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aprovamos, mas apIicado com modera9ao e den- den-tro da esfera das leis da humanidade"4S2

Medicalizar as instituic;oes

antes 0 aprovamos, mas apIicado com modera9ao e den- den-tro da esfera das leis da humanidade"4S2

Aliado ao mau tratamento dispensado pelos senho-res, urn outro fator e, para a medicina, causa de revoUa e de doen<;a entre os escravos no campo: a ignorancia do negro, gerador:a, de supersti98.o. Vma educa9ao crista, proporcionada desde a infilncia, poden, modificar este quadro indesejavel. 0 efeito desta modifica<;ao se fara sentir ao nlvel politico - dissolu<;ao da revolta e de suas possibilidades - e ao nlvel economico - dispo-si<;ao flsica e moral para 0 trabalho.

Alem de uma interv,en<;ao sobre 0 castigo e igno-randa, M necessidade, para que des",!,are<;a 0 binomio revolta/doen<;a, de uma atua<;ao sobre as condi<;6es hi-gienicas da vida do escravo: habita9aO, aIimentac;ao, ves-tuario, coodi<;6es de trabalho, repouso, cuidados medi-cos. A crltica do que existe, segue-se uma proposta de modifica<;ao que fara do escravo, atraves de medidas higienicas, urn bom trabalhador - tanto ao nlvel eco-nomico quanto politico.

A descri<;ao das senzalas feita pelos medicos pro-cura mostrar que elas relinem causas de doen<;a: sao mal Iocalizadas, mal construidas, umidas e imundas, sem ventila<;ao, abrigando urn mimero excessivo de escra-vos, aIem de muitas vezes nelas serem encontrados "fo-g6es" - condi<;6es maleficas it saude por alterarem 0 ar.

o

olhar medico penetra nas senzalas para revela-las como produtor2s de doen<;a: "sao geralmente as ha-bita<;6es dos negros (senzalas) malsas pela umidade de que quase sempre se acham impregnadas as paredes e 0 proprio chilo: estas habita<;6es, geralmente falando, nao tern senao duas ou tres bra<;as de largura e outras

4-32 Jose Rodrigues de Lima Duarte, Ensaio sobre a higiene da escravatura no Brasil, tese

a

Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1849, p. 33.

362

tantas de fundo, e algumas M de menor dimensao Sao cobertas as mais das vezes de s,pe e na falta dest~ de paus de palmIto e algumas ja existem cobertas de telhas Neste pequeno espa<;o acomodam-se familias numerosa;

de sorte que nao e posslvel que 0 ar atmosferico al s~

ach.e em propor<;6es convenientes. A faIta de maior es-pa<;o e ventila<;ao concorre para que com mais facili-dade 0 a: desse recinto se altere mais depressa; al pelo grande numero de pessoas existentes consome-se maior p~r<;ao de oxigenio e M aumento de acido carbOnico, ipnnclpalmente sendo as senzalas destituldas de janelas ou outras quaisquer aberluras, por onde se opere uma I,lvre ventila<;ao ( ... ). Outra causa de altera<;ao do ar e 0 usc dos fog6es nas proprias senzalas os quais, e!<,m de desoxlg~narem 0 precioso elemento da vida, 0

50-br;"'aJTegara? do produto de certas substancias empireu-matlcas, e amda trazem 0 inconveniente de rarefazerem o ar" ,a';ID'en~ando, sua temperatura e carregando-o de substanclas hldrogeneas e carbonizadas"433.

A habita<;ao existente e nao sO insalubre, mas, sen-do local de amontoamento, e espa<;o de desconheeimento po~ ,parte do. senhor, de devassidao e rebeldia. Sendo asslm, las medldas propostas para que a habita<;ao deixe de ser causa de d~en<;ae revolta sao: em primeiro lugar, fazer as con~tru<;oes em locals seeos e arejados, levan-tados do ~hao; tambem para evitar a umidade, nao se deve cobnr as senzalas com sape. Em segundo lugar estabeleoer dormitorios comuns, obedecendo a determi~

nadas condi<;6es.de vigililncia e higiene: que os escravos durm~m sobre jmaus, e nao acumulados em pequenes repar.tImentos; que cada urn possua uma esteira e urn cobertor; que haja ins;>e<;6es semanais para se averiguar o .estado das c",;"os; que haja inspe<;ao notuma feita pelo feltor, 0 que tera como efeltos garantir a seguran<;a

(ten-43.3 Jose Rodrigues de Lima Duarte. op, cit., p. 20.

