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Arth1ir Banios

No documento BRASIL A ACU LT URAÇÃO NEGRA (páginas 52-64)

O PROBLEMA DO NÉGRO NO BRASIL

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população br;i.nca. Assim, em 1830, por e..xcmplo, p;ira uma proporção de 71.31% de. brancos e mestiços, tinha-mas 28,69% de Negros. Depois da Abolição, os v,.

rios censos no Br:i.sil não levaram cm conta as pcrcen-cagcns de côr, cm vista das razões j.í cxpost:is. No Negro '1,.ear Booh., p:i.ra 1937-381 ha os seguintes nu-meras conccrncnccs .10 Brzisil : uma população tocai de 45.332.660, com 17 .. 870.000 dados como Negros, o que dá uma percentagem de 28.4% desces p:ita a população cocal. Este número é cxagcca<lo1 e ocplica~sc certamente pelo foco de aí'. estarem incluídos não só os Ncgrns puros como os mulacos de. toda a caccgorfa.

Estimativas fcica.s rcccnccmcncc por alguns t:.Stu·

<liosos brasileiros uazcm~nos outros resultados que p1-rcccm maís sacisfatorios. O Coronel Anhur Lobo1

c..xamín::i.ndo gr:i.odc n(1mcro de soldados do exército brasilcíro, encontrou uma percentagem de 10% de Negros e 30% de mul:uos, o que se aproxima dos re-sulrados obr.idos pdo prof. Roqucrrc Pinto, nas suas pesquisas do Museu Nacional do Ílio de J::rneiro, que enconcrou as pe:rcencagens de 14% de Negros e 22%

de mulacos. Na base. desces cálculos, vemos que para umo população media, cotai, de 40.000.000, cm 1930, temos 5.600.000 Negros puros e 8.800.000 mulatos.

Ourrn ponto importante é o concc.rncncc às procc-dcncias dos Negros ímporcados ao Brasil, seus stocks étnicos, seu valor pcoporcional. Desde. os primc:Lros cempos da colonía, cercos ccrmos populares dcsígn:i.vam os Negros utilizados como cscra vos, cais como Nagô, ftlina1 Angola, M~ambiquc . .. o que nos dá um:1 ídé.ll dos primitivos poncos de procedcncía. Esc:1 descrimina·

ção rornou.se muiro dificil, porém. Os Negros eram capturados em varias pontos da África, e reunidos nos barracões do litoral da costa ocídcmal, de onde eram embarcados para o Novo Mundo. tviuit:as vezes eles traziam os assentos destes pontos de embarque, que não

A Acultwração Negra no Brasil 53

correspondiam às suas proccdcndas étnicas. Ouuas vezes, dc.s proprios csque.dam os seus países de. origem, ou davam informações vagas, o que dífículcava o era;

balho de su:'\ catalogação étnica.

No encanto, alguns esforços foram feitos ne.sce sentido. E temos o primeiro ensaio de classificação de.;

vida a Spí.'< e: Marcíus, dois nacuraHscas ale.mães que viajaram pelo Brasil e publicaram a obra clássica R,_eise in Brasilicn. Acharam Spix e Marcíus que os Negros introduzidos no Brasil pertenciam ao grupo Bancu, incluindo os Congos, Cabindas e Angolas do sudoeste africano, e os Macuas e. Angicos da casca sudeste.

Os hístariadorcs brasileiros, na sua quasí cocalidadc.

ace:icaram esca divisão de Spix e Marcíus.

No cnt:J.nco, um enorme número de Negros do Su~

dão, e cspccialmcncc. d:i cosca do Golfo da Guiné, dc-semb:ircou na Bafa. Foi princípalmcntc. a obra inescí-mavcl de. Nina Rodrigues o ter dc.monscrado a impor-cancia dtssc. grupo sudanês (1), corrigindo a te.se do excluslvismo banrn, cm que incldiram os hiscoriadore.s.

Hoje., com os uabalhos continuados por nós pro-ptios, podemos reconstituir os grupos principais dos Negros, de acordo com a sua proccdcncia étnica, e seu valor respectivo. E podemos admitir qt1c, pelo me.nos trcs grupos principais de povos negros c.ntrâram no Brasil.

