direitos sobre a terra em disputa. Percebemos que os posseiros, seus defensores, aliados e funcionários do INCRA, tenderam a elevar o número de ocupantes, para darem mais peso social e político às suas argumentações e pretensões e os advogados dos fazendeiros tendiam a diminuí- los, para facilitarem as desqualificações e avaliações depreciativas da presença e atuação dos chamados invasores, nas áreas em conflito.
Considerando as versões diferenciadas e mesmo as diversas fontes, podemos afirmar que a ocupação de São Domingos foi lenta e gradual, começando em 1979 e continuando até maio de 1983, quando a gleba foi desapropriada por decreto presidencial108.A ocupação seguiu aceleradamente após a liberação da área, intensificando-se o processo de revenda de lotes por pessoas que entraram no tempo do confronto a pessoas que dispunham de algum dinheiro para comprarem as áreas já valorizadas pela conclusão do conflito.
acordo tácito de distribuição do poder entre as lideranças mais influentes na gleba, a quem se recorria ao chegar e durante os confrontos.
O Joãozinho relatou com mais detalhes o número de lideranças intermediárias que influenciavam áreas espaciais reduzidas, desde a localização de um pequeno grupo de ocupantes até na formação de uma comunidade bastante numerosa. Relacionou o exercício de liderança com a coragem do sujeito em caçar uma terra para ocupar e depois por se tornar facilmente um comerciador de terras interessado no dinheiro e secundariamente no assentamento de mais sem terras.
Na sua relação de lideranças da gleba São Domingos são figuras centrais, o trio:
João Bispo, Baiano do Rato e Chapéu de Couro, todos já mortos ou desaparecidos, acrescida de lideranças de “segundo escalão” como o Roberto que ainda estaria vivo na gleba, o Mané Caboclo que atuou na formação da Vila de S. Domingos e que ainda reside por lá, o Valdemar Pires continuaria no Guaporé, o Valdemar Baião que atuou em várias glebas e foi considerado um grande exemplo de comerciador de terras, recentemente assassinado num grilo em Nova Lacerda, morto a machado por seu próprio peão e o Baianinho que estaria no grilo da Baía Funda em Vila Bela.
Outros depoentes citaram ainda como lideranças os nomes do Mitio Kaku, Joelzinho, Denizão, Deusdete Azambuja, Zé Mineiro110, os dirigentes sindicais como Otávio Fernando Cunha (Figueirópolis/Jauru), Valdevino (Quatro Marcos) e Mané do Sindicato (Pontes e Lacerda)111. Todas seriam pessoas que tiveram alguma atuação na gleba São Domingos no tempo da ocupação. De acordo com os relatos, a origem da maioria dos homens que ocupavam e exerciam liderança entre os posseiros no Vale do Guaporé era proveniente da região Nordeste e entre os quais os baianos se destacavam. Parece que a experiência histórica de uma relação de posse da terra no Nordeste influenciou estas práticas em Mato Grosso. Foram raras as lideranças reconhecidas que na trajetória de vida não tivessem esta experiência.
A presença de dirigentes sindicais mobilizando “sem terras”, localizando-os dentro da gleba, articulando com outros atores sociais os apoios e defesas necessárias aos posseiros, parece um indicativo de que as ocupações de terras no Vale do Guaporé, em
110 Conforme entrevistas com Genésio Oliveira, Manoel Messias, Vaquinha e Ságuio Moreira.
111 A atuação dos sindicalistas será mais detalhada no capítulo III, ao tratarmos das Alianças.
especial, se transformaram numa forma de luta mais sistematizada e articulada desde o início da década de 1980, com os aprendizados acumulados a partir das práticas mais esparsas da década de 1970.
O Tonho Toca não mencionou com tanta ênfase a influência da tríade de lideranças tão ressaltada pelos depoimentos do Joãozinho e de tantos outros que se referenciam na memória coletiva. Parece-nos que ele, exercendo liderança na localidade do Guaporé, junto com o pai e o Zé da Verdura, sentia menos a influência direta daqueles que atuavam mais nas comunidades de Máquina Queimada e Pé de Galinha que são mais próximas da Vila de S. Domingos112.
Constatamos que, no exercício da liderança regionalizada na gleba, cada líder de grupo que se constituía no processo de ocupação assumia as incumbências de coordenar a localização dos trabalhadores recém chegados, evitar conflitos internos e promover medidas de segurança contra ataques externos, no seu território.
Podemos entender outro aspecto da espacialização e do exercício regional da liderança na ocupação pelo depoimento de outro posseiro que entrou na área em maio de 1980. Está mais próximo do relato do Joãozinho que do Tonho Toca, mas afirma que o controle da terra fundamentava o poder de barganha de algumas destas lideranças.
