O BAIRRO DE SÃO JOSÉ
8. Dinâmicas dos elementos agregadores 1 A sede paroquial
8.2. As associações de leigos e a identidade local
A igreja de São José dos Carpinteiros, sede da freguesia de São José constituiu-se como o centro nevrálgico de uma freguesia constituída por uma área em desenvolvimento urbano – o futuro Bairro de São José (figuras 26 e 28) – e de uma vasta zona rural (anexos 2 e 9). Como centro nevrálgico, frequentado obrigatória e regularmente por todos os fregueses, servia as funções de educação religiosa e de controlo social que dele se esperaria.
As associações de leigos exerceram entre o final da idade média e o início da época contemporânea um importante papel de proteção social, como já analisámos no Capítulo II. Este papel viu-se renovado e incentivado quando muitas destas associações se sedearem nas igrejas paroquiais, a partir das primeiras décadas do século XVI. Passaram então, em ambiente de reforma católica, a ser encaradas como instrumentos eficazes para a disseminação da estratégia tridentina, nomeadamente através da prática de devoções
1765, aquando da compra do terreno do antigo convento da Anunciada (que derrocara com o terramoto de 1755), para a construção da nova igreja que se iria tornar posteriormente a sede da freguesia de São José, substituindo-se assim à igreja de São José de Entre as Hortas. Anunciada, 38.
330 Data de 15 de janeiro de 1574 a primeira referência a uma assembleia na Casa do Cabido,
construída paredes meias com a igreja de São José de Entre as Hortas. AMH, 1684-1813 : 17 v a 18 v e 20 e 20 v.
aprovadas, de caráter mais teocêntrico (Penteado, 2000 : 24 e 25), de que a devoção a São José constitui exemplo.
O ofício de carpinteiros e pedreiros e respetiva confraria que lhe estava associada foram, na cidade de Lisboa, as únicas instituições deste tipo de que se tenha conhecimento terem possuído uma sede própria, construída de raiz. A Confraria de Carpinteiros e Pedreiros foi a primeira do reino. É possível que a autorização dada pelos poderes para a construção da sede da confraria em 1545, dedicada à devoção josefina, ao coincidir com a data do início dos trabalhos do Concílio de Trento, se inserisse já então numa estratégia reformista.
Constituindo a freguesia o território de ação das associações de leigos, é lógico inferir da importância destas associações para a criação de sentimentos comuns de pertença. Isso mesmo intuía António Sousa Monteiro
(1870 : 3) na sua obra sobre as matérias de direito relacionadas com estas associações:
A creação das Confrarias é um excellente meio de conservar e propagar a devoção, principalmente nas grandes freguezias, onde o parocho não pode conhecer intimamente a maior parte dos freguezes, nem pessoalmente exercer acção sobre elles. Os membros de uma associação pia bem dirigida influem uns nos outros, e são na freguezia como o bom fermento de que fallava Jesus Christo.
A Confraria de São José, administradora da igreja de São José dos Carpinteiros assumiu-se como um instrumento ao serviço daquela estratégia, promovendo a devoção a São José na área em estudo, com todas as implicações ideológicas que lhe estavam subjacentes. Daí que toda a iconografia existente na igreja constituísse um panegírico em louvor das qualidades daquele santo (figuras 16, 17, 18, 19, 20, 24, 25 e 26).
Outras associações de leigos, também elas enquadradas na mesma estratégia se instalaram na sede paroquial da freguesia de São José, à semelhança do que aconteceu na generalidade das freguesias portuguesas. De entre estas destacou-se a Irmandade do Santíssimo Sacramento, aí criada em 1567 ou em 1571.
A Irmandade do Santíssimo e a Confraria de São José tornaram-se hegemónicas na sede paroquial, partilhando e disputando o espaço e acabando por assimilar as outras associações de leigos aí existentes331.
A Confraria de São José absorveu em data incerta a Irmandade de Nossa Senhora da Fé. No Arquivo Municipal Histórico (AMH) existe um manuscrito, intitulado Livro do compromisso da irmandade do patriarca S. José 332 que é, na realidade, o livro do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora da Fé.
A Irmandade do Santíssimo Sacramento assimilou a “comfraria e Irmandade de Jhus”333 em data incerta, mas decerto ainda no decorrer da primeira década do século XVII, tendo a documentação que lhe dizia respeito sido incorporada na documentação desta última. Os documentos existentes respeitantes a esta irmandade estão datados entre 1584 e 1602. Este foi, de acordo com a documentação existente, o último ano em que se procedeu à eleição do juiz, do escrivão, dos mordomos e do tesoureiro.
A dous dias de fevereiro deste prezente Anno de seiscentos e dous, se fes eleição da Irmandade de Jhus. E sairaõ, por juis, Joaõ de Carriaõ, por escriuaõ, Joaõ da renda // Gregorio glz & Balthesar dias, mordomos, - & thesoureiro Simaõ glz os quais o aceitaraõ de boas
331Era comum as irmandades presentes num templo ficarem unidas, sendo as mais “fracas”
absorvidas pelas mais “fortes”: “E ultimamente se unio à Irmandade e capella de Jesu outra Irmandade a qual teve principio em Castella, aonde pera evitar juramentos a instituio hum religioso de Sam Domingos (...) e assim vieram a ficar tres Irmandades unidas em huma” (História dos Mosteiros e Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, 1950 : 93).
332 Livro 109. 333 Anunciada, 2 : 3.
vontades & asinaraõ aqui comiguo escriuaõ oje no mesmo dia mes e era334.
