1 CATALOGANDO OS TOPOI ARGUM ENTATIVOS
1.6 ARGUMENTOS DE ASSOCIAÇÃO
1.6.1 Argumentos quase-lógicos
1.6.1.3 Argumentos de identidade e definição
Nesta ação argumentativa, a estratégia utilizada pelo orador é identificar os elementos que constituem o tema do discurso.
Assim, por exemplo, numa argumentação entre astrônomos, um dos oradores pode alicerçar a sua intervenção a partir das seguintes questões: o que são planetas? O que são estrelas? O que são galáxias? O que é um cometa?
Ao responder perguntas fundamentais, assim como estas, o orador está construindo um artefato lingüístico que se chama definição. Ele está criando um campo de significação para as palavras, possibilitando que este ou aquele termo possa ser compreendido nesta ou naquela acepção.
Ao tecer uma definição, o orador clareia e precisa os termos que guiam a sua argumentação, viabilizando desta forma o debate de idéias - visto que os outros podem concordar ou não com as acepções apresentadas.
Perelman estabelece com clareza os contornos dessa estratégia argumentativa:
O procedimento mais característico de identificação completa consiste no uso de definições. Estas, quando não fazem parte de um sistema formal e pretendem, não obstante, identificar o definiens com o definiendum. serão consideradas, por nós, argumentação quase-lógica. Não podemos admitir que essas definições possam ser fundamentadas na evidência de relações nocionais, pois isso suporia a clareza perfeita de todos os termos cotejados. (IBIDEM, p. 238).
É sumamente importante, nesta estratégia argumentativa, que a definição não seja totalmente arbitrária nem totalmente evidente. Se for uma
coisa ou outra, o orador ficará impedido de elaborar uma construção argumentativa mais substanciosa.
Na definição totalmente arbitrária, o orador praticamente ressignifica uma palavra, constrói um novo significado para ela. Ora, se aquela significação é completamente nova, e é da autoria do orador, ele mantém com ela uma relação de autor-com-obra-de-arte, e obras-de-arte dispensam justificação - elas são obras da criatividade humana e devem ser respeitadas com as suas características próprias.
Já na definição evidente, a justificação se torna supérflua pois não há sentido em se argumentar por uma tese que já conta com a aceitação universal.
Um refinamento, entretanto, cabe aqui nesse âmbito de referências.
Existe um certo tipo de definição arbitrária que merece expressiva consideração intelectual. É a chamada definição nominal.
Trata-se de uma antiga construção do pensamento filosófico, que sempre distinguiu entre definição real e definição nom inal.
A definição real, na tradição filosófica, é aquela que tem um lastro nítido no mundo empírico, resultando claramente de uma observação (ou pesquisa) dos fatos e da realidade do mundo exterior.
Já a definição nominal é um artefato discursivo, uma criação puramente lingüística, um entrelaçado de conceitos tramado pela engenhosidade e pela inventividade do intelecto humano.
A definição real se impõe à aceitação coletiva pela sua consistência científica ou factual, enquanto uma definição nominal ganha força predominantemente em virtude das convenções sociais.
Diferentemente das outras definições arbitrárias mais rústicas - a definição nominal usualmente se encaixa num sistema conceituai ou teórico (científico, ideológico, jurídico, econômico, político ou religioso). Por esta razão - mesmo sem ter um respaldo direto no mundo empírico - a definição nominal se legitima pelo seu embasamento num conjunto de idéias racionalmente elaborado e provido de aceitação social.
No caso do discurso jurídico (não o discurso deôntico, que é a letra da lei, o texto legal) temos um tipo de definição nominal que não tem tanto fundamento empírico (como as definições do discurso sociológico), e que, por outro lado, não é totalmente arbitrário.
O que é, por exemplo, uma sociedade comercial? O que é união estável? O que é servidor público?
São definições nominais, visto que são artefatos lingüísticos criados no leito do discurso para resumir idéias que já estavam presentes no nível da linguagem. Ou seja, são conceitos que servem para organizar outros conceitos.
É interessante observar que os textos legais e a doutrina, muito freqüentemente, tomam de empréstimo antigos termos da linguagem natural e os revestem com novos significados. Palavras ou expressões são retiradas do seu significado primitivo, de dicionário, e passam a referenciar novas coisas, passam a ter um significado técnico.
Temos aqui um processo de auratizacão das palavras, um curioso movimento pelo qual se cria um “sentido figurado” para os vocábulos, sentido que passa a ser considerado “o verdadeiro significado”, o “significado no sentido estrito” daqueles vocábulos, desde logo adquirindo uma aceitação e uma legitimidade naquele universo de falantes.
É assim que nós sabemos (ou intuímos) que a locução nominal “união estável” é uma expressão auratizada pelo discurso jurídico; uma locução que
diz, nos dias de hoje, muito mais que a mera soma dos vocábulos “união” e
“estável”, em seu estado de dicionário.
Essas locuções auratizadas são verdadeiras gestalten, ou seja, realidades em que o todo representa bem mais que a mera soma das partes.
Esta estratégia discursiva tem recebido vários nomes, tais como tautologia aparente, ploce e silepse oratória. Perelman detalha essa evolução:
Quando, numa discussão não-formal, a tautologia parece evidente e voluntária, como nas expressões do tipo “um tostão é um tostão”, “crianças são crianças”, deverá ela ser considerada uma figura. Utiliza-se então uma identidade formal entre dois termos que não podem ser idênticos, se o enunciado deve ter algum interesse.
A interpretação da figura, a que chamaremos tautologia aparente, requer portanto um mínimo de boa vontade do ouvinte.
Faz tempo que esses enunciados chamam a atenção dos teóricos do estilo. Vendo que os dois termos deveriam ter um significado diferente, eles transformaram essas tautologias em casos particulares de outras figuras: segundo Vico, na figura chamada ploce (“Córidon desde aquele tempo me é Córidon”), o mesmo termo é tomado para significar o comportamento (ou a coisa e as suas propriedades);
segundo Dumarsais, em “pai é sempre pai” o segundo termo é um substantivo tomado adjetivamente; segundo Baron, é uma silepse oratória, estando uma das palavras no sentido próprio, a outra no figurado. (IBIDEM, p. 246).