• Nenhum resultado encontrado

2 OS GÊNEROS DO DISCURSO E A SEMÂNTICA GLOBAL

3.3 O corpus sob a perspectiva da semântica global

3.3.3 Intertextualidade

A intertextualidade indica a menção que um enunciado faz a outros enunciados que o antecedem. De acordo com o Charaudeau e Maingueneau (2008, p.289), intertextualidade “supõe a presença de um texto em um outro (por citação, alusão...)”. Dessa forma, diferenciando-se do conceito de interdiscursividade, a intertextualidade é uma relação mostrada de um texto com outros textos, a partir de citações e alusões, por exemplo.

Nesta análise, como já foi explicitado, foram privilegiados os textos criados para fins didáticos. Entende-se que o livro didático, ao trazer um texto como se este fosse a transposição didática de um enunciado que circulou ou circula no mundo social, constrói uma intertextualidade simulada. Por não haver nos LDs qualquer menção de que tais textos foram criados somente para um fim didático, espera-se que o leitor-aluno compreenda-o

98

como um texto do mundo social e não uma criação didática. Isso ocorre em todos os diálogos criados, nos quais se simula um brasileiro conversando com um não brasileiro, e também nos textos que simulam relatos. O que se espera é que pareçam oriundos do mundo social, como no enunciado a seguir:

TEXTO 22

(Saludos 3, p.75, fragmento)

No TEXTO 22, ao falar sobre Chico Mendes e seus feitos e ao citar o nome do enunciador, sua cidade e país (“José Carlos da Silva, Espírito Santo, Brasil”) o LD usa um recurso para ganhar credibilidade e fazer com que seu enunciado criado pareça um relato não didático. Isso, de certa forma, pois, uma intertextualidade simulada, por trazer de forma aparente outro texto para integrar um texto maior, que é o livro didático. Esse recurso de apresentar faz com que o que se fala do brasileiro ganhe credibilidade e a sua veracidade seja pouca contestada por parte do leitor. E isso ocorre em quase todos os textos aqui analisados, em uns, o LD faz uma intertextualidade simulada com textos que apresentam uma cenografia de gênero primário (como diálogos); em outros, simula-se um gênero secundário.

99

TEXTO 23

101

O Texto 23 faz parte de uma unidade de Arriba que utiliza quatro páginas para explorar a trajetória de Ayrton Senna. Já na primeira página, encontra-se a imagem do piloto segurando a bandeira do Brasil. Com isso, ao apresentar um ídolo brasileiro conhecido internacionalmente, acredita-se que o enunciador-LD cria um efeito de exaltação pelo o fato de um brasileiro ter se tornado referência mundial em um determinado esporte e, provavelmente, promover a identificação do aluno com o texto e a atividade proposta.

Com relação à intertextualidade, esse texto se assemelha ao 22 por trazer também um enunciado que parece circular no mundo social. Ao apresentar dois enunciadores –

Pablo e Juan – e um narrador que apresenta um documentário sobre a vida do piloto, o LD

simula uma cena da vida real e um documentário, que por trazer fatos de sua vida, que são, portanto verdadeiros, simula textos que circulam fora da escola. Isso dá credibilidade ao texto e institui o brasileiro como ídolo.

O próximo texto também é um caso de simulação, que se apoia, inclusive em dados quantitativos e estatísticos para legitimar o seu discurso:

102

TEXTO 24 (Arriba 1, p.117)

O TEXTO 24 aborda o tema do desperdício de comida no Brasil que utiliza dados para explicar a dimensão do problema no nosso país. Apesar de provavelmente não ser um texto de circulação, pelo fato de a fonte não estar mencionada, o formato do texto – que parece ser retirado de uma revista – e os números utilizados gera uma autenticidade simulada. Porém, essa intertextualidade simulada constrói uma visão específica do Brasil e dos brasileiros. Ao afirmar que “Brasil desperdicia cerca de R$ 12 mil millones en

alimentos a cada año”, cria-se um efeito de que os brasileiros desperdiçam comida e uma

103

Outra crítica feita à sociedade brasileira a partir de uma intertextualidade simulada aparece no seguinte texto:

TEXTO 25

(Saludos 4, p.56)

No TEXTO 25, aparece um depoimento de uma mulher, que apresenta nome e sobrenome – Mariana Ramos Correa – a qual afirma que no Brasil os idosos ainda são tratados de forma desrespeitosa e que seus direitos tampouco são totalmente garantidos: “No, la sociedad brasileña todavía no respeta a los ancianos”. Sendo assim, tal enunciado também é uma intertextualidade simulada por assemelhar-se a um depoimento pessoal. A crítica é feita especificamente à sociedade brasileira e a institui, portanto, como aquela que não respeita aos idosos.

Além da simulação intertextual que todos os textos criados para fins didáticos apresentam, há também casos em que a intertextualidade aparece a partir de citações diretas e indiretas e, claro, em textos não didáticos que foram incorporados ao LD. Com relação a estes últimos pode-se citar o Texto 14 e 15, nos quais são indicadas as fontes que indicam a sua circulação prévia no mundo social. Aqui, a intertextualidade, a menção que o LD faz a outros textos, não é, portanto, simulada.

Com relação às citações diretas e indiretas que estão presentes nos texto criados para fins didáticos, pode-se citar o Texto 4, quando no relato do enunciador Rodrigo aparece um discurso relatado: “Mi hermano fue a Gonçalves, una ciudad que está en el sur

de Minas, y me dijo que allí hay cascadas y montañas con senderos para hacer caminatas, y que se puede comer bien sin gastar mucho/. Também no Texto 5, quando o enunciador

104 Jorge afirma: “Dicen que en Brasil las distancias son muy grandes”. Ou, ainda, no

próximo texto:

TEXTO 26

(Arriba 3, p.86, at. 2)

No TEXTO 26, há uma pequena menção a um brasileiro – que adquire, portanto um estatuto de não pessoa que será analisado mais à frente – com a seguinte citação: “Un

amigo brasileño me dijo algo muy interesante que nunca me olvidaré: ‘Desayuna como rey, almuerza como príncipe y cena como mendigo’”. Essa frase está inserida em um texto

no qual um paciente e uma médica conversam sobre hábitos alimentares. Ao proferir: “Un

105

um brasileiro, em forma de discurso relatado. Apesar de ser uma rápida menção, essa frase, que é a alusão à forma de pensar de um brasileiro determinado, pode levar à construção de sentidos que os brasileiros têm um modelo de alimentação que é saudável e equilibrado. Esse texto, portanto, é um exemplo no qual a intertextualidade trazida pelo enunciador acaba por construir um visão sobre os brasileiros.

TEXTO 27

(Saludos 1, p.125, fragmento)

Mais um caso de intertextualidade simulada, lembrando que todos os textos criados para fins didáticos o são – e que traz outra intertextualidade através da citação é o Texto 27. O tema do enunciado acima refere-se a notícias incomuns supostamente encontradas em revistas ou na internet por alunos em uma aula de História. A história, relatada por uma enunciadora chamada Ana, diz ter se passado no Brasil, em uma pequena cidade e as aspas têm a intenção criar o efeito de relato verdadeiro. Com isso, a intertextualidade dá credibilidade a um suposto fato ocorrido com um brasileiro e constrói, de certa forma, a visão de generosidade.

Outro plano que será analisado no corpus da pesquisa é o vocabulário utilizado nos textos, entendendo que através dele também é possível construir a visão das identidades dos brasileiros.