Capítulo 2 – POLIMORFISMOS DO SISTEMA RENINA ANGIOTENSINA ALDOSTERONA E APTIDÃO
2.1 Aptidão cardiorrespiratória e envelhecimento
O processo de envelhecimento pode ser entendido como um conjunto de mudanças que ocorrem de forma dinâmica e progressiva, que tem início no momento da concepção e finda com a morte. Este processo desencadeia modificações morfológicas, bioquímicas, psicológicas e funcionais que acarretam perda gradativa da funcionalidade e capacidade de adaptação ao meio ambiente e maior incidência e suscetibilidade de variadas doenças (HARMAN, 1981; LOPES, 2000).
Dentre as mudanças observadas em decorrência do envelhecimento, há um declínio na massa, estrutura e força muscular, assim como revisado e descrito por Seene et al. (2011), processo este que ocorre mesmo em indivíduos saudáveis (JANSSEN et al., 2002). Portanto, a força muscular isométrica e a potência muscular declinam com o envelhecimento, sendo que esta deficiência de força e potência muscular associa-se com a perda de mobilidade, como exemplificado em testes de velocidade da caminhada e de capacidade em caminhar um quilômetro sem dificuldades (LAURETANI et al., 2003). Esta mudança na musculatura esquelética, com perda de massa muscular, que progressivamente ocasiona fraqueza, restrição da mobilidade, maior risco de quedas e consequente redução da qualidade de vida é conhecida como sarcopenia (BAUMGARTNER et al., 1998; JANSSEN et al., 2002; CRUZ-JENTOFT et al., 2010; NARICI e MAFFULLI, 2010).
O envelhecimento também causa mudanças na antropometria e na composição corporal, assim como apresentado por Douchi et al. (2002), que ao compararem 365 mulheres pré-menopausa (39,1±9,1 anos de idade) com 201 mulheres pós-menopausa (61,5±7,2 anos de idade) verificaram nas mulheres idosas um decréscimo da estatura, massa corporal magra e densidade mineral óssea, simultaneamente ao um aumento da massa gorda. Um grande estudo transversal desenvolvido na Coréia com 4.476 homens e 5.980 mulheres com idades entre 20 e 85 anos apresentou correlações significativas entre a idade e índices de composição corporal, avaliados pela absortometria de raios-x de dupla energia, concluindo que, de forma geral, tanto para homens quanto para mulheres, há elevação da massa gorda e redução da massa magra à medida que ocorre o processo de envelhecimento (HONG et al., 2011). Hughes et al. (2004) realizaram o acompanhamento durante aproximadamente 10 anos de um grupo de 75 mulheres idosas (com idade média de 60,1±7,8 anos no início da pesquisa), e verificaram que, a massa corporal aumentou significativamente, com concomitante elevação
da massa gorda e redução na estatura. Ocorre ainda uma fragilização dos ossos, com crescente risco de fraturas, causado pela diminuição progressiva da densidade mineral óssea o qual ocorre porque com a idade avançada há um crescente desequilíbrio entre os processos de absorção e formação óssea (CHANDLER et al., 2000). A redução na densidade mineral óssea associa-se à sarcopenia, estando correlacionada aos índices de composição corporal: massa muscular, massa gorda e força muscular (LIMA et al., 2009). Os idosos também apresentam uma dilatação aórtica acompanhada de hipertrofia e dilatação do ventrículo esquerdo do coração, associadas a um ligeiro aumento da pressão arterial (MARCHI NETTO, 2004).
Assim como explicitado para as variáveis de composição corporal, antropometria e força muscular supracitadas, a aptidão cardiorrespiratória também sofre mudanças anatômicas e funcionais com o envelhecimento, começando a declinar durante a terceira década de vida (BOOTH e ZWETSLOOT, 2010). Balmer et al. (2005) corroboram que a aptidão cardiorrespiratória aumenta até aproximadamente 30 anos de idade e então começa a decrescer. Para mensurar a capacidade funcional dos sistemas cardiovascular e respiratório é utilizado um índice de potência aeróbia (VO2max), também referido como aptidão aeróbia e consumo máximo de oxigênio (ROGERS et al., 1990; UENO et al., 2002). A potência aeróbia é determinada pela capacidade do sistema cardiorrespiratório em absorver o oxigênio e ofertá- lo aos tecidos, pela capacidade de extração de oxigênio da circulação sanguínea e também pela capacidade de utilizar este oxigênio ofertado às mitocôndrias durante a realização de exercício em alta intensidade (BASSETT e HOWLEY, 2000).
