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O BAIRRO DE SÃO JOSÉ

7. Freguesia e bairro

7.2. Os bairros e o Bairro de São José

O uso da palavra bayrro como referência inequívoca a uma parte constituinte de uma cidade surge pela primeira vez na língua portuguesa em 1611.296

Surgem nas fontes formas arcaicas da palavra desde 968, mas sem o significado acima referido.297 Entre os séculos XIV e XVI aparecem diversas referências a bairros coutados (anexo 8), com o sentido de espaços de jurisdição privada, situação combatida pelos poderes concelhios, já que tal prejudicava a administração urbana:

295 Nesse sentido, tem gradualmente conhecido uma certa equivalência lata à evocação da

freguesia como lugar de pertença, por nascimento e vivência quotidiana (Vidal, 2010). Aliás, foi também a partir dos fins do século XIX que o termo freguesia se tornou sinónimo de clientela, que se associa à pequena comunidade de bairro, isto depois de se ter tornado já uma circunscrição administrativa laica, independente da paróquia, sendo “de notar que à escala do indivíduo pode ter um forte valor simbólico, pois é o lugar de nascimento oficial nos documentos de identificação. Por vezes pode equivaler-se a bairro num sentido lato, pelo sentimento de identidade comum entre as pessoas e os espaços urbanos.” (Vidal, 2010 : 502, tradução livre, citado em Conceição, 2013 : 8).

296 Houaiss, 2003, I : 490 apud Conceição, 2013 : 4. 297 Idem, ibidem.

Defendemos que nenhum Senhor de Terras, Prelado, nem Fidalgo, nem outra pessoa de qualquer estado e condição que seja não faça novamente coutos, nem bairros coutados, nem acolha, nem coute nelles nem em outros antigos e honras, posto que approvados pelos Reis antiguos, nenhuns malfeitores, nem degredados298 .

Eduardo Freire de Oliveira já abordara esta problemática, chamando a atenção para a antiguidade da palavra, usada em várias aceções em diversas fontes antigas. Uma das aceções mais frequentes era, exatamente, a de lugar privilegiado, de couto (1885, I : 492).

O aparecimento da significação de bairro como área residencial (inserida na cidade ou extra muros), coincide no tempo com o aparecimento de uma outra significação da palavra, relacionada com a administração da justiça (anexo 8).

No decorrer do reinado de D. Sebastião (1562/68-1578), correspondente à época de fundação da freguesia de São José (1567) e ao desenvolvimento inicial do bairro com a mesma designação, Lisboa foi dividida em seis bairros criminais (anexo 8), de forma a facilitar a administração da justiça (Conceição, 2013 : 5). Em 1605, os seis bairros criminais passaram a dez. Em 1608 um alvará, datado de 25 de dezembro, distribuiu as freguesias de Lisboa por dez bairros e em 1654 uma nova reestruturação dividiu a cidade em oito bairros criminais – Bairro da Mouraria, Bairro da Ribeira, Bairro da Rua Nova, Bairro de São Paulo, Bairro da Sé, Bairro de Alfama, Bairro de Santa Catarina, Bairro do Rossio (Oliveira, 1885, I : 491 e 492).

Eduardo Freire de Oliveira afirma que os diplomas de 31 de julho de 1605 e de 20 de agosto de 1654 são “os diplomas mais antigos de que temos conhecimento pelo que interessa á distribuição da cidade em circunscripções ou districtos criminaes e ao emprego da palavra bairro para significar essas circunscripções” (1899, XI : 491 e 492).

Entre as décadas de sessenta do século XVIII e de trinta do século XIX, a freguesia de São José (e mais tarde em 1770-80 a de Santa Joana / Sagrado Coração de Jesus), onde se inseria o Bairro de São José, passou a fazer parte integrante, para efeitos de administração de justiça, do Bairro do Andaluz (anexo 8). Em 1832 o juiz do crime do Bairro do Andaluz, o escrivão das armas, o escrivão do crime, e o segundo escrivão habitavam os três no Bairro de São José. O primeiro e o segundo na rua Direita de São José, o terceiro na rua da Fé e o último na rua por detrás da Anunciada. A única exceção era um oficial de escritório que habitava na rua Nova de Santo António, a zona da freguesia que se começou a urbanizar a partir do reinado de D. João V299. Tal relacionava-se com os alvarás de 1605 e de 1742, que obrigavam os corregedores do crime e respetivos oficiais de justiça a residirem nos bairros300 em que desempenhavam funções:

Os Corregedores e Juizes do Crime de Lisboa residirão dentro dos seus respectivos Bairros, como se acha determinado pelos Alvarás de 30 de Dezembro de 1605, e 25 de Março de 1742, não bastando para satisfazer a esta obrigação ter nelles Casas, em que despachem, como se declarou pelo Decreto de 24 de Dezembro de 1665. A mesma obrigação tem os seus Officiaes301.

