A dinâmica “global” do presente, através de novas formas de subjetivação e associação que se manifestam há umas três décadas, como foi colocado, rompendo com as estruturas organizacionais que se Alastram desde a modernidade o Estado social e o Capital industrial; abre um novo ciclo de configuração das artes: “projetos/processos artísticos” que se constituem como um modo de ver e fazer que privilegia o desenvolvimento de relações humanas e seu contexto social mais que o espaço autônomo e privativo (Bourriaud) e que emerge através do próprio desenvolvimento processual.
Esta parece ser cada vez mais, uma opção de arte consciente dos devires de nossa contemporaneidade, principalmente no que chamamos de Arte Atual com caráter público. Teóricos, historiadores, curadores e críticos de arte estão, constantemente, acompanhando e refletindo através de seu olhar/experiência sobre estas práticas artísticas processuais, entre eles: Nicolas Bourriaud com Estética Relacional e Postproducción; Claire Bishop com Participation; Paul Ardenne com Un Arte Contextual; Reinaldo Laddaga com Estética de la emergencia; Luis Brea com Ornamento y utopia e El tercer umbral; Michel Maffesoli com A transfiguração do político e Sobre o nomadismo:vagabundagem pós-moderna; Rosalind Krauss com A originalidade da vanguarda e outros mitos modernos e Antivisión; Ticio Escobar com El arte en los tiempos globales; Jacques Rancière com A partilha do sensível: estética e política; Slavoj Zizek com Arriscar o impossível e Visión de Paralaxe; Miwon Kwon sobre Especificidade do Site e Arte Pública.
Estes teóricos aportam para caminhos mais complexos nas práticas artísticas contemporâneas. Escolhemos alguns exemplos destas práticas como projeto/processo, a saber:
84
1 - The Land, iniciado em 1998, é um projeto/processo numa comunidade que está situada na Tailândia, perto da vila de Sanpatong, a vinte minutos da capital Chiang Mai.
É numa região de fazendas de arroz que apresentam um grande êxodo rural por causa da falta de água. O governo oferece campos para desenvolvimento, a custo menor, para incentivar a produção local. Um grupo de artistas – Tiravanija; Parreno; Hausswolff; Nordanstad; Rehberg; Mit Jai-Inn, Superflex, entre outros – adquiriu uma área e viabiliza junto com os moradores locais, uma comunidade auto- sustentável: plantam arroz; constroem suas casas; têm sistemas de biogás e produção alternativa de energia elétrica; purificação e viabilização da água; comercialização e troca de produtos. Realizam atividades culturais e encontros artísticos abertos a outras comunidades.
Em relação a este projeto/processo Tiravanija colocou que,
[...] a Terra é sua própria entidade. Eu e muitos amigos meus nos vemos apenas como zeladores ou jardineiros. Não existe expectativa ou antecipação; fazemos coisas à medida que elas surgem e desaparecem. É um laboratório quando há pessoas trabalhando nela/sobre ela, e torna-se paisagem quando não há ninguém nela. Existe interesse considerável por esse projeto, talvez devido às personalidades que são as zeladoras (ou colaboradoras) do lugar e talvez também em função de sua distância do centro (Nova York, Londres, Paris, Berlim), mas esse é também o espaço ou a distância necessários para a curiosidade.
[...] precisamos indagar no tempo de quem estamos. Em segundo lugar porque a idéia de lugar, local ou proximidade, onde o progresso aparece como não sincronizado, nos obriga a perguntar onde estamos. 159.
159 TIRAVANIJA, R. Contra a nostalgia. Entrevista a concedida a Lissete Lagnado. Paris, 2005.
Entrevista. Disponível em:<http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2772,1.shl> Último acesso em: 26 out. de 2006. Em entrevista a Lisette Lagnado, 2006.
