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Quando nos dedicamos à obra de As Bahias e a Cozinha Mineira, podemos observar que o discurso político e militante das artistas que a compõem está presente em vários momentos. Ele aparece quando as vocalistas narram a relação histórica das pessoas transexuais e travestis com seu próprio corpo, com sua cidade, seus espaço cotidiano, sua

subjetividade.

A relação das Bahias com a experiência histórica das travestis e transexuais se evidencia em suas músicas em vários momentos. Ao lançar o álbum “Tarântula” em 2019, terceiro trabalho do grupo, fica exposto um protesto a um evento histórico do Brasil que passava pelo processo de redemocratização pós-ditadura militar: a operação da polícia de São Paulo em 1987 que tinha como objetivo eliminar travestis e transexuais do centro da cidade, utilizando-se da violência física e institucional, pautada numa lógica eugenista. A inspiração final chegou com a repercussão do filme Temporada de Caça, de Rita Moreira na banda. O filme documenta a Operação Tarântula, apresentando uma

Figura 2 - Disco Tarântula - As Bahias e a

Cozinha Mineira - 2019. Disponível em

https://www.youtube.com/watch?v=_5zG78 E4Njg&list=PLog0RZe2REOQ01eKsjZhoIl 3N0_jbbu6i&ab_channel=AsBa%C3%ADas -Topic. Acesso em 20/08/2020.

realidade assombrosa onde várias pessoas entrevistadas deixam evidente seu desejo de não ter que se deparar mais com travestis pelas ruas da cidade no momento em que a epidemia de aids estava no ápice. Essa noção de eugenia foi o que justificou a operação que, pela via punitivista, pregava a eliminação destes sujeitos.

Os discursos sobre a AIDS operam como legitimadores de uma série de violações e têm a função de demarcar inimigos a serem combatidos. No contexto brasileiro, a grande mídia passa a explanar o tema exatamente no momento da redemocratização e paradoxalmente cria-se um discurso coletivo que observa seletivamente os casos recém-descobertos, mantendo o foco nas pessoas LGBT e invisibilizando casos de contaminação entre heterossexuais cisgêneros. (BARATA, 2006 apud. CAVALCANTI, BARBOSA E BICALHO, 2018).

Ao tentar justificar a operação violenta de exclusão das pessoas transexuais e travestis do centro de São Paulo, a instituição policial criou um discurso baseado em preconceitos arraigados à sociedade brasileira.

Ao se dedicaram à análise de documentos da imprensa sobre a Operação Tarântula, os pesquisadores Céu Cavalcanti, Roberta Brasilino Barbosa e Pedro Paulo Bicalho (2018) afirmam que o aparato jurídico dos anos 1980 dava suporte a uma forte política de exclusão dos corpos trans.

A eleição das fronteiras como premissa da produção de si pressupõe que a diferença seja vista não como pertencimento mútuo, mas como uma exterioridade que inclusive é tida como ameaça. A diferença sustentada por corpos travestis e por corpos negros parecem então demarcar um lugar que historicamente não é o de humano. Esse lugar, oriundo de um sistema de pensamento produzido e imposto pela Europa, pode inclusive ser pensado como um não lugar e a ojeriza que esta diferença muitas vezes causa pode ser analisada a partir da noção de abjeção. O que justifica que o direito penal do autor seja em determinado momento proposto e acionado para pessoas negras e o que embasa a prisão arbitrária de travestis pela Operação Tarântula fazem parte da mesma racionalidade. (CAVALCANTI; BARBOSA; BICALHO, 2018, p. 181)

Assim, a racionalidade que não percebe humanidade em corpos de pessoas transexuais e travestis permite e concebe o extermínio desta população, ainda que a sociedade em que vivem faça coro à uma ideia de civilização que tem como norte a Europa, os Direitos Humanos e a democracia.

Apesar da curta vida, a tarântula aqui apontada foi extremamente eficaz e produtiva e, ainda que não mais anunciada em seu nome, nos cabe desconfiar que suas teias continuaram enredando travestis em processos de incriminação operados por seletividade penal e extermínio mesmo muito depois. (CAVALCANTI; BARBOSA; BICALHO, 2018, p. 181)

Se seu lugar está delimitado na história, a operação Tarântula parece continuar com outros nomes, como apontam os autores acima, uma vez que não cessam as prisões arbitrárias de pessoas travestis e transexuais em situação de prostituição. Também não deixamos de assistir a sempre e constante marginalização desta população ainda nos dias atuais, por meio de instituições que não os inclui, mas pelo contrário, os repele.

