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As alianças entre posseiros e comerciantes

No documento JOÃO IVO PUHL (páginas 162-172)

As relações dos posseiros com os comerciantes foram semelhantes, em vários aspectos, àquelas com os madeireiros. O surgimento e consolidação do comércio atacadista e varejista ocorreram concomitante ao surgimento da cidade de Pontes e Lacerda, criada como vila em torno do Posto Telegráfico construído pela Comissão Rondon286 na primeira década do século XX. Situada nas proximidades da ponte sobre o Rio Guaporé na saída para Vila Bela, transformou-se ao longo do tempo em local de passagem e de hospedagem de autoridades, viajantes diversos e comerciantes que percorriam o Vale do Guaporé vendendo seus produtos ou comprando produtos do extrativismo vegetal e animal das florestas locais ou tentavam a sorte em alguma área de garimpo.

Foto 11: O comércio se constituiu muitas vezes em aliado dos posseiros – Fonte: Zezo Tratava-se de um comércio precário de trocas raras e desiguais de produtos ou matérias primas naturais por produtos artesanais ou industrializados vindos de fora da região. Na primeira metade do século XX, esta situação não se alterou significativamente na vila de Pontes e Lacerda, onde hoje se situa a vila Guaporé.

286 Comissão Rondon, 1907-1914.

O comércio de terras, nas décadas de 1950 a 70, produziu uma nova dinâmica demográfica, econômica e política transformando este território indígena e de afro-descendentes (Bandeira: 1988) em espaço de expansão da “frente demográfica” e da “frente pioneira”, na nova fronteira amazônica (Martins: 1997), noroeste de Mato Grosso e Territórios federais de Rondônia e Acre. O estabelecimento de populações compostas por trabalhadores em busca de emprego e terras, mas também de empresas agropecuárias (Caban: 1999) transformou rapidamente a Vila de Pontes e Lacerda num mercado consumidor de produtos industriais e de insumos para a produção agropecuária e ao mesmo tempo tornou-se centro comercial de produtos agrícolas.

O comércio de cereais somente se constituiu localmente com o desenvolvimento da agricultura nas primeiras glebas ocupadas e depois regularizadas, como: Scatolin, S. João do Córrego da Onça, São Domingos, Cerro Azul, Cágados, Coronel Ari, 1.500 Alqueires, Santa Maria ou Bananal, Funai-Sararé, Nova Conquista D’Oeste, Nova Lacerda (Vide Mapa 06) e inúmeras outras de um relatório do INCRA287.

O estabelecimento de uma categoria de pequenos produtores, em suas posses ou propriedades regularizadas e tituladas, dinamizou o mercado local e regional de produtos agrícolas, nos anos finais da década de 70 e durante os 80. Esta produção não era toda consumida pelo mercado local, propiciando excedentes para serem enviados aos mercados regional e nacional288. A colocação desta produção no mercado nacional foi propiciada pelos comerciantes conhecidos como “cerealistas”, que se estabeleceram tanto na cidade de Pontes e Lacerda, como nas próprias glebas ocupadas pelos posseiros e regularizadas pelo INCRA. Inicialmente, havia somente o comércio varejista estabelecido na cidade. Fornecia produtos industriais, alimentos, ferramentas, equipamentos, insumos agrícolas, roupas, calçados e tudo que era necessário para a instalação dos sitiantes289 ou das grandes

287 Por solicitação da equipe da FASE/MT, o executor do INCRA da Unidade Fundiária do Guaporé sediada em Vila Bela forneceu, em abril de 1991, uma lista em que constam 46 áreas de posseiros já regularizadas ou em processo de regularização das terras. A lista trata só das áreas onde os ocupantes foram vencedores, mas tanto as fontes orais como as escritas indicam que em muito mais áreas eles foram vencidos pelos latifundiários. Aponta também para a intensidade do processo de disputa pela terra no Vale do Guaporé, desde fins da década de 1.960 até os dias atuais.

288 IBGE, censos agropecuários de 1975 e 85, indicam a produção de excedentes agrícolas no Vale do Guaporé comercializados nos mercados regional, estadual e nacional.