Eles, o João Bispo, o Baiano do Rato e o Chapéu de Couro, que eram aqueles posseiros mais da linha de frente, haviam tirado uma gleba nesta área(...) uma média de mil, mil e poucos alqueires cada(...) para depois colocarem as pessoas dando ou, às vezes, vendendo a troco de serviço, como era o meu caso e do Sebastião, meu irmão e do meu cunhado Antônio Morão. Viemos e o João Bispo convidou a gente para ver a área.
Andamos a pé no mato mais de vinte e tantos quilômetros. O caminho era penoso.
Chegamos lá e gostamos muito da área. Paramos no barraquinho dele por dois dias.
Olhamos a área. Ele me cedeu 42 alqueires a troco de uns 15 sacos de arroz e 7 dias de serviço. Eu e meu irmão tivemos que dar serviço para ele, para terminar de tirar umas picadas. Fechamos negócio e voltamos para Mirassol D’Oeste. No mês de julho, nós viemos já para roçar e entramos com meus irmãos e cunhados. Logo o João Bispo também cedeu um pedaço de terra aos meus cunhados.113
112 São nomes de comunidades que se formaram durante a ocupação da gleba São Domingos.
113Entrevista com Manoel do Prado, em novembro de 2002.
João Bispo e o Baiano do Rato, ao que parece, repartiam uma liderança mais geral sobre os ocupantes da gleba e exerciam poderes localizados onde depois se formou a Vila Máquina Queimada, as comunidades Santa Luzia, a linha dos Paranaenses e o Pé de Galinha. Para isso, utilizando-se do argumento de antiguidade de estadia na área, o serviço de abertura dos picadões e picadas, principais travessões e sua reserva de terra demarcada, que era empregada como valor na barganha de serviços, produtos e dinheiro, nas relações com os que chegavam para fazer uma posse.
O controle da terra era um instrumento de poder em suas mãos. Exploravam- no com muita habilidade, custeando com o dinheiro da venda, produtos e serviços prestados, as despesas com o preparo da área para facilitar e agilizar sua ocupação mais ordenadamente.
Seria a cobrança de um tipo de serviços imobiliários pelo loteamento da gleba ocupada, já que o poder público ou a iniciativa privada não o fizeram? A concessão de terra àqueles que chegavam, pelas lideranças, dependia muito do seu imediato interesse em efetivar a posse.
Ocorreram conflitos porque uma mesma área foi concedida ou vendida duas ou mais vezes à pessoas diferentes, porque os primeiros compradores demoraram para ocupá- la ou não davam assistência, no dizer do Tonho Toca.
Na seqüência, o relato do Manoel Prado indica algumas das práticas das complexas relações dos posseiros com as lideranças do grilo, uma vez que nem sempre se conheciam antes e a consolidação da posse pela sua ocupação efetiva era um caminho para a conquista da confiança mútua.
A partir daí começamos a ter uma ligação maior com o pessoal. Começamos a entender o que estava se passando, porque viemos, tipo laranja, sem saber direito, achando que era o INCRA que estava cortando a área, tudo beleza. Quando já estávamos dentro é que começamos a sentir que o negócio era barra pesada. Aos poucos pelas conversas e reuniãozinhas fomos sondando a eles, que também foram sondando a gente. Tinha uma relação mútua de desconfiança muito grande entre nós e eles (...) porque não éramos desse meio. Conforme o tempo foi passando, quando viram que a gente era da terra e o nosso ideal era realmente ter a terra, eles foram se abrindo mais conosco. Eu tinha mais relação com o João Bispo e o Baiano do Rato. Toda vez que eles vinham da cidade pra
cá já tinha contato com eles. Os dois estavam no mato, mas tinham contato com a família deles que morava na cidade. Pousavam na casa deles lá em Pontes e Lacerda114. A posse efetiva exigia maior atuação no lote pretendido e significava mais tempo de permanência na gleba em conflito. A participação nas reuniões servia para sondar os interesses mútuos. O trabalho de derrubada, o plantio de lavouras, a construção dos barracos nos lotes e os contatos mais diretos e constantes com as lideranças mais próximas eram algumas das práticas indicadoras dos bons propósitos e intenções do novo posseiro que o tornavam merecedor da confiança e do apoio dos companheiros.
O relato do Manoel do Prado mostra que as lideranças eram precavidas para aceitarem pessoas desconhecidas em seu meio, pois havia uma mútua relação de desconfiança. A confiança resultava de um conjunto de práticas reveladoras dos interesses do novo ocupante nas suas relações com outros posseiros e lideranças. Assim, os posseiros confiavam cada vez mais nas lideranças na medida em que estas demonstrassem a eficácia de seus serviços para o sucesso da luta. As lideranças também confiavam mais, pois eles foram se abrindo mais conosco, na medida que o posseiro demonstrava seu interesse concreto pela terra e respeitava as normas da ocupação executando bem as tarefas que lhe eram confiadas e viram que a gente era da terra.
