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Subjetividade, identidade, identificação.

VI. SOBRE IDENTIDADES

6.1 Algumas proposições teóricas gerais.

6.1.1 Subjetividade, identidade, identificação.

Conforme Hall (2005), está ocorrendo uma “completa desconstrução” das perspectivas identitárias em uma variedade de áreas disciplinares, nas quais, de uma forma ou outra, critica-se a idéia de uma identidade integral, originária e unificada. Dentre estes campos disciplinares, estão o da crítica feminista e o da crítica cultural influenciados pela psicanálise, principalmente pelo fato da psicanálise destacar os processos inconscientes de formação da subjetividade. Compreendendo “inconsciente” como “discurso do Outro”, o que, para Lacan (1998), significa que o que o sujeito procura, e não tem como transformar em conhecimento, ou seja, “o que o Outro quer de mim? O que sou, para o Outro?” é o sentido que o sujeito vai ter de inventar para sua existência. Invenção que não pode ignorar os modos de inscrição do sujeito no discurso do Outro, que é o discurso da cultura a que pertence. Para Hall, na linguagem do senso comum a identificação é construída a partir do reconhecimento de alguma origem comum, ou de características partilhadas entre grupos ou pessoas, ou a partir de um mesmo ideal. Ele chama essa concepção de “naturalista”. Ao contrário desta concepção naturalista, define identificação enfatizando o aspecto da construção, enquanto um processo nunca completado. Ou seja, ela não é sempre tão determinada, embora tenha suas condições determinadas de existência. Estas condições incluem os recursos materiais e simbólicos para sustentá-la, nesse sentido ela está “alojada na contingência”:

“A identificação é, pois, um processo de articulação, uma suturação, uma sobredeterminação, e não uma subsunção. Há sempre ‘demasiado’ ou ‘muito pouco’ – uma sobredeterminação ou uma falta, mas nunca um ajuste completo, uma totalidade. Como todas as práticas de significação, ela está sujeita ao ‘jogo’

da différance. Ela obedece à lógica do mais-que-um.” (HALL, 2005, p.106)65

Importante destacar essa relação entre identificação e prática de significação. Trata- se de um trabalho discursivo no qual se produz o fechamento e a marcação de fronteiras simbólicas, como refere Hall, “efeitos de fronteiras”. Para consolidar o processo, ela requer o que é deixado de fora, ou seja, o exterior que a constitui.

Sobre a noção de subjetividade, Woodward afirma que se trata da compreensão que temos sobre o nosso eu. O termo envolve os pensamentos e as emoções conscientes e inconscientes que constituem nossas concepções sobre quem nós somos. Envolve nossos sentimentos e pensamentos mais pessoais, “entretanto, nós vivemos nossa subjetividade em um contexto social no qual a linguagem e a cultura dão significado à experiência que temos de nós mesmos e no qual nós adotamos uma identidade” (WOODWARD, 2005, p.55). Os sujeitos são, assim, sujeitados ao discurso e devem, eles próprios, assumí-lo como indivíduos que, dessa forma, se posicionam em relação a si próprios. As posições que assumimos e com as quais nos identificamos constituem nossas identidades:

“O conceito de subjetividade permite uma exploração dos sentimentos que estão envolvidos no processo de produção da identidade e do investimento pessoal que fazemos em posições específicas de identidade. Ele nos permite explicar as razões pelas quais nós nos apegamos a identidades particulares.” (WOODWARD, 2005, p.56)

Corroborando com essa perspectiva, Mezan (2002) afirma que por meio das identificações um sujeito se organiza em conformidade com os modelos que sua sociedade lhe oferece, os chamados “modelos identificatórios”. Na mesma direção, Jurandir Freire Costa, lendo Freud, vai afirmar que, para este, o que somos é um produto de decantação de nossas identificações com outros: “o sujeito é a história de seus laços discursivos com outros sujeitos ou com o mundo material” (COSTA, 1995, p.32). Em geral, os modelos de identificação são padrões socialmente aceitos e valorizados no plano dos costumes, das crenças, dos valores, das leis, do autocontrole. Mezan defende uma necessária “estabilidade relativa” das identificações, pois a oscilação do sentimento de identidade desencadeia angústias intensas. Por que angústias? Porque a subjetividade está articulada ao

