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argentina, Brasil e chile: contextos de repressão

Falar sobre o contexto das ditaduras no Cone Sul é algo, por si só, de grandes proporções, considerando que devemos dar espe- cial atenção às especificidades de cada região. Mesmo assim, para entender o fenômeno da existência e da convivência de diversos governos militares ditatoriais é preciso inserir a região no contexto político mundial.

Desde o final da Segunda Guerra teve início a chamada Guerra Fria que, grosso modo, dividiu o mundo em duas partes: de um lado estavam os aliados da União das Repúblicas Socialis- tas Soviéticas, os adeptos ao regime socialista; de outro, os aliados dos Estados Unidos da América, com sua potência econômica vol- tada para o desenvolvimento do capitalismo. Tanto os EUA quan- to a URSS buscavam constantemente o fortalecimento por meio de novos aliados, e na América Latina isso não foi diferente, com o agravante de a região ser considerada “quintal” dos Estados Unidos e, simultaneamente, berço da Revolução Cubana. Ambas as potências interferiam nos países da região, oferecendo ajuda e benefícios a diversos grupos, fossem eles de esquerda (URSS) ou de direita (EUA).

2 FAUSTO, Boris; DEVOTO, Fernando J. Introdução. In: _____. Brasil e Argentina: um en- saio de história comparada. São Paulo: Ed. 34, 2004, p. 14.

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A influência que a URSS exercia sobre grupos de esquerda da América Latina e seu sucesso em Cuba começaram a preocupar tanto as camadas sociais e políticas mais ricas da região quanto o governo estadunidense, que temia o surgimento de “novas Cubas” ao longo de todo o território. Esse medo do comunismo foi utiliza- do como justificativa para a tomada do poder político pelos mili- tares, que alegavam como objetivo o combate à ameaça comunista internacional e a defesa de seus países; para isso foram auxiliados e instruídos pelo governo dos EUA. Foi o que aconteceu no Brasil em 1964, com Castelo Branco; na Argentina em 1966, com Juan Carlos Onganía, e em 1976, com Jorge Rafael Videla; e no Chile, em 1973, com Augusto Pinochet.3

Nesses três países, com a ascensão dos governos anticomunis- tas, passou a ser sistematizada uma forte repressão aos movimen- tos sociais contrários aos governos e uma perseguição aos grupos de orientação política de esquerda, no intuito de desestruturá-los e liquidá-los. Por isso, em muitos locais, os Partidos Comunistas, assim como outros grupos de esquerda, foram proibidos de atuar, passando a se organizar na clandestinidade. Nesses movimentos, somou-se à pauta da revolução socialista o combate aos governos militares, fazendo com que muitos dos grupos de esquerda se tor- nassem guerrilhas armadas que se autodenominavam, em alguns casos, “exércitos populares”.4

Assim como a formação de diversos grupos de orientação po- lítica de esquerda no Cone Sul não foi um fenômeno isolado – já que eles estavam inseridos em uma conjuntura política mundial –, os grupos feministas que surgiram na região também faziam parte de um movimento mais amplo. Também a partir do final da Segun- da Guerra Mundial o feminismo começou a se organizar em movi- mentos que se levantaram como uma Segunda Onda5 de reivindica-

ções, movida pelas transformações sociais, culturais e políticas que

3 COGGIOLA, Oswaldo. Governos militares na América Latina. São Paulo: Contexto, 2001. 4 Como foi o caso argentino do Ejército Revolucionario del Pueblo – ERP – que depois se

uniu ao Partido Revolucionario de los Trabajadores, formando a sigla PTR-ERP, sob a qual atuaram muitas mulheres argentinas que depois se tornaram feministas.

