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Pelo que expusemos até aqui, podemos sistematizar as categorias que devem ser mobilizadas para a análise da complexidade textual tal como a concebemos, ou seja, como um fenômeno objetivo e estruturado ligado ao conjunto de atributos composicionais e estruturais do texto, que o tornam mais ou menos complexo. No capítulo procedente, iremos mostrar quais critérios e atributos se configuram mais ou menos complexo, conforme Quadro 6.

Em síntese, a análise considera dois critérios: domínio cognitivo e composicional. Em relação ao critério domínio cognitivo, que se desdobra em termos de possibilidades, consideramos os seguintes níveis:

(a) conhecimento; (b) compreensão; (c) aplicação; (d) análise; (e) síntese; (f) avaliação.

Baseando-nos no critério do domínio composicional, são previstas duas categorias textuais: os tipos de discurso e o tópico discursivo. Em referência aos tipos de discurso, levamos em conta as seguintes propriedades:

(a) discurso interativo (conjunção/implicação); (b) discurso teórico (conjunção/autonomia); (c) relato interativo (disjunção/implicação); (d) narração (disjunção/autonomia).

A partir do tópico, ganham relevo as seguintes propriedades: (a) um único tópico;

(b) mais de um tópico;

(c) tópico sem desdobramento; (d) tópico com desdobramento;

(e) relação de concernência explícita; (f) relação de concernência implícita.

As diferentes combinações dessas possibilidades formam conjuntos de propriedades textuais que servem para dispor o texto em um continuum de complexidade, que vai do menos complexo, extremo esquerdo, ao mais complexo, extremo direito. Para ilustrar como isso pode ser operacionalizado, consideramos, a seguir, o ensaio de duas análises dos textos 1 e 2.

No que diz respeito ao domínio cognitivo, o texto mobiliza informações da forma como foram apreendidas. Há, basicamente, um processo que pode ser resumido como “um dizer, um contar” algo que foi identificado. Nesse sentido, trata-se de um atributo que também aponta para um texto de baixa complexidade. Considerando que todos os atributos são de baixa complexidade, esse texto estaria no extremo esquerdo do continuum.

Em relação ao tipo de discurso, o texto mobiliza, unicamente, a narração, ou seja, o narrar autônomo em que há disjunção do conteúdo temático das coordenadas gerais do mundo e autonomia em relação ao ato de produção. Esse tipo de discurso mobiliza recursos linguísticos específicos como os verbos no pretérito perfeito e imperfeito – “era, tinha-se, tratou, estava, sobreveio, inventou, ganhou, exercia, tinha, compunha-se, bastava”; ausência de pronomes de primeira pessoa, por exemplo, frases declarativas, organizadores temporais – “algum tempo”, “quando”, “agora”, densidade verbal média, densidade sintagmática média e constrói o raciocínio do tipo causal/temporal. Esses recursos e, sobretudo, o tipo de raciocínio apontam também para um texto com baixa complexidade.

Texto 1

[...] Era o Dr. Mendonça homem de seus trinta e quatro anos, bem-apessoado, maneiras francas e distintas. Tinha-se formado em medicina e tratou algum tempo de doentes; a clínica estava já adiantada quando sobreveio uma epidemia na capital; o Dr. Mendonça inventou um elixir contra a doença; e tão excelente era o elixir, que o autor ganhou um bom par de contos de réis. Agora exercia a medicina como amador. Tinha quanto bastava para si e a família. A família compunha-se dos animais citados acima. [...]

Finalmente, atinente à categoria tópico discursivo, as relações de concernências entre as expressões referenciais que colaboram para a centração, e, portanto, para a instauração do tópico, é explícita (o referente Dr. Mendonça é retomado ao longo de todo o texto). Quanto à organicidade, há apenas um tópico sem desdobramento. São dois atributos que apontam para um grau baixo de complexidade do texto.