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inconsciente, ao mesmo tempo em que é constituída pela identidade e pela diversidade (MEZAN, 2002). Nessa perspectiva, subjetividade pode ser entendida de duas maneiras diferentes: como experiência de si, e como condensação de uma série de determinações. No entanto, destaca o psicanalista, o sujeito da psicanálise possui uma “dimensão inconsciente que irá co-determinar a natureza, a qualidade e a amplitude da experiência que ele tem de si”(p.258). Ao mesmo tempo, a experiência evoca algo próximo da consciência, “ter uma ‘experiência’ significa ser afetado por alguma coisa, pessoa ou situação, e ‘ser afetado’ se traduz por alguma vivência perceptível para quem a atravessa” (MEZAN, 2002, p.259). Logo, o sujeito se encontra no cruzamento de várias linhas de força, algumas das quais ele determina, enquanto outras o determinam. Cada indivíduo tem de si uma experiência singular. Entretanto, a questão da subjetividade não pode ser lida apenas enquanto algo do eu para o mundo, mas também do mundo para o eu. Isto porque ela também vai ser compreendida enquanto “condensação de uma série de determinações”.

Mezan distingue três planos de existência e de experiências: o singular, o universal e o particular. Singular é aquilo que é único, pessoal, intransferível, o que faz de mim um sujeito e do meu vizinho um outro. “É o território da biografia, das escolhas, das paixões, dos atos individuais; cada ato soma-se aos anteriores e com eles se amalgama, de modo a constituir cada pessoa como aquela que é e não outra. Universal é aquilo que compartilhamos com todos os demais humanos: a linguagem, a capacidade de inventar, as necessidades básicas, o fato de sermos mortais e sexuados, de podermos amar e odiar, etc.” (MEZAN, 2002, p.260). O autor salienta que, nesse plano, o que condiciona a subjetividade é o próprio da espécie, sendo que a psicanálise vê aí, a presença das pulsões, a necessidade de investir objetos psíquicos, a existência das defesas, das fantasias, enfim elementos do chamado “aparelho psíquico”. Particular, é a região situada entre o que é especificamente meu e o que comparto com todos os demais humanos, isto é, “do próprio a alguns mas não

a todos” (p.260). Nesse plano intermediário fala-se em subjetividades no plural, nos outros

dois só se aplica o singular. Conforme Mezan, existem tipos de subjetividade, pois os elementos universais se materializam de modos diversos, em virtude dos diferentes contextos e das diferentes contingências.

Para Garcia-Roza, pensar a subjetividade do ponto de vista psicanalítico implica o esclarecimento de certos limites teóricos. E esse limite é determinado pelo Édipo, enquanto

conceito estrutural e não como acontecimento individual, pois ele é o “estruturador fundamental”:

“A questão da subjetividade ganha sentido apenas enquanto referenciada ao Édipo ou, se quisermos, ao inconsciente. É esse referencial que impede que essa questão receba um tratamento semelhante – ou que se coloque em franca continuidade – ao que lhe é dado pela psicologia ou pela filosofia.” (GARCIA-ROZA, 1998, p.225)

Só há psicanálise a partir da clivagem da subjetividade em dois grandes sistemas. Clivagem produzida pelo próprio discurso psicanalítico. No plano individual, antes de se constituir o inconsciente, ou seja, antes da clivagem da subjetividade produzida pelo recalque, o termo “subjetividade” pode ser aplicado com restrições. Pois, antes da clivagem o psiquismo infantil possui representações oriundas das pulsões, porém essa subjetividade só ganha realidade psicanalítica retroativamente, a partir da entrada da criança no simbólico. Na abordagem lacaniana há uma disjunção entre os domínios real, simbólico e imaginário. Ao fazer uma distinção entre os domínios do simbólico e do imaginário, Garcia-Roza enfatiza a dupla vertente do simbólico: a vertente da palavra e a vertente da linguagem. A palavra é o que vai permitir ao indivíduo superar a “disputa mortal que caracteriza a relação dual imaginária. É a palavra, como mediadora, o que vai possibilitar o reconhecimento do outro e a superação do simples desejo de sua destruição”.(GARCIA- ROZA, 1998, p.226) A linguagem, outra vertente do simbólico, vai se colocar numa relação de exterioridade em relação ao sujeito, como um conjunto estrutural independente do indivíduo que fala. Lacan chamou de o Outro essa exterioridade da estrutura em relação ao sujeito, que é constituinte da ordem do inconsciente.

