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Metodologia da pesquisa

3.6. As categorias de análise

De acordo com Lüdke & André (1986), analisar dados de forma qualitativa é “trabalhar” todo o material obtido durante a pesquisa, ou seja, considerar todas as informações disponíveis. Para isso, a princípio, faz-se necessária a organização de todo o material, dividindo-o em partes a serem posteriormente relacionadas, a fim de

se identificarem tendências e padrões relevantes. Em um segundo momento, avaliam- se as tendências e os padrões encontrados, para que sejam traçadas relações e inferências em um nível de abstração mais elevado.

Segundo as autoras, a análise qualitativa acontece em vários estágios da pesquisa, embora ela efetivamente se torne mais sistemática e mais formal após a finalização da coleta de dados. Para as autoras, a análise começa desde o início dos estudos ao fazermos “uso de procedimentos analíticos quando procuramos verificar a pertinência das questões selecionadas frente às características específicas da situação estudada” (LÜDKE, ANDRÉ, 1986, p. 45). Para elas, o processo de coleta se assemelha a um funil, já que, inicialmente, há uma fase mais aberta em que o pesquisador adquire uma visão mais ampla da situação, dos sujeitos, do contexto e das principais questões do estudo, para então tornar a coleta mais concentrada e mais produtiva.

Lankshear e Knobel (2008), por sua vez, acreditam que há dois grandes grupos que separam os dados escritos — entendidos aqui como as produções encontradas nas revistas — em uma pesquisa de caráter qualitativo. Para os autores, os dados do primeiro grupo existem independentemente do estudo, ou seja, eles não foram produzidos para a pesquisa em si e teriam sido produzidos de qualquer forma. Nesse ponto, colocamos nossos dados dentro dessa categoria, uma vez que a produção e a venda das revistas que constituem o nosso corpus teriam ocorrido independentemente da realização desta pesquisa. Já o segundo grupo refere-se aos dados gerados para a pesquisa, como questionários, por exemplo. Aqui, faz-se então desnecessário o alongamento de definições, uma vez que escolhemos uma pesquisa de cunho documental que elimina a participação de sujeitos no processo de investigação.

Ainda segundo esses autores, utilizar dados escritos em uma pesquisa qualitativa tem as suas vantagens:

 identificar claramente o problema de pesquisa;  formular nossos propósitos e questões de pesquisa;

 decidir sobre a melhor perspectiva teórica para a abordagem da questão;

 decidir quais abordagens, ferramentas e técnicas serão usadas para a análise de dados;

 decidir os tipos de teorias e componentes teóricos que serão usados no momento de interpretar os resultados que emergirão da análise de dados.

Para realizar a nossa análise, nossas três grandes categorias são: tipos de texto, gênero e tema, conforme já explanado anteriormente. No entanto, para especificar cada texto/enunciado encontrado, identificamos subcategorias para o impresso, conforme demonstra o quadro a seguir:

Para a mídia impressa:

Tipos de texto Gêneros Temas31

Verbal; não-verbal; híbrido Artigo; artigo de opinião; carta ao leitor; carta do leitor; coluna; conto; entrevista; gráfico; infográfico; menu; nota; notícia; propaganda; pergunta do leitor; reportagem; resenha

Ciência; comportamento; cultura; História; ideia; tecnologia

Quadro 14 – Categorias de análise para descrever os projetos gráfico-editorais Para os sites, localizamos outras subcategorias:

Gêneros Temas Elementos digitais

Artigo; artigo de opinião; carta ao leitor; carta do leitor; coluna; conto; entrevista; gráfico; infográfico; menu; nota; notícia; propaganda; pergunta do leitor; reportagem; resenha

Ciência; comportamento; cultura; História; ideia; tecnologia

Som; vídeo; hiperlink; imagem em movimento

Quadro 15 – Categorias de análise para os sites 3.6.1. Categorias analíticas para os infográficos

Foram apresentadas nos dois primeiros capítulos desta dissertação categorias de classificação dos tipos de infográficos que podem ser encontrados em uma determinada publicação. Para sermos um pouco mais específicos, no Capítulo 1, a classificação se pautou, basicamente, na (in) dependência que o infográfico tem em relação a outros gêneros (notícia, reportagem, artigo etc.); assim, temos o infográfico independente ou completar, combinado ao tipo de narrativa que ele traz, enciclopédico ou específico. No Capítulo 2, as classificações se deram, exclusivamente, para os

31 Além das categorias de temas que são popularmente conhecidos pela DC (ver Capítulo 1), optamos

por utilizar também a categorização de tema do site da Superinteressante, uma vez que ele já faz a divisão dos textos/enunciados por essa categoria, o que facilitou a nossa geração de dados e análise.

infográficos animados e, por isso, expandiram-se as noções proferidas em 1, estabelecendo-se as seguintes categorias: sequencial, relacional ou espacial, para determinar o tipo de conteúdo trazido, e narrativo, instrutivo, explanatório e simulatório, para descrever a intenção comunicativa.