289 Cf. Dicionário Houaiss: 2001, sitiante é o proprietário ou morador de sítio, quinta ou roça. Sítio, entre outras coisas, é um estabelecimento agrícola de pequena lavoura, fazendola, quinta, chácara ou moradia rural nas redondezas de uma cidade. No Vale do Guaporé, considera-se sítio a qualquer pequeno lote rural cultivado e ocupado por uma família de posseiros ou de agricultores familiares pequenos proprietários.

empresas agropecuárias, para produzirem. O mercado local ou interno da região do Vale do Guaporé se consolidou basicamente com o surgimento das novas áreas de posses, pois os posseiros não tinham condições de trazer tudo que tinham necessidade de mercados distantes como ocorria com muitas empresas agropecuárias que traziam até a mão de obra dos locais sedes das matrizes ou dos proprietários.

Em São Domingos, os posseiros que se instalaram nos lotes, ainda no tempo do conflito com os fazendeiros, já produziam excedentes para o mercado. Porém, foi depois da desapropriação da área pelo INCRA que a produção de excedentes ganhou importância na estratégia de sobrevivência e de reprodução dos ocupantes que ali se estabeleceram e permaneceram, pelo menos nos primeiros anos. Analisemos o depoimento:

Primeiro veio o arroz, milho e feijão. Logo em seguida plantaram banana, mas isso aí já em oitenta e cinco, oitenta e seis ficou cheio de banana. Em oitenta e sete aqui saíam caminhões carregados de banana toda semana. Arroz era barato, e tinha bastante, porque aqui produzia muito arroz, vaca e banana e só depois veio o algodão. O povo desde o começo não plantava só pra comer, mas para vender cargas fechadas para onde tinha comércio. De oitenta e três pra cá tinha produção, quando o ‘trem” cessou, ou seja, desde que terminaram os conflitos290.

A primeira preocupação dos posseiros era a produção para subsistência da família, mas não se restringia a ela. A existência da produção voltada para o mercado tornou a relação com os produtores atraente e lucrativa para os comerciantes. Este setor sócio-econômico, fornecedor somente de insumos e produtos industrializados, tornou-se um aliado indispensável dos ocupantes das terras de São Domingos, como compradores dos produtos agrícolas. Os “cerealistas” depois também se tornaram importantes para os parceleiros se consolidarem na terra, produzindo mais para o mercado: milho, arroz, feijão, café, milho-pipoca, banana e outras culturas, como algodão e o leite mais tarde. O depoimento anterior indica que a produção agrícola dos posseiros, tinha como horizonte a comercialização no mercado para transformá- la em dinheiro que se utilizaria para comprar outras mercadorias. Outro depoente mostra que os comerciantes foram associados dos posseiros de formas diversas no processo da ocupação e entre eles havia os que tinham interesse na terra em troca de apoio:

290 Entrevista com Genésio de Oliveira, em agosto de 2001.

Sabe, na época aqui de São Domingos (...) muitos dos que mais apoiaram os posseiros aqui, foi o pessoal do comércio. Eles faziam reuniões entre eles. O interesse deles, você sabe que era adquirir a terra. Eles não iam lá, mas falavam e juntavam o pessoal.

Isto quer dizer que eles tinham acordos com aqueles que eram as lideranças e prometiam: - nós damos o alimento para vocês, mas segurem um lote291.

O relato lembra que nem sempre o interesse dos comerciantes era apenas o fortalecimento do seu negócio/comércio, visto que também queriam terra. Assim, nem sempre financiavam os trabalhadores mais necessitados, como aparece em alguns relatos.

Dirigiam seus recursos mais àqueles que estivessem em condições de pagar o emp réstimo em dinheiro, mas preferiam a reserva de um lote. O fornecimento de mercadorias para posseiros com retorno garantido seria aquele dado às lideranças da ocupação, porque teriam condições de reservar um lote como pagamento, se houvesse vitória na disputa contra o proprietário. Esta, ao que parece pelo relato do Joãozinho, seria a situação aceita pelas principais lideranças de São Domingos. Receberiam alimentos para se manter longos períodos na área em conflito. Joãozinho afirmou e ressaltamos de seu relato o que parece ter sido bastante comum que os comerciantes tinham acordos com aqueles que eram as lideranças, porque forneciam mantimentos e mercadorias diversas em troca de terra.

As relações entre posseiros e comerciantes, em geral, foram avaliadas como positivas, apesar de que cerealistas, muitas vezes, aparecem nos relatos como marreteiros292. Enquadravam-se nesta categoria: cerealistas, bananeiros, algodoeiros, leiteiros, donos de máquinas de beneficiar arroz, vendedores de insumos (sementes, venenos, sacaria ou embalagens), de equipamentos (bombas, plantadeiras, grades), de máquinas, de veículos automotores ou outros tipos de mediações, todas representadas como formas de enganação ou/e de exploração dos produtores agrícolas.

