A MEDICINA DO COMPORTAMENTO
CAPITULO 1 A PATOLOGIA DO COTIDIANO
E, pois, a rela<;ao com a inteligencia - ausente
perdida ou enfraqnecida na idiotia e na demencia; ex-traordinariamente ativa, de maneira difusa ou concen-trada, na mania e na monomania - que garante 0
bern fundado das distin~oes, nao permitindo que as di-ferentes especies de loucura se convertam umas nas outras.
Coerente com sua classifiea~ao das molestias men-tais, Peixoto desereve tres quadros sintomatologicos:
no primeiro, M apenas perturba~ao das faculdades in-telectuais; no segundo, a ela se acrescentam
perturba-<;6es da sensibilidade; no terceiro, aparecem ainda
per-turba~oes nos movimentos. As faIsas pereep~oes provo-cadas e transmitidas pelos orgaos dos sentidos, lesiona-dos (i1usao) ou nao (alucina~ao), e a altera~ao dos movimentos voluntarios sao entendidas como
complica-461'! A.L. Silva Peixoto, Cansiderat;oes gerais sabre a
alenia-t;iia mental, tese it Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
1837, p. 1.
464 ibidem. p. 2.
393
~6es do disturbio das faculdades intelectivas. Nao 1'0-de haver loucura que nao atinja a inteligencia.
as desarranjos in~ele~tuais estao presentes, como sintom a, na forma de delirio geral ou parcial. Ao privi-legiar 0 deliria como Dueleo diferencia1. da loucura por
oposi~ao a outras molestias, 0 autor fala de uma ca-racterfstica que, aD mesma tempo, abrange e distingue mania e monomania. De fato, a obIitera~ao completa da inteIigencia e, conseqiientemente, das determina<;6es da verdade, 0 embotamento ou entorpecimento de to-das as faculdades acabam por aproximar idiotismo e demencia, como 0 aquem e 0 alem da razao. Estes 1'0-los tao definidos, na declarada rela~ao com urn subs-trato fisico aherado e pela evidencia mesma de sua
rela~ao carente com a atividade do entendimento, es-capam ao circulo prQpriamente dito da loucura como
doen~a mental. A questao do delirio emerge, entao, do nueleo problematico constituido pela mania e pela mo-nomania, ambas apresentando desmesurada ativa~ao da inteligend3l.
Toma 0 delirio uma espantosa diversidade de for-mas: "como notar as modifica<;6es fugitivas e multipIi-cadas de urn delirio geral? Como aprofundar as infi-nitas sutilezas de urn delirio parcial? ( ... ) 0 delirio geral e mais cornum quando hi desordem nas faculda-des intelectuais propriamente ditas: 0 parcial e 0 mais das vezes relativo aos afeios, e nestes casas a iuteli..
genda
e
intacta debaixo de muitas rela<;5es"46[;. Enten-dido como perturba~ao, 0 delirio manifesta a ativa~aoe nao a destrui~ao da inteIigencia:
e
a atividade desta que se encontra desregulada. 0 delirio e urn desequi-librio, urn desregramento das opera~6es de nosso espi-rito.46;) ibidem, p. 10.
394
Se a loucura nao
e
elimina<;ao au inexistencia de f9.z50, se ~, facu1.dade continua existindo e pode meSillO.como na monomania, permanecer intacta, isto e, nao loslonada em grande parte de suas fun~6es, 0 delirio -,- erra do entendimento - DaO
e
a essencia ou a verdade da loucura como contrafa~ao que se oporia ao discurso razoavel. A presen~a da atividade intelectual aponta para a possibilidade de cura: a doen~a e dis-turbio e 0 distiirbio pode ser corrigido atraves de uma ' intenleDt;;aO sabre 0 curso desviante das ide~as e dos sentimentos.Os disturbios intelectuais sao disturbios do cere-bro, orgao da inteligencia. Direta ou indiretamente _ idiopatica ou simpaticamente - 0 cerebra e necessaria-mente atingido. Ao discutir a sede da ]oucura, Peixoto concorda com Foville para quem 0 cerebro, mais pre-cisamente, a substancia cinzenta superficial do argao
e
afetada, por ser ela que preside as fun~6es da inteli-gencia. Reconhece, porem, que esta afec<;aa nem sem-pre se da: aberto, 0 cerebro do louco permanece mu-do, ou melhor, fala contraditoriamente. A dtificuldarle reside, portanto, na impossibilidade de garantir a
re-la~ao entre 0 funcionamento aberrante da.s faculdades intelectuais com a lesao fisica da organiza~aocerebral..
