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Artefactos culturais e ferramentas cognitivas

Como já explicámos, o processo de internalização é desencadeado e continuado por motivações de ordem social. A sua evolução dá-se pelas interacções geradas através de diferentes formas de mediatização.

A forma de mediatização que mais preocupou Vygotsky foi a linguagem. Contudo o conceito foi amplamente alargado quando o autor introduziu a noção de “signos” e de “ferramentas psicológicas” e às quais atribuiu um papel determinante no desenvolvimento das funções cognitivas de alto nível (Cole e Wertsch, 1996).

Ao referirmo-nos a formas de mediatização pretendemos aludir aos meios através dos quais as interacções sociais inerentes ao processo de internalização acontecem.

Nos estudos desenvolvidos em torno do trabalho de Vygotsky verificamos que os diferentes autores, para se referirem ao meio pelo qual o processo de mediatização se desenvolve, adoptam designações distintas. Para além dos dois termos mais comummente divulgados - “artefactos culturais” (por exemplo, Ryder, 1998) ou “ferramentas cognitivas” (por exemplo, Salomon, 1991, in Steffens, 1997), é possível encontrar referências a: “prótese cognitiva”; “ferramentas simbólicas”; “signos psicológicos”; “ferramentas do intelecto”, ou; “ferramentas culturais” (os autores que empregam cada um destes termos encontram-se mencionados em Aguilar-Tamayo, 2003).

A diversidade na terminologia utilizada pelos vários autores pode reflectir o entendimento conceptual que estes detêm sobre o papel representado pelos meios no processo de mediatização. Contudo, não iremos entrar por essa discussão sobre todas as designações citadas preferindo, ao invés, determo-nos apenas nos termos “artefactos culturais” e “ferramentas cognitivas”, por serem os mais divulgados.

Das leituras por nós efectuadas sobre o assunto, encontramos indícios de que a opção tomada pelos diferentes autores em apelidarem os meios que se interpõem no

processo de mediatização como “artefactos culturais” ou “ferramentas cognitivas”, se prende com a ênfase que pretendem colocar na análise desse processo.

Os autores que se referem à acção das “ferramentas cognitivas” pretendem enfatizar as facilidades que o meio utilizado aportou para um qualquer processo de construção de conhecimento. É um entendimento que pode estar relacionado com a perspectiva de minds-on sobre a utilização dada à tecnologia que Zhiting e Hanbing (2002) descrevem, apesar destes investigadores não se focalizarem num contexto de estudo vygotskiano.

Os autores que salientam os “artefactos culturais” deslocam a tónica do processo de mediatização para os pesos sociais, culturais e históricos de que os meios estão imbuídos e cujos efeitos se irão reflectir na construção do conhecimento em causa. Neste caso, o desenvolvimento pessoal é entendido como uma “apropriação” e “enculturação” do espólio sociocultural inerente à existência, utilização e características do meio utilizado (Cole e Wertsch, 1996).

Como se pode depreender das explicações efectuadas, os dois termos têm uma relação intrínseca, pelo que entendemos que o seu significado não deverá ser dissociado. A maior diferença na adopção de cada terminologia reside na óptica com que se pretende perspectivar o meio (ferramenta ou artefacto) em questão, pois ambos os termos têm subjacente a sua importância na construção do conhecimento.

No estudo que se apresenta nesta tese, o Bionet foi entendido igualmente como ferramenta cognitiva e como artefacto cultural e os termos serão empregues, ao longo do presente trabalho, segundo a ênfase que pretendemos dar no momento de acordo com as explicações acabadas de efectuar, ou segundo as escolhas dos autores que estiverem a ser mencionados (neste caso, poderemos adoptar outros termos para além dos dois acabados de descrever).

A terminologia a que recorreremos ao longo deste trabalho, sobre este assunto, tem subjacente o entendimento que, duma forma genérica, detemos sobre o conceito de artefacto ou ferramenta. Genericamente, interpretámo-lo como representativo do instrumento que acompanha uma dada tarefa (Steffens, 1997) e através do qual as interacções sociais, promotoras do desenvolvimento pessoal, são estabelecidas, tal como Vygotsky (1978) esclarece:

“The sign acts as an instrument of psychological activity in a manner analogous to the role of a tool in labour.” (p.52)

Na continuação desta perspectiva, Vygotsky (1978) refere que a inclusão das ferramentas no desenvolvimento da mente acarreta transformações ao nível do seu

funcionamento, atribuindo-lhe três alterações principais que passamos a descrever (Vygotsky, 1981, in Cole e Wertsch, 1996).

Uma das alterações respeita às novas funções que são introduzidas no sistema, decorrentes do uso da própria ferramenta e do controlo que se vier a desenvolver sobre ela. Outra alteração prende-se com o facto de esta vir a abolir e a tornar desnecessário vários processos naturais, que passam a ser efectuados pela ferramenta. A terceira alteração reflecte-se no curso normal e em aspectos individuais do conjunto dos processos mentais que entram na composição do acto instrumental, havendo a substituição de algumas funções por outras.

Desta forma, o efeito provocado pelos artefactos no processo de internalização não se reduz simplesmente a facilitar a ocorrência dos processos mentais, mas antes faz-se sentir a um nível estrutural e funcional, porque moldam e transformam esses processos (Cole e Wertsch, 1996).