Nos relatos, quando se referem à aliança dos posseiros com os comerciantes, entendemos que se tratava mais dos varejistas de secos e molhados, que forneciam alimentos e outros produtos industriais necessários durante o período do conflito, nem tanto interessados em serem pagos com a produção agropecuária, mas de terem terra na nova

291 Entrevista com João Vieira, em julho de 2000.

292 Trata-se de comerciante comprador ou vendedor de qualquer produto. Parece que se relaciona com a idéia de trapaça ou picaretagem, que o dicionário da língua portuguesa lhe atribui. Na intermediação que este tipo de comerciante faria entre o produtor e o mercado consumidor, se encontraria a trapaça, a exploração.

gleba que se constituía. As estratégias e táticas destes comerciantes para alcançarem este objetivo, seu principal interesse, foram várias. Vejamos como alguns dos relatos de posseiros apontaram esta relação complexa entre os comerciantes e os posseiros:

Os comerciantes davam crédito para algumas pessoas. Um dava para um e outro dava pra outra pessoa e assim, salvavam seu lote. Se não salvassem, paciência, mas davam uma mão porque havia muitos posseiros que não chegariam até a posse se não tivessem isso. Não agüentavam, porque existiam pessoas que não tinham uma foice e nem um chinelo pra calçar. Estas também não tinham nada para comer, mas então, todo mundo trabalhava de forma unida. O caboclo entrava, uns lhe davam recompensa, mas outros já não davam. ( ...) Se não fossem unidos não tinham condições de irem pro mato a qualquer hora. Aquele que tinha um boteco dizia: - leva essa pinga, depois você me paga. O cara dizia: – não, eu deixo um lote. Ele só confirmava: – se você conseguir tirar um e me der, com isso você me paga. O posseiro dizia: – mas se eu perder?

Respondia: – se perder, não tem problema, a gente caça outro pra você e aquele ali é meu. Se quiser levar a pinga, pode levar, ainda arrumo uns cartuchos e pólvora se você quiser. Se não fosse esta união, não ia não. Havia gente que não tinha nada, só a cara dura. Então, este pessoal dava dinheiro pra comprarem fumo, pinga, foice, machado pra todo mundo, mas não dava a motoserra, que era mais pesada293.

Chamamos atenção para três aspectos desta relação complexa entre posseiros e comerciantes. Primeiro, aponta-se para a necessidade dos ocupantes que, muitas vezes, nem tinham condições para fazerem a posse e iniciarem as atividades produtivas. Faltava m os recursos básicos para chegarem na área e permanecerem alguns dias no lote, indispensáveis para demarcá- lo e assegurar-se como posseiros. Ao se fazerem posseiros, faltavam: o transporte até a área; os chinelos ou botinas importantes para enfrentar longas caminhadas pelas picadas na mata; as roupas adequadas para agüentar as agruras da floresta; os alimentos e aguardente para ficar dias e dias fora de casa; as ferramentas de trabalho; as armas e munição para a caça de animais, a defesa pessoal e os enfrentamentos. Os comerciantes financiavam tudo, menos máquinas ou equipamentos mais caros. Segundo, o relato mostra a complexidade desta aliança como se fosse uma conjugação de interesses, necessária tanto para a sobrevivência das pessoas ocupantes como para o sucesso da luta dos posseiros, apresentada nas expressões se não fosse a união, não ia ou se não fossem

293 Entrevista com Lourenço Nunes da Cruz, em agosto de 2001.

unidos, não tinham condições. Identifica-se o concurso de interesses, na troca de favores momentâneos entre pessoas de grupos em diferentes condições de vida, com a união ou a solidariedade num grupo. Terceiro, o relato ainda aponta para o espaço de poder que os comerciantes exerciam na relação de troca, muitas vezes, desigual e desproporcional. A necessidade dos posseiros os condicionava a estabelecer estas relações, como também demonstra o relato do Joãozinho:

Muitas vezes, como eu disse antes, havia pessoas que vendiam a terra porque não agüentavam ficar no lote até produzir. Acontecia que muitos não agüentavam uma semana de trabalho na posse, porque não tinham como se alimentar neste tempo, pois levariam o que para comer? [Os comerciantes] aproveitavam esta fraqueza dos pequenos posseiros utilizando a tática de sustentá-los com alimentação, arrumando caminhão para deixá-los lá na gleba, já que em São Domingos ainda não tinha estradas294.