De qualquer modo, a inteligencia delirante da lou-cura deve ser objeto de interven~iio, de uma a~ao tanto moral quanta fisica. Atraves da rebtiva incorporeidade da alienat;;8.o mental, 0 autor, como fizeram seus me1'-tres estrangeiros eo como farao seus colegas brasileiros.
privilegia as causas e 0 tratamento morais. Encontra.
desse modo, 0 campo proprio de a~ao da medicina mental, medicina prevalentemente moral que deve -para continuar medica - referir-se ao substrato fisico sobre 0 qual, direta, ou indiretamente, mas sempre de modo obscuro, diz pretender Qperar.
Neste sCllltido, dez anos mais tarde, Figueiredo Ira acentuar a novidade que representa a medicina da alie-395
na~ao mental: "Nao M enfermidade alguma que tanta
rela~ao tenha com a filosof,ia moral e " hist6ria do entendimento. como a de que nos ocupamos, e menos ainda alguma sobre quem pesem tantos prejufros e er-ros, no entanta que eIa 56 tern side considerada como uma lesao organica do cerebro, desprezando-se assim tOOas as considera~ces filos6ficas e morais que the
di-zem respeito"4{!6.
Na primeira tese da psiquiatria brasileira, nao e tematizada diretamente a distinc;ao entre entendimento e afeto para a conceitua~ao e classifica~ao dos diferen-tes tipos de doen~a mental. Uma separa~aonftida entre inteligenda e afetividade se eneontr" na tese de GeraJ-do Leao, conduzinGeraJ-do a atribuir it inteligencia urn pa-pel menos relevante na a]'iena~ao mental.
o
conceito geral de desarranjo, desordem ouper-turba~ao supce um estado origimirio de equilibrio nao definido e a linha harmoniosa de urn horizonte de nc>r-maJidade que s6 se toma plenamente visivel atraves da marcha irregular da razao e do sentimento: "E da mes-rna maneira que e impossivel ter-se urn completo e proficuo conhecimento de qualquer maquinismo de hu-mana invenc;ao, sem que 0 esturlemos na sua marcha tanto regular e ordimi.ria, como irregular e extraordimi-ria, assim 0 estudo da inteligencia e faculdades afetivas do homem nao podeni ser completo se nao 0 conside-rarmos tanto no estado sao e ordinaria, como nos d1-ferentes graus de aberra~ao que constituem as numero-sas variedades da alienac;ao mental"467.
A kmcura e objeto privilegiado para uma comple-ta ciencia do homem: ela permite prescrever limites
4G6 A.I.I.e. Figueiredo, Breve estudo sabre algumas ge-neralidades a respeito da alienafao mental, tese
a
Faculdadede Medicina do Rio de Janeiro, 1847, p. 2.
467 G.F. de Leao, As analogias entre 0 homem slio e 0 alie-nado e em particular sabre a monomania, tese
a
Faculdadede MediciIVl do Rio de Janeiro, 1842, p. 8.
de normalidade. 0 funcionamento articulado das facul-dades intelectuais e das facuIfacul-dades afetivas constituem o homem em sua existencia propriamente humana a urn tempo intelectual e moral. A eondu!a normal ~ 0 bo~ aJuste entre razao e vontade. Na loueura, os des-vanos. do _afeto sao mais do que simples acreseimo ou c?~lrca~ao ?as perversces do intelecto. A Joucura e OIsao e confhto entre aquelas duas ordens de faculda-des, atmge 0 homem como sujeito de razao e de voo-t~~e. Trata-s~, entao, de interrogar nao 0 tipo de de-)I?O ma,s 0 tIpO de conduta em que se retrata 0 con-f1}t? entre ~fe:ividade e entendimento. Este dupJo prin-ClplO CO?StItU!IVO do homem permite pensar a reIativa autonomIa de uma esfera em rela~ao it outra, que a c?~~lIta anormal do alienado revela. Surge dai a pos-sI~!lI.da~e de urn tipo de loucura que nao atinja a in-telrgencIa ou em que 0 fundamental seja a perturba~ao das faculd,des afetivas.
