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Aqueles que caminharam pela Revista Illustrada

Fato é que a Revista Ilustrada, conquistando seu público fiel ao longo de sua

existência, perfez um total de 739 números e ainda contou com várias edições

suplementares, as quais não tinham numeração. Seu escritório funcionou em vários

locais. Primeiro, em seu surgimento, ficava na rua da Assembléia, nº 44, onde

funcionava a “Oficina Litográfica a Vapor da Revista Ilustrada”. O fato de Agostini ter sua

oficina é de suma importância, uma vez que esta barateava os custos das edições. Em

15 de outubro de 1881, mudou-se para a rua Gonçalves Dias, nº 65 e, três anos mais

tarde, transferiu-se para um sobrado no número 50 da mesma rua, ali permanecendo

até setembro de 1897, quando a própria Revista anuncia seu retorno para a rua da

Assembléia, onde permanece até seu fim.

Ribeiro

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salienta que a mudança de endereço nos períodos citados reflete o

progresso que o periódico atingiu. As ruas Gonçalves Dias bem como a do Ouvidor

eram locais nobres do comércio e da imprensa da cidade do Rio de Janeiro. Progresso

também refletido nas alterações no preço da folha, pois em seu início a Revista Ilustrada

custava, na Corte, 16$000 a assinatura anual, 9$000 por semestre e 5$000 por três

meses. Nas províncias só havia a possibilidade de assinar o periódico por um ano, a

20$000, ou por semestre, a 11$000. Por um exemplar avulso, pagava-se $500 réis até o

final de 1885, sendo que, no ano seguinte, cada número passou a custar o dobro,

portanto 1$000.

Ao mapear a distribuição da Revista, Ribeiro constatou que em seus tempos

áureos, em meados de 1880, o periódico era distribuído aos assinantes do Rio de

Janeiro por entregadores contratados do jornal. Os números avulsos eram vendidos ao

público nas ruas e na própria redação, situada no mesmo prédio da livraria B. L.

Garnier na rua Ouvires, nº 107, um dos motivos para que tantas referências tenham

sido feitas ao editor. Para as províncias os exemplares eram enviados pelo correio

mediante pagamento adiantado. E à medida que conquistava mais leitores em toda a

extensão do país, a Revista nomeava representantes em diversas cidades.

A primeira página, além de uma ilustração que abria cada número, continha um

cabeçalho que também sofreu poucas alterações durante sua duração. Apenas em 1888

houve uma significativa modificação no título da folha que passou a ser grafado com

letras mais largas, dando maior destaque ao nome.

A Revista, no maior tempo de sua duração, procurou ser regular, ou seja,

manteve-se o seu propósito de ser semanal até os fins de 1882. Os dois anos seguintes

foram marcados por algumas faltas, ingressando no ano de 1885 com uma

periodicidade quinzenal, permanecendo desta forma até 1885, ano em que a folha volta

a ser semanal e assim continua até o início de 1890, quando retorna à distribuição de

quinze em quinze dias. Em 1893, a Revista interrompe sua publicação, ressurgindo

apenas em novembro do ano seguinte. Sua irregularidade acentua-se nos anos

subseqüentes. Em 1897, foram apenas oito números publicados e, no ano seguinte,

1898, apenas cinco, já anunciando o encerramento de suas atividades em agosto desse

mesmo ano.

Observa-se, portanto, que a infra-estrutura funcional era fator primordial que

muito contribuiu para seu sucesso e sua permanência no cenário da imprensa, uma vez

que este jornal possuía uma administração, um corpo de redatores, técnicos de

impressão e representantes do jornal em outras cidades.

Esta estrutura era administrada por um companheiro de jornalismo de Angelo

Agostini chamado Frederico Harling, segundo nota publicada no próprio jornal, em 14

de junho de 1884. Mais tarde, tornou-se sócio da empresa que publicava a Revista, e a

razão social passa a se chamar “Angelo Agostini & Cia”, mas o nome do jornal

permaneceu o mesmo.

