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As caixas chinesas e a multiplicidade de narrar

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 166-173)

PARÓDIA, CARNAVALIZAÇÃO, MEMÓRIA E TÉCNICAS NARRATIVAS: A TESSITURA NARRATIVA VARGALLOSIANA

3. A narrativa caleidoscópica: as técnicas narrativas vargallosianas

3.4 As caixas chinesas e a multiplicidade de narrar

Os vasos comunicantes, abordados anteriormente, conduzem a outra técnica, porque ao multiplicar a narrativa por meio das caixas chinesas ou bonecas russas, que Todorov denominou de “narrativa de encaixe” e Gérard Genette de “diferença de níveis narrativos”, criam-se histórias dentro de cada história.

A diferença entre essa técnica e a dos vasos comunicantes consiste em que estes desenvolvem os episódios um ao lado do outro, sem a predominância de nenhum deles já, em uma caixa chinesa, um fio narrativo abrange outro. No entanto, não é suficiente apenas incluir uma historia em outra, já que sendo assim poderia ser somente uma colagem de episodios autónomos. Para classificarmos como uma caixa chinesa, a conexão entre seus componentes tem que introduzir um mistério, uma ambiguedade, uma complexidade no conteúdo da história e dessa forma, demonstrar ser necessária.

As caixas chinesas, segundo Vargas Llosa (1997) consistem em “contar uma história como uma sucessão de histórias que se contêm umas a outras: principais e derivadas, realidades primárias e realidades secundárias” 90. Em uma Conferencia, pronunciada en el paraninfo de la Universidad de la República, intitulada Novela (1969), o escritor peruano explanou mais sobre a técnica das caixas chinesas:

...los personajes de sus historias cuentan, a su vez, historias, y en las historias cuentan estos personajes están también encerrando otras historias que son contadas por los personajes de estas historias. […] Se trata de introducir entre el lector y la materia narrativa intermediarios que vayan produciendo transformaciones en esta materia, aportando nuevas tensiones, nuevas emociones, para que el lector esté siempre dentro del hechizo indispensable para la cabal realización de una novela en el espíritu del lector.

Ela favorece a dissimulação da presença do escritor como enunciador na obra, uma vez que quem introduz os fatos são os próprios personagens, possibilitando maior objetividade à história. No caso dessas duas obras analisadas, vários

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“consiste en contar una historia como una sucesión de historias que se contienen unas a otras: principales y derivadas, realidades primarias y realidades secundarias” VARGAS LLOSA (1997) (tradução nossa)

personagens, diversas vozes narrativas constroem os romances. Este recurso também possibilita à indução do leitor durante a interpretação da história. Cada personagem, cada voz que narra a história traz uma nova informação, uma nova caixa chinesa, que permitirá ao leitor, através dos dados que tem, decidir sobre o personagem, sobre a história. Nessa obra notamos várias histórias independentes que se tocam, têm o mesmo tema e se unem por um elo comum: as conseqüências da ditadura. Somos capazes de ouvir várias vozes, histórias que parecem ser paralelas e que criam uma tensão, um suspense no leitor, de modo a prender sua atenção, tornando-o mais ativo e participativo na narrativa. Outro fator a contribuir para esse fenômeno é a pluralidade de narradores e de espaços.

As caixas costumam aparecer como uma fenda na narração básica as quais se abrem muitas vezes de improviso, deixando o leitor perplexo, porém também podem passar desapercibidas. O seu funcionamento seria assim: primeiro, a história embutida pode servir de explicação ao relato que a abarca; depois, os dois fios narrativos podem unir-se em uma relação temática (de contraste o de analogía) ou, finalmente, ainda que não haja entre eles nenhuma conexão de conteúdo, é o mesmo ato de narração que pode desempenhar uma função especial no nivel diegético.

A conversa entre Ambrosio e Santiago, no inicio do livro, faz surgir as demais histórias que constroem a narrativa do romance. Trata-se de um exemplo de caixas chinesas em Conversación en la Catedral 91. Em La fiesta del Chivo, percebemos o uso das caixas chinesas no episodio no qual Trujillo é assassinado. Ao longo da narrativa surge uma caixa chinesa em cada capítulo que serve para explicar o porquê cada personagem participa do atentado contra o tirano e assim revela seus motivos pelos quais fazem parte deste grupo.

