Professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP)
E-mail:[email protected]
O Legado de Paulo Freire
das, dentre outros fatores, em parte pelos diferentes estágios de desenvolvimento nacional e subnacional, bem como pelas diferenças de organização e capaci- dade de seus serviços essenciais (dentre os quais está o de saúde), em parte pelo papel desempenhado por suas lideranças políticas.
Além disso, a OMS faz uma diferenciação: houve países que assumiram responsabilidade frente à pandemia, instituindo as medidas de contenção da propagação do vírus e de diagnóstico pela identificação rápida de casos e isolamento de pessoas infectadas ou com suspeita, rastreamento abrangente de contatos, quarentena de contatos etc. Cabe enfatizar que nestes países e regiões ocorreu um forte impacto sobre a propagação da Covid-19, reduzindo a curva de contaminação, de gravidade e letalidade (WHO, 2020). Mas houve países que não procederam dessa maneira, às vezes por não contarem com uma rede de serviços de saúde capaz de atender, diagnosticar e evitar o excesso de mortalidade ou pela ausência de um serviço ativo de vigilância em saúde responsável
pelos dados estatísticos e pelo controle; também não ocorreu um direcionamento político envolvendo, especialmente, serviços de saúde públicos e privados para que as ações tivessem algo de uníssonas. Este segundo conjunto de países vivenciou o avanço da contaminação pela via comunitária, com profundo impacto negativo sobre a vida social, sanitária e econômica.
O Brasil é um dos países que compõem este se- gundo grupo. Aqui, as medidas de isolamento social ocorreram de formas profundamente heterogêneas e geograficamente desiguais, muito mais marcadas por iniciativas (muitas das vezes incipientes, amedron- tadas, atrasadas e frágeis) de instâncias estaduais e municipais do que efetivamente por uma política federal.
Como se pouco isso fosse, neste período, o Minis- tério da Saúde (MS) perdeu dois ministros e, com a vacância, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nomeou para o posto um general do Exército, que as- sume o cargo sem um programa objetivo de conten-
ção da propagação do vírus da Covid-19 e tampouco um discurso a favor da saúde pública e do Sistema Único de Saúde (SUS). O silêncio do ministro diz muito, uma vez que se aventura numa área distante de seu domínio técnico-científico, mas, enquanto ge- neral, segue a disciplina e a obediência ao presidente da República, o qual se colocou contra as medidas de isolamento social, querendo, inclusive, desrespei- tar a autonomia dos estados e municípios ao tentar bloquear a implementação do isolamento social nas várias cidades e entes federados. Fato este levado até a Suprema Corte (STF), que julgou constitucio- nal a garantia de governadores e prefeitos quanto à autonomia para traçar planos de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus, Covid-19, em seus territórios, incluindo as medidas de isolamento so- cial. Na busca por ganhos eleitorais, ignorando quase completamente as causas de que dependem as medi- das de isolamento, o presidente Bolsonaro alegou que estava defendendo o trabalho e os empregos e que fora impedido pelo STF de resguardá-los ou de fazer qualquer coisa para enfrentar a pandemia (ALONSO, 2020). Tal discurso visa apenas manipular as pessoas, ao passar uma imagem que não corresponde aos fa-
agem mais por conta própria, que, segundo qualquer diretiva, os hospitais continuam com risco de saturação de suas vagas para a Unidade Intensiva de Tratamento (UTI) e, como ‘cereja do bolo’, os dados sobre a pandemia continuam (quando são revelados) dispersos e nebulosos. Mas, ainda até aí, não há nada de novo.
Jair Bolsonaro assumiu desde o início uma postura de negação da pandemia e da letalidade do vírus. Entre um pronunciamento e outro, ironizou o isolamento social e defendeu insistentemente a reabertura do comércio, das academias de ginástica, das escolas, chegando a minimizar o risco da pandemia, na medida em que os brasileiros pobres, segundo suas próprias palavras, seriam imunes, pois tomam “banho no esgoto e não pegam nada” (URIBE; CARVALHO, 2020).
Estas e outras cabais demonstrações de falta de humanidade e sabedoria (“gripezinha”, “vamos todos morrer um dia”, “e daí?”, “eu não sou coveiro”), que foram resumidas num editorial da BBC News (2020), apesar do estarrecimento que possam causar, encon- tram – é preciso dizer – seus adeptos. O posiciona- mento político de boa parte do empresariado bra- sileiro não deixa dúvidas quanto às suas afinidades eletivas. Muito mais grave é o posicionamento que tem surgido entre a população em geral, que imagi- na ser o enfrentamento à Covid-19 muito mais uma questão de valentia ou de fé que de prevenção e de conhecimento técnico-científico. Também aqui a ne- gação da ciência cumpre uma função política.
Foi em meio a todo este contexto de pandemia que as aulas presenciais foram suspensas, mas, assim como na saúde, a insegurança se configurou como sentimento basilar de professores/as, estudantes e toda a sociedade. A suspensão das aulas ficou a cargo de cada estado, sendo o retorno prometido praticamente mês a mês. A principal estratégia para manter as atividades escolares em funcionamento, ao longo da pandemia, tem sido a adoção do ensino remoto. É preciso destacar o caráter deste tipo de ensino, que, apesar de ganhar novas proporções no momento pandêmico, não é novidade no País. Embora o ensino por meio de plataformas on-line, com a disposição de conteúdos não seja novidade (OLIVEIRA, 2009), o foi em grande medida, pela imposição do manuseio de plataformas, webcam,
O Legado de Paulo Freire
COVID-19: trabalho e saúde docente