85 The Land
Fig. 13 Casa de artista: Tiravanija Fig. 14 Plantação de arroz
Fig. 15 Casa de descanso: MIT Jai-Inn Fig. 16 Festival de Pintura
86
Fig. 19 Leitura coletiva Fig. 20 Encontro aberto a outras comunidades
Fig. 21 Festa (Noeway ridge beam party) Fig. 22 Festa (Noeway ridge beam party)
87
2 – inSite_05160 é a quinta edição do Projeto inSite/Prácticas artísticas en el
domínio público Tijuana-San Diego, que se realiza na polêmica fronteira San Diego, EUA /Tijuana, Mx. Reuniu artistas e coletivos de artistas (num total de 25, entre eles: Judi Werthein; Itzel Martínez; Rubens Mano; Maurycy Gomulicki; Josep María Martín; coletivo americano Simparch; Paul Ramírez-Jonas; coletivo tijuanense Bulbo) e curadores interessados em inocular, desde a prática artística à gestação de novas territorialidades e dinâmicas associativas no cenário circunstancial e problemático da região fronteiriça. inSite é uma “rede de colaboração” entre instituições de arte e agentes culturais que conta com o apoio de mais de vinte cinco instituições públicas e privadas de México e Estados Unidos, segundo dados do site oficial. Esta colaboração binacional cobre todos os aspectos do projeto, desde o financiamento à administração, inclusive a implantação de um programa cultural em ambos os lados da fronteira que promove a participação do público no desenvolvimento do projetos específicos. inSite é operado através de residências de artistas e processos de colaboração e de co-autoria que resultam em projetos e ações em espaços públicos.
O Projeto inSite_05 se organizou por eventos divididos em: Intervenções: mais ou menos 25 projetos focados em criar experiências de domínio público, que se inseriram em distintos níveis de (in)visibilidade e co-participação no tecido social;
Cenários: Dividido em: “Projecto Arte en Red”, evento
que mostrou práticas artísticas em apresentações de imagens visuais e sonoras ao vivo; e “Projecto de arquivo” formado por arquivos coletivos do evento abertos para consulta. Cenários visou a des- objetualização dos suportes discursivos e da ênfase aos condicionantes de temporalidade; envolveu as práticas que menos abarcam o domínio público no referente a um sítio específico de intervenção.
Conversações: Foram debates e reflexões teóricas feitas através de um programa público de Oficinas, Palestras, Diálogos e Publicações que exploraram o potencial de inSite como uma arena intelectual.
Exposição: inSite em colaboração com o Centro Cultural Tijuano e o San Diego Museum of Art
organizaram a exposição “Sitios Distantes” que se expandiu além da faixa fronteiriça abarcando instituições e público de ambos os lados da fronteira, e de cinco países latino-americanos: Argentina (Buenos Aires); Brasil (São Paulo); Estados Unidos (Nova York); Venezuela (Caracas); México (Distrito Federa). (Informações do site-oficial)161.
160 Site oficial disponível em: http://insite05.org/index.php 161Site oficial disponível em: http://insite05.org/index.php
88
Escolhemos oito trabalhos de artistas e coletivos, para exemplificar.
Fig. 25 Judi Werthein - Brinco [Pulo]
Werthein faz um produto que relaciona o trânsito ilegal dos imigrantes com o crescente corporativismo global de mercadorias e dos fluxos do mercado laboral. Este produto é um tênis de design único, de marca Brinco [Pulo] contendo informações úteis de sobrevivência, como mapas e bússola para os que cruzam ilegalmente a fronteira. Produzido na China, foi vendido só nos EUA, durante dois meses.
Fig. 26 Itzel Martínez - Ciudad Recuperación
Martinez faz um vídeo com homens internos em uma clínica de recuperação de drogados carentes. Os internos filmam em grupo, uma narrativa em torno à cidade ideal, onde eles imaginam um espaço próprio, digno, integrado: uma Tijuana possível, que se reinventa na medida dos desejos e dos ideais de seus habitantes ‘em recuperação’. Há intervenções de entrevistas a mulheres de classe média alta que também pensam sua Tijuana ideal integrada.
Fig. 27 Paul Ramírez-Jonas - Mi Casa, Su Casa
Ramirez-Jonas realiza uma série de conversações-palestras em relação aos limites do público concebido como “aberto”, e do privado como “fechado”. O artista, munido de uma máquina de copiar chaves, propõe aos participantes fazer uma cópia da chave de sua casa e trocá-la com algum participante. Está estabelecida, assim, uma rede imaginária de “confiança e acesso”.