A atuação regionalizada ou espacial das lideranças na ocupação parece-nos um aspecto fundamental para entendermos a formação das localidades, depois denominadas de comunidades rurais, em São Domingos. Este aspecto do exercício do poder, por um lado, foi fortemente acentuado pelo relato do Joãozinho e, por outro, muito pouco lembrado pelo Tonho Toca. Novamente esta percepção diferenciada pode estar ligada à trajetória de vida posterior ao tempo da ocupação em que o Tonho não deixou de exercer sua liderança local no Guaporé, mas o Joãozinho ampliou a sua para todo o município e região do Vale do Guaporé como militante do Movimento de União dos Lavradores.
Muitas das localidades lembradas pelo Joãozinho surgiram durante o processo de ocupação por influência das lideranças citadas. Outras se constituíram a partir da sua localização estratégica no espaço da gleba em disputa115. Algumas localidades exerceram função de aglutinação sócio-política sendo locais de reuniões dos ocupantes para fazerem
114 Entrevista com Manoel do Prado, em novembro de 2002.
115 Entrevista com João Vieira, julho em de 2000 detalhou dados de cada comunidade da gleba São Domingos.
planejamento de ações e traçarem estratégias de luta. Este foi o caso da Máquina Queimada, São Domingos, Pé de Galinha e Barretos. Outras ainda, se tornaram marcantes para a segurança dos posseiros, pois estavam no cruzamento de picadas nos vários pés-de-galinha da gleba. A proximidade de água, favorecendo as paradas para lanches, beber água e pinga ou para um breve descanso da caminhada, foi o caso de outros locais como os córregos Farofa, Sardinha e São Domingos. Ao que parece todos os nomes de locais lembrados por uma ou outra razão poderiam ser identificados como o que Moraes Ferreira (1997) denomina como lugares da memória, pelo fato de estarem carregados da significativa experiência social, que os relatos reconstroem.
Os depoimentos orais colhidos na pesquisa de campo indicam que havia várias formas de mobilização de pessoas nos processos de ocupação envolvendo muitas instituições, pessoas e interesses. No caso de São Domingos, exerceram certa influência os dirigentes dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais de Pontes e Lacerda, Jauru/Figueirópolis, S. José dos Quatro Marcos e Mirassol D’Oeste116; membros da Assembléia de Deus117 que se articularam e participaram de ocupações; seguidores da Igreja Católica ocuparam e o Padre Luiz Tanguy denunciou a violência policial, paramilitar e de pistoleiros contra posseiros118; pessoas se articularam pela procedência comum como os vindos de Mato Grosso do Sul, Bahia, Paraná, etc119 onde já eram conhecidos; outros foram atraídos individualmente pelo convite de posseiros amigos que já estavam na área120; alguns foram motivados por militantes do MDB121 que exercia forte influência na direção da FETAGRI - Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Mato Grosso e nos sindicatos do sudoeste, através do deputado Paulo Nogueira e de outros membros dos diretórios municipais e estaduais.
Também, haviam os comerciantes que forneciam alimentação, ferramentas e sementes a ocupantes, seus “testas de ferro”, em troca de um lote122. Outros ocupavam interessados em desfazer-se do lote na primeira oportunidade vendendo-o para quem
116 Os depoimentos do Mané Prado (2002), Genésio (2001) e o Mané do Sindicato (2001).
117 Os relatos do Tonho Toca (2000) e Genésio (2001).
118 Cartas manuscritas do padre Luiz Maria Tanguy entre 1982-86 publicadas em jornais de Cuiabá.
119 Parece o caso da Linha dos Paranaenses; dos 40 Baianos; e de vários agrupamentos nas glebas.
120 São inúmeros casos como o do Joãozinho, Mané Caboclo e de outros entrevistados.
121 Quase todos os dirigentes dos STRs do sudoeste de MT e da FETAGRI eram militantes do MDB depois PMDB, conforme depoimento de Nildo Mendes ex-presidente do STR de Rio Branco e Lambari.
122 Conforme as entrevistas com Lourenço Nunes (2001), Genésio (2001) João Vieira (2000) Renato (2001).
oferecesse dinheiro ou em troca de outros bens123, pois esta prática era comum, no Vale do Guaporé, resultando dela a identidade de comerciadores de terra, de profissionais do grilo e de caçadores de terra, apontados em vários depoimentos e escritos.