A área compreendida pelo bairro do Andaluz correspondia302 grosso modo à da freguesia de São José. Em 1762 / 63, dos quatro funcionários

daquele bairro, três habitavam no Bairro de São José, o que demonstra que este espaço continuava a ser o espaço urbano por excelência da freguesia. É também sintomático da evolução urbana que então se verificava que o funcionário sobrante habitasse na colina de São Roque, que se começava então a constituir como o segundo espaço urbano da freguesia.

299 TC, DC 543 M : 41, 84 v, 108 v, 167, 225.

300 Os bairros a que aqui nos referimos são os de caráter administrativo, categoria em que se

inseria o Bairro do Andaluz.

301 Providencias de Polícia para os Bairros de Lisboa, 1810.

302 As referências que encontramos nas fontes a este bairro de caráter administrativo datam

Segundo a definição de Margarida Tavares da Conceição (2013 : 2), é atualmente consensual que

o bairro, ou um bairro é: uma parte da cidade habitada, que apresenta características distintas que a tornam reconhecível face às restantes zonas urbanas, podendo tais características distintivas ser de vária ordem; apesar disso, trata-se sempre de um conjunto urbano com função residencial dominante, identificável pela diferenciação sociológica.

Os pontos definidores do espaço onde se implantou e desenvolveu o Bairro de São José são a ermida de São José dos Carpinteiros de Entre as Hortas, fundada em 1545, terminada de construir em 1546 e transformada em sede paroquial da freguesia de São José dos Carpinteiros em 1567, e três casas religiosas – Anunciada a sul, Santa Marta a norte e Santo António dos Capuchos a nascente (figura 28). As três casas são fundadas (ou refundadas, no caso do mosteiro da Anunciada) em datas relativamente próximas entre si, 1538/39, 1569 e 1570, respetivamente. Sob esta perspetiva, as datas que marcam o nascimento do bairro situam-se entre os anos de 1538/39-1545 e de 1570.

O Bairro de São José, apesar da sua natureza periférica não se constituiu nem se desenvolveu como uma ilha à margem da cidade de Lisboa. A sensação de ilha, de espaço à parte que nos fica quando o percorremos hoje, relaciona-se com as suas caraterísticas morfológicas, que se diferenciam das intervenções urbanísticas posteriores que o rodeiam.

Foi um espaço que surgiu e se desenvolveu graças às dinâmicas sociais e económicas possibilitadas pela urbe que se situava perto, nomeadamente e em última análise, por se situar junto à “estrada pública que vai para Andaluz”.303 Foi uma área que mimetizou e acompanhou a urbe nos seus

ritmos, mesmo antes da sua integração plena na cidade com a reconfiguração pombalina, nomeadamente com a construção do Passeio Público e com o desenvolvimento verificado em todas as envolventes do mesmo.

A igreja de São José dos Carpinteiros de Entre as Hortas, núcleo fundador do bairro e seu centro identitário, foi implantada mais ou menos no centro do Valverde

Está esta freguezia de São Jozé cituada em hum valle que compreende desde as Portas de S.to Antam thé o Xafariz de Andalus

entre os montes de S.ta Anna e de S. Pedro de Alcantara, e no meyo do

dito vale he que está erecta a Igreja, ficando todo elle extra muros da cidade, e fortificaçoens antigas (Portugal, 1974 [1758]).

Foi edificada numa área de cardais / bárrios (terrenos incultos mas aptos para a agricultura). Estes são referidos nas fontes entre 1545 (data da fundação da ermida de São José de Entre as Hortas) e 1822. A forma como os cardais do bairro aparecem mencionados nas fontes modificou-se ao longo do tempo, à medida que aqueles foram sendo urbanizados. Atualmente, subsistem na toponímia das ruas da Esperança do Cardal e do Cardal de São José (anexos 6, 17 C e 17 G).