. d todas as noites, estadio do os escravos de ser

rev~~::n~~to

e nada poderao fazer

present~s

na

hor~

dOf

r~co)

a regularidade de descan60

senaod as VlstlaiS- 0 el orh' ,. s para dormir e acor-os mesmacor-os orano

(to os

t~rao

d .dao e as reuni5es dos escravos de dar), eVltar a evassld utras e que ocorrem geralmente

uma fazenda com os e o . • dem

. (. t -- nocivo

a

saude dos escravos, a or

de nmte IS 0 e 434

e regularidade das fazendas) . _

Modificar as habita,5es ao niveI de sua constru,~oI

. - . e como essenCla

de sua orgamza<;ao mtema aparec

e . a saude Os procedimenlos que produ-para

assegu~:;o acomp~nham-se

do controle minuciooo zem este es no interior da senzala. A boa

~:nz~~~p~:iteacf~~~~~o

.. , . t t produz ordem e sau e.escravo objeto de

i?dv':'ti!~,~

e vIgllancla cons 13n es, . dis,tiu<;8.o b e m 0 amontoamento', mstaura-se a

aca ar 0 . . _ d' a cada urn a par-de cada escravo - dlstm,ao que a

cela necessarh de ar e contrale. .

A alimenta,ao doo escravos e outra causa

Im~or-bern de indolencia: constItm-se tante de doen,a,

~~s

tam 'lh e na falta deste, de man-basicamente d,e .feljaO

~

.ml oaf'alta de variedade,

insu-d· Os medIcos cfItIcam _

100a,. I .d d do alimento. Este nao ficiencia e preparo rna CUI a

~esenvolvimento

do

cor-possibiIita ,0

"r:novam~ntto:~a

rela<;ao intima entre 0

PO"435. Alem dlSSO, eXIS e . _ t b lho' Dor

. - aptldao para 0 fa a . I.

tipo de alImenta,ao e a "obesidade inco-' . feculentas causam

exemplo, substanclas 'deraveI da sensibilidade, moda,

embf';'tecimentoot=~~:o

das faculdades; por con-grande pregm,a " emb . b Iho"43G Alem da

quanti-~e:;~n~\~n~r~~~:od~ara~;'e~:a,~o, exi~le

0 problema da

. D te op cit. p. 22 e David 434 Cf. Jose Rodrigu~~ de ~lma u~~o; t~se ~ Faculdade' de Gomes Jardim,. A hlgzene. os escr '415

Medicina do Rio de J~nelro, 184

7.

p. 1

6 - . 435 David Gomes Jardlm, op at,. p. . 436 ibidem~ p.. ?,

364

prepera,ao da comida: ,pouca Iimpeza, utiliza,ao de' vasilhas de cobre que podem, quando nao limpas, causar envenenamento.

A critica, seguem-se as modifica90es necessarias:

OS raJimentos devem ser variados e de boa qUalidade, compostos de substancias do reino vegetal e animal, em quantidade que satisfa9a as necessidades do organismo;

as vasilhas devem ser sempre limpas, e nunca de cobre;

deve-se fomecer uma por9ao de aguardente quando hou-ver necessiclade (isto e, quando os escravos tihou-verem se molhado ou em dias festivos, para regozija-Ios)"".

A alimenta,ao adequada, portanto, assegura a ma-nuten9ao e mesmo a eleva,ao do estado de saude: 0 que tern como contraparticla a garantia de uma condi,ao

e~pecffica

de trabalho. No caso das bebidas, ela funcio-na como estimulante e mesmo como premio. 0 senhor, dando ao escravo 0 que Ihe deve ser dado, tera vanta-gens ao produzir trabalhedores saudaveis.

o

vestuario do escravo "nao aferece uma garantia segura contra as internperies"4S8: elesnao s6 fiearn sujeitos a a,ao dos elementos, como ofendem as leis do pudor.

No trabalho, nao tern

prot~ao:

roupa molhada, cabell]

descoberta, exposi,ao ao calor e ao frio, etc. Esta des-prote,ao e causa de inumeras doen,as e mesmo de morte.

Os fazendeiros, portanto, devem tomar providencias no sentido de melhorar e ,adequar 0 vestuario as necessida-des que 0 corpo tern para se proteger: "que os escra-vos tenham a roupa necessaria, a qual. seja sempre lava-da, para naa se impregnar de materias nocivas; porqur:iD-to, se houver vestidos sobressaIentes, nao serao tao con-tinuadas as repercussOes, que bern funestas sao em suas conseqiiencias; aconselhamos mais que eles sejam de linho ou de la, conforme a esta,ao; e que se tenha a

437· Cf.ibidem. p. 9. e Jose Rodrigues de Lima Duarte, op.

cit., p. 2$.30.

