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Indicadores de complexidade pela dimensão cognitiva do texto

2.2 Indicadores de complexidade pela dimensão composicional do texto

2.2.3 Indicadores de complexidade pela dimensão cognitiva do texto

Além das propriedades oriundas do ISD e da PTI, relacionadas à dimensão composicional do texto, pensamos em outra dimensão presente na estrutura do texto que também pode apontar para outra propriedade de natureza textual por manter relação estreita com a complexidade. Estamos nos referindo à Taxonomia de Bloom (TB) (BLOOM, [1956], 1972), que pode ser vista, de forma muito geral, como um instrumento que auxilia na identificação de objetivos instrucionais ligados ao desenvolvimento cognitivo. A taxionomia é feita com base em diferentes aspectos ancorados na composição do texto.

A TB derivou-se de um dos ramos da Biologia que trata da classificação lógica e científica dos seres vivos e incluiu não somente um sistema de classificação como também a teoria e os métodos utilizados para construir um sistema de classificação. A cognição é concebida como o ato ou processo da aquisição do conhecimento, que se dá através da percepção, da atenção, da associação, da memória, do raciocínio, do juízo e da imaginação no âmbito do saber. Incluem-se, por isso mesmo, os objetivos vinculados à memória e ao desenvolvimento de capacidades e habilidades intelectuais.

Essa Taxonomia classificou, originalmente, os objetivos em três domínios educativos: cognitivo, emocional e psicomotor. O primeiro domínio focaliza o conhecimento, a compreensão e o pensar sobre um problema ou fato, abrangendo a aprendizagem intelectual,

podendo ser relacionado aos objetivos referentes à memória e ao desenvolvimento de capacidades e habilidades intelectuais. Nesse domínio, as condutas compreendidas são realizadas com um maior nível de consciência e, por isso, são mais fáceis de serem classificadas. O segundo congrega reações de ordem afetiva e de empatia, contemplando os aspectos de sensibilização e gradação de valores. Finalmente, o terceiro domínio, trabalha com as habilidades na execução de tarefas que envolvem o corpo como um todo.

A Taxonomia de Bloom passou, em 1990, por um processo de revisão e, precisamente, em 2001, essa mudança foi publicada por Anderson e Krathwohl (2001) e seus colaboradores. A principal alteração observada da primeira proposta para a segunda foi a combinação do tipo de conhecimento a ser adquirido e o processo para esse fim. Esses autores passaram a usar, diante do tipo de conhecimento, substantivos, e os processos, para atingi-los, continuaram a ser descritos por verbos que explicitam as competências desejadas. É relevante ressaltar também que os níveis conhecimento, compreensão e síntese foram renomeados no universo semântico de relembrar, entender e criar, respectivamente.

Essa taxonomia, em sua primeira abordagem, é hierárquica; assim, cada nível é incluído nos níveis mais altos, de maneira que, no domínio cognitivo, segundo Bloom (1972) e Clark (2006), relaciona-se ao ato de aprender bem a partir do domínio de conhecimento, por envolver habilidades, atitudes e aquisição de novos saberes com vista ao desenvolvimento intelectual. Isso significa que um estudante deve começar a desenvolver suas habilidades no nível da “aplicação” até chegar aos níveis de “conhecimento” e “avaliação” com maior autonomia. Enquanto, na segunda, a revisada, o estudante sai do nível do “recordar” até chegar ao “criar”, processo mais complexo.

Figura 4 – Níveis cognitivos segundo Bloom

Fonte: Acervo do pesquisador

Percebe-se na Figura 4 que os níveis são escalonares, ou seja, do menos ao mais complexo cuja abordagem de habilidades compreende, para os níveis (1) conhecimento e (2) compreensão, os saberes elementares que todos os estudantes devem ter apreendido. Nos níveis (3) aplicação e (4) análise, há uma mobilização de julgamentos desses saberes construídos pelo percurso formativo do estudante e estão centrados no nível intermediário. Finalmente, nos níveis (5) síntese e (6) avaliação, percebemos que constituem, pelo viés da taxonomia, os mais elevados e mais complexos, pois demandam produção de conhecimentos que serão utilizados para resolver situações que exigem maior feeling.