No instrumento de doação e carta de venda do terreno para a construção da dita igreja, datado de 15 de maio de 1545, lê-se que Gonçalo Pires Telleyro e sua mulher, Ana Gil, doam um chão por detrás do mosteiro da Anunciada, “onde hora esta um Cardal”304. Nos inícios do século XVIII, Costa afirma que “a dita Ermida se fez Freguesia”, “entre cardaes, & hortas” (1869 [1712], III : 301).

A ocupação ao longo do tempo desses terrenos situados nas periferias urbanas teria acabado por gerar áreas residenciais que, ao tornarem-se mais

304 ANTT, maço 4 : doc. 51.

densas, teriam dado origem aos bairros. O bairro seria assim, originalmente, uma realidade residencial próxima de um núcleo urbano305.

Tenha a palavra bairro origem pré-romana, latina ou árabe, a sua significação mais antiga possui caraterísticas delimitadoras, separando o espaço urbano do bairro do conjunto mais vasto em que este se integra (Conceição, 2013 : 3 e 4). A mesma autora (2013 : 2) propõe, em termos de abordagem geral, a existência de três tipos de bairro: periférico; tradicional ou histórico e social – este último um tipo de desenvolvimento urbano da época contemporânea.

O Bairro de São José classificar-se-ia atualmente como um bairro tradicional ou histórico e no passado, pelo menos até aos inícios do século XVIII, como um bairro periférico, visto ter-se desenvolvido inicialmente como arrabalde ou sub-urbe da cidade de Lisboa.

Visto isto, deve ser como arrabalde, espaço habitado no exterior da cidade que devemos perspetivar as menções ao Bairro de São José surgidas nas fontes a partir de 1682306 ou como uma parte integrante da cidade? Não conseguimos obter resposta definitiva a questão, já que as fontes são ambíguas, fazendo referência a ambas as situações307, apesar de parecer prevalecer a noção de que o Bairro de São José se situava extra muros, constituindo-se como arrabalde da cidade de Lisboa (anexo 7).

305 Já Augusto Vieira da Silva referira esta caraterística periférica como estando na origem dos

bairros, fazendo-os corresponder às “vilas” que se desenvolveram nas orlas dos centros urbanos e de que o Bairro Alto constitui um exemplo (1930 : 3).

306 AMH, Caixa nº 94, Livro nº 33 : 34 v, 35 v, 37 v, 38 v e 39.

307 Por exemplo, em 1712, o padre António Carvalho da Costa (1869 [1712], III : 301 a 303)

refere-se ao Bairro de São José como bairro integrante de Lisboa. Da sua descrição releva-se ainda que este permanecia como sendo o único núcleo urbano digno de registo da freguesia: “Chega esta Freguesia desde as portas de Santo Antaõ até o chafariz de Andaluz, tudo rua direyta; as outras ruas desde as ditas portas até S. Joseph saõ as seguintes.

O beco da Mancebia, a rua nova dos Condes, a calçada da Gloria, a calçada de Damiaõ de Aguiar, a rua das Pretas, a rua do Telhal, a rua da Fé, a rua da Praga [rua do Cardal de São José], a rua do Carriaõ, a travessa da Oliveyra [Travessa do Macedo], a travessa de Joaõ do Loureiro [Travessa do Loureiro], a travessa do Paçadisso, a travessa do Despacho, a travessa das Parreyras, a travessa do Açougue [rua Prior Coutinho], a calçadinha de Santo Antonio, a travessa do Melro, a travessa das Freyras [travessa de Santa Marta], parte de Val de Pereyro, a estrada do Salitre.

Como referimos acima, a designação Bairro de São José surge pela primeira vez nas fontes em diversas referências datadas de 1682 (anexo 8). A mais antiga afirma que “Reseberaõ dos cobradores do bairo de S. juse An.to Ribeiro e lourenso de oliueira por comta do Rol q[ue] tem em seu poder sete mile trezentos rs e de como reseberaõ asinaraõ comigo iscriuaõ”308. Sintomaticamente, estas referências surgem em documentos relativos à Confraria de São José dos Carpinteiros, sedeada na igreja paroquial da freguesia de São José, o núcleo responsável pelo desenvolvimento da identidade de bairro.

