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2. Sintonizando os Olhares: visões políticas, teóricas e metodológicas

2.3. As estradas e o caminho: norteando os passos

Ter consciência e sensação de que as coisas vão dar “certo”, mas não do jeito que foi planejado, é uma boa maneira de iniciar uma produção científica. Saber que se há dedicação, reflexividade e envolvimento existe uma boa chance de conseguir construir um conhecimento sobre o que te provoca, sobre esta alteridade que por vários momentos te mobilizou, e em outros imobilizou.

A consciência da inevitabilidade do movimento possibilita olhar para o conhecimento que estamos produzindo, vê-lo não como uma verdade universal, mas como um saber que questiona a realidade e procura traçar fronteiras conforme as formas de conhecimento existentes neste momento histórico. Neste sentido o conhecimento produzido está intimamente ligado à lógica de como opera o pensamento suas formas, informações e questionamentos. Ao invés de descrever regras ou estruturas universais, talvez seja possível analisar “estruturas relativamente estáveis sobre uma plataforma móvel” ou uma diversidade de possibilidades que expressa múltiplas dimensões do real. O desafio é buscar metáforas e signos que possibilitem a expressão destes conhecimentos (BALANDIER, 1997).

É neste oceano inquieto da ciência, que grandes ondas já ocuparam patamares de verdade universais e esqueceram em seu momento histórico, de olhar para as marés, correntezas e bases temporais que alimentavam seu movimento, elas chegaram à praia, viraram espumas e voltaram ao mar para constituir outras ondas com novas correntezas e bases temporais. Eu me aporto em uma destas ondas e o que posso fazer é procurar olhar para dentro dela e tentar explicitar o que compõe a sua cadência.

Acho que a própria idéia de onda já contextualiza possibilidades e limitações deste conhecimento, situando-o cultural e historicamente e, como aponta Velho (1981) , a construção do conhecimento da vida social sempre implica em um grau de subjetividade, “a “realidade” (familiar ou exótica) sempre é filtrada por um determinado ponto de vista do observador, percebida de uma maneira diferenciada ... a necessidade de percebê-la enquanto objetividade relativa, mais ou menos ideológica e sempre interpretativa” (pág. 42). Além disso, como nos ajuda a ampliar este debate, Peirano (1995) pontua que “a prática etnográfica – artesanal, microscópica e detalhista – traduz como poucas outras, o reconhecimento do aspecto temporal das explicações”(pág. 57).

Parte das idéias e análises trazidas aqui vem do encontro de minha subjetividade, vestida de uma sensibilidade técnica e afetiva, com uma realidade institucional que por dois anos estive imerso, do encontro com os adolescentes em conflito com a “lei”, suas famílias, seus espaços comunitários e a própria dinâmica de sua relação com a Justiça do Estado e com suas infrações. Minhas memórias e anotações demarcam um primeiro espaço etnográfico no qual me alimentei para ir delimitando este campo e construindo informações e indagações sobre o que me provocava, este ambiente favoreceu meu contato com várias situações nas quais um olhar de “gênero” estimulava indagações (os espaços onde circulavam os homens e as mulheres já diziam bastante sobre as representações e referenciais identitários que alimentavam aquelas experiências), imanente a este aspecto, foi possível construir um olhar crítico sobre uma política

pública local que tratava desses adolescentes, ensejando uma série de conflitos sobre as desigualdades sociais, os processos de exclusão e os distanciamentos culturais entre os diversos grupos sociais, suas práticas corporais e suas linguagens.

Apesar de não me encontrar institucionalmente e nem formalmente na condição de antropólogo, este primeiro momento empírico foi alimentado por algo próximo do que Roberto Cardoso de Oliveira chamou do trabalho do antropólogo (2000), pois eu ia, intuitivamente, desenvolvendo uma sensibilidade para olhar e ouvir as situações que apareciam e já esboçando os primeiros escritos – com uma peculiaridade própria – e em muitas vezes eu era assessorado por Luciana Ribeiro, que era minha supervisora e estava cursando o Mestrado em Antropologia, sempre trazendo textos e provocações com sensibilidade em descrever os encontros e as alteridades que lá se mostravam. Credito, em parte, meu ingresso na Antropologia pela boa “sedução” que tive nos nossos diálogos e nos levou a problematizar questões vividas naquele cotidiano institucional a um refinamento reflexivo dentro de um empreendimento científico. Além disso, meu envolvimento com os debates acadêmicos e dos movimentos sociais sobre as questões de gênero iam ficando cada vez mais presentes no meu cotidiano, fortalecendo meu ponto de vista teórico.

