8. Discutindo conceitos e questões
8.3. As cartas no contexto do registro documental obrigatório
Na prática clínica, o estudo das cartas traz inúmeras implicações. Seja em relação ao terapeuta, ao cliente ou à relação entre os dois, as cartas auxiliam, promovem e constroem uma prática clínica mais horizontal e participativa (Moules, 2003a). Davidson e Birmingham (2001) sintetizam algumas das vantagens das cartas terapêuticas na clínica, tais como: serem facilmente disponíveis e poderem atuar como lembretes instantâneos, poderem ser compartilhadas e discutidas com membros da família e com amigos, desenvolver idéias e sugestões levantadas na sessão, levantar questões que podem levar a novas perspectivas do problema, ser um método eficaz para os membros silenciosos da família se comunicar uns com os outros, permitirem a discussão racional sobre potenciais questões explosivas, mostrarem respeito e darem autoridade para o paciente por seu papel na carta, possibilitarem oportunidade para reflexão pelo paciente antes de se comunicar com outros membros de sua família, e ser o ponto de partida para futuros diálogos em casa. Os autores ainda apontam que as cartas auxiliam o terapeuta a refletir e integrar suas idéias, promovendo a abertura para o
planejamento, o que mantêm o terapeuta todo o tempo respeitoso às informações comunicadas, encoraja a clareza das idéias por poder ser o único registro clínico mantido pelo terapeuta e compartilhado com o restante da equipe clínica.
Cientes das vantagens e dos benefícios acarretados pelo uso das cartas terapêuticas, buscaremos nesse tópico analisar a relação entre as cartas como documento clínico e a normatização do Conselho Federal de Psicologia (Resolução 001/2009) que dispõe sobre a obrigatoriedade do registro documental decorrente da prestação de serviços psicológicos.
O CFP ressalta a “necessidade de haver um registro de informações decorrentes da prestação de serviços psicológicos que possibilite a orientação e fiscalização sobre o serviço prestado e a responsabilidade técnica adotada” (para.2), afirmando “a necessidade de contemplar de forma sucinta a assistência prestada, a descrição e a evolução do processo e os procedimentos técnico-científicos adotados no exercício profissional” (para.3), bem como aponta que o
registro documental, além de valioso para o psicólogo e para quem recebe atendimento e, ainda, para as instituições envolvidas, é também instrumento útil à produção e ao acúmulo de conhecimento científico, à pesquisa, ao ensino, como meio de prova idônea para instruir processos disciplinares e à defesa legal (para.4).
Algumas questões relativas a esses parágrafos da Resolução podem ser discutidas a partir de idéias e conceitos já apresentados nesse trabalho. Entretanto, essas questões abrangem campos mais amplos, relativos ao entendimento de conhecimento e verdade, colocando as cartas terapêuticas em uma perspectiva diferente da epistemologia ressaltada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP).
A norma do CFP atende a um conhecimento técnico-científico empiricista, no qual existe o entendimento de que o conhecimento pode ser ‘acumulado’, e existir como ‘prova idônea’. Calcado em um pensamento moderno, a busca por quem se apóia nesse preceito é por um
conhecimento fundamental, certo e seguro, de um mundo objetivo que existe independentemente de um sujeito cognoscente. Por se tratar de um conhecimento cumulativo, observável, verificável e universal, o discurso filosófico da modernidade é do tipo unívoco, apoiado em um valor de verdade e estabilidade (Grandesso, 2000, p.49). Contrário a esse entendimento, o registro da carta terapêutica vem ao encontro de uma postura pós-moderna, na qual conceitos de validade e fidedignidade são deixados de lado. O objetivo da resolução do CFP insere-se na percepção de necessidade de ‘orientação e fiscalização sobre o serviço prestado e a responsabilidade técnica adotada’ (para.2), sendo normatizado, portanto, para ser um método de regulação e controle. Por outro lado, o objetivo das cartas terapêuticas encontra-se na construção de sentidos, por meio das interações dialógicas realizadas no contexto clínico. A busca não é calcada em verdades históricas, mas em verdades narrativas, que não são individuais, mas sociais. Dessa maneira, qualquer construção realizada nas cartas terapêuticas, ou em qualquer outro documento clínico, serão entendidas conforme ressaltado por Freedman e Combs (1996), como construções sociais úteis, não fazendo referência a fatos de uma realidade externa e preexistente. Para o CFP, a obrigatoriedade documental vem atender a uma “necessidade de contemplar de forma sucinta a assistência prestada, a descrição e a evolução do processo e os procedimentos técnico- científicos adotados no exercício profissional” (para.3). Ao ter acesso às cartas terapêuticas não se consegue visualizar de forma sucinta as intervenções do terapeuta e em como essas intervenções evoluíram. As cartas são o próprio instrumento interventivo, construídas a partir de ações já realizadas no momento da sessão ou que estão sendo realizadas durante a redação do documento clínico, não buscando atender a uma necessidade de descrição sobre os instrumentos utilizados durante a sessão, mas almejando ressaltar a evolução do paciente e convidando-o a desenvolver seu processo de re-autoria. Refletindo acerca dessa questão
técnica, as cartas como documento clínico seriam um convite a pensar nessas estruturas técnico-científicas como socialmente construídas, dentro de determinados contextos.
