes, revelou-se uma insti- tuição preponderante e charneira na edificação de uma nova matriz cultural em Por- tugal. Embora quase tão antiga como a Companhia de Jesus, aquela Congregação revelou-se sempre mais permeável às tendências modernas, não olvidando os seus

3 Monteiro, Miguel Maria Corrêa, Os Jesuítas e o Ensino Médio – Contributo, para uma análise da respectiva

acção pedagógica, p. 74. 4 Idem, ibidem.

5 A Congregação do Oratório conferiu importância primordial à língua materna, simplificou o ensino gramatical do Latim, reconheceu a pertinência dos estudos histórico-geográficos e aceitou certo racionalismo e experimen- talismo nos seus estudos filosófico-científicos, concepção de que viria mais tarde a aproximar-se Verney.

deveres enquanto posterior participante activa das reformas pedagógicas pombali- nas, conforme atesta Paulo Pereira Guedes6. Esta Congregação chegou a ter em Por-

tugal casas nas quais também se ministrava o ensino secundário de humanidades e, em várias delas, a filosofia e a teologia. Destas destacam-se: a Casa do Espírito Santo, em Lisboa, no ano de 1659, destruída pelo terramoto de 1755; a Casa de Nos- sa Senhora das Necessidades, em Lisboa, no ano de 1545, no Porto em 1685, em Freixo de Espada à Cinta, em 1658, em Viseu, no ano de 1689, em Braga, em 1690, em Estremoz, em 1701 e em Monção, no ano de 17497. As primeiras influências do

Iluminismo datam de finais do século XVII, como consequência da aproximação à França do Portugal restaurado, e como reacção à cultura espanhola.

Entre os “estrangeirados” que frequentavam as cortes e os centros de cultu- ra da Europa, destacam-se dois médicos de origem judaica: Jacob de Castro Sar- mento e Ribeiro Sanches. Jacob Sarmento que obteve grande fama em Inglaterra aconselhou D. João V a mandar traduzir o “Novum Organum” de Francisco Bacon, tendo exaltado igualmente a obra de Newton. António Ribeiro Sanches, que alcan- çou notoriedade na Holanda, na Rússia e em França, colaborou na Enciclopédia. Foi autor de Cartas sobre a Educação da Mocidade, obra que teve uma grande importância não só por ter inspirado a organização do Colégio dos Nobres, mas também, por, juntamente com o Verdadeiro Método de Estudar, de Luís António Verney (1746-1747), ter contribuído para a reforma do ensino, empreendida pelo Marquês de Pombal.

Verney foi o principal representante desta corrente de reforma cultural. Tendo iniciado os seus estudos no Colégio Jesuíta de Santo Antão, foi depois transferido pelos pais para os Oratorianos do Colégio da Madre de Deus e aí se graduou em Artes. Foi duplamente formado em Teologia, em Évora e em Roma, onde se graduou igualmente em Jurisprudência Civil. É por volta de 1744 que Verney decide ser um “renovador em matéria pedagógica”. No Verdadeiro Método de Estudar, António Verney critica, de uma forma sistemática, os métodos pedagógicos utilizados na época, em Portugal, e propõe novos métodos para a reforma do ensino que, segun- do ele, deviam ser baseados na experiência e em realidades concretas. Criticando

6 Guedes, Paulo António Messias Pereira, Luís António Verney: Proposta Linguístico-Didácticas para o Estudo

da Língua Portuguesa, p. 24. Ver também, Luís António Verney, O Verdadeiro Método de Estudar (1746), edição

organizada pelo Professor A. Salgado, edições Lisboa, 1950.

claramente a Inquisição, defendeu a tolerância religiosa e a promoção da instrução como um dever dos soberanos8. Segundo António Alberto de Andrade,

Verney representa, em cheio, a segunda fase do século, que combate o carte- sianismo, como tipo de cultura experimental que ainda abusa dos conceitos sem base da experiência provada, mas que vê como inimigo irreconciliável as especulações da Escola peripatética, tanto na direcção dos árabes como na da Escolástica9.

Refere Ana Cristina Araújo que:

As 16 cartas que compõem o Verdadeiro Método de Estudar, relativas ao conhe- cimento das letras e das línguas e à aplicação do discurso das ciências, segun- do o modelo fornecido pela filosofia natural, constituem, em conjunto, a primei- ra crítica coerente ao modelo de ensino das escolas portuguesas e o primeiro apelo a favor da modernização cultural do país dirigido à opinião pública. Nesta obra de síntese, destinada a «a formar homens úteis à República e à Religião» Verney assume-se como filósofo militante contra o escolasticismo, em nome do eclectismo do bom senso e da necessidade pública da juventude ser ensinada no conhecimento dos resultados científicos da modernidade e sobretudo, da metodologia e da atitude mental que os tornaram possíveis10.

Durante o reinado de D. José I, foram definidas, como é sabido, várias linhas de orientação, nomeadamente política, económica e cultural. D. José I viu-se obrigado a combater estruturas governativas e administrativas seculares, cuja natureza em nada ajudava o Estado a responder com eficácia ao incremento de toda uma activi- dade comercial, potenciadora de riqueza e de modernização cultural. A conduta das classes sociais tradicionais, marcada pela corrupção, fazia-as prósperas, enredadas numa teia à sombra do Estado. Para obviar este estado de coisas, o rei constitui um governo do qual destacamos Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), no- meado, em 1770, Marquês de Pombal. O Marquês era também um “estrangeirado”, pois desempenhara funções diplomáticas em Londres e Viena11, e viu-se forçado a

8 Monteiro, Miguel Maria Corrêa, op. cit., pp. 89-90.

9 Andrade, A. Alberto Banha de, Verney e a Cultura do seu tempo, p. 450. Ver também, António Alberto de An- drade, “Edições Clandestinas do Verdadeiro Método de Estudar e Folhetos da Polémica,” in Revista de Filosofia, Lisboa, 1961, pp. 311.

10 Araújo, Ana Cristina, A Cultura das Luzes em Portugal–Temas e Problemas, p. 55.