2. Sintonizando os Olhares: visões políticas, teóricas e metodológicas
2.4. Aproximações do campo e procedimentos analíticos
Durante aproximadamente 1ano tive contatos freqüentes com quatro jovens, como já comentei, três destes jovens eu havia mantido algum tipo de relação anterior na época que trabalhei no Programa LA. O que eles tinham em comum a princípio era o fato de serem homens, terem infracionado quando adolescentes, terem passado por Medidas Sócio-Educativas em Olinda e terem recebido extinção de medida.
Havia também mais um critério que me parecia caminhar junto com a idéia de “egresso”. À medida que fui tomando contato com esses estes jovens pude ir relativizando a idéia de estes jovens terem se “dado bem”, conseguido encerrar a medida sócio-educativa e supostamente estarem “melhor” do que antes, isto é significativo na pesquisa e gera interpretações sobre os corpos masculinos e a efetividade das Medidas Sócio-Educativas.
A forma como cheguei a estes jovens foi adversa, tendo mais uma vez o encontro com o acaso, visto que não houve possibilidade de aprofundar o contato com dois dos jovens programados para participarem da pesquisa, devido a dificuldades e indisposições mediante a um episódio novo em suas vidas. Um dos jovens foi preso e encontrava-se então no presídio e outro havia sido recrutado pelo serviço militar e estaria no quartel trabalhando por um bom tempo.
Estes caminhos já enunciavam trajetos e nuances sobre os homens jovens, a continuidade de suas vidas, suas práticas corporais, o prolongamento de vínculos institucionais com o Estado, pois ao saírem de uma instituição – o Programa Liberdade Assistida – logo ingressaram em outra, que são ambientes reconhecidos pela hipermasculinização, ou seja, o reforço de identidades e representações masculinas hegemônicas ligadas à força, a virilidade e a honra.
Pois bem, este impedimento acabou gerando um contato com outros dois jovens, anteriormente não planejados, que possibilitaram trilhar rumos diferentes do esperado, favorecendo assim o inusitado e uma diversidade maior de trajetórias e olhares sobre as Medidas Sócio-Educativas.
Ao longo dos meses, fui me encontrando com estes jovens em locais por eles sugeridos, na maioria das vezes em seus locais de moradia, e por vezes em outros espaços próximos a sua residência. Isto aponta para algo interessante porque nos encontramos em espaço doméstico, pouco evidenciado por homens, enquanto local de socialização e diálogo, principalmente quando falamos de jovens de têm suas trajetórias evidenciadas por ações em espaços públicos. Estar nestes ambientes familiares, dizem também do conteúdo de suas narrativas que em diversos momentos remetem a intimidades e experiências singulares.
Neste sentido, é interessante notar que em vários estudos o espaço público e coletivo é priorizado ao teorizar sobre jovens homens, em especial os que estão associados à violência e criminalidade (DIÓGENES, 1998; RIBEIRO, 2005; ZALUAR, 2004). Uma idéia recorrente dos/as estudiosos/as é dos jovens e homens se sentirem mais a vontade em grupo, seja por sua fala se tornar coletiva, seja pela afinidade entre os pares e seu fortalecimento do discurso, ou ainda por delimitar o grau de intimidade/permissividade acesso a sua subjetividade e opinião pessoal. Estas questões sugerem as dificuldades enfrentadas pelos/as pesquisadores/as ao lidar com esse universo. (DIÓGENES, 1998; RIBEIRO, 2006; NASCIMENTO, 1999).
Outro fator também pode influenciar estas produções, a própria valorização que é dada ao construído no espaço público, uma crítica fundamental da produção feminista que delimita uma assimentria de valores ao âmbito do privado em relação ao público. Além disso, o que se tem evidenciado em alguns estudos com jovens homens é a performance e justificativas para atos violentos e criminosos.
Imanentes a estas performances violentas e transgressoras destes homens jovens, há outras práticas e campos que revelam aspectos importantes para compreender suas vidas, outras vivências no campo afetivo, no espaço doméstico, na vida reprodutiva, na intimidade e sentimentos que podem ser compreendidos como contrários ao exercício da violência como a dor. Perceber que os valores de honra e virilidade frequentemente analisados em estudos se pautam em emoções ofuscadas, ou menos valorizadas socialmente e que favorecem uma compreensão parcial, reproduzindo por vezes o próprio machismo e sexismo cultural.