Contudo, na geração de dados, essas categorias já apresentadas mantêm- se incipientes, uma vez que consideramos, até então, a função do texto basicamente. É necessário considerarmos que a imagem, ou as outras semioses encontradas, possuem, no mínimo, efeitos parecidos aos da escrita no leitor, uma vez que ele não pode fazer a leitura do escrito somente em um infográfico para a obtenção de conhecimento. Para tanto, recorremos a um autor da área do design que apresenta os seguintes conceitos para o trabalho com design gráfico (dos quais nos apropriamos para a nossa análise): data map, time-serie, space-time narrative design e relational graphic.

No entanto, antes de explicarmos esses conceitos, faz-se necessário expor a visão de Tufte (1986) em relação aos gráficos. Para o autor, é necessário que cada gráfico:

1 – apresente os dados;

2 – garanta que o leitor pense basicamente (e primeiramente) no conteúdo do gráfico, ao invés de se preocupar com o design dele, com a tecnologia e a metodologia utilizadas etc.;

3 – evite a distorção em relação ao que os dados tenham para mostrar/dizer;

4 – apresente muitos números em um pequeno espaço; 5 – estimule o leitor a comparar dados diferentes;

6 – revele o dado de diferentes níveis de detalhes, seja de uma visão geral ou de algo mais específico;

7 – tenha um propósito claro, que pode ser de descrição, exploração, tabulação ou decoração;

8 – integre-se intimamente a estatística e as descrições verbais a respeito dos dados.

Tendo isso em mente, Tufte (1986) apresenta as quatros categorias citadas para a classificação e análise de gráficos.

A primeira, data map (mapa de dados), corresponde à representação de dados estatísticos, muitas vezes por escalas de cores ou dégradé, em determinada

localização geográfica. Por exemplo, nas eleições para presidente do Brasil de 2015, no segundo turno, tivemos dois candidatos: Dilma (PT) e Aécio (PSDB). Após a apuração dos votos, Dilma foi reeleita e alguns veículos de comunicação e usurários da rede divulgaram a relação dos votos recebidos pelos candidatos em cada estado por um mapa binário. Dilma foi representada pelo vermelho e Aécio, pelo azul, cores de seus respectivos partidos. Obteve-se, nesse caso, a maioria dos estados do Norte e Nordeste pintados de vermelho, enquanto Sul e Sudeste, de azul, assim:

Figura 16 – Exemplo de mapa binário

Fonte: <http://jornalggn.com.br/noticia/o-mapa-das-eleicoes-por-thomas-conti>. Acesso em: 15 maio 2016.

Todavia, embora a representação não esteja equivocada, na visão do autor é simplista, uma vez que não foi considerada a quantidade de habitantes votantes em cada estado. Ou seja, a impressão que se passa é que somente se votou em Dilma nos estados do Norte e Nordeste e em Aécio, nos do Sul e Sudeste. Contudo, se optássemos por um data map e fizéssemos uma mistura dessas cores pela quantidade de votos recebidos em cada estado, o vermelho e o azul ainda predominariam nas regiões citadas, porém, no estado de São Paulo, que era inteiro azul, apareceria um tom de roxo, como mostra a figura a seguir:

Figura 17 – Exemplo de data map

Fonte: <http://jornalggn.com.br/noticia/o-mapa-das-eleicoes-por-thomas-conti>. Acesso em: 15 maio 2016.