A redução do VO2max em decorrência do envelhecimento é consensual na literatura (ASTRAND et al., 1973; ROGERS et al., 1990; HOLLENBERG et al., 2006; WEISS et al., 2006; CHODZKO-ZAJKO et al., 2009). Aproximadamente metade da diminuição da aptidão cardiorrespiratória (VO2máx), comparando-se jovens e idosos, pode ser explicada pela redução do volume de ejeção, e a restante pode ser atribuída à menor frequência cardíaca e à menor diferença arteriovenosa de oxigênio (OGAWA et al., 1992). As reduções no débito cardíaco (DC, o qual é calculado pelo produto da frequência cardíaca e do volume sistólico) e na diferença arteriovenosa de oxigênio (a-vDO2) também foram relatadas por outros autores como sendo os fatores desencadeadores da diminuição da potência aeróbica (HEATH et al., 1981; JACKSON et al., 1995; WEISS et al., 2006). Alterações na composição corporal (presença de sarcopenia, aumento de massa gorda e redução de massa muscular, dentre outras modificações) também está relacionada à redução da aptidão cardiorrespiratória em idosos (OLIVEIRA et al., 2009). Este decréscimo na aptidão aeróbia foi estimado entre 5 e 15% a cada década, contando a partir da idade de 25 anos em indivíduos sedentários (HEATH et al.,
1981). Entretanto, indivíduos que mantém níveis mínimos de condicionamento físico no decorrer do processo de envelhecimento podem reduzir esta perda para aproximadamente 5 a 6% por década (POLLOCK et al., 1997).
Por outro lado, sabe-se que a inatividade física antecipa a idade de início da fragilidade física, decorrente, dentre outros fatores, do declínio da aptidão aeróbia (OLSEN et al., 2008; BOOTH e ZWETSLOOT, 2010). O estudo de Ogawa et al. (1992) avaliou a captação máxima de oxigênio, juntamente com o débito cardíaco, a frequência cardíaca e outras variáveis cardiovasculares em um teste ergoespirométrico progressivo na esteira em indivíduos de ambos os sexos, jovens (aproximadamente entre 20 e 30 anos de idade) e idosos (aproximadamente entre 60 e 70 anos de idade), sedentários e treinados. A comparação entre indivíduos sedentários e treinados revelou que o declínio do VO2máx entre as idades de 25 e 65 anos foi mais lenta em indivíduos fisicamente ativos, chegando a uma diferença de 40% para os homens (OGAWA et al., 1992).
Infelizmente, a atividade física, por mais que ajude a postergar as perdas de potência aeróbia decorrentes do envelhecimento, não tem a capacidade de anular estes efeitos, sendo que um decréscimo no volume de ejeção, na frequência cardíaca e na diferença arteriovenosa de oxigênio foram relatados como contribuintes para a redução do VO2max em atletas de
endurance com mais de 30 anos de idade, independentemente da continuidade dos
treinamentos aeróbios (TANAKA e SEALS, 2008).
De acordo com Paterson (2004), baixos níveis de aptidão cardiorrespiratória aumentam a probabilidade de dependência do idoso em aproximadamente de 14% para cada unidade de diminuição do VO2max (mL/kg/min), verificado em uma amostra composta por homens e mulheres idosos com VO2max de aproximadamente 20 mL/kg/min, tendo como covariantes a idade, sexo e presença de doenças. Ao comparar indivíduos com baixa e com moderada aptidão cardiorrespiratória, Netz et al. (2011) mostraram que a manutenção de níveis elevados de aptidão cardiorrespiratória em idosos está associada inclusive a um melhor desempenho cognitivo (sendo classificados na classe moderada indivíduos com VO2pico predito em teste ergométrico maior que 18,5mL/kg/min). Paterson et al. (2004) apresentaram a aptidão cardiorrespiratória como fator determinante para perda de independência dos idosos em um estudo longitudinal de 8 anos, ressaltando a importância de criação de políticas públicas de saúde com o objetivo de preservar esta capacidade como estratégia para manutenção da qualidade de vida destes indivíduos. Uma aptidão física direcionada à saúde envolve características orgânicas e funcionais associadas com a de produção de energia para o trabalho e para o lazer, bem como menor risco em desenvolver doenças crônicas
degenerativas, sendo dependente de características herdadas e da atividade física habitual (NAHAS, 1989).
Portanto, em relação ao fenótipo de potência aeróbia, foco do presente estudo, sabe-se que há um declínio inevitável com o envelhecimento, mas que pode ser amenizado com a prática de atividade física e manutenção de uma vida ativa. Entretanto, não são conhecidos ainda os determinantes genéticos e mecanismos responsáveis por esta variável e por suas modificações ao longo dos anos.
Brutsaert et al (2003) estudaram fenótipos relacionados a potência aeróbia em homens adultos jovens com ascendência espanhola e nativo americana (Quechua – região dos Andes Peruanos) e verificaram que o decréscimo no VO2max em decorrência da exposição a ambientes de hipóxia hipobárica estava associado positivamente à ancestralidade espanhola, suportando a ideia de que os nativos americanos que viveram nas altas montanhas há cerca de 10 mil anos evoluíram para um melhor transporte de oxigênio. Brutsaert et al (2005), seguindo a mesma linha de estudo, verificaram que a ancestralidade Quechua explica parcialmente melhores respostas ventilatórias em grandes altitudes. Entretanto, para a população brasileira não existem dados referentes à diferenciação de fenótipos entre as subpopulações ancestrais, ou seja, não se sabe, por exemplo, se fenótipos relacionados à aptidão física, tal como a potência aeróbia, estão associados às proporções de ancestralidade genômica.