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ARQUIVOS SOBRE A GUERRA

No documento Fotografia de Guerra (páginas 46-50)

3 WARBURG E SEUS ESTUDOS

3.7 ARQUIVOS SOBRE A GUERRA

Durante a Primeira Guerra Mundial, Warburg dedicou-se a várias iniciativas em prol do esforço de guerra alemão. O pensador estava convencido de que o conflito havia sido provocado pelos Aliados e que seu país tinha a razão moral a seu lado. Além disso, talvez como em outros episódios políticos e culturais, que compreendia com uma visão ampla e de longo prazo, ele previa a derrota da Alemanha – como afirmou Carl Georg Heise (SCHWARTZ, 2015, p. 9) –, o que de início parecia improvável aos olhos de seus contemporâneos, mas veio a acontecer.

Talvez antevisse ainda os “eventos da guerra com a perspectiva de uma aterrorizante longa duração, a de uma ‘guerra civil europeia’”, conforme as palavras de Georges Didi-Huberman (2012, p. 58), que de fato também veio a ocorrer, até pelo menos 1945, com os mesmos fins trágicos para a Alemanha e, mais especificamente, para os judeus como ele.

Várias pessoas que conviveram com Warburg nos quatro anos entre 1914 e 1918 dizem que ele viveu o mais profundo estresse. Peter Schwartz menciona o depoimento de Carl Heise que trabalhava com Warburg ao tempo do início da Primeira Guerra Mundial e descreve seu estado de esgotamento e o esforço envolvido na catalogação das notícias sobre a guerra:

“Warburg deve ter sofrido além do descrito durante estes anos de guerra, e a contribuição que escolheu para dar ao esforço de guerra foi certamente mais desgastante e envolvente do que a de muitos soldados no fronte” (SCHWARTZ, 2015, p. 10). Didi-Huberman narra o elogio fúnebre em que Ernst Cassirer diz que Warburg se manteve “no olho do furacão”. O crítico francês afirma que Warburg, “entre 1914 e 1918, vivenciou uma ‘guerra visceral’ até o ponto da loucura” e que “carregou a guerra nos ombros como um Atlas pagão ou um tsadic33 hebraico”. Parte de sua depressão talvez fosse consequência da participação do banco da família Warburg no financiamento dos esforços militares do país, o que pode ter aumentado seu senso de responsabilidade, segundo Didi-Huberman (2012, p. 57-58).

De fato, o resultado desse estresse prolongado foi que, logo após o conflito, o iconologista alemão teve um surto de depressão com sinais de esquizofrenia e paranoia, que provocou inicialmente um recolhimento de vários meses a partir de 1919, seguido de um tratamento clínico em sanatório particular na Alemanha e, por fim, entre 1921 e 1924, uma internação na clínica Bellevue, em Kreuzlingen (Suíça). Essa instituição era dirigida por um famoso psiquiatra, Ludwig Binswanger (1881-1966), que havia trabalhado com Carl G. Jung e

33 Tsadic é como religiosos hebraicos definem um santo, alguém que não só não cometeu pecados, mas também não tem tendência a cometê-los. O Talmude afirma que há sempre no mundo trinta e seis tsadics. Em razão de sua existência, o mundo não é destruído, diz o livro.

mantinha intensa correspondência com Sigmund Freud. Binswanger era o criador de uma doutrina chamada “psicologia existencial”, que alcançaria sucesso no tratamento de certos tipos de psicose e de casos de esquizofrenia, como explica Ulrich Raulff no texto que serve de posfácio a uma edição espanhola de O Ritual da Serpente (WARBURG, 2008, p. 67 e segs.).

O interno deu muitos sinais de que não conseguiria se recuperar, até que, na primavera de 1923, quando sua melhora já estava clara graças a um programa de autorrecuperação conduzido na clínica, Warburg propôs a Binswanger fazer uma conferência para os médicos e funcionários do hospital sobre tema relacionado a seus estudos. Provaria assim que estava preparado para ter alta e voltar ao convívio da família e à vida normal em Berlim.

O tema escolhido foi o ritual da serpente que índios pueblo, da região do Novo México (EUA), fazem para provocar chuva em épocas de seca. Warburg tinha assistido a um desses rituais em 1895 e documentado o que vira. Embora tenha deixado uma recomendação escrita para que o texto da conferência jamais viesse a conhecimento do público geral, o documento foi editado posteriormente e tornou-se uma de suas obras mais estudadas, por ter juntado elementos do Renascimento europeu, que ele já pesquisava, com um ritual tribal americano e revelar um estudioso de campo completo, responsável por toda a documentação fotográfica que ilustra e explica o estudo.

Em 1914, no entanto, o estresse de Warburg parecia apenas alinhado com o de tantos outros alemães, de todos os extratos sociais, deprimidos diante de um conflito militar de larga escala que consumia as energias do país e tirava vidas. Pessoalmente, decidiu que sua contribuição ao esforço de guerra se daria no front que dominava, a cultura, o trabalho intelectual, como disse a Carl G. Heise:

Uma pessoa só poderia contribuir para a defesa usando as armas de que dispunha a seu alcance; assim, ele teria de lutar usando os recursos de sua biblioteca. Ele tinha começado a organizar um arquivo de fichas, no qual estava catalogando os eventos mais importantes da guerra. Naturalmente, não eram primordialmente relatórios de batalha, mas sim sintomáticas reações mentais em todos os lugares do mundo, o aprimoramento das tendências de propaganda cheia de ódio. (HEISE apud SCHWARTZ, 2015, p. 10)

Foram dois os frontes de combate de Warburg logo no início da guerra: o arquivo de fichas (ou Kriegskartothek, em alemão) com referências a livros e notícias de jornais principalmente, mas incluindo também outros materiais, como cartões postais significativos para questões relevantes para a guerra (o antissemitismo era uma delas); e a produção de uma revista para distribuir na Itália, a fim de divulgar a causa alemã e influenciar a sociedade italiana a manter a neutralidade dos primeiros meses de guerra.

