2 OS GÊNEROS DO DISCURSO E A SEMÂNTICA GLOBAL
3.4 Para chegar a uma conclusão: as visões de Brasil e de brasileiros em cada coleção
3.4.2 Arriba: “¿eres tú el brasileño que todos quieren conocer?”
No manual do professor de Arriba é afirmado que a coleção está elaborada a partir dos preceitos dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), dando foco, inclusive, aos temas transversais, que incluem a Pluralidade Cultural: “Desde su publicación, en 1998,
los Parâmetros Curriculares Nacionais sirven de orientación y apoyo a todos los que trabajan con educación en Brasil. Elaboramos ¡ARRIBA! en base a varios de sus preceptos” (Arriba, p. 3). Porém o foco, de acordo com o que foi dito em relação às
peculiaridades dos alunos brasileiros – “[...]ofrecemos atividades y explicaciones
detalladas sobre los contenidos que más les cuesta entender” -, está, sobretudo, nas
dificuldades linguísticas que estes poderão ter. Nesse sentido, Arriba se assemelha a
Vamos a Hablar, por dar destaque aos brasileiros enquanto lusófonos, levando em conta
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Tendo em vista que se trata de uma coleção didática destinada a alunos de escolas brasileiras, ao tratar da pluralidade cultural, seria esperado que fossem abordados assuntos referentes às identidades e às culturas específicas do Brasil. No entanto, a partir do que foi encontrado nos livros da coleção, percebe-se que o tema surge de forma extremamente superficial e a partir de uma visão estereotipada e baseada em prejulgamentos. Os textos de
Arriba que integram o corpus principal desta análise são: 2, 3, 12, 16, 21, 23, 24 e 26.
Os textos 2 e 3 apresentam enunciadoras brasileiras que viajam a países de fala hispânica e contam sobre suas rotinas. Dessa forma, a essas enunciadoras lhes é atribuído o papel de turista. Essa é uma condição que se repete de forma semelhante no Texto 21, no qual um enunciador brasileiro parece estar em um ambiente estrangeiro e é visto como uma novidade aos olhos dos seus coenunciadores. Ademais, apesar de todos esses enunciadores serem apontados como brasileiros pelo enunciador-LD, não há qualquer característica que os diferencie de outras nacionalidades. Esse fato acontece em quase todos os textos que focam os brasileiros, que parecem estar ali apenas para constar a sua presença.
O Texto 12 apresenta o tema da imigração, que está presente em todas as três coleções, a partir da voz de uma peruana que vive no Brasil e que constitui a sua família como brasileira. O Texto 16 é o exemplo de como o futebol é constantemente associado aos brasileiros, pois, sem nenhum tipo de contextualização, a foto de um jogador com a camisa da seleção brasileira é posta em um exercício de vocabulário. É reforçado, dessa forma, o discurso circulante de que o Brasil é o país do futebol.
Muitos textos em Arriba apenas fazem pequenas menções ao Brasil e aos brasileiros, como ocorre no 26, no qual o tema aparece em apenas uma frase que não faz muito sentido. Em muitos textos que fazem alusão ao tema, não há nenhuma ligação com qualquer atividade ou contexto que explique a sua presença. Quando é dito no manual do professor que a coleção estaria adequada aos alunos brasileiros, a constatação que se têm quando analisa os textos é de que o Brasil está ali apenas como um acessório. Isso fica claro se se atenta para as vários desenhos da bandeira, que aparecem sem estar relacionados a alguma razão, como ocorre na seguinte atividade:
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TEXTO 30
(Arriba 1, p.97)
Como ocorre no Texto 30, a bandeira do Brasil é uma constante na coleção; no entanto, não há atividade alguma que a explore. Apenas aparecem como acessórios, como já foi dito, e sua presença quase que não é notada.
Outro caso que merece atenção é uma das primeiras atividades da coleção que aborda os países em que o espanhol é língua oficial. Primeiramente, é apresentado um texto explicativo sobre o tema, logo depois é proposta a atividade, que consiste em assinalar os países que têm o espanhol como língua oficial. O Brasil está dentre as opções. Para um aluno que mora no Brasil e que fala português é evidente que o espanhol não é a língua oficial do seu país. Dessa forma, entende-se que a coleção, embora afirme dirigir-se a um estudante brasileiro, apresenta marcas linguístico-discursivas que contrariam esse fato, como esta que se acaba de citar.
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TEXTO 31
(Saludos 1, p. 8)
Além disso, a menção ao Brasil e aos brasileiros é feita constantemente através de frases descontextualizadas em atividades para completar lacunas, como em: “Oscar ha sido
un grande jugador brasileño de baloncesto” (Arriba 2, p.32). Além disso, quando os
brasileiros são postos em destaque, os textos são sempre criados para fins didáticos e aparecem a partir da voz de um não brasileiro, como nos Textos 23 e 24.
Notou-se, também, que, além da superficialidade com que é tratado o tema dos brasileiros e a pouca quantidade de ocorrência de elementos que remetam a sua cultura, a coleção sempre apresenta uma visão “estrangeirizada”, pois não é mostrado um conhecimento aprofundado sobre o Brasil, que aparece muitas vezes em pequenas menções, feitas por enunciadores estrangeiros. Além disso, quando o enunciador é brasileiro, não há característica que cause identificação, como nos textos 2 e 3, os quais apresentam elementos que poderiam ser universais, não havendo especificidades relevantes, levando a um apagamento das suas condições. Além disso, o enunciador brasileiro fala sempre como turista, em um outro país, nunca imerso na sua própria cultura. De forma geral, durante o levantamento das páginas da coleção, percebeu-se que a maior parte de seus textos tratam de assuntos e elementos exteriores ao Brasil e às suas culturas.
O tratamento que Arriba dá às peculiaridades dos brasileiros é, portanto, estritamente gramatical, pois nos enunciados tratam de forma muito pouco significante as nossas culturas e as nossas identidades. Como foi visto na análise baseada na semântica
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global, a visão de identidades é baseada em essencialismos, inclusive quando se trata de outras culturas, abordando temas de senso comum como, por exemplo, pratos e danças típicas.