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2. Fundamentação Teórica

2.5 As ações afirmativas e o mito da democracia racial

Apesar do fato de as ações afirmativas já vigorarem nos Estados Unidos desde a década de 1960, quando o movimento pelos direitos civis dos negros e das minorias conquistou várias liberdades individuais e garantias de não discriminação em serviços públicos, no Brasil houve uma dificuldade de estabelecer políticas públicas que combatessem a discriminação nas suas várias modalidades, como a discriminação explícita e a discriminação por impacto desproporcional, a discriminação de fato e na aplicação do direito (que mais adiante definiremos). Essa dificuldade se deveu ao “mito da democracia racial”.

Nos Estados Unidos passou a haver uma atuação do Estado para reprimir a discriminação e para promover ações de reparação, conquistadas através de um movimento cívico extremamente forte que derrubou um arcabouço institucional que segregava os negros de forma similar ao apartheid sulafricano, que vigorou até 1994. No Brasil, o “mito da

democracia racial” subsistiu fortemente, embotando as discussões e reivindicações que procuravam promover a justiça social e integrar na cidadania a maior parte da população. As reivindicações e movimentos esbarravam na intolerância de grande parte da opinião pública, da mídia e da elite econômica, política e social que se negavam ao debate sobre a discriminação, o preconceito e a reparação social, acusando aqueles que reivindicavam a construção da justiça social de semeadores do ódio racial numa “terra livre de problemas dessa natureza”. Essa ideologia dominante revelou-se mais eficiente que a ideologia estadunidense, e seguiu a tradição ibérica que combinou a hierarquização rígida da sociedade com a dissimulação e o escamoteamento das desigualdades. A afirmação de que o Brasil é mestiço, que aqui há uma convivência pacífica entre as “raças”, termo equivocado cientificamente, que a violência de outros países contrastava com uma harmonia a servir de exemplo de boa convivência para outras nações embalavam um discurso hegemônico que congelava uma situação de profunda desigualdade.

O mito da democracia racial afirmava que no Brasil não havia racismo, e que os desníveis sociais que poderiam existir tinham origem exclusivamente em questões sociais. A própria UNESCO financiou estudos em 1953, com pesquisas na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, inspiradas na visão idílica de um Brasil sem os racismos e xenofobias presentes em outras nações, que tiveram o objetivo de pesquisar e divulgar essa experiência bem sucedida de convivência entre as “raças” e inspirar o mundo do pós-guerra a adotar uma postura menos discriminatória e mais “brasileira” (HOFBAUER, 2002).

Mais tarde o professor Thales de Azevedo escreveu estudos com uma visão cada vez mais comprometida com o desmascaramento do mito da democracia racial e identificando formas de discriminação racial e “embranquecimento” da cultura brasileira. Esse “mito”

encontrava eco na intelectualidade nacional, pouco sensível a perceber que os quase quatro séculos de escravidão não foram seguidos por um processo de reparação para os negros e que o Brasil combinava várias formas de desigualdade e exclusão, de natureza econômica, de gênero, regional e étnica.

Ganha destaque nesse mito da democracia racial, a “ideologia do branqueamento”, como bem analisa Andréas Hofbauer (2003) e Giralda Seyferth (2002).

Abdias do Nascimento, hoje professor emérito da Universidade do Estado de Nova York, Doutor Honoris Causa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pela Universidade Federal da Bahia, e um intelectual importante na luta anti-racista durante o século XX no Brasil, por ter participado da Frente Negra na década de trinta e fundado o Teatro Experimental do Negro (TEN), lançou o documento “O Genocídio do Negro Brasileiro”, em 1977 na cidade de Lagos, na África, no 2º Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas, que depois virou livro em 1978 pela editora Paz e Terra. Trata- se de um documento referencial na luta pela igualdade e contra a discriminação no Brasil, além do fato de Abdias do Nascimento estar nesse período exilado fora do Brasil, ministrando aulas nos Estados Unidos, como conseqüência do golpe militar de 1964. Esse regime tentou impedir a leitura desse documento no referido encontro, que se consubstanciava como foro internacional privilegiado para o Pan Africanismo e a diplomacia de países africanos e de fora da África. O exílio de Abdias e a tentativa de censura perpetrada pelo então governo militar brasileiro são uma demonstração da postura autoritária que seguiu a tradição nacional de negar a existência de racismo e da postura de proibir esse debate.