Faltando- lhe tudo, apenas duas alternativas se apresentavam a estes trabalhadores para enfrentarem as necessidades: recorrer à solidariedade dos companheiros que tinham melhores condições econômicas ou buscar recursos junto aos madeireiros ou convencer algum comerciante a lhe vender a prazo ou em troca de um lote de terras. Nos depoimentos de posseiros, comerciantes apareceram como parceiros, amigos e aliados. Entre os comerciantes a justificativa para esta relação de parceria, quase sempre, relaciona-se ao interesse pelo desenvolvimento e o progresso: quanto mais gente tiver morando e produzindo, melhor será a cidade e mais pessoas terão dinheiro e se beneficiarão ou são os pequenos que compram no comércio local da cidade já que os grandes trazem tudo de fora.

Os próprios trabalhadores beneficiados por esta “ajuda dos comerciantes” avaliaram-na como indispensável em muitos casos, o que não quer dizer que não percebiam os interesses e os aspectos lesivos que a relação impunha. Ela constituía e definia um novo campo de confrontos e de exercício de poder, que teve um custo elevado e sacrifícios dos que só tinham a cara dura, isto é, só dispunham de sua força de trabalho.

Essa ajuda teve um custo que, muitas vezes, significava a perda do lote pelo próprio trabalhador financiado, porque só conseguia assegurá- lo para o comerciante, como forma

294 Entrevista com João Vieira, em julho de 2000.

de pagamento do crédito recebido. O posseiro tornava-se dependente e sujeito à pressão do comerciante que adquiria a terra com o trabalho de outro, como relata Lourenço Nunes:

Houve casos em que os comerciantes ou os madeireiros usavam trabalhadores pobres para fazerem uma posse para eles. Aconteceram muitos casos em que posseiros tomaram conta de lote e por traz recebiam um tanto de dinheiro por um pedaço de terra. Teve muitos casos que diziam: - limpa ali e cuida lá, que para você eu pago tranqüilo. O cara dizia: apóia!? Se ganharmos você tem um pedaço295.

Este tipo de relação era comum, mas nela o trabalhador se tornava mais peão assalariado ou “testa de ferro” do que posseiro. Vendia o seu trabalho na posse para o comerciante ou madeireiro, em troca do fornecimento de alimentos e outros produtos, vivendo um processo de exploração de trabalho, porque só conseguia o suficiente para comer. Tornava-se um peão do “grilo”. Às vezes, o trabalhador também conseguia defender seu lote e o do fornecedor, como aponta o seguinte relato:

Os comerciantes daqui foram os que mais apoiaram os posseiros. Eles davam alimentação e transporte até lá. Sempre naquela proposta: vai que eu te dou tanto.

Sabe, tinha quem falava pra mim: - Joãozinho, você vai lá, eu te dou todos os teus custos que precisa na sua posse, só que eu quero que também reserve um sitinho pra mim296.

O depoente indica que neste período se criou, no Vale do Guaporé, um mercado de financiadores de ocupações, que tratavam isso como um investimento de risco relativo.

Também profissionais liberais ou outros donos de capital que dispunham de recursos, poderiam fornecer ocupantes para que lhes reservassem um ou mais lotes, sem se envolver diretamente na ocupação e no conflito, entravam somente após a liberação da área.

Caracteriza-se uma realidade de patrocinadores de “invasões” ou de ocupações, o que complexifica a questão da luta pela terra, criando um mercado de risco onde confluíam interesses e recursos de pessoas, empresas ou grupos sociais diferentes. O risco de perder a terra por insucesso, no enfrentamento, sempre era uma possibilidade. O fornecimento era um investimento de risco, porque poderia ser recuperado ou perdido. Somente quem tivesse

295 Entrevista com Lourenço Nunes da Cruz, em agosto de 2001.

296 Entrevista com João Vieira, em julho de 2000.

algum capital e quisesse apostar no investimento futuro fazia este tipo de negócio, que se tornou muito lucrativo com o tempo.

O posseiro Manoel do Prado relatou, que o Zé Alves era um comerciante em Quatro Marcos, que tinha um grilo lá, isto é, em São Domingos. O Joãozinho lembrava também, referindo-se ao caso de São Domingos, que em Lacerda havia vários comerciantes que, durante e depois do conflito financiaram os posseiros, afirmando que:

O comerciante Laerte Japonês, dono do Empório São Paulo em Pontes e Lacerda, apoiava os posseiros mais na alimentação, mas ele não pegou terra em São Domingos.