89
Fig. 28 Josep M.Martín- Un prototipo para la “Buena Emigración
Martín propõe a criação de um espaço que albergue os jovens adolescentes que, após uma imigração frustrada, são regressados ao México. Um espaço para se reunir, ouvir música, descansar, ler, fazer amizades, mas também, para participar em programas abertos a outros jovens e tratar temas relacionados com fluxos migratórios, direitos humanos e considerações a respeito da decisão tão relevante como é imigrar.
Fig. 29 Simparch: coletivo estadunidense - Iniciativa del Agua Sucia
O Coletivo Simparch propõe uma solução para o tratamento de água nas comunidades informais de Tijuana: construir uma estação de tratamento de água suja para ser instalada, a modo de fonte pública, no cruzamento de duas ruas e doada à comunidade. O projeto propõe fazer pensar o problema da água; buscar soluções ecológicas e alcançar um impacto direto na comunidade.
Fig. 30 Maurycy Gomulicki - Puente Aéreo
Gomulicki relaciona membros de clubes de aeromodelismo de San Diego e Tijuana e os involucra na construção de novos modelos de aviões, assim como num vôo-espetáculo sobre o leito de concreto do Rio Tijuana - a linha divisória. Puente aéreo produz relações além dos padrões culturais e dos limites territoriais. Uma experiência que inclui o árduo exercício prévio que exige este espetáculo no céu aberto da fronteira.
90
Fig. 31 Bulbo: coletivo tijuanense - Tienda de Ropa
O Coletivo Bulbo propõe uma experiência de criação coletiva em torno ao vestuário da região fronteiriça de Tijuana e San Diego. O projeto inclui uma oficina de produção durante dois meses, com a participação de pessoas de diferente formação profissional e econômica. Tienda de ropa intervêm nos circuitos comerciais formais e informais, assim como na venda de atacado e varejo de ambas as cidades.
Fig. 32 Rubens Mano - Visible
Rubens Mano desenvolve uma ação inserida nos fluxos da fronteira. Seu projeto Visible, consiste na criação e inserção de uma senha gratuita na corrente dos commuters [viajeiros]. Cada pessoa que a recebe ou distribui se torna um agente constitutivo de uma aliança oculta, que se conforma como rede, entre os portadores e os distribuidores da senha. A finalidade é revelar a presença de outras narrativas existentes, não muito visíveis, dentro dos fluxos fronteiriços.
3 – Park Fiction, é um projeto/processo que se iniciou em 1987 quando o governo de Hamburgo, na Alemanha, previa a construção de edifícios onde se encontrava o bairro pobre Saint Pauli localizado à beira do cais, favorecendo a iniciativa privada. Perante o processo de gentrificação que seria iniciado, os moradores conseguiram criar pressão suficiente sobre as autoridades da cidade para transformar o lugar num parque público. Detalhe, no bairro esse local era o único com acesso direto ao cais. Tal pressão foi realizada por meio de ações de protesto que articulavam processos complexos de conversações, eventos de música e arte.
91
A iniciativa permitiu uma aliança da comunidade formada nos protestos com os vizinhos, a escola, a igreja, músicos e artistas entre eles Cristopph Schaefer e Cathy Skene, que se mudaram para o bairro. Estes artistas vêm se interessando por questões de arte em espaços públicos desde 1980. Foram eles que propuseram o nome de Park Fiction, que era o nome de uma rave que se realizara em Hamburgo no início da década.
Arquivos documentais do processo foram expostos em outros locais como na Documenta 11 de Kasel; em Viena; e na Itália, em pequenas arquiteturas disponibilizando vídeos e impressos informativos.
Este nome, Park Fiction, revela a característica “ficcionária” do projeto, mas uma ficção possível de se concretizar na realidade e que vinha ao encontro das expectativas de realização dos desejos manifestos pelos participantes. Os artistas que trabalham no projeto cunharam alguns slogans como: “O desejo vai sair de casa e do reino do tédio, aproximando a administração da miséria a um fim”; “Arte e política tornam-se mutuamente mais interessantes”, destacando que, como “Uma produção colaborativa de desejos” definia Park Fiction seu objetivo.