Desta forma, o meu prolongado contato com uma realidade institucional marca intensamente este trabalho, pois ao resgatar o tempo que habitava estes espaços, inumeráveis são as situações que presenciei que podem ilustrar partes desta pesquisa. Não caberão nestas páginas boa parte do vivido e sentido ao longo deste período intenso de imersão neste campo das políticas públicas com jovens em conflito com a “lei”. Tenho consciência que esta vivência delimita muitas reflexões tratadas aqui. As discussões de gênero, emoções, corpos masculinos e suas práticas, em muitas ocasiões foi realizada tendo como norte os jovens e suas famílias que passaram pelas políticas públicas de Medidas Sócio-Educativas, neste sentido, gerando problematizações para os próprios Programas e Instituições responsáveis legais pela execução das medidas. Talvez seja um tom de objetividade e funcionalidade em uma produção que poderia ser mais descomprometida com esta esfera. Contudo, esbarro em minha subjetividade e na sensibilidade política que tenho, a possibilidade de retorno desta produção, sem a pretensão e armadilha de ser um modelo de aplicações, mas construir indagações que possibilitem pensar a violência urbana (em especial aquelas protagonizadas por jovens homens) e sua política pública específica.

Para ampliar os “temperos” desta produção, outra parte de meu campo vem de um desordenamento deste espaço, eu não pertencendo mais institucionalmente a esta política pública, nem trabalhando com jovens que pertencem mais a ela. Saindo do Programa de

Adolescentes em Conflito com a Lei, continuei desenvolvendo a pesquisa e construindo uma parte privilegiada do campo com homens jovens que eram egressos deste Programa, já não faziam mais parte dele, já não tinham mais a obrigação em cumprir medidas – esta é a parte mais privilegiada de meu campo.

Três destes homens jovens já haviam tido algum contato comigo na época que estávamos no Programa, mas procurei construir outro arranjo na relação durante o percurso da pesquisa de campo, uma vez que o Programa já era externo ao nosso tempo e interno às nossas experiências.

Este campo, construído em espaços diversos (dentro do Programa e nos espaços comunitários – fora do Programa), proporcionou visualizar a impossibilidade que tive de fazer uma análise do Programa LA como era a minha intenção de início. Os relatos dos jovens sobre suas experiências e vidas iam se tornando centrais para minha pesquisa, ficando impossível dissociar suas experiências nas unidades de internação, nos momentos de audiência, nos contatos com a polícia, com suas experiências comunitárias na constante reconstituição de seus corpos, fazendo com que o Programa estivesse dentro de uma realidade maior que era a da relação destes jovens com a cultura e que se expressava na relação de seus corpos, de suas emoções e com o “sistema sócio-educativo” como um todo.

Apesar de certa rigidez ter dificultado uma fácil visualização destes arranjos que eram constituídos na medida em que eu caminhava com a pesquisa, fui conseguindo me confortar com a incerteza mobilizadora do novo, afinal de contas era esse meu princípio básico enquanto pesquisador, entrar em contato com estes homens jovens que passou pelo cumprimento de medida sócio-educativa e poder ir tecendo um texto sobre sua experiência de vida, os sentidos acerca de sua vivência enquanto homem e de suas infrações. Buscava dados que se confrontassem com uma realidade a ser explorada e não apenas referendada com base em pesquisas e estudos anteriores, ou expectativas preliminares pessoais acerca do campo.

Estas mudanças de rumo eram comentadas como normais por orientador/a e colegas de estudos, Antunes (1994) ao construir sua dissertação com história de vida de mulheres comenta que o desenrolar das entrevistas mostrou “situações inusitadas” e, por um momento, pensou estar “traindo” os critérios inicialmente estabelecidos, contudo se entrega as “diversidades e sutilezas das situações reais” considerando as formas como se apresentavam. O sentimento de identificação com estas experiências, bem como a certeza sobre o incerto, faziam com que as desordens fossem assimiladas, favorecendo a produção deste trabalho.

Ao optar por trabalhar com os corpos de homens jovens e fazer deles uma experiência etnográfica, eu entrei em um caminho com vários intercruzamentos de sentidos e significados,

muitas vezes carregados de tensão, neste campo que se inscreve o uso da narrativa, a história de vida e a trajetória individual. Esta arena de debates não apresenta um consenso, e sim, algumas aproximações por afinidades teóricas e concepções de conhecimento. Eu particularmente trago um recorte do debate e as compreensões gerais que balizam o uso de tal recurso metodológico neste trabalho.

A história de vida é um recurso clássico adotado nas pesquisas na área de ciências sociais, em alguns momentos históricos tiveram uma grande aceitação, em outros um menor reconhecimento, principalmente por se tratar de uma técnica qualitativa vista com baixa confiabilidade nos dados, argumento principal de pesquisadores e correntes que demonstravam afinidades com a idéia de verdade universal sendo propulsora dos achados científicos. Contudo, Langness (1973) consegue descrever o seu uso mesmo dentro de um rigor “positivista” atribuindo critérios técnicos que poderiam ser muito bem controlados por um pesquisador/a bem preparado, apresentando uma afinidade com os dados qualitativos traça “o caminho” para se obter dados confiáveis. Piscitelli (1993) aponta como algumas linhas de trabalho com história de vida “tratam de controlar, através de diversos mecanismos, a “verdade” dos dados levantados para evitar os perigos implícitos na memória” (pág. 153).