Conversando com ele no Empório S. Paulo, um dia me disse: - ajudava porque conhecia muitas pessoas que precisavam da terra. Ele disse que ajudou sem interesse em nada, nem na terra. Também, havia outros que ajudavam. Soube que aqui tinha um camarada, dono do armazém S. Paulo antigamente, o Silas que ajudava, mas também o Jonas Rangel, o Dinor da Máquina... Tinha tantas pessoas que, às vezes, até passam perto da mente, mas já não lembramos muitas coisas297.

Joãozinho indica que havia vários comerciantes que, de uma ou outra forma, emprestavam seu auxílio financeiro ou em produtos aos posseiros necessitados. Havia comerciantes que apostavam no desenvolvimento econômico do lugar, o que também os favoreceria. Viam na formação de novas glebas de pequenos produtores no município um dos caminhos mais rápidos e eficientes desta estratégia. Por isso apoiavam os posseiros, sem interesse na terra, mas como um investimento futuro que retornaria em forma de comércio mais variado e dinâmico, como indica o relato:

Outros também apoiavam os posseiros, por ser do interesse dos madeireiros e dos comerciantes. O interesse de alguns deles ao apoiar os posseiros também era a expansão e o crescimento da cidade. Havia comerciantes que financiavam invasões, com este interesse. Esperavam que, com este crescimento, se gerariam mais empregos e investimentos financeiros de comerciantes da região, na cidade298.

Esta não seria a posição política da maioria dos comerciantes que apoiavam as ocupações, mas pode ser considerada como uma estratégia que incrementaria os seus negócios. Mesmo considerando o aspecto da visão de futuro e a solidariedade no presente, a

297 Entrevista com João Vieira, em julho de 2000.

298 Entrevista com Renato do INCRA, em julho de 2000.

maioria estava interessada na terra. O apoio aos ocupantes era o caminho mais fácil e barato de ter acesso a ela, sem riscos adicionais além dos financeiros, como mostra o depoente:

Tinha muitos, quase todos os posseiros, que tinham necessidade de apoio. Queriam ir pro mato e não tinham dinheiro, como é que fariam? Precisavam ir pro mato fazer a posse. O comerciante ou quem tivesse dinheiro dizia: - eu arrumo, ajudo você comer, mas depois nós repartimos entre nós. No fim ele ficava com um lote e o outro também. Se não houvesse união, não ia porque você não tinha condição e apoio. Não tinha uma lima, não tinha o que comer299.

A necessidade dos trabalhadores e o desejo dos comerciantes “ajudarem”, investindo em terra ou negócios com futuros lucros, reforçava a união entre duas categorias sociais que, muitas vezes, mantiveram relações conflituosas. As relações harmônicas dos momentos de ocupações poderiam transformar-se rapidamente em situações com confrontos de interesses entre categorias, depois de liberadas as terras.

As formas de relacionamento entre posseiros e comerciantes eram muito diversificadas. Em geral, era o pequeno comerciante quem mais atendia às necessidades daqueles trabalhadores que nem sempre tinham dinheiro para realizarem as compras à vista.

O dinheiro era difícil e escasso, pois poucas fontes o geravam e nos primeiros anos viria da madeira, do trabalho de diarista, só depois proviria da venda da produção. Este aspecto foi acentuado no relato do Genésio Oliveira:

Só comprava a dinheiro, porque lá [Pontes e Lacerda] não tinha muito comércio.

Naquela época lá só tinha o Pague-Pouco, um mercadinho onde eu comprava. Um padrinho meu mudou-se de Figueirópolis pra lá [Pontes e Lacerda] e me deu um pequeno crédito para comprar por mês. Comprava e no final do mês pagava, porque já colhia arroz, feijão, uma coisa e outra. Trabalhávamos por dia, ora pra um e pra outro, assim entrava um dinheirinho e com ele pagava. Nunca tive comerciante pra me sustentar. Fazia as compras em Lacerda e era difícil voltar caminhando com a tralheira nas costas300.

Além da escassez de dinheiro para as compras, o comércio em Pontes e Lacerda parece que ainda era fraco no início da década de 1980. Havia poucas opções para as

299 Entrevista com Lourenço Nunes da Cruz, em agosto de 2001.

300 Entrevista com Genésio de Oliveira, em agosto de 2001.

No documento JOÃO IVO PUHL (páginas 162-172)