4 LEITURAS CONTEMPORÂNEAS INSPIRADAS EM WARBURG
4.1 GINZBURG, O DEDO DE DEUS E O APONTAR DA CRIANÇA
Ginzburg, que se tornou conhecido no Brasil pelo sucesso de seu primeiro livro lançado por aqui (O Queijo e os Vermes, em 1987), utilizou o conceito de Pathosformel como estruturador dos ensaios de uma obra mais recente, Medo, Reverência, Terror (2014), que inclui o texto Seu País Precisa de Você. Ao final da apresentação de seu livro, o escritor italiano conclui:
A noção de Pathosformeln ilumina as raízes antigas de imagens modernas e a maneira como tais raízes foram reelaboradas. Mas o instrumento analítico que nos foi legado por Warburg pode ser aplicado a fenômenos muito diferentes daqueles a que se destinava inicialmente. (GINZBURG, 2014, p. 12)
Ginzburg vai atualizar o método, ou “instrumento analítico”, de Warburg para revelar
“fórmulas de páthos” nos cartazes de convocação de voluntários para alistamento militar usados pelos ingleses no início da Primeira Guerra Mundial. No texto, definido pelo autor como um
“estudo de caso de iconologia política”, ele estuda os pôsteres – comuns em países em guerra ou em crise política ao longo do século 20 – que associam um slogan que diz algo como: “Você tem um dever a cumprir” a imagem de um líder militar ou popular apontando o dedo para quem lê. Esses cartazes todos se baseiam em um que foi produzido pelo governo britânico para convocar voluntários ao combate no início da Primeira Guerra Mundial.
Quando se iniciou o conflito, a Grã-Bretanha tinha um líder militar muito popular, lorde Horatio Herbert Kitchener (1850-1916), àquela altura já idoso. Ele havia sido nomeado ministro da Defesa em 1914 exatamente por sua capacidade de animar a população e obter adesões ao alistamento de voluntários a fim de aumentar o contingente das forças armadas e emprestou sua imagem a pôsteres espalhados por todo o país que diziam: “Britânicos, (lorde Kitchener) quer
você. Junte-se ao Exército de seu país. Deus salve o Rei!” O nome de Kitchener não estava escrito, era substituído pela imagem de seu rosto e o dedo apontado para o espectador.
Imagem 1: cartaz com lorde Kitchener divulgado no início da Primeira Guerra Mundial
O efeito foi imenso, atraiu centenas de milhares de soldados voluntários, surpreendendo o próprio governo britânico, assim como os de outras nações, como se pode depreender do fato de que inúmeros clones foram produzidos desde então, tanto para esforços militares como para publicidades de produtos e mesmo antipropaganda. Ainda na Primeira Guerra Mundial, cartazes semelhantes foram produzidos por outros contendores.
“Você tem um dever a cumprir” ou “Tio Sam quer você” e seus congêneres se tornaram clássicos da comunicação política do século 20. No Brasil, o modelo foi usado pelos rebeldes paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932. Um soldado vestido com as cores do Estado acompanhava o slogan: “Você tem um dever a cumprir. Consulte a sua consciência”.
Imagem 2: versão brasileira do cartaz, usada na Revolução de 1932 em São Paulo
Ginzburg procura dissecar a origem da eficiência dessa convocação, que a fez ser copiada inúmeras vezes por governos e partidos, por propaganda política ou até mesmo em publicidade comercial. Ele vai mostrar como esse efeito pode ser explicado porque as peças recorrem a uma Pathosformel presente em pinturas romanas e gregas que só sobreviveram aos séculos nas referências feitas pelo escritor romano Plínio, o Velho, em sua História Natural.
Ginzburg seleciona e comenta alguns trechos do autor antigo:
Minha tentativa de pôr em ação o argumento de Warburg começará com três passagens do livro 35 da História Natural de Plínio, o Velho, uma seção inteiramente dedicada a artistas gregos e romanos. A primeira se ocupa de Fâmulo, pintor da época do imperador Augusto. Ele era, escreveu Plínio (XXXV, p.120), “um artista digno e severo, mas também muito afetado; era dele uma Minerva que via o espectador independentemente de onde ele estivesse olhando” (spectantem spectans, quacumque aspiceretur).
A segunda passagem [...] é sobre Apeles, o famoso pintor grego:
‘Ele também pintou Alexandre, o Grande, segurando um raio, no tempo de Ártemis em Éfeso, por um pagamento de vinte talentos de ouro. Os dedos parecem se projetar da superfície, e o raio dá a impressão de estar fora do quadro [...]; os leitores devem lembrar que tudo isso foi produzido por quatro cores’.