A psicologia do desenvolvimento, por exemplo, pode traçar uma gênese da fala da criança, entretanto o mesmo não acontece com a ordem simbólica. Isso porque ela não tem origem, desde o nascimento a criança está imersa na linguagem e submetida à estrutura do simbólico. Esse grande Outro é um sistema de elementos significantes que permite ao indivíduo falar ao outro, seu semelhante. Nesse sentido, a concepção de subjetividade como clivada não é secundária para a psicanálise. Entretanto, Freud não tomou a subjetividade tal como era pensada por Descartes e dividiu-a, pois “é somente a partir do lugar do Outro, dessa ordem simbólica inconsciente, que se pode falar em sujeito e em subjetividade segundo Freud” (GARCIA-ROZA, 1998, p.227).

O que permite a comunicação entre as subjetividades é o inconsciente, esse Outro, ordem simbólica, articulador das subjetividades individuais. Garcia-Roza retoma Lacan, principalmente em suas formulações sobre o desejo e sua relação com o Outro, para aprofundar um pouco mais a questão da subjetividade. Pois, tal como propõe Lacan (1998), é no outro e pelo outro que a criança aprende a se reconhecer, pois seu desejo, assim como seu corpo, não é vivido como seu, e sim projetado e alienado no outro. A única saída para esse desejo alienado é a destruição do outro. Na relação imaginária, o desejo alienado só pode libertar-se na medida em que desapareça o outro que é, na verdade, suporte desse desejo. Se essa relação fosse mantida seria impossível a constituição do sujeito enquanto autônomo, também não seria possível uma subjetividade individual. Então, através do simbólico, da linguagem, o desejo vai entrar numa relação de reconhecimento recíproco, na troca simbólica do eu e do tu. De acordo com Lacan, o primeiro encontro com o processo de construção de um eu, por meio da visão do reflexo de um eu corporificado, de um eu que tem fronteiras, prepara, assim, a cena para todas as identificações futuras. A criança alcança algum sentimento de “eu” apenas quando encontra o eu refletido por algo fora de si próprio, pelo outro: a partir do lugar do outro. Mas ela sente a si mesma como se o eu, o sentimento do eu, fosse produzido – por uma identidade unificada – a partir de seu próprio interior. Lacan sustenta, em função dessa experiência do estádio do espelho, que a subjetividade é dividida e ilusória:

“Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficientemente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago.” (LACAN, 1998, p. 97)

Imagem especular que é a matriz simbólica em que o eu se precipita numa forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito. Lacan se refere, nesse momento, ao eu-ideal, origem das identificações secundárias. Por depender, para sua unidade, de algo fora de si mesma, a identidade surge a partir de uma falta, isto é, de um desejo pelo retorno da unidade com a mãe que era parte da primeira infância, mas que só pode ser ilusória, uma fantasia, dado que a separação real já ocorreu:

“Tendo, inicialmente, adotado uma identidade a partir do exterior do eu, continuamos a nos identificar com aquilo que queremos ser, mas aquilo que queremos ser está separado do eu, de forma que o eu está permanentemente dividido no seu próprio interior” (WOODWARD, 2005, p.64).