Desse caldo de história e indignação, a banda conseguiu fazer emergir um grito de protesto que ainda ecoa ao trazerem de volta para o debate esse evento histórico. Para as integrantes de As Bahias, o processo de elaboração do disco passa por uma ressignificação daquilo que, em primeiro momento, representaria a interdição à sua existência.

Em apresentação no programa Cultura Livre, da TV Cultura em 2019, o grupo começa o show chamando atenção para a Operação Tarântula de 1987. Dé pé, as duas vocalistas olham para a câmera quando, ao fundo, a voz de Raquel Virgínia narra o seguinte texto:

Em 1987, um grupo de exterminadores do futuro se organizou para destruir toda uma geração chamada tarântula. Perseguiram dia e noite, noite e dia as tarântulas. Mas elas renasceram. Eles não imaginaram que os tentáculos das tarântulas eram inteligentes e perspicazes e que elas sempre irão renascer. Sempre. Não há mais como conter. A partir de agora, vocês assistirão o ritual de renascimento das tarântulas, ao vivo. Ao trazerem tal experiência para o debate público, As Bahias e a Cozinha Mineira colocam em pauta outra vez a questão da violência institucional sofrida pelas pessoas transexuais e travestis no Brasil. Esse discurso elaborado por meio da obra de arte põe em circulação uma série de questionamentos por parte de quem se encontra com a banda, uma vez que a obra de arte dialoga com a história e possibilita um primeiro contato com o assunto, tanto quanto um convite à busca por conhecer mais.

Ao refletir sobre o nome do disco Tarântula, Assucena Assucena afirma que o que aconteceu foi uma ressignificação daquilo que poderia representar o extermínio.

E tarântula é uma palavra sonora; aranha é um signo do feminino em várias culturas, é um animal que constrói uma teia, uma rede, várias pernas que apontam para vários sentidos. Além da sonoridade da palavra, que é linda. Tarântula é uma palavra linda. E por que não se apropriar de uma alcunha que poderia ser o nosso assassinato, a supressão da nossa beleza, o motivo do nosso esconderijo. Então foi uma apropriação conceitual mesmo. (ASSUCENA, 2020)

Esse processo de apropriação da palavra é também uma marca das formas como as artistas se inserem no mundo cultural, transformando espaços hegemonicamente ocupados por homens e sujeitos que performam a heterossexualidade.

É uma característica também bastante associada à comunidade LGBTQIA+ como um todo, uma vez que é comum a apropriação de palavras ofensivas por parte desta população. Sapatão, bixa, viado, fanchona, travesti, boneca, bamby, entre outros são hoje parte do vocabulário comum das pessoas LGBTQIA+ que transformaram esses signos de estigma em palavras comuns usadas entre sujeitos e parte do afeto construído entre eles. Segundo Raquel: “Já me falaram quando eu disse que era travesti: “Não, você é mulher trans! Travesti é pesado”, porque travesti é pesado, sim! Ser travesti é pesado! Então é justamente este o nosso trabalho – a gente está tentando dar outro significado”.

Esse processo de ressignificação das palavras é parte daquilo que comumente chamamos de transição da vergonha para o orgulho. Consiste em realizar o ciclo da saída do armário em todos os sentidos, inclusive no campo da linguagem. O produto da opressão, quando reelaborado, pode ser um empoderamento singular, mas que se dá no coletivo.

Ao debruçarmos sobre a obra, podemos notar também uma mistura de ritmos que dificulta até mesmo diferenciar a qual gênero musical a banda pertence, como se vários pedaços, tanto cultural, como social vão dando forma a um grande mosaico. A exemplo do que diz Marcos Napolitano:

A música, sobretudo a chamada “música popular”, ocupa no Brasil um lugar privilegiado na história sociocultural, lugar de mediações, fusões, encontros de diversas etnias, classes e regiões que formam o nosso grande mosaico nacional. Além disso, a música tem sido, ao menos em boa parte do século XX, a tradutora dos nossos dilemas nacionais e veículo de nossas utopias sociais. (NAPOLITANO, 2002, p. 07) Ao entender que a obra de As Bahias e a Cozinha Mineira difunde uma perspectiva pedagógico acerca da experiência das mulheres transexuais no Brasil, atentemo-nos para o que o historiador Marcos Napolitano chama a atenção quanto ao potencial transformador da canção.

