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2.1 AGROINDÚSTRIAS FAMILIARES: CONTEXTO TEÓRICO E CARACTERIZAÇÃO

2.2.3 Arena, Domínios, Campos Sociais e Relacionais

Para se compreender as ações, os desejos e as decisões dos atores nas dinâmicas sociais frente aos seus projetos pessoais ou coletivos, é necessário um melhor entendimento dos processos de enfrentamento que ocorrem em diferentes espaços. Paticularmente, quando esses espaços comportam os projetos e programas de desenvolvimento rural, em que diferentes atores se envolvem em processos de intervenção e onde se constituem normas e regras as quais implicam em um conjunto complexo de intervenções na consolidação de forças dos dfiferentes espaços sociais ou arenas. Na linguagem comum, a ideia de arena se concretiza como uma imagem de conspiração, de briga ou luta, que ocorre em um cenário local claramente demarcado. Esta é uma visão simplista, portanto, considerar que as arenas envolvem principalmente confrontos cara a cara e apenas os interesses, valores e habilidades dos atores próximos, é negligenciar a capacidade de mobilidade dos atores, para além das fronteiras geográficas, onde visões de mundo e discursos diferentes se encontram, quer em relações de interface ou distantes.

A referência de arena em Long (2001) difere-se da visão bourdiana de campos de poder. Enquanto em Bourdieu a noção de campo é um conceito organizante, central para a análise de poder e status, Long (2001) defende os conceitos adicionais de domínio social, campo e arena. Em que o domínio se identifica como a área da vida social, é o espaço em que estão organizados os atores por referência a um núcleo central. Logo, é um espaço que possui regras,

normas e valores que implicam um grau de compromisso social, representando assim, os domínios em que prevalecem os valores sociais compartilhados pelos atores sociais. Apesar de não serem percebidos da mesma maneira por todos os envolvidos, esses domínios são reconhecidos como um lugar de pertença, de certas regras, normas e valores construídos socialmente, implicando em grau de compromisso social.

Seguindo a linha discursiva de entendimento dos atores, apropriar-se-á das reflexões de Delgado et. al. (2007) ao comprovar a necessidade de dar visibilidade aos atores com os quais se estabelecem relações diretas ou indiretas, mediadores ou não de intervenções. Isto, porque alguns atores sociais em seus respectivos domínios sociais, campo e arenas, sempre são visíveis e sua importância é indiscutível, na medida em que estes assumem explicitamente o papel de protagonistas. Mas, ao lado destes há uma série de outros, não tão visíveis, que precisam ser identificados, para que se conheça quem são e quais são suas contribuições. Como exemplos e configuração de domínios sociais, encontram-se: a família, a comunidade, as organizações associativas, o Estado, a produção agropecuária e do consumo.

Os domínios são centrais para o entendimento do ordenamento social, da regulação, da disputa de valores sociais, da autoridade e de como são criadas as fronteiras sociais e simbólicas (LONG, 2001). Nessa concepção, quando emergem os conflitos nestes espaços, pode-se entender a externalidade do choque entre os domínios, valores e os interesses dos atores, os quais são elementos constitutivos das estratégias de manobras, configurando os campos e as arenas. A noção de campos sociais evoca uma imagem de espaços abertos: uma paisagem desigual com limites mal definidos. Consiste de distribuições de diferentes elementos – recursos, informações, capacidades tecnológicas, fragmentos do discurso, componente institucional, indivíduos, grupos e estruturas físicas –, assim, inexiste um princípio único para enquadrar toda a cena.

Quaisquer configurações de elementos e relações constituem o campo. Estas são essencialmente o produto de intervenções humanas e não humanas, tanto locais como globais e o resultado de processos cooperativos e competitivos. Dessa forma, dependendo da abordagem analítica, a composição de um campo social pode ser desenhada em termos de modelos de distribuição de recursos naturais, tipos de produção e empreendimento econômico, demografia, instituições

políticas e administrativas, fluxos de transporte e de comunicação, mercados, recursos de infraestrutura e grupos culturais e étnicos. Logo, por preferência, prevalece o conjunto de características predominantes de interesses e atividades que retratam o campo (por exemplo, preocupações políticas, educacionais, ambientais ou agrícolas), onde ocorre relativa coerência e a fragmentação dos seus elementos (LONG, 2001).

Quanto às arenas, as mesmas são qualquer espaço em que ocorrem distintas práticas e valores de domínios diferentes, ou são espaços dentro de um único domínio em que são feitos esforços para resolver as diferenças de interpretações de incompatibilidades entre valor e interesses do ator, espaços estes consolidados em uma multiplicidade de racionalidades, desejos, capacidades e práticas de negociação (LONG, 2001). A arena social é construída discursivamente e praticamente define o uso da linguagem e ações estratégicas dos diversos atores, e é onde estes devem trabalhar no sentido de um entendimento ou acomodações de pontos de vista comuns, havendo sempre espaço para a dissidência a partir dela.

Por isso, as noções de domínio, campo social e arena tornam-se útil no presente estudo, pois permitem a análise do conjunto de esforços entrelaçados, de forma a explicar as interfaces e interações sociais entre os atores em seus respectivos campos sociais e arenas, e a consolidação e evolução das agroindústrias. Dessa forma, para melhor entender a consolidação e o desenvolvimento das agroindústrias necessita-se compreender as relações sociais que se manifestam nas redes, e como estas se relacionam em torno do acesso e utilização de recursos que intervém no processo de consolidação e fortalecimento das agroindústrias pesquisadas. Isto porque, algumas delas receberam apoio e utilizaram recursos advindos das políticas públicas de apoio ao desenvolvimento rural, mais especificamente do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Demonstrando assim, que alguns dos projetos se consolidaram e se fortaleceram pela intervenção das políticas, dos atores e das redes rurais que se consolidaram em torno das agroindústrias como estratégias de mudança.

Ressalta-se que o enfoque do ator não deseja excluir a ideia de estrutura, mas considerar a construção, a reprodução e a transformação das relações sociais específicas como tema central da análise. Entender a estrutura como um produto de contínua interação e transformação mútua dos projetos dos atores torna possível a integração teórica da análise de ator e as redes que se consolidam em torno dos

projetos, em que os cenários interativos de pequenas escalas, com estruturas institucionais ou sociais mais amplas, ganham visibilidade e força. Assim, para melhor compreender as relações que se estabeleceram no universo empírico, o próximo subtítulo abordará parte do arcabouço teórico da estrutura social em rede.