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IV. DÚVIDAS e DESORDENS: mudar ou permanecer?

4.1 Aquilo despertava: corpo e erotismo.

Um dos entrevistados, Caco (46 anos), usa uma expressão que considero muito emblemática: aquilo despertava, para se referir às fantasias e desejos homoeróticos que, segundo ele, estavam adormecidos.

Em geral, os entrevistados associaram o início das “desestabilizações” à percepção da atração por outros homens. Ou seja, foi pelo universo erótico e sexual que a desestabilização, tanto da vida conjugal heterossexual, quanto em suas próprias identificações, começou a surgir. No entanto, indago: quais os fatores, condições de possibilidade, que estão presentes nesse momento para que, então, possam experimentar e viver isso?

Importante destacar que no início do processo de “desassossego” os sujeitos não tinham muita clareza sobre o que se passava com eles, pois ainda não se reconheciam ou se identificavam em uma homossexualidade, tal como o fizeram quando do empreendimento de uma homoconjugalidade. O rico nesse momento foi o fato de começarem a se apropriar de “algo” do qual muitos deles nada queriam saber. Também foi um momento importante para a compreensão acerca de como eles foram construindo uma noção de “essência homossexual” articulada à identidade, tema que desenvolverei adiante, pois percebiam que o desejo homo, muito colado à atração, tesão, sexo, os tomava com uma força incontrolável, tanto que conseguia desestabilizá-los, mesmo eles estando casados e supostamente assegurados nas práticas e normas de inteligibilidade heterossexuais.

Compreendo que esse processo de “desestabilização” ou “desordem” na vida conjugal dos entrevistados se deu pelo campo erótico, ou seja, foi no corpo e pelo corpo que algo pediu “passagem” (ROLNIK, 1989). Tanto que as palavras mais usadas por eles para se referirem ao período das desestabilizações foram: atração e tesão, e, para muitos, o recurso de filmes pornográficos gays ou revistas, para o implemento da excitação,

imaginação e fantasias. Uma combinação direta entre olhar e excitação. Olhar e vibração do corpo. Mais de um entrevistado referiu incursão pelos filmes pornográficos como um laboratório, como se estivessem se preparando para a vivência encarnada com outro encarnado. Eles ensaiavam, imaginavam, ao mesmo tempo em que se desestabilizavam. Os sujeitos vivenciavam uma desestabilização que era no corpo e que mobilizava todo o campo erótico. Neste período não pensavam em amor ou conjugalidade. Houve, no início, uma mobilização do campo erótico, seguido da experimentação do sexo entre homens.

Analiticamente essa discussão é complexa, em parte porque os sujeitos significaram essas correlações entre corpo, sexo e desejo a partir de uma noção de natureza ou essência, muito provavelmente pelas crenças em torno da representação biológica da atração sexual. Por outro lado, minhas identificações teóricas vão no sentido de problematizar concepções essencialistas ou biologizantes, pois partilho da concepção de Butler de que os corpos não se conformam, completamente, às normas pelas quais sua materialização é imposta, sempre há instabilidades e possibilidades de rematerialização:

“o que constitui a fixidez do corpo, seus contornos, seus movimentos, será plenamente material, mas a materialidade será repensada como o efeito do poder, como o efeito mais produtivo do poder. Não se pode, de forma alguma, conceber o gênero como um constructo cultural que é simplesmente imposto sobre a superfície da matéria – quer se entenda essa como o ‘corpo’, quer como um suposto sexo. Ao invés disso, uma vez que o próprio ‘sexo’ seja compreendido em sua normatividade, a materialidade do corpo não pode ser pensada separadamente da materialização daquela norma regulatória. O ‘sexo’ é, pois, não simplesmente aquilo que alguém tem ou uma descrição estática daquilo que alguém é: ele é uma das normas pelas quais o ‘alguém’ simplesmente se torna viável, é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade cultural.”(BUTLER, 2000, p.155)