O texto mobiliza um processo de distinção, relação, busca de evidências ou em torno de uma declaração ou questão. Isso sugere um processo de análise, nível avançando de complexidade, segundo a categoria domínio cognitivo. Em síntese, são dois atributos de menos e dois de mais complexidade, o que coloca o texto em um ponto mediano entre o extremo esquerdo e o extremo direito.

O tipo de discurso predominante é o discurso teórico, ou seja, da ordem do expor autônomo. O tema é abordado de forma conjunta à situação e não há unidades que remetem aos interactantes ou ao espaço-tempo da situação. Nesse tipo de discurso, o raciocínio mobilizado é do tipo lógico-argumentativo. As marcas linguísticas que comprovam isso são: verbo no presente do indicativo (implica, invade, perde, podem, começa) e no pretérito imperfeito composto (vai cedendo), presença de um organizador com valor lógico-argumentativo – “Dominar a luz implica tanto um avanço tecnológico quanto uma certa liberação...” e com densidade sintagmática elevada. Trata-se de um atributo que aponta para maior complexidade.

Quanto ao tópico discursivo, o primeiro enunciado do item expressa, de forma sumária, o assunto “domínio da luz” /” invenção da luz” cujo tópico se configura a partir das várias retomadas das expressões referenciais “iluminação noturna”, “claridade”, “a luz invade a noite” no texto motivador. É fácil perceber como a relação de concernência entre essas expressões é explícita e como a interdependência semântica entre elas é bastante aparente. São,

Texto 2

Dominar a luz implica tanto um avanço tecnológico quanto uma liberação dos ritmos cíclicos da natureza, com a passagem das estações e as alternâncias de dia e noite. Com a iluminação noturna, a escuridão vai cedendo lugar à claridade, e a percepção temporal começa a se pautar pela marcação do relógio. Se a luz invade a noite, perde sentido a separação tradicional entre trabalho e descanso – todas as partes do dia podem ser aproveitadas produtivamente.

pois, essas retomadas denominadas de fenômenos anafóricos que colaboram decisivamente para a centração – a ideia mais concernente, relevante e localizada ao longo de todo o item, que configura o tópico. Esse conjunto de expressões que colabora para a centração e consequente estabelecimento do tópico resulta em uma estratégia de organização (estrutura composicional) que pode facilitar a interpretação (nível de complexidade). Logo, temos aí um atributo e uma organicidade de baixa complexidade.

A seguir mostramos a análise realizada dos 24 itens das provas do ENEM/2016, fornecidas pela TUNEDUC, das quatro áreas do conhecimento – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Ciências Humanas e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias - a partir da complexidade textual e com base nas categorias analíticas e propriedades operacionalizadas e mobilizadas para essa finalidade, a fim de mensurar o nível de CT e propor um mecanismo analítico.

3 COMPLEXIDADE TEXTUAL OBJETIVA/ESTRUTURAL: ENSAIO DE ANÁLISE DE ITENS DE AVALIAÇÃO EM LARGA ESCALA

“O desencanto com as técnicas de avaliação que enfatizam um ponto de vista centrado no produto-resultado, principalmente em detrimento de uma abordagem mais completa, mais holística, vê a educação como uma atividade humana e admite a complexidade da condição humana. Todo autor afirma que devemos, na verdade, tentar nos compreender e compreender as ações sociais no contexto de sua complexidade”.

(WORTHEN, SANDER E FITZPATRICK, 2004, p. 21)

No capítulo anterior, tratamos da noção de complexidade textual que denominamos de objetiva/estrutural, defendendo que os indicadores de complexidade devem tomar como base os aspectos de natureza textual relacionados à dimensão composicional e estrutural do texto, para que, de fato, se possa discutir acerca da complexidade textual. Nessa perspectiva, apresentamos uma proposta de análise a ser aplicada, de modo particular, a itens de avaliação em larga escala (IALE). São explicitados, na proposta, os critérios a partir dos quais é possível classificar um item como mais ou menos complexo. Neste capítulo, demonstramos, em uma amostra de itens de uma das principais avaliações em larga no Brasil, o ENEM, a heurística desta proposta.