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41seja, a história que se utiliza da comparação é basicamente uma

Histórias cruzadas, comparações, desafios

41seja, a história que se utiliza da comparação é basicamente uma

história que não prescinde da análise e da interpretação, já que uma simples narração de fatos não propicia a comparação.

Certamente, é bem mais simples descrever o que encontra- mos nas fontes que coletamos nos diversos países do Cone Sul, cruzar estas fontes, verificar as temporalidades diversas; ver onde se assemelham e onde se distanciam é o que dá qualidade para a história que estamos escrevendo.

Temos, entretanto, claro, como já salientou Kocka, que a histó- ria comparativa não é tanto uma metodologia, mas sim, muito mais, uma perspectiva.35 Isso fica mais claro quando se pensa que, para além da história comparativa,36 também estamos fazendo o que tem sido chamado por alguns de história cruzada, histoires croisées, ou

entangled histories. Ou seja, não estamos pensando que os países do

Cone Sul são entidades separadas, que podem ser analisadas como contextos diferenciados, e comparadas, mas que as histórias vivi- das em cada um desses países, onde nossas depoentes estiveram em suas trajetórias, encontram-se emaranhadas com as histórias de outros lugares, tempos e pessoas.

Lembramos que, além de todos estes países estarem vivendo sob ditaduras, em datas que coincidem, há uma intensa circulação de militantes de resistência a estas ditaduras e de pessoas ligadas à repressão, constituindo aquilo que foi chamado de “Projeto Con- dor”. Esta rede de relações, tanto de resistência como de repressão, envolveu os diversos países, implicando apoios múltiplos, resul- tados de um ambiente histórico que repercute não somente nas fronteiras como para além delas.

Na proposta de Werner e Zimmermann, a histoire croisée “[...] associa formações sociais, culturais e políticas, geralmente em nível nacional, que se assume que tenham relações entre si. Além disso, engaja-se na pesquisa sobre o próprio processo de entrecruzamento,

35 KEDAR, Benjamin Z. Outlines of Comparative History proposed by practicing histo- rians. In: KEDAR, Benjamin Z. (ed). Explorations in Comparative History. Jerusalem: The Hebrew University Magnes Press, 2009, pp.1-35, p. 23.

36 Aqui há uma utilização da expressão de WERNER, Michael and ZIMMERMANN, Béné- dicte. Beyond comparison: histoire croisée and the challenge of reflexivity. History and

Theory, 45 (February 2006), 30-50; e de KOCKA, Jurgen. Comparison and beyond. History and Theory, 42 (February 2003), 39-44.

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em termos práticos, bem como intelectuais”.37 Para estes autores, a história cruzada pertence ao grupo das perspectivas relacionais da história, como as perspectivas comparativas e os estudos de trans- ferências, as chamadas connected history e shared history (história co- nectada e história compartilhada).38 Além disso, a história cruzada colocaria uma maior ênfase na geração de sentido, ou seja, nas ma- neiras como os cruzamentos se fazem a partir da cultura.39 Apesar das muitas dificuldades e problemas levantados pelos autores que se debruçam sobre a possibilidade do uso das comparações e dos entrecruzamentos na construção do conhecimento histórico, acre- ditamos que não devemos nos acovardar.

Temos levado em conta que o conhecimento histórico é rela- cional e comparativo por excelência. Sendo construído no presente sobre o passado, ele pressupõe um diálogo e uma interação entre tempos e lugares diferentes. Em segundo lugar, somente a compa- ração permite determinadas desnaturalizações, estranhamentos e desconstruções. Tal como o trabalho de Margareth Mead40 permi- tiu ver que alguns comportamentos são construídos socialmente, e não como reflexo de uma natureza sexuada, a comparação históri- ca pode ajudar a ver caminhos diferentes nas construções sociais e culturais, mesmo quando, como no nosso caso, processos seme- lhantes ocorrem nas sociedades estudadas; mesmo quando esses processos se entrecruzam, compartilham e se conectam.

Como explica Jurgen Kocka, existe certa tensão entre as pro- postas da história comparativa e da história cruzada, mas esta é uma tensão aparente. A proposta da história cruzada é muito ins- tigante, mas pode dar a entender continuidade onde há necessa- riamente rupturas. Ou seja, em qualquer “história” há uma seleção de fatos, a construção de uma narrativa e de uma análise pelo his- toriador, não somente na história comparativa.

37 […] associates social, cultural, and political formations, generally at the national level, that are assumed to bear relationships to one another. It furthermore engages in an in- quiry regarding the very process of intercrossing in practical as well as intelectual terms. Tradução livre. WERNER e ZIMMERMANN, Bénédicte. Op. cit., p. 31.

38 Idem.

39 In contrast to the mere restitution of an ‘already there’, histoire croisée places emphasis on what, in a self-reflexive process, can be generative of meaning. Ibidem, p. 32. 40 MEAD, Margareth. Sexo e temperamento. São Paulo: Perspectiva, 2000.

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[...] abordagens comparativas somente enfatizam e deixam particularmente manifesto o que está implícito em qualquer tipo de trabalho histórico: um forte componente seletivo e construtivo. A história comparativa compele seus prati- cantes a refletir explicitamente sobre essas premissas episte- mológicas do seu trabalho, enquanto essas premissas estão frequentemente apenas implícitas em outras perspectivas.41 E é justamente com esta perspectiva que estamos escrevendo sobre as relações de gênero e feminismos nas lutas de resistências às ditaduras no Cone Sul. O ambiente é, como já vimos, propício a esta abordagem. Os países são próximos geograficamente, vive- ram num mesmo período governos ditatoriais e reagiram a eles das mais diversas maneiras, num momento em que ao nível inter- nacional as pessoas estavam discutindo mudanças culturais inten- sas que envolviam revolução sexual e feminismos. É para buscar a especificidade destas configurações, que não são isoladas, ao con- trário, se cruzam, que a perspectiva da história comparada e da história cruzada é utilizada.

Os trabalhos que apresentamos neste livro mostram um pou- co do desafio que assumimos em nossa pesquisa, tentando combi- nar narrativas elaboradas com os elementos dos testemunhos de nossas depoentes e dos documentos que pesquisamos com uma análise centrada nas relações de gênero e na construção do mo- vimento feminista. Buscamos, portanto, cruzar fronteiras, cruzar documentos, histórias e ao mesmo tempo compará-las para tecer o conjunto de narrativas que o leitor ou a leitora vai encontrar nas páginas que se seguem. Esperamos, com isso, contribuir para uma compreensão mais ampla de acontecimentos e relações marcadas por esses períodos de repressão, mas também de lutas por liberda- de e igualdade em todos os países do Cone Sul.

41 “[…] comparative approaches only emphasize and make particularly manifest what is implicit in any kind of historical work: a strong selective and constructive component. Comparative history compels its practioners to explicitly reflect upon these epistemo- logical premises of their work, while these premises are frequently just implicit in other approaches”. Tradução livre. KOCKA, Jurgen. Comparison and beyond. History and

redes e fragmentos nos movimentos