• 0 exercicio das faculdades inteIectuais e afetivas 'apresenta em cada individuo graus infinitos de for,a ou de fraqueza, de harmonia ou desarmonia, que ate ceTto p~t~ p~rmanecem no estado normaJ e ordimirio da eXlstencIa mteIectual e moral, on constituem as
di-~ers~s. variedad~ da aIiena9ao menta,]., sem que nos se-Ja facIl em mUl'tos casos determinar onde acaba 0 nor-mal e 0 sadio para come9ar 0 anormal e doentio"46R a' 0 mo.ral e_ 0 ment"l constituem 0 lugar privile~
<olado da dIsbn,ao entre normal e patol6gico, apesar da d}flculdade de se operar com criterio: se os extremos sao bern definidos, constitufdos pela evidencia de
ex-~~sos e.:~rencias da razao e da vontade, as posi90es m.ermedmnas obscurece:m. com mistur,;"s extravagantes, o olhar observador do medico mais atento.
A distin~ao e as reIa~5es entre entendimento e afe~o torn.am-se, assim, necessarias para constituir uma
468 ibidem, p. 8.
c1assifica,ao das doen,as mentais: "A aberra,ao das faculdades intelectuais e afetivas do hom em pode ser tal que ele se apresente ou em um estado de priva,ao completa de ideias e sensa,oes, ou em urn exaltamento de algumas ou quase todas as suas faculdades, c mcsmo no exercicio regular e perfeito das intelectuais com per-turbag5es somente das afetivas, ou reciprocamente aber-ra,6es bern manifestas das intelectuais com pouca ou desproporcionada altera,ao das afetivas ( ... )"469.
o
autor privilegia 0 aspecto da afetividade de duas maneiras. Por urn lado, ao afirmar que no estado pa-tol6gico de aliena,ao e muito difkil encontrar a per-turba,ao da inteligencia sem disturbios da afetividade.Por outro lado, no estado fisiol6gico, normal, e "quase impossivel que a perturba,ao das afetivas, ou por ou-tra as paix5es, turvem completamente a razao, mas elas de tal sorte a pervertem, que esta torna-se muitas vezes simples instrumento da justifica,ao e obten,ao do objeto daquelas ( ... )"470.
E significativa a ideia do usa puramente instrumen-tal da razao como justificativa da conduta - mesmo normal - orientada pelas paix6es. Tal no,ao permite estabelecer analogias entre 0 homem sadie e 0 alienado.
Ela esclarece, por exemplo, 0 significado que 0 autor atribui ao primeiro grau de mania, correspondente a mania raciocinante de Pinel ou monomania afetiva de Esquirol: "Nesta especie de ali~na,ao ment~l podem-se admitir tres graus, urn primelro a que Pmel deno-mina mania raciocinante, na qual 0 individuo raciocina bern, conversa e escreve, mas por urn contraste singu-lar quebra e rasga a cama, a roupa e tudo 0 que en-contra, procurando sempre uma razao plausivel para justificar a sua conduta"471.
4GV ibidem, p. 8·9.
4'i'!(l ibidem, p. 9.
471 ibidem, p. 11.
398
Confirma-se, assim, 0 desprestigio do problema da inteligencia para caracterizar a loucura. A quesHio se desloca das ideias para a conduta: 0 alienado pensa bern mas age mal. Segundo 0 autor,
ha
grandes racio-cinadores incapazes de bern regular seu comportamento.o que representa urn perigo politico para os povos se se deixam levar, na condw;;ITo de seus destinos, por esse tipo de individuos.
Ha
tambem homens que, in-capazes de bern combinar as ideias, sao de irrepreen-sivel honestidade e regularidade de conduta. Estes sao preferiveis aqueJes. Na compara,ao entre 0 homem co-mum e 0 alienado, 0 nivel moral e 0 nivel fundamental de considera,ao.A distin,ao clara entre faculdades intelectuais e faculdades afetivas, e a relativa autonomia de umas em rela,ao as outras, possibilita que se privilegie a afeti-vidade, 0 nivel da pa;xao ou da vontade que caracte-riza 0 tipo de loucura denominado monomania: "Esta influ8ncia reciproca de uma ordem de faculdades sobre a outra pode ser tao fraca que a razao ditando certa linha de conduta, 0 homem nao tenha uma vontade assaz energica para cumprf-la, ou pelo contnirio pode a vontade impelir-nos a cometer urn ato injusto alta-mente reprovado pela razao, a qual tendo ate certo ponto poderio bastante para conter 0 homem, pode logo depois cessar de 0 ter para deixa-Io praticar automa-ticamente atos atrozes, que par sua mesma natureza vern a caracterizar varias especies de alienagao
men-tal ( ... ) denominadas monomanias"472.