5 Considerando a luta pelo voto das mulheres sufragistas a Primeira Onda levantada no começo do século XX.

149 tiveram como marco as manifestações ocorridas no ano de 1968. Como temas principais o corpo, a sexualidade e o prazer entravam em cena nesse segundo momento, que privilegiava também a luta contra o patriarcado.6

Simone de Beauvoir (1908-1986) foi um dos nomes emblemá- ticos para as feministas de Segunda Onda a partir da publicação da obra O segundo sexo, em 1949 na França. Nos Estados Unidos, Betty Friedan (1921-2006), inspirada nas ideias de Beauvoir, publicou em 1963 A mística feminina, apelando diretamente à insatisfação e às demandas das estadunidenses.7 Depois delas, várias outras auto-

ras se inseriram no debate que buscava colocar a opressão sobre as mulheres como questão central.8

Mas o interessante foi que esse movimento, de caráter re- volucionário e contestatório, apareceu nos países do Cone Sul exatamente no período da instauração dos regimes autoritários e conservadores. Certamente já havia mulheres identificadas com o feminismo nesses países antes das ditaduras, já que algumas ações isoladas podem ser observadas entre as “ondas” feministas, mas o fenômeno decorrente justamente da instauração de gover- nos ditatoriais e dos exílios políticos que eles provocaram fez com que o feminismo surgisse, em vários desses países, de dentro dos grupos de resistência.

Quando os militares tomaram o poder no Brasil, na Argen- tina e no Chile (e ao longo de suas ditaduras), muitas mulheres diretamente vinculadas a grupos de esquerda, ou companheiras e filhas de militantes, se exilaram em outros países. Várias delas tiveram contato com as ideias e reivindicações feministas no exte- rior, onde passaram a participar de grupos de consciência criados para discutir os problemas específicos relacionados às mulheres. Ao retornarem do exílio, muitas delas passaram a organizar grupos

6 Esta informação aparece em alguns capítulos deste livro justamente por sua importância explicativa do termo que optamos por utilizar: Segunda Onda feminista.

7 PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa his- tórica. História. Franca, v. 24, n. 1, 2005, p. 79-80. Disponível em: www.scielo.br/pdf/his/ v24n1/a04v24n1.pdf.

8 No Brasil, temos como pioneira nesse debate Heleieth Saffioti, que escreveu, em 1966, a tese A mulher na sociedade de classes: mito e realidade, publicada em livro em 1969.

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de consciência em seus países de origem, reproduzindo a ideia de que cada nova companheira deveria trazer outra companheira, fa- zendo com que a rede de mulheres nesses grupos aumentasse e as propostas feministas circulassem por esses meios.9

É importante destacar, no entanto, que o feminismo não pode ser visto como algo trazido “na bagagem” das ex-exiladas, já que grande parte das feministas brasileiras, argentinas e chilenas nunca deixou o país e muitas delas já haviam formado seus grupos de reflexão mesmo antes do retorno das que foram exiladas. Um bom exemplo é a formação inicial da UFA – Unión Feminista Argen-

tina –, em 1970, pois suas criadoras não foram exiladas e acabaram

tendo contato com as ideias europeias e estadunidenses por meio de viagens e da circulação de textos feministas.10 Outra parte das

mulheres que se identificaram com o feminismo, as marxistas, ini- ciou suas discussões a partir dos textos de Engels, dentro de seus próprios países. Além disso, muitas das que passaram a reivindicar contra a opressão de gênero (termo ainda não utilizado) naquele momento já haviam lido obras feministas em sua juventude, como

O segundo sexo, de Beauvoir.11

Outra situação da conjuntura mundial teve importância no aumento dos grupos feministas nesse período. De 1975 a 1985, a ONU instituiu a Década da Mulher. Mesmo que os países do Cone Sul estivessem em regime repressivo, as informações circulavam e esse evento suscitou diversas discussões acerca da “condição feminina” (como podemos observar nas temáticas dos periódicos feministas do período, analisadas em outros capítulos), promo- vendo a conscientização de muitas mulheres – o que permitiu uma maior organização do movimento feminista, sua ação efetiva e sua consolidação.

9 PEDRO, Joana Maria; WOLFF, Cristina Scheibe. Nosotras e o Círculo de Mulheres Bra- sileiras: feminismo tropical em Paris. ArtCultura, Uberlândia, v. 9, n. 14, jan.-jun. 2007, p. 58-59.

10 Cf. VEIGA, Ana Maria. Um mosaico de discursos: redes e fragmentos nos movimentos feministas de Argentina e Brasil. Neste livro.

11 Para maior detalhamento, cf. neste livro. BORGES, Joana Vieira. Leituras feministas de

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