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Arquitetura do artefacto = escultura + tecnologia

Desenvolvimento do trabalho de pesquisa

2.3.3. Arquitetura do artefacto = escultura + tecnologia

grande vulto e que seria necessário passar cablagem de grande metragem pelo interior dos ramos e do tronco, de modo a alimentar e a obter os dados da interação dos utilizadores com cada um dos frutos. Abandonamos os materiais não ocos e optamos pelo tubo; de entre os tipos de tubos disponíveis no mercado e testados, desde o tubo de canalização, ao material de jardinagem e eletricidade, apenas o cobre e o latão cumpriam as nossas exigências a nível estético. O cobre, mais caro, tinha o inconveniente de ser vendido em dimensões que não nos convinham, implicando um esforço financeiro elevado e não compensatório. O latão é uma liga metálica, passível de ser soldada com alguma facilidade, dúctil, maleável, com uma grande resistência a impactos (uma característica fundamental neste contexto), de cor amarelada não muito dissonante da cor castanha dos ramos e troncos naturais e esteticamente muito valorosa – estava decidido qual seria o material a utilizar.

2.3.3. Arquitetura do artefacto = escultura + tecnologia

Para facilitar o percurso, dividimos a produção do artefacto em etapas – desde o trabalho colaborativo, aos materiais e às combinações que estabelecemos para chegar a uma conclusão.

A Escultura

Comecei pela seleção e aquisição dos materiais para a estrutura, o corpo da escultura e para os frutos, com a garantia que já tinha sido obtida após estudo sobre a maquete.

Para o corpo metálico adquiri 3 tipos de vara de latão, com 3 secções de dimensão diversa, para o troco, os ramos e as hastes. As varetas originais tinham 2 metros de comprimento que foram seccionadas com serra manual, em pequenas varetas de dimensão variada, condicionada pela estética, mas também pela posição relativa da colocação das esferas. As varas maiores, os ramos, com cerca de 50 centímetros destinavamse a acolher um ou dois frutos, consoante o encaixe das esferas no conjunto. Em alguns ramos adicionámos um pequeno segmento na zona superior, simulando pequenos galhos. Em todas os locais assinalados para ter esfera foi feito um orifício onde encaixava um outro segmento de latão, que tinha como função suspender as esferas/frutos e de

deixar passar a cablagem elétrica. Neste segmento em latão eram agarrados os frutos (esferas) com cola quente (Figura 59).

Figura 59 - Seleção, corte e lixamento do latão

Uma extremidade das varas tinha de ser cortada em ângulo cuja amplitude era diversa e que variava entre os 30º e os 60º; estes ângulos proporcionavam diferentes inclinações dos ramos, o que era meramente uma decisão da ordem da harmonia formal. Cada um destes ramos encostava e foi soldado ao tronco central (Figura 60), num dos 45 buracos que foram feitos com broca manual e cuja distribuição também foi calculada previamente, de modo esteticamente equilibrado, momento para o qual foi importante a maquete efetuada anteriormente (Figura 61). Cada extremidade das varetas foi lixada à mão, com palha-de-aço, de modo a evitar arestas vivas, quer exterior quer interiormente, para proteger a cablagem e evitar rasgos, e consequentemente, curto- circuitos, que poderiam ser fatais para o funcionamento do artefacto.

Figura 60 - Tronco central da escultura, com furações

Figura 61 - Segmentos de latão com furações

Para as soldaduras foram necessárias 10 varetas de prata, a única solda que garantia a resistência a forças e choques, não sendo quebradiça como o estanho. A fusão a elevadas temperaturas levou-nos a solicitar o trabalho de um profissional do ramo, dos poucos que ainda faz este género de trabalho (Figura 62)141. Acompanhámos de perto todas as soldaduras de modo a

141 Para a consecução deste projeto devemos agradecer o valoroso trabalho do senhor António Paulino, serralheiro com oficina em Algés, cujo profissionalismo e entrega facilitou a relação de trabalho e conduziu ao resultado ambicionado.

garantir que a colocação dos ramos no tronco seguia o esquema que fizéramos e, no caso de ser necessário improvisar, agir. Embora não houvesse um esquema rígido, era necessário assegurar o equilíbrio formal calculado e a relação de dimensão e posição corretas entre os varões – estas posições relativas condicionavam a posterior colocação das esferas/frutos. Em alguns ramos foram colocadas pequenas hastes que tinham mero efeito estético, o que atribuía dinamismo ao conjunto e quebrava a rotundidade das esferas. A soldadura provocou o escurecimento acentuado do latão, pelo que foi necessário lixar, de novo, todas as pequenas peças e recantos.

Figura 62 - Soldadura do corpo de latão

Terminada esta fase, foi necessário fazer duas escolhas relacionadas com a aparência do artefacto, as quais não eram reversíveis e não estavam previstas. A primeira prendeu-se com o escurecimento do latão provocado pelo manuseamento da peça, após já ter sido soldada e lixada. Neste momento era possível dar uma camada de verniz para perpetuar o amarelo natural do latão, mas foi nossa opção não o fazer e permitir que a oxidação provocada pelo futuro manuseamento e pelo próprio tempo, escurecessem a peça. Ficaria registado no corpo do artefacto o uso, como memória.