Na época moderna as sedes paroquiais constituiram-se como centros disseminadores da ideologia tridentina. A pertença a associações de leigos, fossem estas de tipo profissional como a Confraria de São José, ou de tipo devocional como a Irmandade do Santíssimo Sacramento, a obrigatoriedade dos registos paroquiais e a participação nas cerimónias religiosas que marcavam a vivência quotidiana foram fatores responsáveis pela criação de uma identidade local, reconhecível quer pelos fregueses quer por forasteiros.
No caso da freguesia de São José, em que o Bairro de São José se constituiu, como já referimos, único núcleo urbanizado significante daquele espaço entre os finais do século XVI e os meados do século XVIII, é impossível dissociar as dinâmicas criadas e desenvolvidas pela freguesia das dinâmicas que estiveram na origem e desenvolvimento do bairro.
As funções exercidas pelas associações de leigos, assistenciais e de doutrinação, mas também as responsabilidades ligadas à administração da freguesia, criaram condições essenciais para que os fregueses criassem sentimentos de pertença, não só em relação às associações das quais eram membros, mas também relativamente ao espaço onde aquelas se implantavam e agiam. Quer a Confraria de São José, quer a Irmandade do Santíssimo Sacramento foram ambas, em épocas distintas, administradoras da freguesia, o que implicava a obrigação de guardar e manter em boas condições os livros paroquiais, único registo então existente das gerações passadas e dos laços criados entre vizinhos335.
Pelo que ficou aqui explanado, a escolha de uma ermida dedicada a São José para sede paroquial, propriedade de uma confraria de carpinteiros e
334 Anunciada, 2 : 88.
pedreiros, não pode nem deve ser encarada como uma mera coincidência. Essa escolha encontrava-se intimamente ligada ao esforço de moralização da sociedade segundo as regras estabelecidas em Trento. Essa escolha ocorreu num “tempo de grande complexidade não só em termos sócio-económicos como também ideológicos” (Abreu, 2004 : 17).
Mais do que demonstrar a importância de uma associação de leigos ligada a ofícios, demonstrava a preocupação dos poderes laico e religioso na divulgação e disseminação do culto teológico a São José e dos valores morais que lhe estavam associados.
Ao longo da sua existência na freguesia e no bairro, os laços
estabelecidos entre as associações de leigos e os residentes foram múltiplos. Esses laços foram também físicos, de caráter territorial, estabelecidos com o espaço do bairro e suas áreas limítrofes através da aquisição de propriedades imobiliárias.
No caso da Irmandade do Santíssimo Sacramento, a maior fatia dos seus rendimentos, para os anos de 1725 e de 1744, provinha das rendas de casas que tinha alugadas, a maioria delas situadas no bairro e nas suas áreas limítrofes (figuras 29, 30 e 31). Quanto à Confraria de São José, dadas as suas caraterísticas de associação de ofício, sedeada no bairro, mas com um alcance que se estendia a quase todas as freguesias da cidade, não nos foi possível destrinçar de forma inequívoca o rendimento gerado localmente do rendimento geral.
De qualquer forma, no bairro e suas áreas limítrofes, a Confraria de São José constituiu-se, em todo o período em análise, como um proprietário com muito menor relevância que a Irmandade do Santíssimo Sacramento. A partir da análise das fontes torna-se também evidente que esta última cresceu exponencialmente entre os séculos XVII e XVIII, passando da posse de dez para cinquenta e quatro propriedades. Este facto pode ter constituído mais um
fator para o exacerbar da inimizade existente entre as duas associações de leigos (anexos 10 e 11).
Em 1762 notava-se já um forte declínio da influência de ambas as associações no que à propriedade imobiliária dizia respeito, quer no bairro quer nas áreas limítrofes. A Irmandade do Santíssimo Sacramento voltava a possuir dez propriedades, equivalentes a cerca de 3% do total e a Confraria de São José apenas uma, equivalente a menos de 1% das propriedades (figura 32).
Em 1802 a Irmandade do Santíssimo era uma proprietária residual, com cinco propriedades, equivalentes a cerca de 1% do total. A Confraria de São José deixara de possuir propriedades no bairro e áreas limítrofes, o que atesta o declínio de ambas a este nível (figura 33).
Atualmente, os vestígios físicos visíveis dessas propriedades pertencentes outrora às associações de leigos (e às casas religiosas), são as placas foreiras que sobreviveram encastrados na fachada de alguns dos edifícios. Curiosamente, os registos sobreviventes com que nos deparámos no espaço do bairro referem-se à Irmandade do Santíssimo da Madalena e não à do Santíssimo de São José (figura 34). Dizemos curiosamente porque não encontramos quaisquer referências, nas fontes consultadas, à Irmandade do Santíssimo da Madalena.
Em 1834, data limite do nosso trabalho, as corporações de ofícios foram abolidas, mas o mesmo não aconteceu às associações de leigos. Estas viram-se confrontadas com o aparecimento de associações mutualistas, que passaram a desempenhar funções de solidariedade até aí exclusivas das associações de leigos. Apesar da oposição que confrarias e irmandades lhes levantaram, a popularidade destas associações foi em crescendo (Pereira, 2000 : 52).
Figura 29 Fonte: Anunciada, 3.
Figura 31 Fonte:Anunciada, 3.
Figura 32
Nota: A entrada Outros inclui proprietários particulares e diversas instituições religiosas (irmandades, ordens, conventos e mosteiros). Fontes: TC, 1762, DC 543 PP.
Figura 33
Nota: A entrada Outros inclui proprietários particulares e diversas instituições religiosas (irmandades, ordens, conventos e mosteiros). Fontes: TC, 1802, DC 560 AR.