Convém também ressaltar que seu formato não sofreu grandes alterações, o que

comprova o sucesso da fórmula experimentada por Agostini. Sempre foi composta de

oito páginas, sendo que as de número um, quatro, cinco e oito eram ilustradas e as

restantes eram ocupadas por textos (ver figuras 3, 4, 5, 6 e 7)

Figura 4 – Fonte: Revista Illustrada, 1877, ano II, n.31, p. 2 e 3/ Microfilme do acervo AEL, Unicamp.

Figura 6 – Fonte: Revista Illustrada, 1877, ano II, n.31, p. 6 e 7/ Microfilme do acervo AEL, Unicamp.

A redação era dividida em duas partes fundamentais: a ilustrada e a literária,

incluído neste setor o do jornalismo propriamente dito. Dentre os artistas é importante

destacar, em primeiro lugar, Angelo Agostini, cuja trajetória foi estudada em alguns

trabalhos aqui mencionados, como o fundador da Revista e seu principal redator até

1888. Pereira Neto foi o continuador da obra de Agostini, quando este permaneceu

afastado do país, pois aquele se tornou responsável por parte do trabalho de ilustrador

e responsável pela edição. Passou também pela Revista o ilustrador Hilário Teixeira, que

atuou com mais representatividade, dividindo o trabalho da ilustração com Pereira

Neto.

Além dos ilustradores fixos, houve também artistas que contribuíram com sua

execução, mas que apresentaram pouco vínculo com a mesma, já que suas participações

eram esporádicas. Dentre eles se destacam Eduardo de Martino, Augusto Off, George

Manders. No entanto, após a saída de Agostini,nota-se que não há tantas participações

de outros colaboradores na parte artística.

Dos redatores fixos, podemos destacar Luis de Andrade, que assinava suas

crônicas e os artigos mais importantes como o pseudônimo de Júlio Verim, como

observou Ribeiro

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. Andrade destacou-se entre os outros redatores escrevendo artigos

em favor da causa da abolição da escravatura e também sobre a República, de modo

que, ao ser esta proclamada em 15 de novembro de 1889, o jornalista encerrou seu

trabalho neste órgão para ocupar, pelo estado de Pernambuco, uma vaga de deputado

na Assembléia Constituinte. Voltou somente anos mais tarde, quando se tornou

proprietário da Revista Ilustrada e passou a assinar seus artigos.

Existiam alguns colaboradores mais frequentes: José Ribeiro Dantas Júnior, que

assinava as crônicas com o pseudônimo de “Júnio”, e “A. Gil” foram alguns deles.

Segundo Ribeiro, Dantas Júnior foi fundador do periódico Mefistófeles, colaborou nos

jornais A Nação, Estação, e teve maior destaque no Cruzeiro. Na Revista Ilustrada, onde

trabalhou por nove anos seguidos, responsável pela seção Resenha Teatral.

Outro participante foi Brício Filho, um médico paraense que se responsabilizava

por textos em prol da abolição. Já havia estabelecido uma relação mais próxima com

personalidades como José do Patrocínio, Ferreira de Menezes, João Ferreira Serpa

Júnior, Gonzaga Duque Estrada, quando colaborou na Gazeta da Tarde. Trabalhou

também no Correio da Manhã, foi fundador, em 1906, do periódico O Século e mais tarde

ingressou o Jornal do Brasil, do qual se tornou presidente a partir de 1930.

Em 1890, o jornalista Artur de Miranda Ribeiro tornou-se o principal redator da

parte escrita da Revista Ilustrada. Assinava seus escritos com o pseudônimo Farfarelo e

tem sua participação marcada pela ênfase nos ideais republicanos. Em um período

anterior, participara das redações dos jornais O País, Diário de Notícias e Novidades e fora

também fundador do periódico Crônica Ilustrada. Perdeu seu posto na Revista Ilustrada

para Luís Andrade, quando este retorna ao periódico, em novembro de 1894.

O jornalista Luís Murat igualmente merece destaque por sua participação no

periódico, principalmente por sua “assiduidade mais ou menos regular”, nas palavras de

Ribeiro.