Este momento pode ser transportado deste modo para uma linguagem gráfica (Figura 63) que ajuda a compreender as opções e questões ponderadas no momento de reflexão de ordem meramente estética.

Figura 63 - Um dos primeiros momentos de apreensão estética

O segundo momento de selecção prendia-se com a base de sustentação e equilíbrio da Arbor (Figura 64). Até este momento ainda não tínhamos tido uma visão do conjunto na sua posição natural e não tínhamos, por isso, decidido qual seria o material a usar; equacionámos o ferro ou a madeira. A opção recaiu sobre um material contrastante com o latão em termos cromáticos e de acabamento: o aço com tratamento corten; afinal, na natureza, a base da árvore nasce do chão, predominantemente escura, acastanhada, e sem forma concreta e definida.

Figura 64 - Base da ARBOR em aço corten

Uma vez que o aço corten pode adquirir uma pátina protetora, de óxido, com uma cor avermelhada e castanha, deixámo-lo durante duas noites com um tratamento de vinagre de modo a obter essa pátina. De novo com um apreço por contrastes, decidimos duplicar a base, mantendo a forma. A base da Arbor é, então, constituída por duas partes, uma de aço corten e outra de madeira, em contraplacado marítimo, que tem uma cor clara. Optámos pela madeira em contraste com o aço, tanto para formar dois binómios, o macio/duro e o leve/pesado tanto em termos cromáticos como materiais.

A base, na Arbor, é importante em termos físicos porque o estabiliza e mantém em pé, mas também pelo conceito inerente – a forma da base é o recorte que frespresenta a vista superior da Arbor (Figura 65). Para amortecer esse contraste, entremeámos uma placa de acrílico baço, branco.

Figura 65 - Desenho da base da Arbor

Os Frutos

Como referi, a escolha dos materiais e técnicas a aplicar nos frutos da Árvore das Letras, estava assente na opção tomada anteriormente quando da conceção da IaMO. No entanto, não quis deixar de efetuar nova pesquisa no sentido de verificar se seria possível forrar as esferas de poliestireno com outro tecido, já que este momento coincidiu com o desbravar caminho em relação à iluminação interior de cada fruto. Depois de apurada pesquisa chegamos a conclusão de que a malha, igual à já utilizada, seria a mais indicada por diversos motivos dos quais saliento:

a fácil adaptação à forma esférica no ato da colagem, o que não seria possível com outro tecido qualquer;

a translucidez, que permitia a passagem da luz branca interior; a facilidade de colocação das letras pretas através da costura;

a ausência de brilho, que colaborava para homogeneizar a cor;

um suave pêlo que esta malha apresentava do avesso e que contribuía para suavizar a luz, uniformizando-a.

Consideramos, assim, que este material se tornou numa mais-valia para a conceção estética da peça.

A segunda opção a tomar foi em relação ao material de que seriam feitos os símbolos do código escrito. O material deveria ser

opaco, para se destacar e não deixar passar a luz interior;

maleável, para se ajustar à forma esférica, ser possível recortar à mão e, essencialmente, permitir ser costurado à malha de forrava a esfera (Figura 66).

Figura 66 - Série de esferas com os símbolos afixados

O material escolhido foi o feltro preto por ter uma opacidade forte e ser maleável. Tomadas as opções relativamente à forma de cada componente físico de menor escala e seus materiais, seguiu-se a sua produção.

Os Símbolos do Código Escrito

“A arte liberta a letra da sua função significante escrava do verbo, da língua, da escrita. A letra foge assim ao totalitarismo da linha tipográfica e ao trabalho ocular, onde a visão é arrastada por essa linha. Num momento dado, a letra (…) conquista o espaço (…). A letra realiza-se como forma na arte” (Costa & Raposo, 2010:12).

Uma vez que existia um percurso efetuado, quisemos aproveitar todo o potencial que a experimentação em termos de letras tinha proporcionado. Esse facto não impediu uma nova pesquisa uma vez que posteriormente, existiu um fator novo: a iluminação do interior e cada um dos frutos/bolas. Efetivamente, a fonte é importante para o conjunto, não só em termos estéticos, mas também funcionais. A pesquisa efetuada passou por tipos sem serifas, mais atuais (Neo Sans e Futura) e outros, serifados, clássicos (Times, Garamond) – nenhum nos pareceu suplantar a simplicidade e a elegância da fonte em que tinha apostado anteriormente, a Bodoni MT. Além destes aspetos, esta fonte tinha a vantagem de, na sua estrutura, apresentar uma haste suficientemente larga, o que, em termos práticos era proveitoso para camuflar os LEDs utilizados no sensor e permitir passar o ponto de costura por cima, de forma discreta. A dimensão das letras seria tal que se destacasse no artefacto, nas esferas/frutos, fosse reconhecível à distância e não permitisse erros de leitura e reconhecimento do símbolo.

Há um aspeto que destaco relativamente a esta opção: o fator emotivo e afetivo proporcionado pelo tipo, que é formalmente semelhante ao aplicado na Cartilha Maternal João de Deus (Figura 67) em que aprendi a ler142. Reside nestas motivações, a escolha aquando da obra anterior IaMO.

142 A aprendizagem da escrita e da leitura na Escola João de Deus era feita com a Cartilha Maternal, de João de Deus. No meu caso pessoal aconteceu entre 1967 e 1971, em Viseu.