438 David Gomes Jardim, op. cit., p. 10.

365

-maior cautela em preservar a cabe<;a das raias de sol ou da umidade, 0 que se pode realizar com 0 usa de barretes"43'fl.

o

trabalha tambem oc~siona daenQ3\ principal-mente pelas condi<;6es em que se reaJiza e pelo excesso a que as senhores obrigam as escravos: "as senhores fazendeiros nao sabem compreender as seus interesses quando, embaidos por uma ambi<;ao mal entendida, sa-crifiaam os seus cativos aos rigorcs de uma fadiga sobre-humana"440. Os escravos saem para 0 trabalho

as

cinco da manha e sao submetidos a influencia do sol e da chuva durante todo 0 dia; durante a noite, castuma-se abrigar os negros lao trabalho (abrir cavas, aplainar ter-reiros, pensar 0 cafe, a cana, etc.); al.em disso, 0 traba-Iho 0 distribuido sem aten<;ao ao vigor fisico de cada escravo, 0 determinado igualmente para todos. Assim como ha excesso de castigo e falta de proporcionalidade entre castigo, pena e castigado, tambem existe uma des-considera<;iio absoluta da necessidade de modera<;iio e modula<;ao do trabalho a for<;a de cada urn. Para que isto acerra, e precise DaD 56 0 conhecimento individual de cada escravo, como uma regularizac;ao, atraves de leis do trabalho, no que diz respeito as horas, condi<;6es e descanso. S6 se c1ando aten<;iia aos limites fisicos do esfor<;o havera possibilidade de se evitar 0 aparecimento de doen<;as e a morte do escravo. 0 trabalho for<;ado produz tambom embrutecimento e idiotismo: seus efeitos se fazem sentir em todo 0 organismo humano.

Para que haja uma boa produtividade, niio 0 neces-saria conseguir urn excesso durante urn perfocto curto:

muito mais eficaz 0 distribuir tarefas que cada urn possa cumprir, 0 estimular 0 trabalho niio pela violencia, mas pela galiantia de condi<;6es de vida, pela educa<;iio, pelo

439 David Gomes Jardim, op. cit., p. 1l.

440 ibidem, p. 12.

366

controle e ,pela emula<;iio. Jaso Rodrigues de Lima Duar-te s~g~re 9ue as fazendeiros deem premias para as que se dlstmgUlrem no trabalho e liberdade para as que tive-rem. conduta perfelta: estes dOlS mecanismas ajudariam a c~ar urn bo~.trabalhador, ja que 0 escravo, tendo em meu.e 0 beneflclO futuro, se transformaria em auto

con-t~oladar.Cabe portanto substituir 0 excesso pela propor-clonahdade e 0 chICote pelo premio.

o

trabalha deve seT inte rrornpido .periodicamcnte p~ra que

.0

escravo, atraves do repouso, possa refaze-r S~3.S energIaS. Aos escravos nao se

da

tc,mpo nero

condi-<;oe~ para darmir: 0 preciso que algumas horas sejam dedlcadas ao sono e que eles .e deitem e se levantem em tempo conveniente. 0 momenta do sono 0 impor-tante niio s6 como reparad?r: eontrol;;-Io significa apo-derar-se de uma parte da vIda do escravo antes deixada aos eaos das senzalas.

De tadas estas mas eondi<;6es, resulta a morte ou a doen<;a. Neste nlvel situa-se uma outra causa' os

"cuidados medicos". Sao utilizados recursos nao a~ro­

vados ;p.ela medicina, nno se seguem regras higil~niCias necessanas para se fortalecer os doentes. As fazendas geralment~ t~~ urn ,espa<;o onde estes siio alojados, 0

que na.o slgmfJea q~e se ofere<;am condi<;6es para 0 res-tabeleclmento: conslstem geralmente em "um;~ pequena sala apenas barreada ou entiio mal reboeada e sempre conservada na escuridiio ( ... ). Os leitos alom de acha-rem-se amontoados, de maneira que urn Iugar que aco-modaria seis pessoas 0 ocupado por dez ou dezesseis, c~nsIstem em uma pequena esteira, e por cobertura lhes dao_ apenas algumas mantas que mal eobrem 0 indivI'-d "441 0

no . mesma amontoamento que caracteriza a sen-zel~ caraoteTiza este "hospital" das fazendas, que olio esta organlzado para 0 restabelecimento do escravo. 0

441 Jose Rodrigues de Lima Duarte, op. cit., p. 21.

367

"hospital"

e

local onde fiC!3ffi os doe~tes,

?

que nao implica que seja orieutado para produzlr saude.