No primeiro grupo, escavam os Negros Sudaneses, principalmcmc do golfo da Guiné: lombas e Daomc.ia-110s foram os principais stoch.s desce. grupo. No se-gundo, temos o largo stock. de Negros islamizados do S11dão Ocidental: Haussás, TaJJas, Ma11di11gas, Fu.-lahs e outros de menos imporc:rncia. No terceiro grupo, estava a brga familía bantu: Angolas, Congos, Mo,, çambiqtu.s e. outros menos imporc:rntcs.

(1) N!no RoJrli:11~ quis rcícrlM,C il impo1t.inci;i cu/1,m:1f ,Jo i,:rupo

~udnnfs, e n,lo propr!omcntc nos nCimero, do trMico. Vide IntroduciJo, pi&, 14.

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O valor desses grupos era designo! e eles nõo fo.

ram distribui<los uníformcmrntc para os diversos pon·

cos do Brasil.

Os Negros Sudaneses do primeiro e sC'.gundo grupos toram localizados principalmcncc na Baía. Iorubas e Daomcianos vieram de mercados de c.scr:i.vos de Lagos e de Whydah (S. João de Ajudá), rc:spcccivamcnrc.

Os Iorubas cambcm chamados nagôs, eram aicos, robustos, corajosos e lntdígcnte.s e foram as preferidos na Baía. A sua influencia foi prcpondcrancc. e, por muito tempo, o nar,ô se constituiu cm uma cspccic de lingua geral, 11a Bafa. Os Iorub.1s deixaram no Brasil uma herança cultural das mais inccrc.ssanccs. Nas rc•

ligíões e cultos, no folh:lorc, n;i. lingulStíca, na culina•

ria. . . a sua influencia se fez sc.mir de mandr:i consi.

dcravcl.

Os Oaomcianos vieram cm número multo menor;

eram forces, aguerridos e cxcclcnccs para o trabalho.

M:J.S a sua influencia foi muito mc.nor no Brasil, cm contraposição ao que acomcccu, por exemplo no H:i.iti, onde o stodt principal de Negros é de proccdencía <lao-mcian:i.

Os Negros do segundo grnpo, como os Haussás, Tap:is, Niandíng:J.S, ecc.1 isto é, os Negros sudanc.scs convertidos ao maornccismo, eram alces e force..'>. Con-tudo reagiram violentamente j sua condição de. escra-vos. A eles se dc:vc o maior nún1c:ro d:J.S revoltas de Negros da Baía, nos começos do século XIX. Tinhain hábitos austeros, de: fundo religioso, rc:cusav:im-se à viver com os outros Negros escravos.

Os Negros do terceiro grupo, de proccdcncia bantu, foram destinados ao Rio de Janeiro, Nordeste e posce--riormence. a Minas Gc:raís. Os Angolas eram fisicamen-te. mais fracos do que os Sudaneses. Turbulentos, eles constituiam os grupos conhecidos antigamente no Rio, com o nome. de capoeiras, nome derivado de um jogo

A Aculturação Negra no Brasil 55

ou luta popuhu que eles exibiam. nas [U:1S da cidade. Fo·

ram preferidos p:ua os trabalhos dom~ticos nas cidades.

Mo.s foram Angobs, Congos e Moçambiqucs, que.

constítuir:im o grosso da popubç5o escrava do vale. do P:tr:ifü;i, nos Estados do Rio de Jancico e S. Paulo, na época aurca do café. Aínda foram c.s...-.cs Negros que se espalh:aam pelos altipbnos de Minas Gerais e pelos vales do Rio Verde e. do Rio das Mortes, no período d:i. míncr:ição.

O seguinte quadro resume os principais grupos Negros introduzidos no Brasil: a) gi:ui,o Sud:inÊs -lombas, Ewcs ou D:iomcbnos, F::imi.-Ash:inci; b) grupo Su<l:m~ ísbmizado - H:\US.S.Í.s, T:1pas, Man·

dingas, Fulahs; e) grupo Bamu - Angola, Congo, Moç1mbiquc.

