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As bases, fontes ou recursos de poder

No documento BELO HORIZONTE 2004 (páginas 58-63)

3 A GESTÃO ESTRATÉGICA E O PODER NAS ORGANIZAÇÕES

3.3 A perspectiva política

3.3.3 As bases, fontes ou recursos de poder

Apesar da diferenciação estabelecida entre bases, fontes ou recursos de poder por alguns autores como Galbraith (1983), Mintzberg (1983), Dahl (1981), Pfeffer (1981) e outros, neste trabalho tratam-se esses instrumentos do exercício do poder como sinônimos. Essa consideração não traz qualquer prejuízo à compreensão e ao uso desses conceitos.

As fontes de poder são ricas e variadas e são utilizadas para modelar a dinâmica da vida organizacional. As fontes ou bases de poder, em outros autores, identificam aqueles recursos de que as pessoas dispõem para exercer influência7 ou poder em uma determinada organização ou ambiente.

Para um melhor entendimento das maneiras pelas quais os dirigentes e os demais membros das organizações podem exercer suas influências, serão relacionadas, a seguir, algumas das principais fontes de poder, segundo Morgan (1996): autoridade formal; controle dos recursos escassos; uso da estrutura organizacional, regras e regulamentos; controle do processo decisório; controle do conhecimento e da informação; controle dos limites;

7 Nesta dissertação, a palavra “influência” é entendida como sinônimo de poder. “Influência” significa o poder afetando os demais e, dessa forma, os influenciadores são os detentores de poder.

habilidade de lidar com incertezas; controle da tecnologia; alianças interpessoais, redes e controle da “organização informal”; controle da contra-organização; simbolismo e administração do sentido; sexo e administração das relações entre os sexos; fatores estruturais que definem o estágio da ação; e o poder que já se tem.

Outra importante contribuição nessa área foi dada por John Kenneth Galbraith, em sua obra “Anatomia do Poder”, publicada em 1983. O autor afirma que é preciso conhecer as fontes do poder, ou seja, o que é que diferencia os que o exercem daqueles que estão submetidos à autoridade de outros. O autor cita três fontes de poder: a personalidade, a propriedade e a organização.

A personalidade diz respeito aos dotes físicos, intelectuais ou outros que fazem com que a pessoa obtenha algum instrumento de poder. Na linguagem comum, a personalidade é conhecida como liderança e é entendida como o conjunto de características físicas, mentais, morais, de oratória, ou qualquer outro tipo de características físicas que dão acesso às pessoas a algum tipo de instrumento de poder.

A propriedade é a possibilidade e a capacidade de compra da submissão de outrem, é decorrente da riqueza e está fortemente relacionada ao poder compensatório.

A organização é talvez a fonte mais importante de poder da sociedade moderna. A posição ocupada dentro de uma determinada organização, assim se convencionou, define de maneira formal o poder que cabe ao seu ocupante. Galbraith (1984) admite que a organização seja indispensável quando se busca o poder ou se necessita dele. Dessa forma é da própria organização que provém a persuasão necessária e a conseqüente submissão aos seus propósitos.

Para French e Raven (1956)8 apud Sündermann e Rolim (2003), há cinco fatores que influenciam e estabelecem relações de poder, entre as pessoas: perícia, referência, legitimidade, recompensa, coerção. Esses autores definiram as formas como cada um dos cinco fatores pode ser usado da maneira apresentada a seguir:

QUADRO 2

As bases do poder segundo French & Raven Bases Utilização

Perícia Fornecer informações

Referência Fazer com que os subordinados gostem de você Legitimidade Ligado à posição legal ou de autoridade formal Recompensa Dar recompensas pela conformidade

Coerção Punir a não conformidade

Fonte: adaptado de "The Bases of Social Power", de J. R. P. French Jr. e B. Raven, 1959.

O poder da perícia ou competência provém do fato de uma das partes contar, ou parecer contar, com conhecimentos e habilidades que a outra não possui. O subordinado acredita que seu superior, no caso o gerente, possui conhecimentos e habilidades que ele próprio não possui, acreditando dessa forma que vale a pena ouvir e seguir o que aquele ordena. Títulos diversos como bacharel, especialista, mestre e outros podem incrementar a percepção que um tem em relação ao outro.