Cito:

“Se a subjetividade cartesiana (psicológica) é uma subjetividade unificada, identificada com a consciência e pertencente a um sujeito psicofísico, a subjetividade psicanalítica é fundamental e essencialmente uma subjetividade clivada, sujeita a duas sintaxes distintas e marcadas por uma excentricidade essencial. O inconsciente não é um acidente incômodo dessa subjetividade, mas o que a constitui fundamentalmente.” (GARCIA-ROZA, 1998, p.229)

Há uma confluência entre os autores citados no sentido de entenderem a subjetividade como instituída socialmente. Conforme Mezan (2002, p.267), a subjetividade é “uma criação da sociedade, da mesma forma que a língua, as regras de parentesco, os valores ou os métodos de trabalho”. Sendo assim, ela também se refere ao modo ou modos de ser, por essa razão, é na região do narcisismo, do ego e das instâncias ideais, como o superego e o ideal do ego, que operam esses mecanismos. Esses “modos de ser” podem ser compreendidos como “realidades psíquicas”, que são realidades lingüísticas. Realidade psíquica ou lingüística, conforme Costa (1992, 1995), é tudo que tem efeitos performativos sobre as subjetividades. Ter “efeitos performativos” significa ser capaz de fazer o sujeito, a vida mental ou o aparelho psíquico passarem do “estado x” ao “estado y”, conforme um certo movimento intencional (COSTA, 1995). Redescrito, o sujeito mudou ou pode vir a mudar. A redescrição passa a funcionar como uma nova realidade psíquica.

Tanto Matos (2000) quanto Costa (1992, 1995) apresentam uma série de críticas e redefinições dos conceitos de linguagem e de subjetividade, principalmente pelo esforço de desgrudá-los de uma tradição representacionista e essencialista. Tais perspectivas teóricas, comprometidas com propósitos políticos, éticos e estéticos, valorizam a idéia de força performativa da linguagem na construção da subjetividade, compreendendo-a como “um efeito das linguagens, das práticas lingüísticas que determinam suas regras de formação e reconhecimento privado e público” (COSTA, 1992, p.15). A psicanalista Maria Rita Kehl também propõe um retorno à fonte da teoria lingüística de onde partiu Lacan, para marcar a

diferenciação entre linguagem e língua, pois visualiza ali uma certa mobilidade, no que se refere às mudanças nos destinos dos sujeitos. Pois, se a língua está sujeita às modificações e evoluções impostas pelas práticas falantes, está aberta na teoria a possibilidade de uma dialética entre narrativa(s) e estrutura:

“A inscrição dos sujeitos, homens ou mulheres, no discurso do Outro, não é rigidamente fixada. Ela passa por modificações ao longo da história que, se não alteram a estrutura da linguagem, alteram certamente o uso da língua e, com isso, os lugares que a cultura confere aos sujeitos” (KEHL, 1998, p.29).

Nessa perspectiva, tanto a “identidade feminina” quanto a “identidade masculina” são composições significantes que procuram se manter distintas, e nas quais se supõe o alistamento dos sujeitos, de forma mais ou menos rígida, dependendo da maior ou menor rigidez da trama simbólica característica de cada sociedade. Entretanto, essa trama é sempre furada a partir da inserção que cada sujeito faz nela, pois o “manual de instruções”, como refere Kehl (1998), não dá conta do destino das pulsões, principalmente em se tratando do sujeito moderno, que é o próprio sujeito da psicanálise:

“O vetor da pulsão, o objeto do desejo, os ideais, as identificações que vão fazer de cada um de nós não ‘homem’ ou ‘mulher’, mas este homem, ou esta mulher, podem estar disponíveis no campo simbólico, mas não estão organizados para cada um de nós. Esta concepção de sujeito, embora fundada em Saussure e Lacan, questiona o modelo rigorosamente estruturalista do psiquismo.”(KEHL, 1998, p.33)

Esta concepção que, na verdade, entendo como um trabalho de re-interpretação de alguns dos fundamentos tão caros à psicanálise, como o estruturalismo, que vários dos autores aqui citados vem empreendendo, possuem uma direção ética e acadêmica, pois ela requer que pensemos nas “identidades generificadas” enquanto discursos datados, portanto construídos, logo, mutantes.