Uma terceira passagem [...] esclarece indiretamente o significado da anterior. O retrato que Apeles fez de Alexandre como Zeus, com os dedos que se projetam e seguram um raio, dependia de um escorço extremado, um artifício visual que fora levado à perfeição por outro pintor, Pausias. Diz Plínio:
“Mas Pausias também fez quadros grandes, como, por exemplo o sacrifício de bois que antigamente podia ser visto no Pórtico de Pompeu. Inventou um método de pintar que a seguir foi copiado por muitos, mas nunca igualado por ninguém; a principal inovação é que, embora quisesse mostrar o longo corpo de um boi, ele pintava o animal de frente para o espectador, e não de lado, e o grande tamanho do boi é plenamente expresso”.
(GINZBURG, 2014, p. 74-75).”
Ginzburg demonstra que essas duas pinturas da Antiguidade continham elementos que estariam presentes como Pathosformeln e garantiriam o efeito convincente e mobilizador dos pôsteres de lorde Kitchener e de todos os seus sucedâneos: a capacidade de olhar para o observador de qualquer ângulo que ele observe e o dedo que se projeta da superfície (por um método pictórico que parece ser uma perspectiva renascentista intuída por Pausias muitos séculos antes do Renascimento) remetem o espectador contemporâneo à emoção do cidadão romano diante das duas imagens que, lá explicitamente e na Inglaterra de forma sugerida, retratam a potência divina.
O dedo como o de Zeus e o olhar como o de Minerva são dois gestos significativos presentes em imagens arcaicas, oriundos de ritos religiosos e imagens pagãos, e contêm a essência definidora do Pathosformel de Warburg. No caso, os dois elementos arcaicos ganham uma “pós-vida” nos pôsteres contemporâneos, como uma transposição do recurso religioso para
a mobilização energética de uma massa de britânicos, e posteriormente de outros povos, para a política, ou para a guerra, que é a sua continuação por outros meios, como ensinou Clausewitz48. O gesto de apontar o dedo compõe o repertório do comportamento fundamental do homem, até mais que isso, é exatamente o primeiro gesto semiótico, como explica o psiquiatra e ensaísta francês Boris Cyrulnik em seu Resiliência (2003): “Quando uma criança de dez meses indica um objeto apontando com o indicador, realiza o primeiro ato semiótico”
(CYRULNIK, 2003, p. 84). Esse gesto foi, por muito tempo, considerado essencialmente humano, um elemento de distinção entre as capacidades do homem e dos outros animais, mesmo dos grandes primatas. Os estudos mais recentes, no entanto, revelaram a capacidade de diversos animais de apontar para comunicar a localização ou a presença de algo, além de confirmar o uso das mãos para compor esse gesto como frequente entre primatas. O uso do indicador, embora menos comum, se manifesta também, como afirma Franz de Waal em A Era da Empatia:
É muito raro que os grandes primatas apontem coisas uns para os outros. Talvez eles não precisem de sinais tão explícitos quanto aqueles empregados por nós, já que são muito perspicazes na leitura da linguagem corporal. Mas há alguns relatos do gesto de apontar com a mão, um deles observado por mim na década de 1970. (DE WAAL, 2010, p. 219-220)
Ele fala de uma fêmea que, durante conflito com outra, beija seu macho buscando sua proteção e seu envolvimento e em seguida aponta a oponente.
Esses atos de comunicação derrubaram a convicção, até então predominante na ciência, que entendia o gesto como exclusivo dos homens porque seria consequência do uso da fala:
“Aquele simples ato de comunicação desmentiu todo um conjunto da literatura que vincula o gesto de apontar à linguagem e, desse modo, não deixa nenhum lugar para as criaturas não linguísticas” (IDEM, p. 215).
Exatamente essa condição universal e imediata de comunicação pelo gesto é que faz com que a imagem do pôster do lorde Kitchener seja um Pathosformel.