~ no conce:to de monomania que as teses brasi-leiras, repetindo Esquirol, VaG en~ontrar na loucura a prevaleneia da paixao sobre a razao. Como
conseqiien-cia, a questao do delirio perde importancia. Assim, por exemplo, ao discutir 0 fen6meno da alucinagao, Leao
472 ibidem, p. 9.
399
j
admite casos em que este fenomeno nao vern acom-panhado de maiores disturbios da inteligencia e da con-duta. Por si s6, e sem rela<;ao com atos desregrados, as percep~5es falsas, delirantes, nao indicam Ioucura se 0 homern, embora considerando-as verdadeiras, nao as leva em considera<;ao: "ele as considera como uma ordem de percep<;5es ins6Iitas, que ele despreza, e que nada influem sobre sua conduta uma vez que nao ver-sem sobre objetos essencialmente motores de alguma
a\=ao"473.
<-Por sua vez, Carneiro da Rocha, admitindo a de--fini<;ao de monomania como deHrio parcial, afirma que o que a distingue
e
nao s6 "a ponca extensao do de-liria, mas ainda a lucidez, a c1areza das ideias,e
0exercfcio em aparencfa normal das fun<;5es intelec-tuais" "'. Elemento da defini<;ao de monomania - que a distingue de outras formas de loucura - 0 deHrio e urn sintoma com a estranha propriedade de nao se manifestar. Observando 0 monomaniaca, muitas vezes
"nao denotamos cousa alguma que nos mostre a lesao parcial de sua inteligencia"475. Mistura do pato16gico e do normal, a monomania
e
a Ioucura propriamente dita, porque nela se descarta definitivamente 0 problema da inteligencia como ntideo da aliena<;ao mental: "A mo-nomania enfim e 0 verdadeiro tipo de loucura, e neste estado que a molestia se afasta de todos os estados pa-tol6gicos conhecidos: a monomania e a reuniaobizar-fa do deliria e da razao"476.
Por fim, vamos encontrar em Albuquerque a de-finic;ao cIassica de monomania e a enfase no aspecto afetivo. Para 0 autor, a monomania e deHrio parcial,
473 ibidem, p. 14.
414 Carneiro da Rocha, Do tratamento das molestias mentais"
tese
a
Faculdade de Medicina da Bahia, 1858, p. 9475 ibrdem.
476 ibidem.
com predomfnio de uma id6ia fixa, de urn sentimento ou de uma paixao; a atividade da irrteligencia e normal em todos os outros pontos que nao sejam objeto de deHrio; ha aguc;amento da razao enquanto coerencia 16gica, emhora a servic;o de proposic;oes falsas. Esse ti-p_a de a~ien~c;~o .nao reside necessariamente na perver-sao da mte,'gencm: pode ou nao transmitir-se a ela.
"A perversao das inclina<;5es, das afei<;5es e sentimel'-tos do monomaniaco aC3ba finalmente por arrastar a desordem da inteligencia, mas ela pode existir sem uma perturba,ao desta Ultima faculdade" 4". Desaparecida a desordem sensivel da inteligencia, desaparecido 0 delii-rio ou diminufda sua importancia, inverte-se a relac;ao causal: a perversao da afetividade constitui-se em fator determinante de loucura.
Albuquerque admite duas grandes categorias de doenc;a: a monomania raciocinante c a instintiva. Na primeira, a inteIigencia delirante fornece motive aD ato de vorrtade, na segund,1' a inteligencia reprova 0 ato imotivado da vontade. Nesta ultima, nao ha delirio nem motivo, mas puro ate de vontade sem submissao a nenhuma regra, justa au ilus6ria, de razao. 0 usa dessa distinc;ao 6 urn argumento para I.iberar a Iou~nra
moral de qualquer dependencia com relacao
a
razao.Assim "na monomania homicida instintiv~ os doentes matam sem motivos, sem paixao, por uma tendencia incxplicavel, invendvel; enqua.nto que na raciocinante eles comete~:l 0 assassinato com ;oremeditac;ao sentero todo 0 horror que Ihes inspira
~
icteiadelir~nte;
hiuma verdadelra luta em seu espfrito, mas a sua vonta-de 6 vencida., e sao finalmente levados a executa-Io"478.
