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Muito se discute no Brasil sobre a existência de um suposto “empobrecimento cultural” quando se trata da produção musical a dominar o mercado popular no país. As comparações entre o cenário atual e os anos áureos da produção musical dos anos da Ditadura Militar são várias. Em setembro de 2019, causou polêmica a entrevista do cantor e compositor Milton Nascimento, na Folha de São Paulo, em que o renomado artista afirmou que “a música brasileira está uma merda”21. Imediatamente após a publicação

21“Música brasileira está uma porcaria”, dispara Milton Nascimento.

https://www.metropoles.com/colunas-blogs/pipocando/musica-brasileira-esta-uma-porcaria-dispara-milton-nascimento (acesso em 11/08/2020).

da matéria, uma onda enorme de críticas emergiu na internet, tanto em apoio à fala de Milton quanto em discordância.

O debate se estabeleceu às voltas daqueles que viram na crítica uma espécie de preconceito musical em relação à música de massa, sobretudo a que dominou o mercado brasileiro, chamada vulgarmente de sertanejo universitário: “Não sei se o pessoal ficou mais burro, se não tem vontade [de cantar] sobre amizade ou algo que seja. Só sabem falar de bebida e a namorada traiu. Ou o namorado que traiu. Sempre traição”, disse o artista mineiro.

Entre os defensores e partidários da crítica, houve aqueles que contextualizaram a fala, relacionando Milton Nascimento à geração que enfrentou a Ditadura Militar com perspicácia e erudição, driblando a censura e denunciando o Estado autoritário que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985. Para estes, Milton viveu tempos em que a música brasileira se fazia fundamentada na realidade política do país, relembrando a obra de Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Clube da Esquina, Aldir Blanc, Tom Zé, entre outros tantos, que passaram a ser considerados os sinônimos da Música Popular Brasileira. Não faltou, ainda, muita crítica ao mercado musical, aparecendo coisas do tipo: o que se oferece ao nosso povo é de muita baixa qualidade.

Discordâncias à parte, não demorou para que Milton viesse a público explicar a fala e pedir desculpas, alegando que sua crítica havia sido tirada de contexto. Para se defender, deixou claro sua amizade e parceria profissional com vários cantores e compositores da música brasileira, jovens e ainda ingressantes no cânone, como Tiago Iorc, Criolo, Liniker, Iza, Danilo Mesquita, Zé Ibarra, Maria Gadu e outros tantos.

Na outra ponta desta discussão, uma matéria do El País publicada no Dia Internacional da Mulher, chama atenção para “a banda que vem dando o que falar com a melhor música brasileira que você ouviu nos últimos tempos”22. A banda em questão chama-se As Bahias e a Cozinha Mineira, composta por Raquel Virgínia, Assucena Assucena e Rafael Acerbi, duas cantoras Transexuais e um homem cisgênero. O grupo acumula críticas positivas em relação aos trabalhos que já colocaram ao escrutínio do público, incluindo uma indicação ao Grammy Latino em 2019, duas ao Prêmio da Música Brasileira e ao Prêmio Multishow de Música Brasileira.

22 “As Bahias e a Cozinha Mineira: Para o trans, todo dia é um grande evento”: A banda trans que faz a

melhor música brasileira dos últimos tempos quer apenas um dia comum.”

O debate que pretendemos abordar aqui não se dá às voltas com a discussão sobre qualidade musical ou mesmo sobre o binômio erudito/popular que tantas vezes marcou a análise do cenário da Música Popular Brasileira. Pretendemos, portanto, compreender e explicitar o lugar no qual a banda As Bahias e a Cozinha Mineira está inserida, bem como a colocação de sua obra no espaço público brasileiro, em diálogo com aquilo que lhes é contemporâneo.