A revista, redigida por Warburg com dois intelectuais colaboradores, Georg Thilenius (alemão) e Giulio Panconcelli-Calzia (italiano), teve apenas dois números, um chamado La Guerra del 1914 – Rivista Illustrata Dei Primi Tre Mesi Agosto Settembre Ottobre e um número 2, intitulado La Guerra del 1914-15 – Rivista Illustrata dei Mesi Novembre Dicembre Gennaio Febbraio.

Dois documentos escritos por Warburg que fazem parte do acervo de seu arquivo em Londres e continuam até hoje inéditos em publicações ajudam a entender os processos que levaram tanto à criação do arquivo sobre a guerra como à publicação da revista.

Imagem 5: capas das duas edições da revista sobre a guerra publicadas por Warburg na Itália entre 1914 e 1915

O primeiro documento é um texto de quatro páginas intitulado “Kriegskartothek Warburg” e datilografado e assinado por “CH”, ou Clara Hertz, assistente de Warburg, como frequentemente acontece. Para organizar o arquivo, chamado em alemão “Cartoteca da Guerra”, “Warburg parte do princípio de que o essencial de um jornal é danificado pelo recorte, pois uma coluna não poder ser recortada sem igualmente danificar outra que talvez contenha algo de igual importância” (WARBURG, 2016a, p. 1). Por isso, quando um artigo de jornal era considerado importante, a edição toda era guardada (o artigo destacado na página com uma anotação de Warburg), e uma ficha (ou cartão) era então produzida, com o nome do jornal e data, uma classificação do tema geral do texto e um resumo do artigo, como explica o texto:

Ele [Warburg] faz excertos daquilo que identifica como importante; os jornais em si são amarrados e guardados. Já que cada excerto contém, com precisão, o nome, a data e o número do jornal do qual foi retirado, o respectivo artigo pode ser encontrado e lido sem dificuldades, em toda a sua extensão, no original. (IDEM, p. 2)

O outro documento é um texto de duas páginas datilografadas, sem assinatura, arquivado em um envelope colado no lado interno da encadernação da segunda capa do segundo número da revista, que Warburg aparentemente redigiu com a finalidade de divulgar o projeto da publicação. O texto explica:

No âmbito de tais informes, o Prof. Thilenius, juntamente com o Prof. Dr. Warburg e o Dr. Panconcelli-Calzia, lançaram a edição de uma revista trimestral em italiano, ilustrada e em grande formato, da qual até agora dois números já foram publicados (pela Editora von Broschek & Co.). O objetivo foi, por um lado, oferecer através de imagens selecionadas uma impressão da cultura alemã durante a guerra e, simultaneamente, tanto dentro quanto fora da Alemanha, por meio de uma série de testemunhas diretas da vida política e da ciência, apresentar de modo claro e consistente o sentido intrínseco de nossa luta nesta Guerra, na medida em que ela pudesse interessar especialmente à Itália. (WARBURG, 2016b)

As duas iniciativas, arquivo e revista, eram umbilicalmente ligadas, como explica Peter Schwartz no texto que se dedica a reconstituir a história do arquivo. A Kriegskartothek nasceu

“dos preparativos acadêmicos para uma revista sobre a guerra editada em língua italiana”

(SCHWARTZ, 2016, p. 13). Logo, a Itália, que se manteve neutra nos primeiros meses do conflito, aderiu aos países aliados contra a Alemanha e o Império Austro-Húngaro, assinando o Tratado de Londres em 26 de abril de 1915. Profundamente deprimido e decepcionado com o país que adotara quase como segunda pátria, Warburg chamou o ato de “quebra de confiança da Itália” e desistiu da propaganda externa, interrompendo a publicação da revista.

Também como subsídio à publicação da revista italiana, Warburg havia contratado os serviços de uma agência de fotografia chamada Deutscher Überseedienst (DÜD, na sigla alemã para o nome que quer dizer “Serviço Alemão do Ultramar”). A agência passou a enviar imagens da guerra a Warburg e manteve o fornecimento mesmo depois da suspensão da publicação da revista. Um conjunto de cerca de 1.550 dessas fotografias foi encontrado em 2004, surpreendendo os pesquisadores, uma vez que não havia referência a esse material no Arquivo Warburg34. A coleção foi tema de uma pesquisa que realizei em duas temporadas, em janeiro de 2015 e no primeiro semestre de 2017 (SERVA, 2017a; SERVA, 2017b). Fotos dessa coleção foram usadas neste trabalho.

34 As fotografias foram acondicionadas em três caixas e receberam o código geral IV.64.Zeitgeschichte e três letras, uma para cada caixa (A, B e C).

No documento Fotografia de Guerra (páginas 46-50)