Já Queiroz (1953; 1988) traz uma crítica ao objetivismo, compara a história de vida a outros métodos de coleta de dados com base oral, aproximando desta forma este recurso metodológico a outros usualmente adotados pelas ciências sociais. Sua preocupação sobre a “validade” do conhecimento produzido se pauta no que “o informante presenciou e conheceu” e não em uma pretensa verdade. Busca ainda, atingir a coletividade que seu informante faz parte, através da revelação de traços, as relações dos indivíduos com seu grupo, os comportamentos do interior das coletividades que participa. Ela ainda aponta para as implicações estabelecidas na relação entre o pesquisador/a e o/a pesquisado/a, além disso, pontua a subjetividade como podendo ser também interpretada no campo das ciências sociais, já que ela é expressa através das palavras, signos e símbolos que tem sentidos e significados culturais e coletivos.

Ao traçar uma crítica à história de vida, intitulando-a como uma ilusão biográfica Bourdieu (1998) enfatiza “os processos sociais mal analisados e mal dominados que atuam, sem o conhecimento do pesquisador e com sua cumplicidade (...) no privilégio concedido a sucessão longitudinal dos acontecimentos sucessivos da vida”, argumenta em defesa de uma mobilidade permanente que definiria uma trajetória como uma “série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou mesmo grupo) num espaço que é ele próprio um devir, estando sujeito a incessantes transformações” (pág. 189). Ao enfatizar a efemeridade das situações de coleta de informações e organização dos dados nas histórias de vida, o autor evidencia

estruturas que favorecem esta operação e prioriza a assertividade e constância dos espaços sociais, sendo as mobilidades e deslocamentos possíveis apenas dentro deste campo. A subjetividade perde boa parte de seu valor, aparece como algo indesejável e furtivo sendo compreendida apenas em relação à estrutura social.

Kofes (2001) pontua a importância desta crítica de Bourdieu principalmente quando se pensam as oposições entre objetividade e subjetividade; sujeito e estrutura, enfatiza também o limite da noção de agente social quando se busca “tratar as marcas que os sujeitos imprimem as suas interpretações e as suas existências”(pág. 24). Balandier (1997) comenta que ao invés de opor o indivíduo e o social, é preciso pensá-los conjuntamente como se criando mutuamente, se definindo e se contento um no outro, pensando também na confusão e separação dos níveis de organização.

Piscitelli (1993) informa que o valor das histórias de vida “reside em outorgar um lugar de privilégio à experiência vivida, em sentido longitudinal, e em possibilitar a integração de percepções individuais a pautas universais de relações humanas, através de articulações temporais”; ainda nesta argumentação, a pesquisadora afirma que o trabalho sobre as experiências do sujeito “é fundamental para a compreensão dos atores a partir de seus próprios pontos de vista e para a compreensão de processos sociais mais amplos que os indivíduos” (pág. 153).

Nesta pesquisa, ao utilizar as histórias de vida de quatro homens jovens, construo uma afinidade com o que Piscitelli pontua, bem como idéia trazida por Kofes (2001) que define o vínculo da experiência social com a trajetória singular sendo traçado pela própria narrativa (trajetória é entendida por ela como o processo de configuração de uma experiência social singular), e afirma que a experiência do sujeito não escapa das “concretudes sócio-culturais que tensamente o realizam enquanto pessoa” (2001:13). Além disso, vários estudos (KOFES, 2001; CORRÊA, 1998 e 2003) enfatizam esta técnica como significativa para se estudar as relações gênero e experiências sociais de mulheres e homens, “as maneiras como vivenciamos nossos corpos” (HAUGG, 1983 In: HARAWAY, 2004:208).

Acho interessante ressaltar dois aspectos apontados por Kofes (2001) neste estudo que produzem uma reflexão e implicação sobre o conhecimento produzido a partir das histórias de vida. O primeiro deles aponta para a dinâmica da memória que se movimenta entre as lembranças e esquecimentos, o narrável e o inarrável, dando aberturas e fechamentos a fatos, situações e sentidos, uma seleção que os agentes fazem do que é ou não contado. Os homens jovens em suas trajetórias narram vários conteúdos, mas longe da completude de suas vidas, deixando pistas e hiatos sobre outros aspectos de sua trajetória que são destinados ao

esquecimento, pelo menos enquanto tentativa seja ela consciente ou não. Neste sentido, os dados trabalhados aqui não têm a pretensão de analisar a verdade vivida por eles, pois esta “escapa” as nossas possibilidades, mas podemos sim trabalhar com o que dizem e a forma como dizem, como eles interpretam tal realidade.

O segundo aspecto levantado por Kofes (2001), se refere aos embates políticos que permeiam a constituição das narrativas, as lembranças e esquecimentos. Levando em consideração a especificidade desta pesquisa, estes embates políticos parecem estar centrados nos campos do corpo, das emoções e da ética que vão dosar o que é ou não permitido ser dito e suas formas expressivas de dizer, estes aspectos serão desenvolvidos ao longo do trabalho.