A vocalista Raquel Virgínia se preparava para embarcar no avião que a levaria para Las Vegas, nos Estados Unidos, para participar da cobiçada premiação do Grammy Latino, quando publicou em seu Instagram uma reflexão sobre o momento:

Nós cantamos um tipo de música que não está nas pistas, não está nos festivais, nem nas rádios, não estamos nas listas dos blogs que analisam os melhores do ano - No caso Das Bahias e a Cozinha Mineira existe um quase “não-lugar” - mas insurgimos ironicamente num dos maiores eventos da música mundial, o Grammy latino.23

A publicação da cantora leva-nos a pensar sobre mercado cultural no Brasil e permite voltarmos para o início deste capítulo, quando abordamos a crítica feita por Milton Nascimento. O fato de a banda não ocupar espaço nas rádios e nas pistas país à fora, possibilita questionar o que se entrega ao público no Brasil, o que se oferece à maioria da população brasileira, o que dá lucro às emissoras de rádio e televisão. É preciso perguntar: esses artistas não ocupam estes espaços porque sua produção artística é irrelevante? Seria de baixa qualidade? Teria pouca adesão por sua construção enquanto bem cultural? É pouco palatável à maioria do povo brasileiro? Evidentemente que a questão não é essa.

Sabe-se claramente que o mercado musical no Brasil está dominado pela música sertaneja24, em geral produzida por jovens de classe média, baseados no Centro-Sul, em capitais como Goiânia, São Paulo, Belo Horizonte, Campo Grande, além de cidades interioranas como Uberlândia – MG, Ribeirão Preto – SP, Sorocaba – SP, entre outras. Este mercado, evidentemente, gera números bilionários, como as visualizações em vídeos no site YouTube, onde alguns desses artistas batem recordes cotidianamente. É, sem dúvidas, um mercado extremamente lucrativo, sendo, portanto, o maior empreendimento musical em vigor no Brasil atualmente.

23 Rede Social Instagram de Raquel Virgínia. Acesso em 11/08/2020.

24 Segundo o site 161 Studio, 73% das músicas mais tocadas nas rádios do Brasil em 2018 são do gênero sertanejo. Disponível em https://www.161studio.com.br/post/musica-sertaneja-curiosidades-mercado-musical; Acesso em 11/08/2020.

Mas nem por isso alguns outros artistas deixam de fazer seu trabalho. Para Raquel Virgínia, há um problema no mercado da música no país que precisa ser elaborado.

O Brasil ainda precisa evoluir na democracia do mundo das artes. Primeiro que nós temos uma crítica artística que está mais ligada aos amigos, que de fato, ligada ao que está sendo produzido de potente e artisticamente elevado em termos de linguagem e proposta. Se é meu amigo “é grandioso”, se não é meu amigo “eu nem vi”. Isso não é crítica. Isso é bairrismo, conversa de boteco - não é coisa séria. Precisamos evoluir em termos de opinião no Brasil.25

A democratização, neste caso, seria a disponibilização do mesmo espaço destinados aos artistas que ocupam este pequeno cânone: o sertanejo. Aqui reside uma questão fundamental, que é o acesso à outra produção cultural e o papel político disso. O que a banda As Bahias ameaçaria, por exemplo, caso ocupasse um lugar dedicado aqueles artistas do gênero sertanejo?

Importante pensar aqui no que Ivana Bentes chama de corpos parlamentares: mesmo silenciado, um corpo Queer fala, carrega uma mensagem; é, por si só, símbolo e discurso26. Evidentemente que as circunstâncias históricas são indissociáveis desse cenário. Duas mulheres transexuais estão, à luz da teoria Queer, à margem e não no centro. Esse estar à margem é inerente à existência das pessoas transexuais e transgênero quando, em uma sociedade pautada por valores judaico-cristãos, sempre castradores, emergem como corpos estranhos.

Queer é estranho, raro, esquisito. Queer é, também, o sujeito da sexualidade desviante – homossexuais, bissexuais, travestis, drags. É o excêntrico que não deseja ser “integrado” e muito menos “tolerado”. Queer é um jeito de pensar e de ser que não aspira ao centro nem o quer como referência; um jeito de pensar e de ser que desafia as normas regulatórias da sociedade, que assume o desconforto da ambiguidade, do “entre lugares”, do indecidível. (LOURO apud. TREVISAN, 2018, p. 507)

Para a filósofa Judith Butler, essa interdição aos gêneros divergentes são parte de um problema que deve ser analisado mais de perto. A questão, segundo a autora, tem relação com aquilo que é inteligível ou não.

