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A DISCIPLINA E O CORPO: OUTRAS MODALIDADES DO EXERCÍCIO DO PODER

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 87-91)

O PODER E SUAS REPRESENTAÇOES

3. A DISCIPLINA E O CORPO: OUTRAS MODALIDADES DO EXERCÍCIO DO PODER

Do século XVII ao XIX, o uso da disciplina para controlar o corpo teve grande êxito. Na ditadura de José Manuel Odría e na de Leónidas Trujillo, foi a base de seu absolutismo: a disciplina, a vigilância, o controle do corpo e da mente. A disciplina permitiu fabricar corpos submissos, obedientes, úteis e, usando o termo foucaultiano, um corpo “dócil” para que fizesse o que e como o tirano quisesse, de acordo com a rapidez e a eficácia que ele determinasse.

Foucault (1997, p. 118) define as disciplinas como “métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo que realizam a sujeição constante de suas forças e lhe impõem uma relação docilidade-utilidade”. O poder disciplinar adestra e, dessa forma, retira e se apropria ainda mais e melhor do corpo. Ele está em toda parte e, sempre alerta, tem o controle contínuo (inclusive daqueles que estão controlando); funciona permanente e silenciosamente. Essa era a sensação dos peruanos e dominicanos: a de que todos vigiavam todos e ninguém sabia quem

vigiava quem. Sob esse controle invisível e eficaz, todos desconfiavam de todos e a maioria tentava seguir as normas estabelecidas.

Um dos instrumentos do poder disciplinar, segundo Foucault, é o uso de instrumentos simples, como o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e o exame. Em Conversación en la catedral, o personagem Fermín Zavala, por suspeita de conspiração, perdeu vários de seus negócios que tinham relação com o governo odriísta, retiraram a concessão do laboratório que Fermín possuía, pararam a emissão de dinheiro, exigiram o pagamento de suas dívidas etc; já o personagem Cabral, da obra La fiesta del Chivo, foi punido, destituído do cargo de Presidente do Senado. Este soube de sua destituição através de uma carta publicada no jornal da cidade; em seguida, foi expulso do Instituto Trujilloniano, do Contry Club, do Partido Dominicano, suas contas bancárias foram congeladas até o fim da averiguação do Congresso. Conforme as normas do poder disciplinar, recompensa-se, promovendo e gerando hierarquias e lugares; pune-se, rebaixando e degradando, como constatamos nos dois contextos citados.

Em Conversación en la catedral, o mecanismo “exame” era praticado permanentemente por meio de telefones grampeados, vigiando, seguindo os suspeitos e, se caso fosse necessário, punindo e eliminando os traidores como já foi citado anteriormente. Já em La fiesta del Chivo, o uso do instrumento “exame”, no poder disciplinar, era uma prova de lealdade a Trujillo, prova esta que somente era conhecida como tal após a sua conclusão; servia para mostrar se o candidato merecia uma ascensão militar; como o personagem Amadito, um dos conspiradores, não pôde se casar e teve que se separar da mulher amada a pedido do tirano e, em seguida, matou o irmão dela sem saber quem era o alvo.

Em Conversación en la catedral, para manter-se no poder e evitar questionamentos, o tirano convoca uma eleição para presidente na qual o candidato adversário será sabotado para que tudo continue da mesma forma de antes, no entanto, com o aparente apoio popular. Odría expõe vários cartazes e frases de apoio a ele mesmo por todos os lugares visíveis da cidade, inclusive em escolas e universidades.

A seleção de jovens militares, o treinamento militar, a educação baseada nas cartilhas trujillistas, o culto ao corpo e à farda impecável eram o processo para a mecânica do poder investir sobre o corpo humano militar. Dessa forma adestra,

explora o máximo de suas potencialidades, tornando-o política e economicamente dócil.

A coerção disciplinar do corpo estabelece aptidões aumentadas e uma dominação acentuada. Notamos esta coerção nas atitudes, ou na falta dessas atitudes dos personagens dos romances: Fermín se adapta à nova realidade financeira ditada por Odría. Outro exemplo de coerção nessa obra é a repreensão de Fermín sobre seu filho Zavala por fazer parte de um grupo de estudantes que conspiravam contra o tirano, apesar dele próprio, Fermín, estar formando uma conspiração contra Odría.

Cabral era tão dominado que doou a virgindade da filha como forma de provar sua gratidão e fidelidade ao regime e ao ditador. Outro exemplo dessa coerção ocorre pelo fato de alguns dos conspiradores não conseguirem seguir o trato feito entre eles: preferem morrer a denunciar outro conspirador. O domínio era tão intenso que, mesmo após a morte de Trujillo, ele continuava tendo o controle sobre suas mentes e corpos. A paralisação do pensamento é o que mantém o poder centrado e detido no sujeito criador da estratégia, ou seja, no tirano.