A música não é apenas “boa para ouvir”, mas também é “boa para pensar”. O desafio básico de todo pesquisador que se propõe a pensar a música popular, do crítico mais ranzinza até o mais indulgente “fã-pesquisador”, é sistematizar uma abordagem que faça jus a estas duas facetas da experiência musical. (NAPOLITANO, 2002, p. 11)

Sabendo que qualquer trabalho que se proponha a refletir sobre o campo artístico em geral, mas em especial sobre a música, as complexidades são múltiplas, na medida em que as reflexões sobre a linguagem requerem um cabedal teórico amplo. Ao buscarmos referências nas áreas de linguagem, arte, gênero, entre outros, fazemos o mínimo para nos cercar de base para que este trabalho possa, na sua finalidade, contribuir para a questão tão urgente das discussões acerca da representatividade LGBTQIA+ no Brasil. Para Tanya Saunders (2019) a obra de arte a partir da ideia do artivismo oferece ao público “uma estrutura para nomear e compreender as formas nas quais a opressão social está interconectada e tornar visíveis várias utopias inclusivas, ou melhor, elas ajudam o público a imaginar maneiras inclusivas pelas quais todos possam libertar-se.”(SAUNDERS, 2019, p. 188)

Os locais onde a educação acontece, para além dos muros da escola, é onde notamos uma enorme pluralidade de pensamentos e vivências. Obviamente que acontece dentro das escolas, mas fora dela as manifestações culturais são um pouco menos retraídas. Isso, de alguma maneira, favorece ações performáticas que muitas vezes são contidas numa instituição tradicional e conservadora, como a escola.

O trabalho que se apresenta aqui tem bases profundas na noção de Direitos Humanos, além de se pretender um caminho de análise para pensar a inserção de sujeitos da comunidade sexo-diversa em espaços midiáticos. Buscamos refletir a relação entre mídia e representatividade, bem como o papel de orientador da vida dos espaços midiáticos.

Ao voltarmos nossas atenções para as sujeitas que compõem o objeto desta pesquisa, é importante lembrarmos que a existência transexual não se dá em isolamento, mas em consonância com outras formas de ser e estar no mundo. Estudos feministas e transfeministas, de gênero, estudos queer, decoloniais e entre outros nos apontam caminhos para compreender como a inserção dessas sujeitas no mundo se dá de forma relacionada diretamente com outros atravessamentos. A condição na qual elas são inseridas de forma autoritária é a da marginalidade pela sua simples existência como corpo físico numa sociedade normativa em que o corpo hegemônico é o do homem, e mais, do homem que apresenta sua masculinidade como sinônimo de força, autoridade, agressividade, virilidade, entre outros.

Assim, para compreendermos as experiências artísticas apresentadas por Raquel Virgínia e Assucena Assucena como duas mulheres transexuais no cenário contemporâneo brasileiro, precisamos analisar de perto as relações entre as sujeitas enquanto artistas, mas também enquanto mulheres transexuais, parte de uma pirâmide de poder que tem no topo o homem branco heterossexual masculinizado.

2.2 - INTERSECCIONALIDADE: O CORPO ATRAVESSADO PELO MUNDO. Ao debruçarmos sobre os estudos que elaboram a transexualidade, chama-nos atenção o fato de que não se pode compreender a questão da identidade de gênero se não abordarmos a sua relação subjetiva com a sexualidade, a classe social e as questões sobre raça. O guarda-chuva que cobre todas estas categorias e as analisa a partir de um prisma comum é a Interseccionalidade.

O conceito de Interseccionalidade surge a partir dos estudos de feministas negras norte-americanas das décadas de 1960 e 1970, buscando analisar de que forma as relações de poder estão imbricadas quando se trata de compreender as várias opressões que mulheres negras sofrem nos Estados Unidos.