Gêneros inteligíveis são aqueles que, em certo sentido, instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. Em outras palavras, os espectros de descontinuidade e

25 Rede Social Instagram de Raquel Virgínia. Acesso em 11/08/2020.

26BENTES, Ivana. “O corpo não pornográfico existe”. Disponível em https://revistacult.uol.com.br/home/ivana-bentes-o-corpo-nao-pornografico-existe/; Acesso em 11/08/2020.

incoerência, eles próprios só concebíveis em relação a normas existentes de continuidade e coerência, são constantemente proibidos e produzidos pelas próprias leis que buscam estabelecer linhas causais ou expressivas de ligação entre o sexo biológico, o gênero culturalmente constituído e a “expressão” ou “efeito” de ambos na manifestação do desejo sexual por meio da prática sexual. (BUTLER, 2003, p. 38) Portanto, relegar a margem a estes sujeitos é, do ponto de vista da organização social, estratégico, na medida em que tais artistas trans não se limitam a existir: elas se expressam e exigem seu direito à dignidade por meio da música também.

O segredo está em que a militância não é maior do que a potência musical das Bahias e a Cozinha Mineira, que parece fazer música progressiva brasileira – se é que o gênero existe. Vai para cima e para baixo, acelerando e freando a emoção em canções catárticas que revisitam a diversidade musical do país e a levam para frente. Tem forró e axé, tem samba e MPB e, sem dúvida, tem provocação em letras que tocam nos âmagos das questões. (EL PAÍS, 2016)

Esses corpos portadores da mensagem ocupam um espaço de comunicação que se restringe ao nicho, neste caso, àquele do público ouvinte de MPB, à uma parte da comunidade LGBTQIA+ que impulsiona um mercado musical mais diverso e engajado.

À medida em que estes artistas falam e cantam sobre aceitação, respeito à diversidade, questionam padrões de gênero e heteronormatividade, expõem a possibilidade de sentimentos genuínos, como amor e amizade entre pessoas travestis, transexuais e transgênero, acabam por ameaçar uma hegemonia naturalizada na cultura brasileira acerca do sucesso e do estrelato.

Assim como disse Milton Nascimento na sua crítica ao cenário musical atual, “quem canta sobre a namorada que traiu e faz sucesso com isso” são homens e mulheres brancos, publicamente heterossexuais, cisgênero, enriquecidos pelo boom da música sertaneja, e, ainda, podemos perceber, integrantes da onda conservadora que atingiu o país após o golpe parlamentar de 2016 que culminou com a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República em 2018, representando a ascensão da Extrema-direita brasileira ao poder27.

Considerando isto, não se pode chegar à conclusão de que os/as artistas LGBTQIA+ estão fora desse grande mercado por questões ligadas somente à sua obra ou

27“Gustavo Lima publica vídeo com fuzil e declara apoio a Bolsonaro”; Disponível em

https://istoe.com.br/gusttavo-lima-publica-video-com-fuzil-e-declara-apoio-a-bolsonaro/; Acesso em 12/08/2020. “Artistas sertanejos declaram apoio a Bolsonaro”; Disponível em https://www.poder360.com.br/governo/artistas-sertanejos-declaram-apoio-a-bolsonaro-saiba-quais/; Acesso em 12/08/2020.

ao gosto da população brasileira: há um impedimento intencional, uma vez que sua existência é interditada, sua expressão também não pode vingar.