No período de 1964 a 1984, o regime militar ainda divulgava e defendia a imagem do Brasil como um país sem os conflitos étnicos que ocorriam nos Estados Unidos e nas lutas pela libertação da África e da Ásia. No dizer de Elisa Larkin Nascimento, que faz a Introdução da mais recente edição do livro supracitado:

Num mundo em que já foram desmantelados, em grande parte, os sistemas jurídicos de segregação racial como o Jim Crow dos Estados Unidos e o apartheid da África do Sul, prevalecem formas de racismo caracterizadas pela não formalidade, porém firmemente implantadas na estrutura institucional das sociedades. Ao estudar esse fenômeno, as forças mundiais preocupadas com o racismo e os direitos humanos encontram no Brasil um modelo paradigmático desse tipo de racismo informal e institucional, que, disfarçado em harmonia e bondade, passou a ser reconhecido como racismo muito recentemente (NASCIMENTO, 2002)

O racismo brasileiro então é de natureza diferente do estadunidense e sulafricano, mas ainda é racismo, pois institucionalmente a sociedade sempre colocou os negros nas posições sociais mais desfavoráveis, havendo notável coincidência entre negros e pobres, negros e maior percentual de analfabetismo; negros e exclusão da universidade.

No Brasil entre os brancos com mais de 5 anos, 10% têm nível superior ou mais, enquanto apenas 2,5% dos negros tem essa titulação, quatro vezes menos. Em 2001, os negros analfabetos com mais de quinze anos eram 18% do total de negros, e os brancos com mais de quinze anos e analfabetos eram 8% do total desse grupo (SHICASHO apud SILVA, 2003, p. 63). Em 1999, segundo o IPEA, entre os jovens brancos de 15 a 21 anos, 40, 9% não tinham concluído a oitava série do ensino fundamental, enquanto que 66,5% dos negros nessa mesma faixa etária não tinham terminado o oitava série (SILVA, 2003, p. 62).

Foi construída uma estrutura social de coincidência ou aproximação muito grande entre etnia e classe social, acompanhada de uma conferência de prestígio às pessoas com cor

mais clara e com uma fragmentação na forma de classificar as pessoas por cor, solapando e tentando desintegrar a possibilidade de fortalecimento da ancestralidade comum de determinado grupo social, negro ou índio, ou de laços de identidade que podem contribuir para o fortalecimento da auto-estima e da luta pela superação das desigualdades social a partir de movimentos coletivos. Foi criado todo um continuum de cores raciais que é uma hierarquia de prestígio social e de modelo de beleza no Brasil e na América Latina.

Isso ocorre paralelamente ao mito da democracia racial, que cumpre a função social de esconder as disparidades sócio-étnicas e afirmar que não há discriminação nesses países. Ainda em 1977, Abdias do Nascimento, coloca ou confronta o termo afrodescendente em substituição à palavra “negro”, ou preto, pois pretendia dessa maneira deixar de trabalhar com aspectos fenotípicos e enfatizar aspectos da ancestralidade cultural de um grupo ou grupos sociais. Ainda no texto de Elisa Larkin dos Nascimento (2002, p. 13), que faz a apresentação dos textos de Abdias do Nascimento:

Outro fato que a leitura dessas obras aponta é a antecipação por esse autor de um conceito que apenas nos últimos tempos começou a ser amplamente utilizado no Brasil e no mundo: a referência aos povos de origem africana como “afrodescendentes”. Sempre alerta para superar a identificação pela cor da pele, já que a negritude se revela uma referência muito mais profunda que envolve ancestralidade e civilização (NASCIMENTO, 1961, 1966, 1968), Abdias se refere freqüentemente nestes livros aos “descendentes de africanos”. Esta frase expressa o repúdio à fragmentação da população de origem africana de acordo com os critérios de cor determinantes da hierarquia social “latina” – a chamada pigmentocracia, que outorga maior prestígio social às peles gradativamente mais claras e aos traços físicos mais próximos ao branco europeu.

Ao mito da democracia racial foi contraposto o esforço pela valorização da ancestralidade africana, pela valorização da beleza negra, dos valores negros, como forma de aumentar a auto-estima do referido grupo social e permitir a criação de uma mística do movimento social que reivindica novos espaços sociais, na mídia, na universidade, no mercado de trabalho. As cotas nas universidades são parte dessa estratégia mais ampla de

afirmação da identidade, do sentimento de pertença, da busca da diferença como valor fundante da alteridade e da diversidade na sociedade, em contraposição ao monismo cultural e à imposição de um único modelo estético, político, cultural.

As cotas passam a ser importantes não apenas para democratizar o acesso à universidade, mas para criar uma classe média e uma elite econômica negra que irá criar uma imagem e referências positivas para os negros como um todo. Esses negros participarão do núcleo de decisões das políticas públicas e das empresas que passarão a levar em conta as especificidades do grupo afrodescendente. Simultaneamente, a discussão sobre as cotas provoca embates, permeia o espaço público midiático e não midiático com o debate sobre o mito da democracia racial e a necessidade do debate sobre discriminação e valorização do diferente.