Para exemplificar, tomemos o episódio do personagem Amado García Guerrero. Enquanto ele espera surgir o carro do ditador, abre uma caixa chinesa para descrever o começo da sua amizade com outro conspirador, além de relatar também a proibição ao seu casamento. Dentro dessa caixa surge outra, que é uma lembrança de Amado García do dia em que ele matou um inimigo do regime em

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A professora Helena Establier Perez em seu estudo intitulado Vargas Llosa y el nuevo arte de hacer

novelas exemplifica como técnica dos vasos comunicantes esse diálogo inicial entre Santiago e Ambrosio,

no entanto nós concordamos com a explicação e classificação dada pela crítica literária María del Carmen Bobes Naves para esse mesmo exemplo. Por isso, usamos o exemplo de María Bobes para vasos comunicantes.

cumprimento de ordens. Como todo o relato está focado por Amadito não se revela o dado escondido que é a confirmação da identidade do homem executado pelo tenente, se era o irmão de sua ex-namorada ou não.

CONCLUSÃO

... agitar, inquietar, alarmar, mantener a los hombres en una constante insatisfacción de sí mismos; su función es estimular sin tregua Ia voluntad de cambio y de mejora aun cuando para ello deba emplear Ias armas más hirientes y nocivas.

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As obras de Mario Vargas Llosa, Conversación en La Catedral e La fiesta del Chivo, podem ser consideradas caleidoscópios do poder e de memórias fragmentadas, que surgem quando o autor/leitor gira o olhar sobre o interior dessas obras e percebe o poder circulante, tanto em uma obra quanto em outra.

Se, por um lado, o brinquedo depende de um movimento preciso e delicado das mãos ao girar, para possibilitar a observação da formação ou da transformação das figuras simétricas refletidas no espelho, por outro lado, a obra literária caleidoscópica necessita de um leitor atento para perceber a inclusão ou a alteração de elementos, o movimento às vezes lento, às vezes brusco dos elementos da narrativa. A percepção da mágica na arte do caleidoscópio só é possível se há um agente que o movimente, pois, em estado estático, esse tubo não exerce seu poder de magia.

A imagem do caleidoscópio nos cria uma metáfora do texto literário e da leitura. Logo, o texto precisa de seus leitores para movimentá-lo, girá-lo para que suas formas, fragmentos e cores formem a obra. Assim como Umberto Eco (1986) asseverou que um texto é um mecanismo preguiçoso que vive da valorização de sentido que o destinatário introduziu nele. Dessa forma, temos o autor que constrói o caleidoscópio usando, os fragmentos da memória de um povo e representações de ramificações de poder por meio de inovadoras técnicas narrativas que formam simétricas e coloridas imagens de uma realidade ficcional, tomadas da realidade histórica; temos também a visão das imagens na perspectiva do leitor que vai, à

medida que julga necessário, movendo os fragmentos do caleidoscópio para tecer o seu texto. O leitor participa ativamente na edificação do sentido do texto, construindo, em sua imaginação, por meio das formas mágicas refletidas no espelho, significantes e significados.

A junção de história e ficção, memória, paródia, carnavalização, técnicas narrativas vargallosianas e ramificações do poder são os componentes fragmentados do caleidoscópio de Vargas Llosa. Essa tessitura narrativa atraente conduz-nos à releitura, à reflexão não só do nosso passado, como também do nosso presente e futuro, possibilitando intervenções e mudanças na nossa história. Para alguns, a consequência da colagem desses fragmentos que compõem ou criam a obra de Mario Vargas Llosa, o caleidoscópio vargallosiano, é tentar diluir as fronteiras entre inocentes e culpados. No entanto, para nós, seu objetivo é envolver, incluir cada um dos leitores em uma trama, uma trama capaz de ser analisada e projetada além da ficção, permitindo a alteração da realidade.