Ao longo dessa pesquisa, temos apresentado o quanto as cartas terapêuticas têm sido vistas como úteis e valorosas tanto para terapeutas quanto para as pessoas que a recebem. Aliado a essa questão, as instituições também se beneficiam da carta, por esta ser um importante relato clínico para outros profissionais (Vidgen & Williams, 2001). Tais relatos permitem a visualização do movimento de evolução do cliente, o que pode auxiliar na continuidade de seu atendimento. Entretanto, essa conclusão não pode ser entendida como em concordância com a norma do CFP, que afirma ser o registro documental valioso para o psicólogo, para o cliente e para as instituições envolvidas, por este estar sustentado em uma epistemologia moderna, na qual esse valor é encontrado no registro da verdade, da validade e da fidedignidade, produzindo e acumulando conhecimento. As cartas terapêuticas são importantes para o terapeuta, clientes e instituições por descreverem da evolução do processo, contar das construções co-colaborativas e ressaltar os momentos de mudança, não pretendendo atender a qualquer necessidade de ‘instruir processos disciplinares’ e servir como documento para ‘defesa legal’.
Outro ponto que podemos destacar nessa discussão diz respeito ao tempo utilizado pelo terapeuta para registrar as informações do atendimento psicológico prestado. Conforme apontado anteriormente, os autores Freeman et al. (1997) apontam que as cartas terapêuticas podem ser consideradas por alguns como “assustadoras e demoradas” (p.113). Porém, o registro documental como documento clínico apresenta inúmeros benefícios ao terapeuta, auxiliando-o inclusive a refletir sobre as questões suscitadas durante a sessão. Entendemos que a elaboração do registro clínico, que tenha como objetivo principal atender a uma norma fiscalizadora contribui para sua não realização da maneira como especificada, já que pode ser realizada de maneira mecânica e repetitiva. A carta terapêutica, apesar de ser útil como
documento clínico, não se propõe a cumprir um fim fiscalizador, mas busca atuar nas relações existentes entre terapeuta e cliente, promovendo uma possibilidade a mais de comunicação na clínica, o que implica em reflexão e criação particularizada para cada paciente.
Assim, por serem escritas de maneira respeitosa, de forma transparente e cuidadosa, em co-colaboração e concordância com o cliente ao qual a carta se refere, as cartas exercem um papel ético à medida que reconhece o crescimento do paciente, contando de sua evolução. Assim, elas não são calcadas em procedimentos administrativos, mas pautam-se na relação do terapeuta com o cliente e em como essa é construída e relatada. A verdade não está no terapeuta e no que ele relata como verdade idônea, mas na relação e em como ela constrói histórias.
A partir dessas considerações, as cartas terapêuticas colocam-se como documento significativo no processo terapêutico, porém em uma lógica que não satisfaz as preocupações presentes na Resolução do CFP. Como instrumento interventivo, as narrativas na carta adquirem um tom plural, múltiplo, de caráter local e contextual, no qual as concepções rígidas de singularidade e imutabilidade são suspensas, dando espaço para o novo, o desconhecido, um mundo de possibilidades e histórias a serem construídas, contadas e re- contadas.