De acordo com Foucault (2002: 146), "O poder penetrou no corpo, encontra- se exposto no próprio corpo." Valoriza-se a forma, ridiculariza-se e trata-se de maneira grotesca o corpo que não corresponde às regras vigentes na sociedade.

Os corpos considerados feios não exercem o poder como percebemos neste fragmento de Conversación en la catedral (2001: 20) , no qual Zavalita descreve Ambrosio quando se reencontram. O antigo motorista aparece descrito como um derrotado:

Su voz, su cuerpo son los de él, pero parece tener treinta años más. La misma jeta fina, la misma nariz chata, el mismo pelo crespo. Pero ahora, además, hay bolsones violáceos en los párpados, arrugas en su cuello, un sarro amarillo verdoso en los dientes de caballo. Piensa: eran blanquísimos. Qué cambiado, qué arruinado. Está más flaco, más sucio, muchísimo más viejo, pero ése es su andar rumboso y demorado, ésas sus piernas de araña. Sus manazas tienen ahora una corteza nudosa y hay un bozal de saliva alrededor de su boca.

Em La fiesta del Chivo, (2001: 85), uma das vozes traça as características do Coronel que se ocupa da segurança do país, Johnny Abbes apesar de ter um cargo representativo de poder, por meio da descrição do narrador, ele não exercia o poder:

Johnny Abbes estaba de uniforme. Aunque se esforzaba por llevarlo con la corrección que Trujillo exigía, no podía hacer más de lo que le permitía su físico blandengue y descentrado. Era más bajo que alto, la barriguita abultada hacía juego con su doble papada, sobre la que irrumpía su salido mentón, partido por una hendidura profunda. También sus mejillas fofas. Sólo los ojillos movedizos y crueles delataban la inteligencia de esa nulidad física. Tenía treinta y cinco o treinta y seis años, pero parecía un viejo. No había ido a West Point ni a escuela militar alguna; no lo hubiera admitido pues carecía de físico y vocación militar. Era lo que el instructor Gittleman, cuando el Benefactor era marine, llamaba, por su falta de músculos, su exceso de grasa y su afición a la intriga, "un sapo de cuerpo y alma".

Trujillo critica o corpo da menina como forma de culpá-la pelo fracasso sexual. Era magra, esquelética, sem atrativos, contudo, antes a menina era desejada por ele, servia para o seu propósito (Vargas Llosa, 2001: 32):

Nunca lo había hastiado, después de cincuenta años seguía ilusionándolo, como el primer sorbo de una copa de brandy español Carlos I, o la primera ojeada al cuerpo desnudo, blanco, de formas opulentas, de una hembra deseada. Pero, le envenenó esta idea el recuerdo de la flaquita que ese hijo de puta consiguió metérsela en la cama. ¿Lo hizo a sabiendas de la humillación que pasaría? No tenía huevos para eso. Ella se lo había contado y, él, reído a carcajadas. Correría ya por las bocas chismosas, en los cafetines de El Conde.

Neste fragmento de Conversación en la catedral (2001: 207), ao contrário dos anteriores, vemos a valorização do corpo "perfeito", que neste momento exerce o poder:

La señora era más alta que Amalia, más baja que la señorita Queta, pelo negro retinto, cutis como si nunca le hubiera dado el sol, ojos verdes, boca roja que andaba siempre mordiendo con sus dientes parejitos de una manera coquetísima. ¿Qué edad tendría? Más de treinta decía Carlota, Amalia pensaba veinticinco. De la cintura para arriba su cuerpo era así así, pero para abajo qué curvas. Hombros echaditos para atrás, senos paraditos, una cintura de niñita. Pero las caderas eran un corazón, anchas anchas y se iban cerrando, cerrando, y las piernas se iban adelgazando despacito, tobillos finos y pies como los de la niña Teté.

Em La fiesta del Chivo, (2001: 140) também percebemos o corpo perfeito, além da representação dos objetos de valor, como forma de ostentar o poder pelo que se tem e pela imagem do corpo ideal, que neste caso corresponde ao do filho do ditador:

Su padre no sabía, porque Urania nunca se lo dijo, que ella y sus compañeras del Colegio Santo Domingo, y tal vez todas las muchachas de

su generación, soñaban con Ramfis. Con su bigotito recortado de galán de película mexicana, sus anteojos Ray-Ban, sus ternos entallados y sus variados uniformes de jefe de la Aviación Dominicana, sus grandes ojos oscuros, su atlética silueta, sus relojes y anillos de oro puro y sus Mercedes Bens, parecía el favorito de los dioses: rico, poderoso, apuesto, sano, fuerte, feliz.

O poder disciplinar e o corpo são bastante explorados nas obras do escritor peruano. Corpos perfeitos exercem o poder, mas os feios, não. A disciplina na tirania funciona perfeitamente. No entanto, o poder que circula pelos corpos ainda é muito sutil. Existem corpos que exercem o poder e continuam exercendo-o, porém há os que não sabem que podem exercê-lo.

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 87-91)