O aparecimento da designação Bairro de São José nos anos oitenta do século XVII significa provavelmente duas coisas. Uma, que a designação bairro atribuída a uma área habitacional com uma identidade própria apenas se teria desenvolvido plenamente por meados do século XVII, facto que as fontes consultadas parecem confirmar (anexo 8). A primeira referência a bairro como área residencial que encontrámos data de 1605. Trata-se do bairro de São Roque, que supomos designe o Bairro Alto (esta última designação surge-nos pela primeira vez em 1672). Note-se a coincidência temporal. A primeira referência que encontrámos relativa a um bairro residencial, datada de 1605, coincide no tempo com a divisão de Lisboa em dez bairros criminais (anexo 8). Tal ocorreu provavelmente quando a ideia de bairro como área com caraterísticas próprias, fossem estas de caráter administrativo ou residencial, começou a instalar-se.

Outra, que entre meados e finais do século XVII o aglomerado urbano situado na colina de Santana alcançou um grau de desenvolvimento e uma identidade suficientemente forte para que os seus contemporâneos o considerassem como bairro.

Dito de outro modo, só por finais do século XVII o espaço em análise se teria consolidado suficientemente para que aí se pudessem desenvolver as dinâmicas ideológicas, sociais e económicas imprescindíveis ao aparecimento da noção de bairro, no sentido de um espaço com uma identidade própria,

desenvolvida e partilhada pelos que nele habitavam e trabalhavam e reconhecida pelos forasteiros.

A partir de 1682 a designação Bairro de São José surge-nos com alguma frequência (1712, 1741, 1742, 1826-1833, 1832, 1833, 1997, 2014) (anexo 8). Desaparece das fontes por nós consultadas a partir de 1833, o ano imediatamente anterior ao limite temporal que nos propusemos para esta investigação, voltando a ressurgir muito mais recentemente. Também este quase desaparecimento a partir da década de trinta do século XIX não nos parece ser fruto do acaso, pois corresponde à aplicação da legislação de Mouzinho da Silveira que, ao assentar as bases legais do liberalismo, deu um fortíssimo golpe nos pressupostos ideológicos que tinham estado por detrás do aparecimento e do desenvolvimento do Bairro de São José.

A divisão da freguesia de São José efetuada em 1770-1780, que dividiu o bairro por duas freguesias, passando a sua secção norte a fazer parte, em 1770, da freguesia de Santa Joana Princesa de Portugal e em 1780, da freguesia do Coração de Jesus, não parece ter afetado grandemente a noção espacial e identitária do bairro sobrevivendo este, pelo menos por umas décadas àquela mudança. Tal é evidente nas fontes do Tribunal de Contas, que continuam a incluir nos livros da décima relativos à freguesia de São José e até 1834 (último ano em que este registo é efetuado) os arruamentos que tinham passado a fazer parte integrante da nova freguesia309.

O Bairro de São José desenvolveu-se na encosta poente da colina de Santana no sentido poente-nascente, a partir de dois núcleos (figura 27) tendo como eixo estruturador a rua Direita. O seu crescimento viu-se limitado, quer para poente quer para nascente, por áreas de uso rural.

A poente da rua Direita um vale, ocupado por hortas e quintas, onde presentemente se encontra a avenida da Liberdade, atravessado pela ribeira de Valverde, encanada em circuito fechado ou a céu aberto entre os séculos

XV e XVI, e integrada na denominada Rede do Cano Real (Barros, 2014 : 88 a 93). Vale permeado por pequenos regos de água que serviam os cultivos. A nascente, no alto da vertente da colina de Santana, a cerca do convento de Santo António dos Capuchos.

A norte limitava-o a cerca do convento de Santa Marta e as propriedades do conde de Redondo. A sua fronteira sul era algo fluida, variando consoante a época histórica a que nos reportarmos e a realidade que pretendermos analisar. Não por acaso, essa é a fronteira que liga o bairro à cidade intra muros, podendo a rua Direita, e fazendo uso de uma analogia biológica, ser vista como uma espécie de cordão umbilical que liga o espaço periférico ao centro urbano. Sendo o território de um bairro um espaço em constante mutação, a delimitação desse espaço num tempo longo (meados do século XVI a meados do século XIX) é um exercício de aproximação. O bairro, à medida que ia crescendo em tamanho e população e ganhando identidade própria foi-se individualizando, paulatinamente, da zona situada mais a sul, que correspondia à area situada entre as Portas de Santo Antão e o convento da Anunciada.

Esta zona, apesar de fazer parte integrante da freguesia de São José encontrar-se-ia, devido à proximidade física com a cidade intra muros, mais ligada às realidades económicas e sociais geradas por esta última, encontrando-se menos integrada nas dinâmicas económicas e sociais específicas geradas pelo Bairro de São José. Dito isto, convém acrescentar que estas dinâmicas, particularmente as de caráter económico, não existiam autonomamente, só podendo ser compreendidas quando analisadas à luz do quadro urbano mais vasto em que se encontravam inseridas.