Butler (2000; 2003) propõe repensarmos o processo pelo qual uma norma corporal é assumida, apropriada, adotada: vê-la não como algo que se passa com um sujeito, mas de que o sujeito é formado em virtude de ter passado pelo processo de assumir um sexo. E esse processo implica identificações com os meios discursivos pelos quais o imperativo heterossexual possibilita certas identificações sexuadas e impede ou nega outras. Segundo a autora, algumas partes do corpo tornam-se focos concebíveis de prazer precisamente porque correspondem a um ideal normativo de um corpo já portador de um gênero

específico. A questão de saber que prazeres viverão e que outros morrerão está freqüentemente ligada a qual deles serve às práticas legitimadoras de formação da identidade que ocorrem na matriz das normas do gênero. A estratégia do desejo é, em parte, a transfiguração do próprio corpo desejante. Desde sempre um signo cultural, o corpo estabelece limites para os significados imaginários que ocasiona, mas nunca está livre de uma construção imaginária (BUTLER, 2003). Logo, da materialização para a transfiguração, os entrevistados passam pelas “instabilidades”. Instabilidades que reconheço no plano das intensidades eróticas, sexuais e que irão mobilizar suas futuras paixões.

Acrescento aos argumentos de Butler, releituras freudianas sobre o corpo, o erótico e o pulsional. Até mesmo porque, conforme Birman (1999, 2001), para se pensar na questão do corpo e do afeto em psicanálise41, é preciso reconhecer o lugar fundamental ocupado aí pelo conceito de pulsão. Para o autor, é importante distinguir os conceitos de corpo e de organismo: organismo é de ordem estritamente biológica, e o corpo é de ordem sexual e pulsional:

“A tradição científica recente do Ocidente procurou colonizar a carne com seus pressupostos objetivantes, mas não conseguiu realiza-lo inteiramente. Um resto do corpo permaneceu, no entanto.”(BIRMAN, 1999, p.58)

A leitura psicanalítica que não se deixou cair no “desvio biologizante”, irá indagar sobre a dimensão carnal, esse “resto do corpo...”, que funda a experiência corpórea dos sujeitos. Conforme Birman, aí estariam os registros desejante e pulsional do corpo, portanto não redutíveis ao conceito de organismo. Para aprofundar as diferenças entre organismo e corpo, destaco os seguintes argumentos do autor: a) o organismo seria submetido às regras de uma racionalidade biológica, sendo o corpo atravessado por forças pulsionais; b) o corpo é permeado pela alteridade, enquanto que o organismo é “solipsista”, voltado sobre si mesmo; c) o organismo está submetido aos “ritmos da natureza”, mecanismos automáticos de auto-regulação, enquanto que o corpo se constitui em ruptura com a natureza, “aberto simultaneamente sobre ela e sobre o Outro” (BIRMAN, 1999, p.59). Por todas essas razões, Birman vai afirmar que existe um corpo-sujeito. O corpo, nesse sentido, é um território

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Para Joel Birman trata-se, efetivamente, de recuperar a questão do corpo e do afeto, pois foram excluídos do discurso psicanalítico, inclusive lacaniano.

ocupado do organismo, como um conjunto de marcas impressas sobre e no organismo pela inflexão promovida pelo Outro. A força pulsional e o Outro estariam na origem deste eu concebido como corporal, distinto de organismo (BIRMAN, 1999, p.62). Trata-se de uma corporeidade formulada pelas concepções de corpo erógeno e de corpo pulsional.

Mas afinal, o que é pulsão? Freud a definiu como um conceito limite entre o psíquico e o somático, não redutível à biologia, nem à psicologia. Conforme Chemama & Vandermersch (2007) tem-se a respeito do conceito de pulsão:

“Conceito fundamental da psicanálise, destinado a dar conta, pela hipótese de uma montagem específica, das formas de relação com o objeto e da procura de satisfação. (...) Como esta procura de satisfação apresenta múltiplas formas, é conveniente falar de pulsões em lugar de pulsão(...). Freud definiu as pulsões como sendo a interface entre o somático e o psíquico, destacando sua diversidade (e portanto sua pluralidade) e indicando a freqüência de seu inacabamento (e portanto seu caráter parcial, sua falta de unificação e a incerteza de seus destinos), e postulando dois tipos principais e opostos de pulsões: as pulsões sexuais e as pulsões do eu.”(p.320-323)

Freud irá reconsiderar a oposição entre pulsões sexuais e pulsões do eu, principalmente através das suas investigações sobre o narcisismo42. Percebe que a preservação do “eu” não está apenas no registro da necessidade, mas sobretudo no registro do desejo. Em seus escritos de 1915, particularmente no texto “Os instintos e suas vicissitudes”43, dentre as várias definições (natureza da pulsão, características, etc.) Freud conclui que os objetos pulsionais são inúmeros, e que a finalidade da pulsão é atingida provisoriamente, disso entende-se que a satisfação não é completa, o objeto, em parte, é inadequado, e a tensão sempre retorna. Nesse sentido, retomo o texto de Birman:

“O delineamento dos diferentes destinos da pulsão é um processo regular e repetido, mediante o qual o circuito pulsional assume diversas torções e se apresenta de diferentes maneiras.” (BIRMAN, 1999, p.136)

Para isso, o sujeito precisa do outro, sem o qual o circuito pulsional não se ordenaria, já que a força pulsional estaria fadada à descarga. Por intermédio do outro há a

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Particularmente no texto “Sobre o narcisismo: uma introdução”(1914), vol.XIV das Obras Completas. 43

Mantenho a palavra “instintos” pois trabalho com o texto de Freud traduzido pela editora Imago, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. No entanto, deixo claro no meu texto que instinto não é sinônimo de pulsão, e o fenômeno a que estou me referindo é o da pulsão.

ligação entre a força pulsional, os objetos e os representantes daquela. Ainda no texto de 1915, Freud enunciou que as operações psíquicas do recalque44 e da sublimação seriam destinos das pulsões. Em 1920 constrói o conceito de pulsão de morte, formula a oposição de base entre a força pulsional e os objetos e representantes da pulsão. Com o enunciado do conceito de “pulsão de morte” (segunda teoria das pulsões), torna-se impossível a concepção de uma harmonia entre os registros conflitivos da pulsão e da civilização:

“Pelo viés da pulsão de morte, concebida agora como silenciosa e não inscrita originariamente no campo da representação, a harmonia com o registro da civilização não é mais possível.” (BIRMAN, 1999, p.135)

No que tange à espécie humana, a vida seria algo a ser conquistado, um vir-a-ser e um destino possível. Não bastaria produzi-la como um bem em contraposição à morte originária, é preciso reproduzi-la permanentemente, em toda a existência do sujeito. Esta é a essência da idéia de gestão, para que o sujeito possa manter a vida enquanto possibilidade.

Revisitei o conceito de pulsão por estar atrelado ao corpo e demonstrar que, no âmbito da psicanálise, o corpo é regulado pelos destinos das pulsões e do desejo:

“A linguagem e o pensamento daquele (corpo) são marcados então pela lógica desejante, modulados pelos desdobramentos e pelas variações desta. É o desejo, pois, que realiza a sintonia e as dissonâncias dos registros do pensamento e da linguagem. É por essa mediação que se revelam a finitude, a incompletude e a incerteza do sujeito.” (BIRMAN, 1999, p.90)

Para a psicanálise, quando se enuncia que o sexual é permeado pela economia pulsional, está se dizendo que na sexualidade as dimensões da intensidade e do afeto são fundamentais. Conforme Roudinesco & Plon, através do conceito de “pulsão sexual” Freud produz um impacto na concepção de sexualidade dominante naquele período, tanto do senso comum, quanto da sexologia:

“Para Freud, a pulsão sexual, diferente do instinto sexual, não se reduz às simples atividades sexuais que costumam ser repertoriadas com seus objetivos e seus objetos, mas é um impulso do qual a libido constitui a energia” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p.628).

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Também em relação a esse termo há controvérsias entre traduções. No texto de língua portuguesa (Imago), está traduzido por “repressão”, quando na verdade trata-se mesmo de “recalque”, tal como estou utilizando.

Para Freud45 o sexo é subvertido pela esfera erótica e amorosa, pelo fato de haver um descolamento entre anatomia e escolha objetal. Ou seja, ele problematizou a noção vigente na época, de “instinto sexual”, enquanto sinônimo de “natureza” e os desdobramentos desta interpretação nos conceitos de normal=natural, anormal=antinatural. Freud postulou o “polimorfismo” da sexualidade, pois ela teria diversas formas de existência e de apresentação, materializando-se em diferentes modalidades de ser. Posição esta que se contrapõe a uma concepção de sexualidade meramente instintiva, do registro biológico, concebido como tendo um único objeto sexual, pré-fixado por natureza. Ele rompe com essa idéia, mostrando que o sexual tem uma pluralidade de objetos possíveis, sendo o indivíduo de outro sexo apenas um dentre os diversos objetos eróticos. Bem como os genitais também passaram a ser um dos recantos possíveis que permitiriam o gozo e o prazer. É o corpo erótico constituído de diferentes lugares, denominados zonas erógenas, localizadas na superfície deste, fazendo fronteira com a exterioridade e lugar de contato com outros corpos.