Os m6dicos prop6em entiio hospitais que sejam ma-quinas de cura, que tenham "melhor dire<;iio tanto no seu servigo como na sua constrw;ao"442: suas "salas de-vern ser espagosns, com urn nurnero de janelas que este-ja em relagao

a

sua extensao, e estas rnais e~evadas,

qu:

e

os leitos dos enfermos, e guameeidas de cortmas mOVelS que serviriio para a entrada da luz, ventilac;iio do edifi-cia, defraC;ao dos raios solares e ao mesmo tempo, pela sua direc;iio, a modificar a temperatura do lugar"443. Os

!eitos devem ter uma disposiC;iio espeeffica, nunca mUlto proximos, OScolch6es devem ser cuidados, assim como os lenc;6is, as colchas de Iii e de algodiio, a roupa dos doen-tes. Alem disso, deve haver urn ;ardim para os convales-centes passearem.

Os hospitais de fazenda pnllpostos reproduzem, ,em linhas gerais, a organizac;iio dos hosR,ta,s constrUl~os para 0 atendimento a populac;iio na cldade e que tern como objetivo a restituic;iio e melhoramento do estado de saude, A proposta de urn afastamento dos meios

"tradicionais" de tratamento das doenc;as, em nome do cuidado medico, da supervisiio medica da doenc;a, ins~r~­

se na tentativa de fazer do corpo escravo urn corpo docIl e uti!.

Ao contrario da tematizac;iio do escravo na eidade _ em que este e antes de tudo an.al~sado con~~ obsta-culo como causa de doenc;a e devassldao da famIlIa bran-oa, ~endo ;portanto urn estatuto negative e s,:,bordinado _ a ternatizagao do escravo no campo 0 Clfcunscreve como objeto espeeffico. Seu objetivo e uma

,transforma-<;ao da relac;iio entre senhor e escravo, atraves da madl-ficac;iio das duas figuras que a comp6em e da cmc;iio de urn quadro legal que a regulamente.

442 ibidem.

443 ibidem, p. 22.

Ao se propor a transformac;iio, garantidora .da sau-de e submissao do escravo, coloca-se a necessidactesau-de controlar tada sua vida, desde a infiineia ate .a morte' dura~t~0 trabalho, 0 repouso, a diversiio. Niio se dey;

permltIr ao es~ravo a manu:enc;iio, de uma diferenc;a que fa<;a dele alr:uem desconhecldo e lmpossive! de ser con-trolado, Retlrar. 0 esc~~vo de suas "superstic;6es" tem portanto urn efelto pohtIco: a superstic;iio e terreno niio p~~:trado pelo senhor, e territ6rio de perigo. Educa-Io vIgla-]o, dar-Ihe saude significam construir-0 born tra~

balhador:. de efideia garantida. Neste sentido, a proposta em r;,bac;ao ao escravo aproxima-se daquelas relativas ap.

operano ,europeu feitas pelos medicos: "E de admirar que no seculo da.s luzes~ em que tudo caminhaem ra,pi-dos progressos, amda nao tenham surgido homens filan-tropos que empreguem seus esforc;os para0 melhoramento de algumas classes da sociedade, que jazem no maior abandono e desleixo a este respeito, como por certo a dos eS,cr~vos.no Br~sil.( ... ). Na civilizada Europa mni-tos medICOS mcansaVeIS no bern da humanidade sucessi-vame,:,te . empenharam suas forc;as para melhorar as cir-c,:,~s:ancIas d~ mn.itas cI.asses, prineipalmente as daope-rana, 0 que mfehzmente nao lacontece entre nos onde entre os.c~ti~os nao sao observadas as mais com~zinhas regra,s hlglemcaS, niio dando-se considerac;iio alguma as locahdades em que siio construidas suas habitac;6es, sues vesti~~n~as, aliment~GaoJ hOTas de trabaIho, repouso, dO:JDItonos, etc., obJetos estes

tao

necessarios

a

salu-bndade do individuo"444. .