A literatura pode ter a função, na sociedade, de transformar o real em lirismo, em beleza e em engenho, mas, além disso, como afirma Vargas Llosa (1967), a literatura tem a necessidade de transformar uma realidade que, às vezes, já foi vivenciada, de despertar a consciência por meio da inquietação e da insatisfação. Logo, através da arte literária, há a possibilidade de não deixarmos que se perca a memória.

O escritor, o deicida, torna-se deus à medida que se inspira na História e constrói um mundo, um microcosmo no qual encontramos seres e lugares manipulados por ele, mas que dá ao leitor a impressão de que os personagens tomam suas próprias decisões, um "livre arbítrio", e de que o leitor sabe tudo a respeito do enredo, um leitor onisciente. Essa concepção de literatura e de escritor são os constituintes dos romances Conversación en La catedral e de La fiesta deI Chivo, pois, mais uma vez, sua intenção é abarcar todos os possíveis aspectos da realidade, por meio do uso de suas técnicas narrativas para conseguir aproximar-se à verossimilhança necessária.

O escritor não é somente um observador de sua realidade, mas também um inconformista e rebelde. Em seu caleidoscópio literário utiliza os fragmentos da realidade, da história e da memória para construir a realidade ficcional de seu “aparelho óptico”.

Vargas Llosa reconstruiu, simbolicamente, o momento histórico do Peru e da cidade de Santo Domingo em um discurso polifônico, dando nova vida à “história” e instituindo uma pluralidade de pontos de vista dos fatos narrados. É por meio da memória das personagens que nos situamos no contexto histórico das ditaduras. Destarte, percebemos que a história do Peru e da República Dominicana se assemelham não somente na ficção, mas também na história oficial.

Por isso, ao representar essa realidade em obras literárias, destacamos a função da literatura que além de estimular a imaginação também demonstra que uma realidade mascarada obscurece a visão dos fatos, tornando-nos incapaz de satisfazer os desejos de nos tornar críticos diante do mundo em que vivemos. É a partir das múltiplas vozes dos personagens e do surgimento de suas várias memórias que se dá a reconstrução do momento histórico como uma imagem refletida no espelho de um caleidoscópio e, portanto, a riqueza, a ambiguidade e a beleza dos vários pontos de vista que nos dão a impressão de anular a perspectiva do escritor, pois não temos diretamente seu veredito como um deicida, mas sim, o nosso.

A variedade das inovadoras técnicas usadas por Vargas Llosa amplia e dinamiza as ações narrativas. Os saltos temporais e espaciais transportam-nos a uma experiência já vivida pelas técnicas do cinema, flashback, nas quais personagens adultos voltam no tempo e no espaço, tornando a serem jovens ou crianças, sem prévio aviso, invocados pelas recordações, monólogos interiores ou diálogos com o outro, que poderia ser seu alter ego, ou seu duplo, desconcertando o leitor. Reafirmamos a nossa convicção de que o as técnicas usadas no romance de Vargas Llosa reforçam as ramificações de poder dando ênfase a quem o exerce ou não.

Esse assunto antigo e contemporâneo, real e irreal, central e ramificado, o poder, em Conversación en la catedral e La fiesta deI Chivo, circula pelos indivíduos. O poder ou os micropoderes, como determinou Foucault, fazem parte da vida de todos os seres reais e ficcionais, todos exercemos e sofremos o poder, mas, geralmente, não temos consciência dessa capacidade. O que Vargas Llosa faz por meio do seu caleidoscópio literário é colocar a todos os seres reais e ficcionais à mostra, lançá-los à crítica, revelá-Ios ou desmascará-Ios. Acompanha o poder a volúpia de imagens que se retorcem, giram e se multiplicam.

Nestas considerações finais, enfatizamos que a obra de Vargas Llosa se caracteriza pela continuidade de alguns de seus tópicos, motivos e recursos narrativos. Suas obras mostram mais uma vez sua capacidade de transformar elementos históricos em uma realidade ficcional próxima a um romance total.

O entrelaçamento de fatos reais e ficcionais, as memórias fragmentadas, a multiplicidade dos focos narrativos, a hibridez, ramificações do poder e a estrutura pós-moderna da obra constroem a arte e a beleza da literatura caleidoscópica de Conversación en La Catedral e La fiesta del Chivo.

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 166-173)