92
Fig. 35 Banco tapete-voador Fig. 36 Stand demonstrativo do projeto e seus processos (Documenta 11-Kassel)
Fig. 37 Vistas aéreas do cais e do parque
93
4 – Vinho-Saber é um projeto/processo desenvolvido em Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. Iniciou em 2005, por iniciativa do artista propositor do projeto, José L. Kinceler, a partir de táticas criativas estruturadas para ativar o encontro entre realidades aparentemente distantes. O dispositivo-proposta “troca de saberes” permeou os encontros e atividades realizadas durante o processo. O desejo de levar para casa uma cerâmica artística contendo vinho, elaborado artesanalmente, deixando em troca um livro pessoal que pudesse ser significativo a uma criança, foi o dispositivo-relacional que conformou o processo. Na contra capa do livro a ser trocado, cada doador escreveu uma mensagem dedicada a uma criança contando sobre a importância daquele livro em sua própria vida. A proposta, deste modo, provocou “nosso contexto” a instaurar espaços de convivência, que fazem com que a especificidade da arte se dilua em outros saberes.
A partir deste acontecimento varios delizamentos deram novos sentidos as experiêriencias de fazeres: a plantação e cuidado das videiras; os encontros colaborativos na feitura do vinho; as histórias compartilhadas; a mini-biblioteca ambulante; a distribuição de livros nas vilas de pescadores; unindo deste modo comunidades diferentes e produzindo-se, ao mesmo tempo, uma troca de saberes (não só o dos livros) entre os grupos comunitários participantes.
Vinho-Saber teceu situações, provocou encontros e facilitou acontecimentos em favor de táticas que tramassem novas formas de fazer este mundo mais digno de ser vivido de acordo com Kinceler.
Fig. 40, Fig. 41 Encontro onde se realizou a troca de livros por uma garrafa em cerâmica contendo vinho artesanal.
94
Fig. 42 Fazendo vinho artesanal Fig. 43 Fazendo vinho artesanal
Fig. 44 – Livro à deriva Fig. 45 – Livro à deriva
Figs. 46, 47, 48 – Distribuindo livros-saberes na Barra da Lagoa (ação: Livro à Deriva)
5 – A Baleeira. Uma tessitura relacional, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, se iniciou em 2003 a partir da proposta da autora desta dissertação, e reúne, por
95
tempos mais ou menos longos, grupos de pessoas de diferentes lugares da região, com diferentes atividades e com diferentes profissões. O dispositivo “baleeira” é uma articulador real e, paradoxalmente, tácito do projeto. Mesmo sem navegar, ela põe a bordo e em movimento os desejos de seus participantes. No recorrer do processo se fizeram desde atabaques e tarrafas até imagens em movimento para vídeo- animação; atividades aglutinadas em pequenas micro-esferas públicas experimentais (valendo a redundância na escala). As propostas, os objetivos e as atividades vão se constituindo no recorrer do processo.
Fig. 49 Ação de retirada da baleeira Farravento da praia de Pântano do Sul, Florianópolis, 2005, doada ao Grupo de Pesquisa: Arte e Vida nos limites da representação, pelo Sr. Pier Palumbo.
96
Fig. 50 Baleeira assombrada, # 2 ; vídeo-animação, 2009.
Fig.51 Retirada da baleeira. Fig. 52 Curso de Atabaque
Fig. 53 Oficina de Madeira
Fig.54 Oficina de Tarrafas
97
Não devemos deixar passar desapercebido que, este modo de ver e fazer contemporâneo, como projetos/processos que envolvem comunidades diferentes, tem em comum que só se realizam se constituindo sempre como práticas colaborativas. Podemos falar já de “lógica relacional do encontro e da sociabilizarão da experiência” que emerge do próprio fazer coletivo. Podemos falar de “Arte Relacional Complexa” sendo compreendida como,
Uma atitude ético-estética capaz de, ao identificar oportunidades no contexto social, provocar descontinuidades crítico-reflexivas no cotidiano que permitam desenvolver subjetividades, sejam da ordem do singular ou do coletivo. Modela, através de estratégias e táticas relacionais, processos de convívio, de diálogo e contaminação, nos quais o conteúdo humano atua como fator determinante da prática artística162.