Já o poder de referência é estabelecido quando o subordinado considera as formas de agir e de ser de seu superior hierárquico como sendo adequadas. A postura, os valores demonstrados, a forma de agir e a empatia estabelecida são elementos que fazem com que o subordinado goste do superior ou o admire. O status obtido através de um cargo ou feitos

8 The Bases of Social Power, J. R. P. French Jr. e B. Raven, 1959.

considerados excepcionais normalmente confere à pessoa uma representação mais elevada, tendendo a levar outras pessoas a admirá-la e considerá-la como referência nas relações interpessoais.

O poder legítimo, por sua vez, é estabelecido através de funções, cargos, títulos estabelecidos em um determinado contexto. Dessa forma, legitima-se a um doutor uma capacidade superior à de um mestre, mesmo que ambas as partes tenham as qualidades, conhecimentos e habilidades semelhantes. Essa forma de poder provém da crença que se tem de que a pessoa com determinado título ou função condiz com sua qualificação. Em outras palavras, o subordinado acredita que o superior está em tal posição por estar realmente preparado, legitimando seu poder.

O poder de recompensa é estabelecido quando uma das partes tem a possibilidade de premiar a outra, quando esta segue as definições estabelecidas pela primeira, motivando-a a agir segundo sua vontade. O detentor do poder tem as condições de oferecer algum bônus desejado pelo súdito. No caso do gerente, é o poder que este tem de oferecer ao súdito alguma recompensa, seja em termos financeiros ou psicológicos, por ele desejada.

O poder da coerção provém da possibilidade do superior poder punir o súdito caso este não siga suas ordens. A possibilidade de sofrer alguma sanção significativa da outra parte faz com que o súdito aja de forma a não ser punido. No caso do gerente, este possui a condição que lhe permite demitir, suspender, descontar parte do salário dos subordinados. Estes, quando consideram a punição significativa, tendem a agir conforme o estabelecido pelo gerente para fugir da punição.

Crozier (1981) percebeu, em sua obra “O Fenômeno Burocrático”, publicada em 1964, num estudo sobre monopólio industrial do tabaco, que supervisores e trabalhadores de produção eram dependentes dos trabalhadores de manutenção, que detinham considerável

poder derivado de controle de uma fonte importante de incerteza no ambiente empresarial, ou seja, o conhecimento técnico necessário para o funcionamento adequado das máquinas em que os trabalhadores de produção exerciam sua atividade, remunerada à base da tarefa. Tais trabalhadores de manutenção, para manter e/ou aumentar a dependência e conseqüentemente o poder, privilégios e autonomia na organização, chegavam ao extremo de promover sabotagens nas máquinas e nos procedimentos, escondendo gráficos que davam condições de qualquer técnico entender e consertar o funcionamento das máquinas. O autor inferiu, assim, que a capacidade de controlar uma fonte principal de incerteza representava, portanto, uma fonte potencial de poder.

No entanto Hardy e Clegg (2001) afirmam que, apesar de muitos outros autores terem identificado vários elementos que podem ser considerados bases de poder, tentar enumerar todas as fontes de poder é impossível, uma vez que coisas diferentes tornam-se recursos em contextos diferentes. Para os autores, não se podem demarcar todas as bases sobre as quais surge o poder sem uma teoria total de contextos.

Neste trabalho, particularmente na análise dos dados, vamos utilizar as bases de poder definidas por French e Raven (1959) por entendermos se tratar da classificação mais completa, uma vez que as bases de Mintzberg (1983) e Galbraith (1983) convergem enormemente para esta.

Para Mintzberg (1983), o poder do indivíduo na ou sobre a organização acontece devido a alguma dependência que ela tem dele. O autor apresenta cinco bases de poder. Contudo alerta que, para exercer uma das três primeiras bases, é preciso atender a algumas condições básicas, que são apresentadas a seguir:

a) controle de recursos: ser essencial para o funcionamento da organização;

b) habilidade técnica: estar concentrado em poucas pessoas;

c) corpo de conhecimento crítico: ser insubstituível;

d) prerrogativas legais: é o poder formal, garantido pela posição que se ocupa;

e) acesso privilegiado: a alguém que detenha alguma das outras quatro bases.

Para Mintzberg (1983) e Pettigrew (1977), ter uma base de poder não é suficiente, uma vez que alguns indivíduos podem possuir bases de poder, mas não atentar que as têm. Assim, para participar do jogo do poder organizacional, o indivíduo precisa desenvolver capacidade política para tornar-se um influenciador. Nesse contexto, capacidade política pode ser entendida como a habilidade do ator em controlar e usar, efetivamente, as bases de poder com o objetivo de atingir resultados desejados.

No documento BELO HORIZONTE 2004 (páginas 58-63)