Angelo Agostini, além das funções que exercia como redator artístico principal

do jornal, colaborou como cronista esporádico em algumas seções, como as que se

referiam aos assuntos relacionados às belas artes, nas quais assinava como “X”; quando

se referia aos assuntos pessoais, assinava “A.A.”, mas observamos também que usava

seu próprio nome, como no dia 8 de janeiro de 1876, ocasião em que publicou, como já

mencionamos, uma resposta ao editor do Jornal do Commercio, e em 1881, por ocasião da

morte desse editor, Ferreira de Menezes.

A Revista Ilustrada mantinha diversas seções artísticas e literárias que tratavam de

assuntos variados na tentativa de se aproximar dos diferentes tipos de leitores. Esta

diversificação não se resume apenas à divisão entre arte e literatura, abrange os assuntos

tratados em cada seção e, principalmente, a forma como são abordados.

Certas regras eram mais ou menos observadas no sentido de manter a

uniformidade do jornal. O espaço da capa era normalmente preenchido por uma

matéria em destaque da semana anterior. Costumeiramente era feito o retrato de um

artista, político, jornalista, figura conhecida. Geralmente eram mantidos os traços

fisionômicos do personagem retratado, acentuando-se apenas uma desproporção entre

a cabeça e o corpo da figura. Muitas vezes, o intuito era de homenagear. Inclusive, em

1888, Pereira Neto criou no dia 1º de dezembro de 1888 a seção “Panteão”, sempre na

página oito da revista, que consistia em apresentar o retrato de alguma personalidade

que era descrita sob forma de “portrait-charge”; buscavam, quase sempre, exaltar e não

criticar as personagens em evidência que ali figuravam.

A ilustração de capa, não raras vezes, evidenciava uma orientação crítica que ora

também se construía através dos textos. Nas páginas 4 e 5 eram feitas as resenhas dos

fatos políticos e demais acontecimentos que haviam marcado a semana, geralmente

retomando o assunto iniciado na primeira página. Era uma página dupla, portanto mais

espaçosa, o que permitia uma seqüência maior de desenhos e melhor desenvolvimento

dos fatos e acontecimentos escolhidos.

Existiram tipos diferentes de seções: aquelas que permaneceram constantes ao

longo de toda a existência do periódico, sem significar que aparecessem em todos os

números ou que não tivessem variações de autoria; algumas seções de existência curta e

outras com aparição irregular.

A Revista abria com um editorial, cuja freqüência era bastante regular, era

publicado na página dois. Algumas vezes, era assinado pelo redator principal da folha,

José Ribeiro Dantas Júnior; depois, em 1885, por Luís de Andrade e por Artur de

Miranda quando, em 1890, tornou-se responsável por várias matérias até o ano de 1894.

Dentre as seções mais efêmeras podemos destacar as “Belas-Artes”, que aparecia

somente para tecer comentários sobre alguma exposição específica ou para dar notícia

de algum artista. Caso contrário da seção “Livro da Porta”, que apareceu sempre com o

mesmo formato, mas também sob o nome de “Livros a ler” e acompanhou a Revista

por quase todo seu trajeto histórico. Tratava-se de um espaço no canto superior da

segunda página, contendo sob forma de tópicos a resposta a algumas correspondências

encaminhadas à folha. Ribeiro diz que,

“o Livro da Porta era uma seção bastante reduzida, que não opinava nem elaborava qualquer tipo de comentário. Não tinha no conjunto de trabalhos publicados pela Revista maior importância, restringindo-se a espaço de respostas às correspondências e aos agradecimentos pelas publicações encaminhadas àquela redação. Esta seção não era assinada77.”

No entanto, analisando mais atentamente esta seção, verifica-se, na escolha dos

livros comentados e na maneira como estes comentários eram feitos, uma importante

informação para remontarmos uma prática de leitura específica deste período. Nota-se

que a Revista resguardava-se do direito de apenas comentar as obras que julgava

realmente relevantes, provocando, muitas vezes, uma insatisfação naqueles que

enviavam suas obras e não obtinham sequer uma referência. Eis, por exemplo, um

trecho de um texto, publicado em 1 de julho de 1876, que busca defender-se de

acusações sobre os critérios dessa escolha:

Agora nós Sr. Y.