A hisroria da cscraviclii'.o no Orasil nio dccorccu sem nenhum inciJcmc digno de. nota. Embora tivc..ssc havida muico menos cpisodios violentos <lo que em ou-nas partes <la América, contudo ha. muita coisa a assi-nalar, que rcveb o protesto, às vezes violcnco1 que o Negro crguc.u conun a .sua condiçio de escravo. Aí estão as insurreições negras para provi-lo. Desde os primor<lios da escravidão, os Negros. procuraram fu-gir, comando-se quilombófos, e se organizavam cm grupos, conhecidos no Br:isil com o nome de quilombos.

Dur:tnrc os séculos XVII, XVIII, XIX, rlvcmos, no Brasil um grande número dc.s.scs quilombos, dos quais o mais ímportancc foi o de P:i[m:1.res, no Nordeste.

Esse quilombo, conhecido n:i. histocía do Brasil com o nome de. Rc.públicn. Ncgr:i de Palmares, foi. um vcrd:idciro Estado Negro, fundado pelos c..scravos no século XVII. Escava \oc:ilizado no Nordeste do BrasH, no centro do que é hoje o Esc:i.do de AlagÔ.l.S. Durou 67 anos, de 1630 1 1697.

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Ll.1·th1ir

Ramos

Constícuido de escravos fugitivos dos engenhos de açucar de Pernambuco e AbgôJs, cscavl localizado nas frJ.ldas da serra da Barriga, e. se e.sccndia pelas flore.scas de Alagôas, nos vales do rio Mund:i.(1. Acrcdíta·SC que chegou a rcunír•SC aí uma. população de 20.000 almas, A cid:idc estava org;inizada nos modelos africanos; a unidade social e política era o quilombo, constirnido por sua vez. de varfas cabanas ou mocambós, tudo isso defendido por um sistema de palissadas e fossos. Eles eram dirigidos por uma cncid:idc suprema, o rei, que se faZla rodear de um corpo de guardas, ministros, mu·

lhcrcs e cscravos1 que lhe prestavam cega obcdicnci:i..

A org:1nizaç5:o econômica era pcrfcíca, bem corno a organíz:iç1o social, política e milic:u, O rei era cieiro, entre os grupos mais habcis. Houve virios deles, sen-do o mais conhccído, o famoso Zambi, da úldrni fase dos Palmares.

Este quilombo deu muito que fazer às forças por·

cugucsas. Houve varias c:..-cpedições que cravaram luta com os Negros e nunca os conseguiam bater de r.odo.

Só na última fa.se1 com a ajuda de. uma bdndeirct paulis-t:t, sob o comando de Domíngos Jorge Velho, é que as forç:i.s pernambucanas e :1.b.goana..s, num total de 7.000 homens, conseguiram destruir a famosa República. O heroísmo dos Negros foi enorme. E conca~sc que o Zambi, vendo-se perdido, preferiu atirar-se de um dcs, pcnhadeiro a entregar-se :15 forças cxpcdlcionarias. Com razão referiu-se o hisr.oriador Oliveira Martin~ a Pal-mares, como a 11Troi:l. Negra'\ para assinalar cs~c épico protesto dos Negros contra a escravidão

Alem de Palmares tivemos outros quilombos no Brasil, como o do Cumbc, na Par;1.í6a, do Rio das Mor~

ces, em fvlinas, de Cubacão, cm S. Paulo, 'de. Carloca1

em Mato Grosso, do Lcblon, no Rio e oucros de menor importancia. Convcm ainda assinalar as insurreições

.A .d.01ilt1iração Negra no Brasil 57

urbn:is, na Bafa, de 1807 , 1835, encabeçadas pelos escravos islamizados.

Esses prorcscos não ficaram sem éco. Desde muito ce.mpo a opinião liberal <lo país vinha clamando contra o regime da escravidão. Na imprensa, na oracoria po-pular, no parlamcnco, vozes podcrnsas lcvamaram a bandeira <lo movímc.nco abolicionista. Os proprios Ne:gtos preferiram trocar os seus prorcstos violcncos por uma campanha p:icífica e bem organizada p1ra a sua propria emancipação. E criaram os "fundos de be.-nc.ficc.ncia''i as 1'calxas de alforria", etc., p:ira o finan-ciamento gradual das suas ''cartas de liberdade", isco ~.

os documc.mos que lhes asseguravam os dircítos de li-berdade. Sociedades emancipadoras se formaram. E grandes lcctdcrs abolicionistas se dcsc:tcaram nesse movi-menco, entre os quais convem ci:ar os nomes de Luiz G:ima, André Rebouças, José. do Pacrocinio, Negrns todos c.lcs, bem como os de Joaquiô1 Nabuco, Joaquim Serra e. muitos outros.