A partir do Quadro 3, é possível perceber a complexidade, os níveis, a definição e os enunciados iniciais (verbos) da Taxonomia.

Quadro 3 - Distribuição hierárquica de complexidade cognitiva

COMPLEXIDADE NÍVEL DEFINIÇÃO ENUNCIADOS

INICIAIS DOS ITENS

Fácil Conhecimento

O sujeito irá recordar ou reconhecer informações, ideias e princípios da forma

Listar, rotular, nomear, dizer, definir, indicar,

identificar Produção de novos saberes

Julgamento de saberes já abordados

Apreensão dos saberes abordados Síntese Análise Aplicação Compreensão Conhecimento Avaliação

(aproximada) em que foram aprendidos.

Médio Compreensão O sujeito traduz, compreende ou interpreta com base em

conhecimento prévio. Explicar, resumir, parafrasear, descrever, ilustrar, relacionar, apontar, combinar, declarar, distinguir, definir, denominar, descrever, enumerar, identificar, listar, memorizar, nomear, ordenar, realçar, relembrar,

recordar, relacionar, reproduzir, rotular, reconhecer e solucionar.

Aplicação

O sujeito seleciona, transfere informação e usa dados e princípios para completar um

problema ou tarefa com um mínimo de supervisão.

Usar, computar, resolver, demonstrar, aplicar, construir, alterar, construir,

converter, decodificar, defender, definir, descrever, distinguir, discriminar, estimar, explicar, generalizar, dar exemplos, ilustrar, inferir,

prever, reformular, reescrever, resolver, resumir, classificar, discutir, identificar, interpretar, reconhecer, redefinir, selecionar, reafirmar, situar e traduzir.

Análise O sujeito distingue, classifica, e relaciona pressupostos, hipóteses, evidências ou estruturas de uma declaração ou questão.

Analisar, categorizar, comparar, contrastar, separar, aplicar, alterar, programar, demonstrar, desenvolver, descobrir, dramatizar, empregar, ilustrar, interpretar, manipular, modificar, operacionalizar, organizar, prever, preparar, produzir, relatar, resolver, transferir, usar, construir, esboçar,

Avançado

escolher, escrever, operar e praticar.

Síntese O sujeito cria, integra e combina ideias num produto, plano ou proposta novos para

ele.

Criar, planejar, elaborar hipótese(s), inventar, desenvolver, categorizar, combinar, compilar, compor, conceber, construir, desenhar, elaborar, estabelecer, explicar, formular, generalizar, modificar, organizar, originar, planejar, propor, reorganizar, revisar, reescrever, resumir, sistematizar, escrever, desenvolver, estruturar, montar e projetar.

Avaliação O sujeito aprecia, avalia ou critica com base em padrões

e critérios específicos.

Julgar, recomendar, criticar, justificar, avaliar,

averiguar, escolher, comparar, concluir, contrastar, criticar, decidir,

defender, discriminar, explicar, interpretar, justificar, relatar, resolver,

resumir, apoiar, validar, escrever, detectar, estimar,

julgar e selecionar.

Fonte: BLOOM et al., 1983, p. 56.

Desse modo, percebemos uma relação próxima entre essa noção de complexidade com base no domínio cognitivo e a que desejamos conceber. Fica evidente que essa taxonomia foi concebida a partir de outras bases e com outras finalidades, e aqui ela está sendo adaptada. Essa classificação proposta por Bloom não foi pensada para verificar complexidade textual, mas a complexidade cognitiva de uma pessoa em processo de aprendizagem.

No entanto, a noção de complexidade cognitiva que aporta pode compreender também a complexidade textual, já que passa pela forma como os enunciados estão construídos linguisticamente. Percebemos que a identificação de níveis (conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese ou avaliação) não se baseia apenas nos verbos, mas em toda a

estruturação textual, cujo empreendimento faz com que avancemos nesse aspecto analítico. Além disso, é oportuno frisar também que os itens, no formato de múltipla escolha, prestam-se à avaliação de objetivos nos níveis de 1- 4, dificilmente nos níveis 5 e 6, pois nem todos os processos cognitivos podem ser mensurados nesse tipo de modelo. Nesses níveis mais elevados da TB, é possível identificá-los em questões abertas ou também conhecidas como discursivas.