Estudar estes homens jovens que têm a infração com fato marcante em suas trajetórias de, não significou para mim reduzir suas vidas à violência praticada por eles, ou suas experiências enquanto homem interpretadas pelo exercício de poder. Preferi também dar
visibilidade a esferas da vida do homem por vezes invisibilizada, seja nos estudos que tratam de violência, seja nas políticas públicas destinadas a este grupo. Scott (2000) ao pensar em políticas públicas para homem dando ênfase a diferenças de homens com base nos domicílios e moradias, comenta: “é importante que se trabalhe a favor de políticas para homens que são “de casa” e não somente “da rua”. Lyra e Medrado (2000) evidenciam esta problemática ao discutirem a realidade das pesquisas e instituições que trabalham com dados estatísticos sobre informações de domicílio e no campo da saúde reprodutiva, mostrando a invisibilidade e exclusão dos homens neste campo.
As emoções servem como recurso para analisar os corpos masculinos e suas práticas expressivas no exercício de uma interpretação que complexifique as relações de violência e gênero em nossa cultura, produzindo críticas a algumas polaridades cristalizadas em nossa sociedade como, por exemplo, a de vítima/algoz.
Pensando no campo que desenvolvi, o espaço onde foi produzido, a meu ver, traz repercussões e já é um dado da relação etnográfica que se funde com as narrativas e fatos que foram vividos junto com estes jovens. No trabalho de campo olhares diversos sobre os homens, seus corpos e emoções são produzidos, através de narrativas se evidencia a subjetividade, em espaços domésticos e privados, onde o tom das falas é pessoal, de intimidade, afetividade e por vezes de confissões, como também, apresentam contradições e contrapondo com ausência desta intimidade e fala pessoal.
Um outro território é tecido, criando um re-ordenamento. Ao invés de produzir conhecimentos com/sobre homens jovens “infratores” que privilegiem os espaços públicos (ruas da comunidade, grupos de pares, gangues, em instituições correcionais e sócio-educativas), direciono o olhar especialmente, mas não exclusivamente, para espaços de privacidade (domicílios e locais marcantes em suas trajetórias). Esse recurso estimulou a fala pessoal e as experiências singulares, fazendo com que infrações e práticas de violência pudessem ser analisadas a partir de relatos de intimidade, privação e privacidade, constituindo um contraponto importante a relatos impessoais e fragmentados do coletivo, mais freqüentes tanto nos estudos quanto nas reportagens da mídia.
Aqui começamos a produzir em territórios imanentes onde não se pode dissociar o público do privado e tudo que é produzido nestes espaços, que estão em coexistência e se permitem fundir no corpo e nas fala destes homens jovens.
Salas, quartos, cozinha e terraços de casa, locais privilegiados em meu trabalho de campo com os homens jovens, isso me possibilitou sentir um maior movimento nas dinâmicas familiares além de ouvi-las narradas (somado aos meus contatos prévios na época que ainda
trabalhava no Programa LA). Estes lugares foram os permitidos e convidativos para navegar em suas histórias, alguns destes cômodos se fundiam pela própria estrutura da casa, podiam ser ao mesmo tempo quarto-sala-cozinha. Houve dinâmicas diferentes em cada entrevista, com um dos jovens (Toco) nossos contatos ocorreram nas imediações de sua comunidade, fora de sua moradia.
De uma forma geral os encontros ocorreram entre mim e o jovem, contudo pessoas do ambiente doméstico e da comunidade participaram dos diálogos, interviram e conduziram para diversos assuntos quando os encontros eram realizados com a presença de membros da família ou em espaços públicos, na presença de outras pessoas. Ao longo da pesquisa de campo fiz contanto com diversos parentes: mães, companheiras, irmãs(os). Contudo, meus dados se baseiam majoritariamente nos relatos dos jovens. A exceção ocorreu com Dinho, que tive um contato muito mais freqüente com D.Maria (mãe do jovem) e foi importante para conseguir construir a história do mesmo.
As entrevistas, em sua maioria foram gravadas, variando a quantidade de horas gravadas de jovem para jovem, mas com uma média de cerca 8 horas de gravação para cada um deles. Os encontros que não foram gravados eram momentos de caminhar pelos espaços comunitários que marcaram a trajetória de vida destes jovens. As atividades de um dia no campo poderiam durar cerca de uma hora como também uma manhã ou uma tarde.
Antunes (1994) comenta que teve uma variedade nas horas de entrevistas entre as informantes, em virtude das particularidades das pessoas por ela entrevistadas e pela interação estabelecida entre ela e as mulheres que falaram de suas histórias de vida na pesquisa.
Achei bem ilustrativo este comentário, semelhanças em minha experiência de campo também ocorreram, mesmo dentro de uma dinâmica própria, houve casos de entrevistas com jovens que duraram mais de 10 horas no total de gravações e em outros casos com aproximadamente 6 horas de gravação. Maria Isaura (1953; 1988) também comenta algo parecido, ela observa que cada história de vida tem tonalidades próprias, de acordo com a relação construída entre pesquisador/a e entrevistado/a.