A campanha foi intensa e podemos acompanhar a sua fase final, no seculo XIX, acravÉs dos jornais aboli-cionistas da época e dos anais do parhuncnto.

cm mc.i:i.dos do século XIX, o movimento cínha empolgado a opinião públic;i, O grande pocc:i. C:i.suo Alves, com seus pocm:i.s contra a escravidão, era o ídolo das multidões. Varias leis gradUaís contra a escravidão já haviam sido elaboradas. Em 1831, o tráfico de cs~

C[avos foi declarado ilegal. A lei. conhecida como do Ve11tre Livre foi um grande triunfo dos esforços parb-mencarcs. Foi promulgada a 28 de Setembro de 1871, pc.la princesa regeme Izabcl, e declarando livre todos os nascidos de venere de miic escrava.

!vb.s a opinião pública queria n1ais1 que.ria a aboli-ção integral. Alguns Estados se anu:cípacam 1 esse ideal. Em 1883, o Estado do Ceará líbl!:n3.va os seus escravos, sendo seguido do Amazonas, no ano

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te. As socícdac.lcs e jorn:ds abolicionistas muldplícaram as suas acívid;:,.di:s. A campanha parb.mcntar atingiu ao auge. O último gabiiictc cscravocrac:i. foi o de Coce·

gipc:1 cuja quc:da assinalou o triunfo ela opinião liberal.

Foi no gabinete Joio Alfredo que o c.lccrcto ela abolição da escravidão no Brasil saiu afinal a i3 de Maio de 1888.

O colapso econômico previsto pc:los conservadores n3:o se deu. Houve, apenas, uma fase de transição, pda passagem do regime do traballlo escravo pelo trabalho livre, com a cmra<la gradual do imigrante cscr:rngeiro.

E, acomp:1nh:1.n<lo essJ. transformação cconômica1 caiu o regime polícíco da monarqui:i e um ano depois <l:i.

abolição, era proclamada a República Brasilcir:t.

O Negro enteou cm larga quuca na composíçio émíca do Busil. Uma velha tradição colonizadora do Português operava Ós concactos ele raças entre. os povos novos descobertos. No Brasí!, foi a mesma coisa. Nc·

gros se miscuravam, pela mísccgwação e pelo cas:tmcn·

to às outras correntes étnicas que povoaram o Br:tsil.

Não houve restrições legais nem sociais a esses concac#

tos de raças. Não conhecemos barreiras, nem luto..s de côr, a não ser cm gcaus atenuados, cm alguns pomos do patS.

J;\

vimos o elevado dlculo de 8.800.000 mulatos no se:io da população roca! do Brasil. Mas será preciso descriminar os nomes das varias formas de mestiçagcrrl ..

1'Mulaco11 será o nome especb.lmcncc reservado à mes·

tiçagcm <lo Negro com o Br:rnco. A mestiçagem de Indio e Br:inco dl como resultado o 11Caboclo" ou .. Mameluco".

o lndio com o Negro dá o 11Curi#

boca,. ou "Cafuso" (chamado zambo na restante ·Amé#

rica Espanhola). 11Pardos" seri a designação geral reservada ao cruzamento de elementos l:cnicos diversos, cuja descriminação não pou<le ser fcit:i com precisão.

A Ac1ütwração Negra no B ra;;il 59

Ne.scc sencido, "pardo" scr:í empregado como sinoni·

mo de "mestiço" cm gcr:i.l.

O problema do Negro no Brasil não deve, porém apcnasscr encarado desce panca de visca de comacco de raças, cuja solução cncrc n6s parece ccr sido a mais hu·

man;i. e mesmo a mais cicmífia, segundo hoje a opinião de grande número de antropólogos. Mas cambem do ponrn de vista de conracco de culturas.

Transporcando·se para o Novo Mundo, o Negro crouxc cbs su:1s cerras de origem, os seus elcmcncos cultura is - da cultura material e d:i cultura cspicícual.