. , Campo de batalha entre faculdades independentes, vltona perversa de uma sabre a outra, 0 monomanfaco
477 F.I.F. Albuquerque, Disserta9iio sobre a monomania, tese
a
Faculdade de Medicina da Bahia, 1858, p. 1.478 ibidem, p. 13.
401
- el em especial 0 monomanfaco instintivo -
e
aquestao mais intrigante para a psiquiatria nascente. Nes-te sentido, e em Albuquerque que apa,rece, com malor nitidez, 0 deslocamento da questao da loucura para 0
nive! da percflP"ao diferencial entre a conda!a normal e a patol6gica, percep<;ao de que 0 senso comnm e in-capaz.
as
monomaniacos "passam anos e muiltas vezes morrem, sem que se tenha ao menos suspeitado a exis-tfficia de urn tal desarranjo; ou passaro geralmente por homens irritaveis e sensiveis em excesso, orig.inais esingnlares"479.
Questao grave de conseqiiencias, que diz respeito it detec<;ao de urn perigo: :a presen<;a do louco, apa-relltemente normal, misturado it popula<;ao.
Para 0 autor, a monomania
e
"a forma da loUCUT:l que mais dificnldades oferece para ser diagn?sticada:porquanto 0 medico nao podeni demarcar preClsamente
d d d - "4SO
N-os limites que separam esse esta 0 0 e razao . ao se opondo
a
razao, a monomania - loucura p:opriamen-te dita - deve ser pensada como perturba<;ao que se opoe it norma e esta, por sua vez, e definida em referen-cia ao nive! moral e soreferen-cial.. "0 espirito dos homense
tao facilmente impressionado por uma multidao de circu~<tancias que e impossivel estabelecer urna norma, alem da qual, as faculdades deixariam de estar em sua
mte-gridade"481.
Perdida a evidencia do discurso desarrazoado, per-de-se 0 criterio da norma de racionalidade. A norma nao esta dada para sempre e por antecedencia, nae esta mais claramente presente para medir a distanci"
insupenivel que sep'ara razao e loucura. Ela devera ser constituida minuciosamente par uma interrogac;ao quI'"
amplia de maneira consideravel 0 campo de observa
47!) ibidem, p. 1.
·1.80 ibidem, p.,23.
481 ibidem.
402
,ao medica ao se dirigir ao homem moral e it sociabi lidade.
a
conceito de monomania serve aos objetivos deregula<;ao moral do comportamento a que se propoe a medicina mental.
"OIlde esta pois 0 limite que separa a rOlao d"
loucura? Com que sinais pode 0 medico reconhecer e provar
°
desarranjo intelectual de maneira a nao ser o ludibrio daqueles que pretendem atenuar ou iludir a justi<;a sob pretexto de loucura; e destarte poder as-severara
autoridade,a
sociedade,a
familia, que estao suspensas em sua decisao, que urn tal desarranjo existe ou nao?"482 .A legibilidade imediata da loucura desaparece, 'Os sinais podem ser enganadores. Cabe ao saber me-dico, a servi<;o da autoridade social, distinguir 0 normal e 0 patol6gico, como tambem a verdade da loucura e seu simulacro, 0 louco e 0 simulador. Isto so sera pos-sivel ao nivel das condutas longamente observadas, pois e nelas que se revel am a continuidade e a mistura do razoavel e do passional.
Essa tarefa de conhecimento se coloea de imedia-to ao nivel das !l"ixoes: "0 que importa conhecer com exatidao sao os caracteres' distintivos da paixao, a que
'0 homem pode ser sujeito., e os da loucura; mas,
e
mister confessa-lo, nao se podera indicar 0 ponto pre-ciso que separa a luz .das trevas, a paixao da
monom:1-nia ( ...)"483.
Opera-se, desse. modo, a disjun<;ao entre paixao regrada e desregramento das paixoes. Disjun<;ao teori-ca dificil de se estabelecer na pratiteori-ca. Pratiteori-ca que co-loca, em principio, todos os individuos e todos os seus atos sob sllspeita de anormalidade.
a
diagnostico se constitui ao percorrer uma hist6ria: "Se compararmos as diferen<;as que existem em a natureza dos seusgos-482 ibidem.
483 ibidem.
403