Ao refletir sobre o papel do conceito de Interseccionalidade na produção de conhecimento acadêmico, Patrícia Hill Collins afirma que este foi um conceito durante muito tempo negligenciado, cristalizando a marginalidade com que estudos de, e sobre, mulheres negras eram vistos no campo intelectual norte-americano. Para ela, tal perspectiva é o que une os polos díspares (na maioria das vezes) onde o conhecimento acadêmico elaborado traz para o centro sujeitos subalternizados pela estrutura social.

A Interseccionalidade conecta dois lados de produção de conhecimento, a saber, a produção intelectual de indivíduos com menos poder, que estão fora do ensino superior, da mídia de instituições similares de produção de conhecimento, e o conhecimento que emana primariamente de instituições cujo propósito é criar saber legitimado. (COLLINS, 2017, p. 07)

Buscando definir o papel da Interseccionalidade nos estudos sobre opressão, Patricia Hill Collins faz uma análise histórica da definição do campo a partir dos movimentos sociais da década de 1960 nos Estados Unidos. Para ela, a Interseccionalidade é parte de um projeto político que abrange a luta por justiça social, não se limitando às fronteiras americanas.

A Interseccionalidade pode ser vista como uma forma de investigação crítica e de práxis, precisamente, porque tem sido forjada por ideias de políticas emancipatórias de fora das instituições sociais poderosas, assim como essas ideias têm sido retomadas por tais instituições. (COLLINS, 2017, p. 07)

Neste texto de 2017 intitulado “Se perdeu na tradução? Feminismo negro, Interseccionalidade e política emancipatória”, Collins chama atenção para as abordagens limitadas ao viés raça e outras concentradas ao viés de classe não se completam senão relacionados. Recuperando a trajetória da Interseccionalidade como base para a reflexão, ela busca mostrar como intelectuais norte-americanas chegaram à conclusão de que as opressões sofridas por mulheres negras não se limitavam ao racismo, mas se relacionavam com outras formas do poder patriarcal e econômico.

Ao se debruçar sobre o documento A Black Feminist Statement, publicado por um grupo de feministas negras da cidade de Boston em 1982, Collins argumenta que ali estavam as bases para se compreender as relações entre todas as opressões sofridas por mulheres negras.

Esse documento inovador argumentava que uma perspectiva que considerasse somente a raça ou outra com somente o gênero avançariam em análises parciais e incompletas da injustiça social que caracteriza a vida de mulheres negras afro-americanas, e que raça, gênero, classe social e sexualidade, todas elas, moldavam a experiência de mulher negra. (COLLINS, 2017, p. 08)

Segundo Collins, a proposição daquelas mulheres era que os sistemas de opressão verificados na sociedade fossem analisados de forma conectada, e não isolados. “Porque racismo, exploração de classe, patriarcado e homofobia, coletivamente, moldavam a experiência de mulher negra, a libertação das mulheres negras exigia uma resposta que abarcasse os múltiplos sistemas de opressão.” (COLLINS, 2017, p. 08)

Em seu livro “Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano”, publicado no Brasil recentemente, Grada Kilomba elabora a questão da Interseccionalidade a partir de sua experiência como mulher negra na Europa. Em diálogo permanente com a obra de Frantz Fannon, Angela Davis, Bell Hooks, Patricia Hill Collins, Gayatri Spivak, além de um debate profundo com a psicanálise, a autora aborda a importância da noção de Interseccionalidade para compreender como as estruturas de poder operam sobre indivíduos oprimidos pelo racismo, pelo machismo, pelas fobias sofridas por pessoas LGBTQIA+, pelos muçulmanos, refugiados, entre outros.

Com interesse em compreender as complexas relações entre raça, classe e gênero agora reunidas na categoria da Interseccionalidade, Grada Kilomba afirma que “as intersecções das formas de opressão não podem ser vistas como uma simples interposição de camadas, mas sim como a produção de efeitos específicos. Formas de opressão não operam em singularidade; elas se entrecruzam.” (KILOMBA, 2019, p. 98). Ao abordar a experiência das mulheres negras, Grada Kilomba faz distinções entre o feminismo e o feminismo negro, uma vez que as formas de opressão sofridas por mulheres negras extrapolam as vivências de mulheres brancas, bem como diferem-se das violências experimentadas por mulheres transexuais, por exemplo. Segundo ela, “o impacto simultâneo da opressão racial e de gênero leva a formas de racismo únicas que constituem experiências de mulheres negras e outras mulheres racializadas”. (KILOMBA, 2019, p. 99).