Vestes e ornamcnws, hábirns alimentares, uma inccre.s·

sanrc tradição artística, principalmente na música e na csculrnra, religiões e pr5.cicas mágicas, folh_.lorc. tudo isso foi cransporcaclo ao Brasil e aqui sobreviveu cm meio às outras culturas com que se poz cm comacto.

Foi um legítimo esforço da Escola de: Nina Rodei#

gucs o ter escudado no Brasil essas manifestações de :ifricanismo sobrcvivcncc1 o que tCnho dcsrnc:1do nos meus proprios trabalhos

Trcs pontos principais de culturas negras sobrcví#

vcram no Brasil1 de. acordo com o quadro que aqui su#

giro:

[ - Culrnras Sudanesas, inuoduzidas pelos Nc#

gros proccdcnces da Costa dos Escravos1 Daomci e Casca do Ouro {lorub:is, Ewcs, faneis e Ashands).

I1 - Cultur;'l.S Sudanes1s fortcmelllC ínflucncia#

das pelo lslam, incroduzidas pelos Hauss:ís, Tapas, Mandingas e Fubhs.

llI - Culturas Bamus, introduzidas pelos Negros proccdcnccs de. Angola, Congo e Moçambique.

No dominio das religiões e cre:nçts, podemos aind:t boje reconstituir os clcmcmos cbs religiões africanas, prindpalmcncc dos cultos sudaneses e bantus. Na

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Ramos

Baía conservou.se a tradição ioruba. Sio as praticas religiosas chamadas comumcmc candomblés e que. sio a reprodução do culto dos orixás da. Cosrn dos Escravos.

Orixás são os deuses ou "santos" íon:bas. E muitos ddcs se conservaram, tomando-se populares entre cer-ras camadas dos negros brasileiros: Oxalá, o maior de todos; Xangô, cri.xi do raio e das ccmpcscadcs; Ogun1 oríx~ da guerra; Exú, idcncífícado com o diabo dos c:1.cólicos; Icmanjá, de.usa

c6.

agua, ccc. Todos esses ori.xás são objcco de culco e: têm um séquito de s:;icer-doces c. sacerdociz:1s, 11pais de. samo", 1'rnãcs de sanrn"

e "filhos de santo". O cerimonial do culto cclcbrn-se em Jogares afastados e escondidos, os "ccrrc:írosº por causa das restrições policiais. A direção geral do culto ainda cem o modelo africano: as dansas e cancos má~

gicos, os tambores ou atabaqucs, o pre:p:no dos orix:ís, as ma.nifescaçõc.s híscctiforme.s das ºfilhas de san,;_011 cm transe ou possessio, e.te.

Ccrcamencc muita coisa está modificada, e o tra-balho da aculturação proscguc a sua obra. Estudei o fenômeno no secor rei igioso com o nome de sincretis-mo: é u'a mc:.scla curiosa dos santos e cultos africanos com as práticas católicas nas camadas inculcas da po-pulação.

No Rio e outros pontos do Brasil, ainda encontra·

mos certas tradições bantus. São :is macumbas, nome que: tende a gcncralízar-sc no Brasíl, como significando as prátícas religiosas e mágicas do Negro. A tradição é angole:nse, mas com forres influencias dos cultos io-rubas, processo de aculturação que se deu no Brasi~. Por isso, a orientação geral das macumbas se. foz pelo .mo-delo ioruba, embora aí estejam novas e.midades e "san-tos" de origem bancu.

Em oucr:1.s formas da cultura espiritual dos grupos negros do Brasll, evidencia-se ainda a sua origem ín-discutívdmcncc africana. Nas festas populb.rcs, na

A Acult1iragão Negra no Brasil

61 música e dans:1, nos concos e parlcnd:i.s e outras m.i.ni~

fesraçõcs do folk~lorc, as sobrcvivcncias africanas rc ...

poncam a cada passo. Certas fcscas cíclicas do Brasil, como o C1tnaval, "cernas" e 11ranchos11 da Baía,

"re.ísados" e 11congos" do Nordcsrt.: e do Sul. .. estão impregnados dc influencias africanas. Sio rc.sulcados da fragmentação de antigas fcsras cíclicas de coroação de reis africanos, de foscas anuais de colheíca, de procis ...

sões cerimoniais, ccc., que passaram ao Brasil e aqui se misturaram a outras instituições e cerimoniais, com o esquec:imcmo <la signific.1çio primitiva.