Se é raro entre os primatas, o gesto dêitico é comum e fundamental na linguagem humana. Segundo Cyrulnik, judeu que escapou muito pequeno de ir para um campo de concentração (onde os pais foram mortos) e por isso se dedicou ao estudo dos traumas psicológicos e a sua recuperação, o gesto de apontar realiza uma função tranquilizadora no bebê, ao permitir a operação semiótica (por realizar a substituição do objeto por uma indicação),
48Carl von Clausewitz (1780-1831) foi um general da Prússia (hoje parte da Alemanha), É considerado o grande estrategista militar e teórico da guerra do início do século 19. É autor do clássico Da Guerra (CLAUSEWITZ, 2017) e autor da frase: “A guerra é a continuação da política por outros meios”.
fazendo com que seja compreendido pelo interlocutor e viabilizando a comunicação. É o que narra o autor: “O aparecimento deste gesto dêitico, sempre dirigido a alguém, permitira-lhe [ao bebê] adquirir, muito antes da palavra, uma função tranquilizadora. Se não tivesse adquirido este gesto designativo, que lhe permitia exprimir-se e comunicar com a figura de vinculação, teria continuado a chorar e a orientar os comportamentos para o próprio corpo, a fim de tentar apaziguar-se um pouco” (CYRULNIK, 2003, p. 85).
Mas nos pôsteres quem aponta é um ente superior, como um “Deus”, e o que ele quer – o espectador bem sabe – é o próprio espectador, ele mesmo. Sua primeira reação é deslocar-se para um lado, para outro, olhar atrás, sobre os ombros, em busca de alguém para dividir o fardo da missão. Até constatar a onipotência divina daquele olhar que vê a todos como a cada um, que, mesmo sem se mover, se desloca, persegue o olhar do espectador para convocá-lo à fé e à submissão. Na versão contemporânea, o apelo é pela conscrição ou por ouro, sacrifícios terrenos.
É também a combinação entre o “gesto dêitico” de uma espécie de herói e o olhar que acompanha o espectador em qualquer ângulo em que se posicione que garante a potência da foto de Oliver Noonan mostrando um militar norte-americano durante ataque da guerrilha vietcongue, no Vietnã, em uma rara combinação dos dois elementos explorados por Ginzburg:
Imagem 3: soldado americano sob ataque vietcongue (1969), em detalhe de foto de Oliver Noonan
Já a combinação entre um olhar sem a onidirecionalidade de Minerva e um dedo que parece sem mira tiram a potência da imagem do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao
posar para esta foto de Fabio Braga (FolhaPress). A “fórmula da emoção” carece de elementos precisos para se realizar.
Imagem 4: Fernando Henrique Cardoso (2009) em foto de Fabio Braga/FolhaPress.
O dedo acompanhado do olhar exerce sobre o observador um duplo domínio, que em outros animais não é tão completo. O gato observa os olhos de seu interlocutor e, ao fazer “eye contact”, volta seu próprio olhar para o objeto de sua atenção. Também o cachorro “trai” ou
“comunica” sua preocupação ao olhar alternadamente os olhos de seu mestre e um objeto de preocupação.
Embora mais semelhantes aos humanos, os macacos também comportam o olhar como o dos gatos e cachorros, enquanto apontam para indicar atenção com a mão inteira, em um gesto mais próximo ao que faz um líder político ou militar para indicar a direção de uma marcha. São raras as oportunidades em que usam o dedo indicador, como narra Waal em A Era da Empatia.
Segundo o primatólogo, os estudiosos acreditam mesmo que os grandes primatas só passem a utilizar o indicador em consequência da convivência com humanos (com quem é mais fácil comunicar apontando esse dedo para indicar algo).
O primatologista holandês lembra que, mesmo entre humanos, o gesto de apontar tem óbices proporcionais à sua eficiência.
Também na nossa espécie há muitas situações em que apontamos sem usar as mãos.
Na verdade, em muitas partes do mundo esse gesto é considerado um tabu. Em 2006, uma importante organização de saúde aconselhou as pessoas que viajam a negócios a evitar completamente o gesto de apontar com o dedo, uma vez que muitas culturas o consideram rude. (DE WAAL, 2010, p. 216)
Imagem 5 (à esq.) e Imagem 6 (à dir.): os candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff:
o dedo em riste se tornou tema de campanha eleitoral em 2014
Apontar o dedo em riste é um gesto tão significativo, até agressivo, como destaca De Waal, que acabou se tornando tema de intenso debate na campanha eleitoral brasileira de 2014, quando políticos do Partido dos Trabalhadores, em apoio à recandidatura da presidente Dilma Rousseff, criticaram o candidato de oposição, o tucano Aécio Neves, por ter, em um debate na televisão, apontado o dedo em direção à candidata à reeleição. Esse poder é certamente preponderante para garantir a potência do pôster de lorde Kitchener e seus sucedâneos.