Conforme Birman (1998), as sexologias seriam discursos biológicos sobre a sexualidade, que se transmutam em ciências do comportamento sexual. Portanto, a psicanálise rompeu com a sexologia existente no Ocidente na segunda metade do séc.XIX:

“A psicanálise problematizou a exigência reprodutiva da sexualidade, ao definir essa primordialmente pelo erotismo. Para tal, contudo, a sexualidade foi retirada do registro concreto do comportamento e alocada então em outros destinos da subjetividade.” (BIRMAN, 1998, p.97)

Destaco desse argumento de Birman uma idéia crucial para compreender os processos de desestabilização vividos pelos sujeitos entrevistados nessa pesquisa: quando a sexualidade passa a ser compreendida desde seu campo erótico, ela está inscrita nos “destinos” da subjetividade, que são também os destinos das pulsões. Por essa razão que nos destinos das pulsões se recolocam importantes questões ético-estéticas subjetivas, pois como definiu Marlise Matos, “aos sujeitos cabe a invenção e a reinvenção de seus destinos eróticos (opções identificatórias de gênero) e sobretudo ético-estéticos (...)” (MATOS, 2000, p.219)

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Logo, a sexualidade para a psicanálise, seria algo da ordem da fala e da linguagem. Ela se inscreve na fantasia, que é o campo, por excelência, do erotismo:

“Seria, então, a partir da fantasia como fundamento, que aquela pode assumir formas comportamentais diversificadas. O comportamento seria, pois, o elo final de uma longa cadeia de relações, que se inscreveriam primordialmente na fantasia do sujeito. O sexo seria, portanto, um efeito distante do sexual, por mais paradoxal que possa parecer esta afirmação.” (BIRMAN, 1998, p.98)

Pelo erotismo o sujeito pode efetivamente colocar a sua vida em risco. Pode-se morrer de amor e de carência erótica, pois o registro biológico da vida seria permeado pelas pulsões:

“Pelo erotismo o sujeito busca a todo custo a completude corporal, o fechamento de suas fendas, para barrar o abismo existente entre o dentro e o fora. Desta maneira, seria a incompletude corpórea e a não suficiência do sujeito o que criaria a condição de possibilidade do erotismo. ‘Eu erotizo, logo sou incompleto’, parece enunciar o cogito freudiano sobre o sujeito.” (BIRMAN, 1998, p.109)

Aqui está uma questão muito importante: o cogito freudiano sobre o sujeito: “eu erotizo, logo sou incompleto” (BIRMAN, 1998). Do incompleto vou ao inquietante e desestabilizador. E a existência de algo inquietante que se impõe ao psiquismo e que estaria além do controle do sujeito, indica os limites da racionalidade para lidar com essa irrupção. Leio, a partir da fala dos meus entrevistados, uma escrita corporal pulsante, uma erotização que começa a dar sinais de “passagem”, pois está referida à incompletude e às instabilidades, inconformidades com as “normas corporais impostas” (BUTLER, 2000;2003), e ao mesmo tempo “assumidas” como suas verdades (FOUCAULT, 2004).

As desestabilizações afetivas, sexuais, identitárias, vividas pelos sujeitos entrevistados, foram marcadas por passagens, por experiências do entre estados de maior conformidade, “heteroconformados”46, até estados de explosão e efervescência amorosa, sexual. Entendo que o “entre” estava atravessado por dimensões de intensidade erótica, o que, por sua vez, exigiu um árduo trabalho subjetivo em relação às instâncias psicológicas de defesa e repressão. Nesse caminho, a ligação ou enlace dos planos de vivência sexual ao

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afetivo, foi muito determinante para a afirmação de um outro “estilo de existência” (BIRMAN, 1995), considerando as configurações ética e estéticas (MATOS, 2000) criadas pelos sujeitos em questão. Se, por um lado, as desestabilizações eróticas foram dando os sinais da necessária mudança que viria a acontecer em suas vidas; por outro, também reforçaram uma característica, na verdade uma representação de “senso comum”, de que a sexualidade masculina, inclusive homoerótica, está dissociada dos afetos.