A reflexiio da medicina social sobre 0 escmrvo e 0

exemplo privilegiado que confirma algumas de suas ca-rac~erfsticas essencia!s: a de ser fundamentalmente me-dic,;,a. urbana, voltada p',ra urn projeto higienico e dlsclplmar em relac;iio a cidade, suas instituic;6es e

po-444. Jose Rodrigues de Lima Duarte, oP.·fCl., p. 1,

pulagao, e nao uma medicina do trabalho, preoc~pada

com a melhoria da saude do trabalhador que so se-cundariamente e tematizado e em razao do projeto fun-damental. de transforma98.0 urbana. Assim: 0 escravo;:

principal mao-de-obra da sociedade bm.ilelra, .nunca ,e direlatnente considerado. Para constar do proJeto me-dico, ele depende ou do exame criti.co ao funcionamento da familia branca e do efeito negabvo que sua presenga

O3.IUS3, como elemento corruptor fisko e moral ,de~ta

familia ou da critica medica a cidade, quando e

C1r-cunsta~cialmen~e

visado: ele

e

vendedor ambulante,

~a:­

·rega em barris os dejetos das moradias para

deJ:0slt:,-los IlJJS praias, e barbeiro e sang:ador... T~matlza<;ao

sempre subordinada a problemas julgados m.als relevan-tes como a urbaniza<;ao e limoeza dos lOCalS ou como a normaliza<;ao do saber e pnltica medicos que faz do sangrador e do barbeiro charlataes a serem com!'atldos.

Com referencia

a

escravidao no campo eXlste urn

discurso e uma rproposta especifica. 0 objetivo do~ tra-balhos medicos que so::: vC!i~am para 0 problema e me-lhorar as condigoes de vida do escravo e, fazendo dele urn trabalhador saud,:lvel, aumentar sua produtlVldade.

A- reflexao medica scbre 0 escravo no campo apresenta, pois. singular:dades que poderiam fazer pensar em uma medic ina -social voltada para 0 campo e para 0

traba-lhador. b

. A insignificancia do numero de te~es so_ re 0 as-sunto e a ausencia do problema nas dlscus~oes e pu-blicagoes da Sociedade de Medicina '" conflrmam, ~o­

rem, 0 aspecto secundario e academico desta reflex8.o.

Alem disto, ao tratar do escravo no campo, e:t~s t~ses rep·etem 0 projeto medico em rela98.0 ao operano l~vre europeu. A atuagao prop?sta - , qu~ tran~formara 0 escravo ern corpo docil e utI! - e IdentIca aquela que,

bl ' - da Socl'edade de Medicina do periodo

445 As pu ICayOeS

1831-1890 naco -fazem referenda ao assunto.

370

na Europa, os medicos tentam reaI.imrr ern relagao a mao-de-obra assalariada das fabricas. Ao mesmo tempo em que apoI1ltam para a contradi9ao entre a escravidao e as nonnas de funcionamento da nova sociedade _ construida a partir da liberdade e da igualdade, da existencia do contrato social - os medicos tematizam o escravo no campo como se ele fosse urn membra da sociedade contratual: 0 tratamento sugerido aos fazen-deiros e 0 mesmo que se procura dar aqueles que efe-tivamente participam desta sociedade e que, sendo ju-ridicamente livres, podem vender sua forga de trabalho, assumindo direitos e deveres.

Desta reflexao, conclusoes impon:antes podem ser tiradas. Por urn lado, a escravidao urbana enquanto mao-de-obra, enquanto trabalhadora e produtora, nao

e

objeto de considera<;oes medicas. Omissao que mostra a ausencia de caracterfsticas de uma medicina da fowa de trabalho que se ipoderia imaginar como raz5.o deter-minante da medicina sociaL Ao tratar do escravo na ddade, ela nao leva em conta esta fun9ao que, no en-tanto, era essenciaI para a economia _ a do escravo tra balhador - oeupando-se exclusivamente da escravi-dao do ponto de vista domestico, a partir de conside-ragoes sobretudo morais. Sem pensar ern sua importan-cia como mao-de-obra, vendo-a como obsrtaculo it.

implantagao de uma familia saudavel, os medicos pro-poem simplesmente a sua extingao. Por outro lado, as propostas medicas de intervengao na condicao de vida e trabalho do escravo rural, feitas a partir da produgao teorica eUfopeia a respeito do operariado, apontam para a ausencia de urn pensamento integrado que desse con-ta g10balmente da escravidao como especificidade da sociedade brasileira, quando comparada aos paises da Europa.

Nao considenando a mao-de-obra escrava na cida-de, equivocando-se quando a estuda no campo, a me-dicina social nunca fez da realidade especifica da

es-cravidao - a principal for~a de trabalho da epoca -a su-a quest-ao mais fundamental, nem pnitica nem teoricamente. Tern sob sua mira a transforma~ao da cidade - e principalmente da Corte - promovendo seus habitantes livres a individuos saudaveis e patrio-tas, perfeitos cidadaos. 0 que e mais urn testemunho de que no momenta de sua constitui~ao a medicina. so-cial· brasileira nao

e

uma medicina do trabalho ou do proletario, mas lUIII3J medicina urbana.

PARTE III