O perfil do bairro sobressai inequivocamente nas fontes cartográficas onde aparece representado graficamente, datando a sua primeira representação cartográfica de 1756, na planta de Reverend (anexo 2). Até finais do século XVIII era a sua urbanidade, numa zona ainda muito marcada pela ruralidade, que o tornava singular (anexo 2, 6 e 9). Nos séculos XIX, XX e XXI foram e são as suas caraterísticas urbanísticas, nomeadamente o traçado

das suas ruas e o seu edificado que o tornaram e tornam facilmente identificável (anexos 2 e 18).

Pela análise das fontes percebe-se que as dinâmicas de urbanização do bairro tiveram origem em dois polos. Um mais antigo, o principal, situado junto à igreja de São José de Entre as Hortas, fundada em 1545. Outro mais a norte, situado junto ao mosteiro de Santa Marta (figura 27), fundado em 1577310. À época, a zona era considerada periférica:

fundado por breve E indulto do papa gregorio . 13 . de felis memoria nosso predesecor nos arabaldes de Lx.a hu[m] musteiro por

nome santa marta de jhs de baixo E obseruassia da ordem de S,ta clara

(...). Dada em S. Pedro, debaixo do anel do pescador a 23 de janeiro de 1598311.

O Bairro de São José permanecia, à época do terramoto de 1755, o núcleo urbano por excelência da freguesia. Apesar de se ter verificado um crescimento urbano assinalável na encosta de São Roque desde os inícios do século XVIII, o grande desenvolvimento dessa zona foi posterior ao terramoto. As fontes confirmam isso mesmo, começando então a surgir e a crescer as referências aos arruamentos que aí iam sendo abertos: rua que vai para a Patriarcal / rua Direita da Patriarcal, 1761; rua Nova de Santo António na Cotovia, 1761; rua de Nossa Senhora Da Conceição, 1761; rua do Salitre312, 1770; rua Nova da Glória; travessa do Rosário, 1770; rua Nova da Alegria, 1773; Praça da Alegria, 1774313. A calçada da Glória constitui-se como a única

310 Desenvolveremos estas questões mais adiante, no ponto 9.1. denominado Arruamentos e

edifícios.

311 ANTT, cx. 149, IV/F/1 (2) : SM 2-9.

312 Data de 1770 a primeira referência à rua do Salitre que, nos séculos XVI e XVII era

conhecida por rua de Valverde. Esta fazia então parte de um eixo que atravessava a freguesia através do Valverde (futura avenida da Liberdade), ligando as colinas de Santana e de São Roque. Esse eixo efetuava uma ligação transversal, nascente-poente, entre duas das principais vias de entrada e de saída da cidade de Lisboa, a rua Direita e o atual largo do Rato. O mesmo eixo ligava-se a nascente, no topo da colina de Santana, à Carreira dos Cavalos. A mudança na designação de rua de Valverde para rua do Salitre coincide com o aumento da urbanização verificado na colina de São Roque a partir das primeiras décadas do século XVIII.

exceção, já que a primeira referância a este arruamento data de 1675314. Tratava-se todavia de arruamento pouco habitado, já que é apenas referido duas vezes nos registos relativos ao século XVII.

O Bairro de São José foi permeado pela ruralidade até às primeiras décadas do século XVIII, nomeadamente na sua parte central, situada sensivelmente entre as ruas do Carrião, na parte sul do bairro e a das Parreiras, na parte norte. O padre António da Costa, a propósito da descrição que faz da opulenta quinta propriedade do mestre de campo Domingos d’ Antas da Cunha em 1712, afirma que “entre os bayrros315 de Lisboa era impossivel conseguir por outro modo ajuntar huma taõ nobre, & larga propriedade” (1869 [1712], III : 301 a 303). A rua do Telhal encostava-se parcialmente aos limites desta propriedade.

As fontes referem-nos a persistência de cardais, como se pode aferir a partir das seguintes referências: “rua do Carrião em sima junto aos Cardais” em 1664316, rua do Carrião “quando vão para o Cardal” em 1664317, “rua Direita defronte do Cardal” em 1669318, “Cardais atrás de Santo António dos Capuchos” em 1681319, “terra junto ao Cardal” entre 1723 e 1750320. A urbanização desta área central do bairro teve início nas primeiras décadas do