O processo intersubjetivo que se dá na produção do campo propicia espaços para se pensar estas diversidades que se traduzem em tempo de gravações, suscitam intensidades de contatos estabelecidos entre o antropólogo e os diversos sujeitos da pesquisa, dosando disponibilidade, envolvimento, abertura, implicação e permissão, manifestando distintas formas de relacionamento entre pesquisador e pesquisado. Estas questões são levadas em consideração na analise dos dados, principalmente quando estamos pensando em narrativas
que fundem o público e o privado; a intimidade e a impessoalidade, pautadas na experiência subjetiva de uma vivência coletiva.
Roberto Cardoso de Oliveira (2000) propõe uma dimensão dialógica no encontro etnográfico, ou seja, é estabelecimento de uma relação no contexto da entrevista que faz com que pesquisador e interlocutor criem um espaço semântico partilhado, onde se constrói um vínculo que busca quebrar as relações de poder vigentes entre pesquisador e pesquisado, podendo construir uma via dupla, dando mais qualidade e profundidade aos conteúdos da entrevista.
Ressalto que, na especificidade de meu trabalho de campo, construir este “território” onde se é permito e possível uma relação dialógica, só é possível através da vivência empírica, da abertura intersubjetiva que é vivida no momento do encontro e que não pode ser produzida através de um texto, mas sim quando algumas coisas passam a ser ditas e afirmadas através da confiança, da afetividade e do prazer diante da companhia do antropólogo, e, reciprocamente é o antropólogo recebe afetivamente partes de suas vidas, demonstrando respeito por suas intimidades e escolhas.
Acho importante fazer referencia as críticas trazidas por Clifford (2002) sobre as relações de poder que balizam a produção etnográfica, a dimensão hierarquizada e assimétrica onde se consolida o intenso envolvimento intersubjetivo, bem como sua crítica ao texto. A este respeito, procuro ter clareza da efemeridade desta produção, como algo que terá triunfo se for revisitado. Além disso, me descomprometo com a verdade universal e procuro tecer algumas interpretações formuladas a partir da tensão entre minhas vivências empíricas e os recursos teóricos por mim adotados. Penso que a construção da minha relação com os jovens remete a várias questões que transbordam as possibilidades de mapear em sua totalidade estas “interferências” e prefiro que estes “problemas” sirvam de tempero para este saber que venho produzindo. Também é importante ressaltar como o respeito e a reciprocidade, favorecem simultaneamente um encontro menos tencionado pelo poder cristalizado (nas figuras de pesquisador e pesquisado) e mais alimentado pelas contribuições e afinidades que cada um só pode dar pelo lugar que ocupa no determinado momento em que a pesquisa foi desenvolvida.
Este espaço de campo produzido pelo meu encontro com outros homens também remeteu a relações entre homens com vidas e trajetórias distintas, recortadas por marcadores de condições culturais, materiais e sociais (formação educacional, poder de consumo, habitação, raça/etnia, religião, estética, orientação sexual etc). O fato de que tínhamos uma idade próxima propiciou aproximações no diálogo. Mesmo com algumas afirmações sobre relações entre homens serem muitas vezes tecidas em arenas de disputa de poder (Bourdieu, 2003), onde se
privilegia uma abstinência sentimental em benefício de uma performance seca, bruta e arredia, foi possível configurar outras formas de relação entre homens onde as relações de poder não se manifestavam pela indiferença ou agressividade, possibilitando diálogos que conplexificavam os arranjos das masculinidades, evidenciando o companheirismo, a cumplicidade e o cuidado presente em nossos encontros.
O diário de campo se configurou como um instrumento muito importante, após as entrevistas e contatos com os jovens, no ônibus durante toda a viajem de volta para a minha casa, fazia meus registros refletindo sobre os episódios recentes que marcaram aquele dia e resgatando nas memórias situações vividas que enriquecessem minhas impressões. Nos momentos que não era pertinente fazer gravações, meus registros no diário pretendiam ser mais descritivos e detalhistas sobre os momentos vividos e as conversas ocorridas. Eu também estava com meu diário de campo nas reuniões de orientação da pesquisa, nos encontros científicos, enfim em todos os momentos que eram importantes e poderiam brotar situações, impressões, comentários e idéias relevantes para a pesquisa. Além disso, o diário confidenciava minhas primeiras reflexões teóricas, os “insigths”, os “lampejos”, que por vezes surgiam desordenados e a partir de tais anotações passavam a ganhar corpo e conduzir as páginas desta dissertação.