Já em nosso Livro da Porta do ultimo número explicamos-lhe a razão pela qual não respondemos logo a sua missiva: ratificando o motivo, reiteramos o pedido de desculpa.

Entre as palavras, certesas e attenciosas que se sérvio dirigir nos vem de envolta uma accusação que não nos cabe.

A Revista não é órgão de um partido, nem de nenhum: suppomos que nada em seu contexto fornece motivo para assim pensar-se. Nem uma razão tem para ser adversa ao actual governo, como igualmente a tem para delle ser amigos.

“Censuramol-o sempre – diz-nos V.S. – e nunca o elogiamos” Mas, que diabo! Porque nunca nos fornece ele occasião de o elogiarmos e dá-nos sempre a de critical-o?78

Outra seção bastante recorrente foi “Resenha Theatral” que, baseada no próprio

nome, era responsável pelos comentários acerca das apresentações e espetáculos

encenados na cidade carioca. Não se limitava somente a anunciar estes espetáculos,

questionava-se a atuação dos atores, a qualidade da produção, a resposta do público,

entre outras discussões propostas pela coluna.

77

RIBEIRO, op.cit. p. 204.

O espaço preenchido pela seção “Ao rodar do bond” era dedicado às crônicas,

entre elas as de D. Beltrano, que assinalava os principais acontecimentos vivenciados

naquela semana. Durante os primeiros anos, também podemos destacar a regularidade

da coluna “Ricochetes”, na qual eram veiculados pequenos comentários sobre assuntos

variados, desde literatura, arte, ciência, até os mais ferrenhos ataques políticos.

A Revista também apresentava contribuições literárias na forma de poesias,

contos e crônicas de autores variados, um dos exemplos é a seção “Folhetim” que não

possuía um redator fixo. Nasceu em 1876 quando foi publicado o folhetim Manoela,

assinado por P***, cujo pseudônimo nunca foi revelado, mas a seção era pouco

recorrente. Apenas em 1888, voltou à publicação de outro folhetim com o título

Babilônia, cuja autoria atribuiu-se a Luis de Andrade, sob um pseudônimo.

Outra seção que se dirigia, claramente, ao divertimento dos seus leitores era a

“Efemérides”, geralmente publicada por ocasião de datas comemorativas de algum

evento da história do Brasil, ao qual a seção se referia inalteravelmente em tom jocoso.

A “Crônica Fluminense”, que no início de sua publicação, em 1880, era uma seção que

tratava de assuntos diversos, desenvolvida com humor, opinava em assuntos políticos,

sociais e culturais e também se direcionava aos romances e romancistas, que terão

maior atenção neste estudo.

A pluralidade de seções pode demonstrar que a atuação da Revista variava de

acordo com a aceitação do público. Neste sentido, pautou o seu trabalho não só nos

grandes temas nacionais e estrangeiros, como também procurou evidenciar o cotidiano

da cidade do Rio de Janeiro, ressaltando suas mazelas, principalmente aquelas criadas

pelo que julgavam ser uma má administração pública, por isso, eram alvos constantes

do periódico ilustrado algumas personalidades políticas, com maior destaque à figura do

Imperador D. Pedro II.

Segundo a pesquisadora Silva

79

, com o advento da República em 1889, a Revista

Ilustrada perdeu muito de sua combatividade e originalidade expressas nas mais

diferentes seções. Passou a atuar sempre no sentido de aplaudir o novo governo, sem

tecer considerações muito críticas ou, ainda, muitas vezes calando-se diante das

questões políticas que se sucederam. É nosso intuito verificar se em relação às

referências aos romances esta perda de uma atuação crítica também se deu.

Agostini, por sua vez, que já havia se afastado da Revista em 1888, por conta de

uma longa viagem à Europa, retornou apenas em 1894, quando decidiu não mais fazer

parte da redação da mesma. Dedicou-se à participação em exposições gerais de Belas

Artes da Escola Nacional de Belas Artes até 1909. Em 1895, fundou o periódico D.

Quixote que teve duração até 1903, encerrando sua carreira com a colaboração em

alguns periódicos: O Tico-Tico, em 1905 e O Malho.

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