Portanto, ao buscarmos compreender um pouco essas noções importantes sobre a Interseccionalidade, fica evidente que tal conceito nos parece fundamental na elaboração deste trabalho, haja vista que nossas sujeitas aqui abordadas só podem ser percebidas dentro de uma estrutura social que não se furta a reafirmar tais processos de violência como o machismo, a transfobia, o racismo, entre outros, categorias estas tão enraizadas na tradição ocidental e, sobretudo, no Brasil.

Angela Davis em “A Liberdade é uma luta constate”, publicado no Brasil em 2018, reafirma a importância de se ter uma perspectiva interseccional ao trabalhar com a questão da transexualidade, por exemplo, uma vez que, para ela, mulheres transexuais “têm de batalhar por sua inclusão na categoria “mulher” de um modo que não difere das lutas anteriores das mulheres negras e das mulheres de minorias étnicas que foram designadas com o gênero feminino ao nascer.” (DAVIS, 2018, p. 95).

Em diálogo com uma perspectiva revolucionária, Angela Davis questiona inclusive o conceito de gênero ao afirmar que “quanto mais de perto o examinamos, mais descobrimos que ele está enraizado em um leque de construções sociais, políticas e ideológicas.” (DAVIS, 2018, p. 97)

De muitas maneiras, o processo de tentar se incluir em uma categoria existente contraria os esforços para produzir resultados radicais ou revolucionários. E nos mostra não apenas que não devemos tentar incluir as mulheres trans em uma categoria que se mantém inalterada, mas que a categoria em si precisa mudar para que não simplesmente reproduza ideias normativas sobre quem pode ou não ser considerada mulher. (DAVIS, 2018, p. 97).

Fica evidente, portanto, a impossibilidade de fazermos qualquer reflexão sobre a transexualidade a partir de noções binárias ou mesmo isoladas. A perspectiva interseccional aqui cumpre a função de nos nortear para uma compreensão mais ampla acerca da experiência dessas sujeitas por nós abordadas, buscando mapear e refletir sobre como Assussena e Raquel Virgínia se inserem no contexto brasileiro enquanto pessoas transexuais.

Ao buscarmos compreender como a produção artística da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, faz-se necessário perceber como sua obra dialoga com o senso de representatividade. Neste sentido, podemos abordar suas músicas e suas apresentações como palco para reconhecermos a produção de um discurso que se baseia na perspectiva queer, rompendo com um senso de hegemonia que jamais as incluíra.

Ao se inserirem nos espaços midiáticos, Raquel Virgínia e Assucena Assucena evidenciam um propósito. Mas qual? Michel Foucault, em Arqueologia do Saber, afirma que para compreender os discursos, é necessário ter vista a sua dimensão total:

Trata-se de compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua situação; de determinar as condições de sua existência, de fixar seus limites da forma mais justa, de estabelecer suas correlações com os outros enunciados a que pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação exclui. (FOUCAULT, 2008, p. 67)

Sabendo-se da parte proposital do discurso, cabe-nos buscar compreender até que ponto essa condição limita ou estimula a construção de um discurso que possa possibilitar ser visto e não ser excluído pelo outro. E perceber se esse discurso pode ser de alguma forma educativo para uma consciência ou uma sensibilização de si e do outro, promovendo assim o respeito a formas não convencionais/padrão de existência.

Ao refletirmos sobre a Interseccionalidade, as relações entre raça, classe e gênero, podemos perceber que o diálogo estabelecido na obra de As Bahias e a Cozinha Mineira carrega essas questões na medida em que as mulheres de quem elas tratam no álbum Mulher de 2016 não é a mulher branca de classe média ou alta. As mulheres presentes no disco são as mulheres negras, pobres, lavadeiras de roupa na beira dos córregos, as mulheres transexuais, as nordestinas migrantes, as cozinheiras de marmita.

Da mesma forma a questão da Interseccionalidade importa na medida em que as próprias sujeitas que elaboram a obra são duas mulheres transexuais de ascendência

negra, nordestinas, ligadas de certo modo à cultura das periferias, dos guetos aos quais as pessoas transexuais, sobretudo as mulheres trans foram relegadas ao longo da história.

A questão interseccional também nos é cara ao buscarmos compreender como a