Em meu último momento da pesquisa de campo, convidei todos os jovens a participar de um filme que pretendia desenvolver como um material “educativo” que tivesse circulação e pudesse ser de acesso dos próprios jovens pesquisados, seus pares, bem como profissionais e outros públicos interessados nas temáticas da pesquisa e que dificilmente teriam acesso à dissertação. A participação deles consistia em comentar aspectos de sua trajetória de vida que se sentissem a vontade para falar e que circulasse em torno de suas experiências sobre sua infância, seus envolvimentos com práticas infracionais e vivências no sistema sócio-educativo, com objetivo de editar depoimentos relevantes para se pensar os corpos masculinos e a violência urbana. Todos os jovens participaram com exceção de Dinho, que preferiu não participar deste momento, as filmagens ocorreram em espaços sugeridos pelos jovens e aconteceram com no máximo três encontros com cada um dos jovens. Desta forma, a idéia do vídeo também possibilitou mais um instrumento de coleta de dados, mas principalmente favoreceu a produção de um material complementar à pesquisa. Neste vídeo também houve a participação técnica de outra profissional que produziu as imagens, bem como foram entrevistadas outras pessoas que não compunham o corpo de minha análise.
A análise dos materiais aconteceu com base nas situações vividas durante o campo, minhas memórias e impressões acerca das diversas situações presenciadas. As narrativas dos
jovens foram escutadas inúmeras vezes, com os principais pontos narrados pelos jovens em cada uma das entrevistas, foram construídos resumos e esquemas para facilitar a formulação de uma estrutura de significação, indicadores e temas de análise. Apoiado nos comentários de Geertz sobre a descrição densa:
O que chamamos de dados são realmente nossa própria construção das construções de outras pessoas, do que elas e seus compatriotas se propõe – está obscurecido, pois a maior parte do que precisamos para compreender um acontecimento particular, um ritual, um costume, uma idéia, ou o que quer que seja está insinuado como informação de fundo antes da coisa em si mesma ser examinada diretamente (1997:19).
Ao trazer histórias de vida, mapeei inscrições de uma subjetividade que se constitui na cultura. Esta subjetividade é compreendida a partir das condições materiais e simbólicas que o sujeito tem acesso e constrói sua identidade em permanente processo de transformações, na medida em que experimenta novas condições materiais e simbólicas.
O corpo sexuado, corpo do homem, masculino, passou a ser um referencial identitário primário28, suas experiências de vida são constituídas a partir deste corpo, os simbolismos e a
materialidade que o acompanha.
Aqui a opção de trabalhar a partir de um referencial de gênero se faz por uma opção teórica-política de compreender o corpo sexuado como inscrição anterior29 a existência destes
jovens e vai se inscrevendo ao longo das suas vidas (engendrando) na relação de seu corpo com o mundo social.
Assim, construí um caminho de análise, com arranjos e desarranjos que culminaram a escolha das práticas corporais e das expressões emotivas como recursos analíticos. Procurei direcionar minha interpretação da violência através das formas que os homens jovens pautam seus referenciais masculinos, no fortalecimento e fragilidade dos laços afetivos e na forma como expressam a dor a revolta. Além disso, fiz referências temporais, de suas vidas “antes” e “depois” das MSE, tecendo uma reflexão nos diferentes arranjos ao longo de sua trajetória e as influências do sistema sócio-educativa em seus dos corpos.
28 O fato de os sujeitos ainda em feto já possuírem um sexo e formas de tratamento de acordo com tal expectativa, ou ainda em planos e idealizações dos pais quando ao sexo do filho/a que desejam. Compreender como inscrição “primária” enfatiza a importância simbólica e material do sexo nas subjetividades e na cultura. Pontuo a relevância cultural do sexo sem colocá-lo em uma escala de posições com a dimensão racial, de classe e heteronormativa, mas reforçar a imanência de tais referenciais.
29 Em nossa cultura se nasce menino ou menina, o “intersexo” é uma categoria geralmente associada a uma “anomalia”, e, neste sentido, antes de qualquer destes homens jovens existirem, culturalmente já existiam seus sexos e referenciais identitários que os nomeiam e dão sentido.
Ao utilizar o termo jovem para tratar dos homens cujas histórias formam o corpus desta pesquisa, procuro anunciar uma delimitação geracional e uma configuração cultural própria. Vou ter implícita a idéia de que são categorias construídas socialmente e se tornam categorias analíticas relevantes na academia a partir de peculiaridades, ou de coisas em comum que permeiam este grupo geracional.