Neste contexto, os “signos” estão dotados de duas características funcionais diferentes (Aguilar-Tamayo, 2003) como de seguida explicamos.

Uma das características centra-se no facto dos artefactos deterem uma condição externa à pessoa e serem emergentes da vida social e cultural. No âmbito desta função, os artefactos podem ser partilhados por todos os indivíduos que se encontram num dado contexto. Representam as ferramentas que são utilizadas para levar a cabo actividades cognitivas (Steffens, 1997).

A segunda característica funcional refere-se à condição interna dos artefactos. Neste caso, eles vão operar como ferramentas da actividade mental controlando quer os processos de desenvolvimento dos indivíduos, quer as interacções sociais que as pessoas vêm a estabelecer por seu intermédio.

Esta descrição relaciona-se e fundamenta a diferenciação estabelecida anteriormente entre artefacto cultural e ferramenta cognitiva, em que as diferenças conceptuais desenvolvidas se centraram, básica e respectivamente, nas consequências das condições externa ou interna dos meios.

O conceito de signo externo e o de ferramenta psicológica (signo interno) têm a mesma origem, contudo as funções desempenhadas por cada um desenrolam-se em dois níveis distintos (Aguilar-Tamayo, 2003). O signo externo participa nas operações cognitivas localizadas no nível interpsicológico. A partir do momento em que este passa a contribuir para a regulação e controlo dos processos psicológicos e para a transformação qualitativa dos processos mentais mais elevados (a um nível intrapsicológico), ele transforma-se em ferramenta psicológica (signo interno), no seio do processo de internalização.

Esta ideia tem implícita, não só, uma relação entre signos externos e internos com as fases de discurso interpessoal e intrapessoal do processo de internalização, como leva a delinear um processo de mediatização que passa, ele mesmo, por um processo de internalização. Ambos os processos estão interligados por uma forma de desenvolvimento mútua e, ao mesmo tempo, dialéctica. Tratam-se de ciclos de transformação entre “fora” e “dentro” das pessoas, no curso de acções culturalmente mediatizadas (Bateson, 1972, in Cole e Wertsch, 1996).

As consequências dum processo sobre o outro, ou vice-versa, vão estar dependentes da actividade, do contexto e do tipo de meio envolvido (Cole e Wertsch, 1996 e Aguilar-Tamayo, 2003). De facto, se todas as funções psicológicas começam e desenvolvem-se em contextos específicos, cultural, histórica e institucionalmente situados, também os artefactos que medeiam esse desenvolvimento são cultural, histórica e institucionalmente situados, não se encontrando uma forma de mediatização universalmente mais apropriada que outra (Cole e Wertsch, 1996).

Ryder (1998) salienta a criação de cenários inteiramente novos de relações sociais, culturais e espaciais, onde as pessoas podem concretizar o seu processo de desenvolvimento, como consequência da proliferação das tecnologias da informação e da comunicação a que se assiste actualmente.

O computador, pela máquina em si e pelos programas que comporta, tem vindo a ser frequentemente apontado como uma ferramenta cognitiva, ou como um artefacto cultural (Crook, 1991; Salomon, 1991, in Steffens, 1997; Järvelä, 1995; Somekh e Davis, 1997; Hsiao, 1998), representando os meios, ou instrumentos, que permitem a participação numa prática social (Ryder, 1998).

Segundo a teoria sociocultural de Vygotsky (1979) e como já explicado, no processo de internalização que está na base da construção do conhecimento das pessoas, o mundo social tem primazia sobre o individual num sentido muito particular - a sociedade é entendida como o repositório de uma herança cultural transmissível a todos (Cole e Wertsch, 1996).

É assim que o computador, os programas que contém e as acções que, no seu conjunto, possibilita levar a cabo, não só reflectem o corpo de conhecimentos adquiridos à altura pela sociedade, decorrente dos avanços científicos, tecnológicos e económicos atingidos, como também, acarretam consigo e possibilitam a transmissão da história e da cultura vigentes num dado contexto.

No caso específico da Internet, esta tem vindo a ser entendida como um meio (artefacto) promissor de mudanças significativas nos processos do ensino e da aprendizagem e nas formas de interagir como sociedade (Järvelä, 1995; Ryder,

1997). No mundo virtual da Internet, em que consumidores e produtores se diluem, antevêem-se possibilidades de interacção que a enlevam para um lugar de importância distinto de outras formas de mediatização (Ryder, 1998).

Ryder (1998), autor proeminente no âmbito da Teoria da Actividade, justifica a afirmação anterior salientando que encontrou no World Wide Web o meio que finalmente:

“… allows other voices to engage with an author in discourse; a medium which has no center podium and offers no privileged position for any message; a medium which allows teacher and learner to share a common space in which there is no established authority, but uses widely distributed knowledge resources to forge new levels of consciousness; a medium which fosters creation of learning communities supporting active collaboration among anonymous peers, freely sharing artifacts that emerge out of this activity.”

As ideias acabadas de explanar reflectiram-se no estudo por nós conduzido nos momentos (i) da criação e desenvolvimento do sítio Bionet (o artefacto cultural e a ferramenta cognitiva utilizada na investigação para mediar as interacções estabelecidas entre os alunos participantes com outras informações e outras pessoas) e (ii) da interpretação dos resultados obtidos conducentes à elaboração das conclusões.