Diferentemente da explicação subjetiva, em que o significado é visto como gerado na mente do indivíduo e transmitido pelas palavras e gestos, a teoria relacional não postula qualquer início apropriado, ou qualquer fonte originária, nem lugar específico do qual o significado decorra. Isso porque estamos sempre em relação com os outros e o mundo. Não há um lugar possível para a ocorrência de uma expressão, seja ela qual for, fora de um espaço relacional (Grandesso, 2000, p. 159).
Buscando analisar o processo de escrita da carta, considerando tanto a lógica que organiza sua redação, quanto os princípios terapêuticos utilizados para atender determinadas funções, o procedimento de constituição do corpus foi realizado de três maneiras:
a) Gravação e Transcrição das Sessões: Todas as sessões individuais e grupais foram gravadas em gravador digital e transcritas. Esse material transcrito foi transformado em um banco de dados, para atender a possíveis pesquisas futuras.
b) Redação e arquivo das cartas: Todas as cartas redigidas e entregues posteriormente na sessão foram arquivadas, para investigação e análise de sua construção, e nos efeitos que promoveu.
c) Diário de campo: Foi redigido um diário de campo, usado como um material de apoio para a investigação do corpus. Além do que, o diário mostrou ser de grande utilidade para a construção da identidade da terapeuta como pesquisadora, e vice-versa, já que angústias, dúvidas e temores eram depositados diariamente em suas páginas.
Apoiada nessa construção, a análise do corpus do presente estudo teve como foco as cartas terapêuticas redigidas durante o grupo. Norteada pelos princípios qualitativos de pesquisa, a análise se sustentou a partir de duas idéias:
1) A carta desenvolve determinadas funções terapêuticas. Assim, há recursos e estratégias lingüísticas que são utilizados para promover certos princípios terapêuticos. Buscando entender essas funções, bem como os objetivos aos quais elas visam atender, utilizei para a análise os princípios e procedimentos desenvolvidos por Chen et al.(1998).
2) A linguagem como construtora da realidade, sendo entendida como ação no mundo (Gergen, 1997; Burr, 1995). A partir dessa noção, buscarei identificar os procedimentos textuais de produção de sentido, apoiando-se ainda, na proposta de análise do discurso influenciada pela abordagem construcionista social (Gill, 2003; Potter & Wetherell, 1987), na qual as palavras são escolhidas dentre inúmeras possibilidades para que alcancem determinado objetivo.
A justificativa para o uso do modelo proposto por Chen et al. (1998) nesta pesquisa deve- se a alguns fatores: 1) É um modelo construído apoiado em princípios de linguagem, isto é, o objetivo das autoras é apresentar recursos de linguagem disponíveis para se construir determinados tipos de discursos, que “liberem ao invés de restringir, abram ao invés de fechar, e construam ao invés de subjugar a experiência dos clientes” (p.406), o que vai ao encontro dessa pesquisa, que objetiva investigar os recursos de linguagem utilizados e as funções que eles acarretam; 2) O fato das autoras mesclarem várias abordagens foi um diferencial no momento de escolha desse modelo. As sessões realizadas em grupo, apesar de terem a terapia narrativa como base para a postura do terapeuta, bem como para as intervenções realizadas, também foram influenciadas por outras abordagens construcionistas.
Como discutido anteriormente, a proposta de Chen et al. (1996) traz marcas de outras abordagens, principalmente dos processos reflexivos de Tom Andersen (1999), da abordagem colaborativa de Harlene Anderson (1998), das propostas de Gianfranco Cecchin (1998) e Karl Tomm (1989). Sendo assim, o modelo proposto encontra harmonia com a proposta terapêutica realizada na sessão grupal; 3) As autoras apresentam um modelo voltado para o contexto grupal, o que não ocorre com as outras perspectivas analisadas, tais como as desenvolvidas por Freedman e Combs (1996), White (2007) e White e Epston (1990).
Apesar das vantagens práticas e teóricas percebidas no modelo das autoras para análise desse trabalho, é importante salientar algumas contradições existentes nesse modelo em decorrência da combinação das diferentes abordagens, bem como devido às atualizações propostas por White (2007). Chen et. al (1998) desenvolveram seu modelo ao final da década de 1990, tendo como uma de suas referências o livro de White & Epston (1990). Assim, a proposta das autoras não leva em consideração as revisões realizadas na obra de White, em 2007. Com isso, as autoras utilizam termos como “externalização do problema” ao invés de “conversas externalizadoras”. O mesmo ocorre com as conversas de re-associação, as conversas baseadas na idéia de andaimes (scaffolding conversations) e as conversas com testemunhas externas, que também não são exploradas pelas autoras. Contudo, apesar de considerar essas mudanças e ampliações teóricas e práticas, busquei preservar e refletir sobre a proposta da Chen, optando por usá-la integralmente.
As categorias descritas por Chen et al. (1998) e utilizadas para a análise deste trabalho já foram descritas anteriormente no capítulo 3, e podem ser resumidas no quadro a seguir. A primeira coluna diz respeito aos princípios; a segunda, aos procedimentos utilizados para alcançar os princípios estabelecidos. Ao todo são 4 os princípios e 13 os procedimentos descritos.
Figura 3. Quadro resumo dos princípios e procedimentos organizados por Chen et al. (1998) para a construção da carta terapêutica
1.Desconstruir o self subjugado Objetivo: desconstruir o auto- conceito negativo que o cliente, não intencionalmente, tem internalizado. Tal princípio é realizado a partir do uso de linguagem des-patologizante, que auxilia a reformulação do
relacionamento das pessoas com seus problemas
1.1.Externalizar o Problema
Separa a identidade do cliente da identidade do problema, dando a ele poder e autonomia sobre o problema. Na carta os problemas são descritos como uma força externa, fora do cliente, tornando-se assim passíveis de manejo e confrontação.
1.2. Personificar o Problema
Concede aos problemas externalizados características humanas. Na escrita da carta os clientes são identificados como protagonistas e os problemas como antagonistas. Assim, o convite é para o confronto e a ressignificação da relação entre eles (clientes) e os problemas. 1.3. Contextualizar o Problema
Pode-se promover uma auto-percepção dos clientes endereçando os discursos sociopolíticos que sustentam os problemas. Ao contextualizá-los, expõe-se a subjugação e a opressão dos discursos culturais que alimentam o problema. Tal procedimento auxilia o cliente a “de-subjugar” e a reconsiderar a si próprio.
2. Procurar por Exceções