Se olharmos para a trajetória da música brasileira, quantas mulheres trans estão no hall do cânone por sua obra? Raquel Virgínia, Liniker e eu somos as primeiras a serem indicadas ao Grammy Latino, é sintomático de um apagamento social e histórico sermos as primeiras, mas também é o prenúncio de que não voltaremos ao armário, à quatro paredes, ou para debaixo de um viaduto à meia luz.28

Desse ponto de vista, o problema posto sobre a inserção de artistas queer no mercado musical brasileiro carrega aquilo que nos caracteriza enquanto sociedade: noções não elaboradas de preconceitos antigos, calcados na tradição judaico-cristã que, aos olhos de uma história oficial, fundaram a identidade nacional.

Outra questão importante a ser elaborada é sobre como podemos perceber a inserção destas artistas queer no mercado midiático brasileiro. Ainda que o mercado da música de massa no Brasil tenha como produto hegemônico a música sertaneja, como abordado anteriormente, não se pode negar que houve, nas últimas décadas, um aumento no interesse das mídias, sobretudo a televisão aberta, em abordar temas que giram em torno da diversidade de gênero e das sexualidades.

Assistimos com frequência nas telenovelas da Rede Globo personagens homossexuais e, em que pese o fato de serem abordados de maneira estereotipada, já aponta para a inclusão desses sujeitos na “sala de casa” da família brasileira29. Em 2017 a novela A Força do Querer, da autora Glória Perez, causou comoção ao representar a transição de gênero de uma personagem e a relação conflituosa com a família que não entendia do que se tratava a transexualidade.

Além da personagem ter apresentado ao Brasil suas dores enquanto pessoa transexual que não se percebia como mulher, embora seu corpo fosse relacionado ao feminino biologicamente, ficou evidente que a questão trans pode ser tratada de maneira humanizada, desmistificada e honesta. Este personagem, Ivan, interpretado pela atriz Carol Duarte, encerra sua trajetória na obra tendo aquilo que podemos chamar de apoteose, quando sua transição de gênero é completada e, numa cena emocionante, ele retira os esparadrapos dos seios após a cirurgia. Segundo o jornal Folha de São Paulo à

28 Rede social Instagram de Assucena Assucena; Acesso em 12/08/2020.

29 GAUCHAZH. “Em 43 anos, Globo produziu 62 novelas com personagens LGBTs, aponta pesquisa”. Disponível em https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2015/11/em-43-anos-globo-produziu-62-novelas-com-personagens-lgbts-aponta-pesquisa-4896360.html; Acesso em 30/08/2020.

época, “a personagem de Carol Duarte faz parte de uma estratégia da Globo em busca de mobilização social para discutir, nas telas, sexualidade e identidade de gênero” (FOLHA, 2017)30.

Ainda em A Força do Querer, a atriz transexual Maria Clara Spineli interpretou uma mulher cisgênero. Para ela, a mídia cumpre um papel decisivo na abordagem das questões de gênero porque está em todo lugar, falando com qualquer pessoa. Em entrevista ao UOL, em 201731, Spineli disse: "É um marco na dramaturgia e, da maneira tão séria e bonita como está sendo feita, essa obra vai reverberar por muitos e muitos anos. Fico pensando: será que se minha mãe tivesse visto uma obra dessa, eu teria passado por todo o sofrimento que passei?”.

Dado o alcance da mídia hegemônica como a televisão e dada a dimensão do acesso dessa mídia na sociedade brasileira, seria possível afirmar que esta, assim como outras, pode contribuir para a promoção de uma humanização em relação às pessoas transexuais e travestis? Poderíamos dizer que, ao abordar este tema, a mídia educa aquela parcela da sociedade que está longe institucionalmente desse debate? Para responder tais questões, recorremos ao pesquisador Douglas Kelner, importante teórico dos Estudos Culturais, para pensar o papel da mídia na formação de entendimentos plurais na sociedade. Para Kelner:

Numa cultura contemporânea dominada pela mídia, os meios dominantes de informação e entretenimento são uma fonte de profunda e muitas vezes não percebida de pedagogia cultural: contribuem para nos ensinar como nos comportar e o que pensar e sentir, em quem acreditar, o que temer e desejar – e o que não. (KELNER, 2001, p. 10) A mídia, para este autor, representa uma fonte inesgotável de contribuições para questões latentes na sociedade pois, de certo modo, orienta a vida das pessoas, ensina como agir e como pensar em convívio social e muda visões pré-existentes a partir da proposição de outras. Mas também oferece instrumentos para que o próprio público avalie aquilo que lhe é proposto e elabora uma crítica acerca daquele conteúdo. Ou seja, a relação entre a mídia e o público não se dá de maneira passiva. Pelo contrário:

30 FOLHA DE SÃO PAULO. “Trans em ‘A Força do querer’ faz parte de estratégia por mobilização

social”. Disponível em

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/08/1913533-trans-em-novela-da-globo-faz-parte-de-estrategia-por-mobilizacao-social.shtml; Acesso em 30/08/2020.

31 UOL. “Para atriz transexual, ‘A Força do Querer’ teria evitado seu próprio sofrimento”. Disponível em https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/novelas/para-atriz-transexual-a-forca-do-querer-teria-evitado-seu-proprio-sofrimento-16774; Acesso em 30/08/2020.

O público pode resistir aos significados e mensagens dominantes, criar sua própria leitura e seu próprio modo de apropriar-se da cultura de massa, usando a sua cultura como recurso para fortalecer-se e inventar significados, identidade e forma de vida próprios. [...] Assim, a própria cultura veiculada pela mídia induz os indivíduos a conformar-se à organização vigente da sociedade, mas também lhes oferece recursos que podem fortalecê-lo na oposição a essa mesma sociedade. (KELNER, 2001, p. 11).

Embora seja senso comum dizer que o capitalismo se apropria de tudo, é importante chamar atenção para o fato de que, segundo Kelner, “a cultura da mídia e a de consumo atuam de mãos dadas no sentido de gerar pensamentos e comportamentos ajustados aos valores, às instituições, às crenças e às práticas vigentes.” (KELNER, 2001, p. 11)

A telenovela, as músicas, os filmes, os programas de entretenimento, entre outros são produtos no mercado, de modo que toda análise que busque verificar seu alcance e sua eficácia precisa partir desse princípio: o de que estando eles à venda, a relação de compra com seus consumidores varia, como variam todos os demais produtos. Assim, não se pode pensar de maneira simples a questão, por exemplo, da aceitação ou de construção de respeito em relação à população transexual simplesmente porque a sociedade brasileira teve contato com tal novela onde se abordava determinado assunto. Como dito anteriormente, esta não é uma relação passiva, mas pode ser de construção de entendimentos diversos, inclusive o entendimento de normalização do debate.

Para o filósofo e antropólogo colombiano Jesús Martín-Barbero, na América Latina, onde os ciclos modernizadores não se completaram ou onde ainda se discute a universalização de direitos básicos como educação e saúde, a transformação social a partir da mídia é uma questão longa e demorada.

Daí que nossas populações possam, com certa facilidade, assimilar as imagens da modernização e não poucas mudanças tecnológicas, porém, somente muito lenta e dolorosamente, possam recompor seus sistemas de valores, normas éticas e virtudes cívicas. Tudo isso nos exige continuar o esforço por desentranhar a cada dia mais complexa trama de mediações que articula a relação comunicação/cultura/política. (MARTIN-BARBERO, 1997)

Todas essas questões são importantes para pensarmos, por exemplo, em quais são os interesses da mídia em dar visibilidade às Bahias e a Cozinha Mineira; por que a banda, assim como outros artistas queer, aparecem em determinados meios midiáticos e estão excluídos de outros; quem consome este produto e quem o evita. Na medida em que buscamos repensar esses problemas, o trabalho aqui exposto tem como premissa a análise

de algumas músicas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, na busca por compreender como a representação acerca de questões da transexualidade podem produzir outros tipos de inteligibilidade, além de propiciar reflexões e provocações que só são possíveis pela via das subjetividades, espaço privilegiado da arte.