Nn. música e na dansa, a influencia negra e me ...

gavel, no Brasil. O Negro trouxe o seu contingente va ...

lioso e caracccrlSdco. Os seus inscrumemos de música, não só os de origem íoruba, como os angala.congucn.

ses ainda são facilmente reconhecidos, nas festas dos

"c.1n<lomblés" ou nos conjuntos de música popular. Aí e.sei a longa serie dos cmborcs (acabaqucs) e outros ins-trumentos de percussão (agogô, gongué:, adjá, aguê, ccc.). A dansa negra, após vatias etapas de ttansform:1•

ção, r.mergindo principalmente do batu.qu.c de Angoh, tende hoje a se definir cm torno d:1 fígur:1 coreográfica do samba, a dansa popular brasileira, por cxcdc:ncia,

A cultura macc:rial que os Negros uansporcaram cb. África par:1 o Brasil já havia atingido a alro nivc:l de desenvolvimento. Na pincura, csculrnca e. a.rquitc·

cura, o Negro tra.nsporcou p:\ra o Brasil as suas habi·

lidadcs inatas. São bem conhecidas· as su:is vestes, de tradição sudanesa, que na Bal:11 principalmente., sobre·

viveram no traje da '1baiana", hoje popularizado no Brasil inte.iro. Na c.,;cultura são conhecidas as figurính:1s trabalhadas cm madeira, dos seus ídolos. É uma tra·

<lição da arte africana, de: origens iorubas ou congucn•

ses, Ainda braceletes, e ouuos objccos de metal guardam as tradições dos conhecidos bronzes de Bcnín. Hoje tudo isso e.sei modificado pelo trabalho da aculturação,

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mas ainda se conseguem reunir, n:i Bafa, esses objetes.

com estilização african:1, como o mostram as colcç&s Nina Rodrigues e Archur Ramos.

A tradição oral é cambcm. muito ~randc, cncrc:oo Negros do Brasil. Couros populares, adivinhas, c:1nccs e qu:idrinhas, expressões e prnvcrbios... ainda se co!lS(r, v:i.ram no Br:isil, de legítimas origens afrícqnas. Muius dcss:tS form35 conseguiram ser cscud::.das, nas colcc:inm re.un(das por alguns estudiosos.

O /olk._,lore de Pai Joio corresponde ao ciclo dt Uuclc R.emus dos Negros dos Esudos Unidos. É 1

longa e dolorosa hlsroria da escravidão que aparece nis narrações do Negro vc.lho, curvado e trôpego, qut narra velhas histori:ts e lendas da África, como o fazU o aroh.in, o narrador d.1s côrccs iorubas. No Br:isil es-s:i.s historias forarn sendo subscícuid:i.s pouco a pouco pelas nossas lendas locais, episodios das planca.çõc.s, historias d:i vida do Negro nos ampos, nas cidades.

nas senzalas e nos mocambos.

Com a abolição da escravidão, cm 1888, mais de meio milh .. 10 de Negros foram lançados a uma nov.i vida e tiveram de se ad1pc:ir às novas condições sociais e econômicas que m::i.rcam. :t cr::i.nsíção do lmpcrio pltl ::i. Rcpúblic::i.. Acé hoje eles padecem dcsca crise de :ljUS-camenco. Tiveram que compccic com o crabalho do imigrante cscrangciro, que desde pouco ::inccs da abo\[, ção, já havia sido chamndo aos cafesais de. S, Paulo.

E isso explica, porque, nos Estados do Sul 'do p:ifs, o o problema negro com::i 1.Spcccos que por vezes lcmbr.in o dos Estados Unidos, guardadas coe.las :is proporçõcs-Rcdca.dos por uma grande maioria de u abalh:ido-rcs de proccdcncia curopb., o Negro conscicue, nestes Estados, uma minoria é.cníc:>., que sofre algumas restri-ções do meio social. Ha cena linha <li.:. côr, si não nas

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