Times serie (linha do tempo) refere-se aos dados representados por uma linha de tempo. Ou seja, na escola X, o designer gráfico pode representar segundos, minutos, horas, dias, anos, séculos etc. e mostrar a incidência de um fenômeno ao longo desse tempo. Para Tufte (1986), é comum que esse tipo de representação seja cada vez mais explorado nas áreas de Ciências Exatas, Biológicas e, até mesmo, humanas, se pensarmos em História, por exemplo. A seguir, um exemplo:

Figura 18 – Exemplo de time serie

Space-time narrative design (design de narrativa no tempo-espaço) difere basicamente do primeiro segundo por incluir no gráfico mais de uma dimensão. O que antes era representado apenas pelos eixos X e Y ganha a oportunidade de ser visto por Z e outras dimensões. Consideramos aqui, portanto, o início da representação em terceira dimensão, na qual, conforme apontado pelo autor, é possível avaliarmos uma montanha não só pela sua altura e largura, mas também por sua profundidade, em escalas de centímetros, por exemplo. Por isso, o autor justifica que essa representação tem estado muito presente na área de arquitetura, por exemplo, que é uma das que mais usa o software “Autocad”. Segue um exemplo:

Figura 19 – Exemplo de space-time narrative design

Fonte: <http://visualoop.com/media/2015/09/party_for_the_crown_jewel_of_the_city_of_palaces.jpg>. Acesso em: 15 maio 2016.

Por fim, relational graphic (gráfico relacional) baseia-se na construção que o produtor oferece ao leitor para avaliar e comparar os dados de diferentes naturezas dentro de um mesmo gráfico. Ou seja, ao criar um gráfico sobre a incidência de uma bactéria em diferentes populações, o leitor precisa saber identificar e avaliar como que ela aparece em diferentes cantos do globo. Além disso, o produtor oferece mais dados, que mostram as consequências para a população e como elas atingem direta ou indiretamente as pessoas. Será que é só uma questão geográfica? A questão biológica interfere? E o meio em que elas habitam? São perguntas que o próprio leitor responde ao colocar esses dados em conflito. Reproduzimos um exemplo:

Figura 20 – Exemplo de relational graphic

Fonte: <http://formulageo.blogspot.com.br/2011/07/infograficos-sobre-consciencia.html>. Acesso em: 15 maio 2016.

Por fim, Tufte (1986) conclui que o gráfico excelente consiste em:

1 – apresentar os dados de forma interessante, mas que considere prioritariamente o conteúdo e as estatísticas;

2 – apresentar dados complexos de maneira clara, precisa e eficiente; 3 – dar ao leitor informações em um período curto de tempo mesmo com o mínimo de “tinta” em um pequeno espaço;

4 – ser multivariável; 5 – dizer a verdade.

De forma sintética, a seguir, encontram-se os quadros com as categorias de análises para os infográficos:

Infográfico estático

(In) Dependência Narrativa Tipo de imagem

Dependentes; independentes Enciclopédicos; específicos Data maps; time series; space- time narrative designs;

relational graphics

Infográfico animado (In)Dependência Narrativa Intenção

comunicativa Tipo de conteúdo Dependente; independente Específico; complementar Narrativo; instrutivo; exploratório; simulatório Sequencial; relacional; espacial

Quadro 17 – Categorias de análise para infográficos animados. 3.7. Geração de dados

A pesquisa disporá dos seguintes materiais para análise do corpus, a saber: (i) três exemplares impressos da revista Superinteressante; (ii) os mesmos exemplares da Superinteressante no tablet; (iii) o site da Superinteressante; (iv) três exemplares impressos da revista Ciência Hoje; (v) os mesmos exemplares da Ciência Hoje no tablet; e, por fim, (vi) o site da Ciência Hoje.

Tendo em vista que nosso objetivo específico é determinar de modo mais claro quais são os elementos extras que o meio virtual traz à Superinteressante e à Ciência Hoje, sendo elas o objeto empírico desta investigação, mais a análise dos infográficos encontrados, a metodologia a ser utilizada é a análise qualitativa de caráter descritivo e interpretativo, combinada à análise quantitativa dos enunciados elaborados pelas diferentes plataformas. Isso tudo feito a partir de um levantamento documental — privilegiando um corpus que não recebeu tratamento analítico — de três exemplares de cada revista nos dois meios (impresso e digital).

A nossa primeira geração de dados é dada por meio de um instrumento quantitativo, uma vez que, conforme expressado por Lankshear e Knobel (2008, p. 126), “os estudos quantitativos estão concentrados nos resumos numéricos das regularidades que existem no mundo”.

Para gerar os dados, catalogamos todos dos textos/enunciados presentes nas revistas impressas em tipo de texto, gênero e tema para, assim, delimitarmos os que têm maior e menor incidência em cada revista e em cada segmento (impresso e digital). Por isso, utilizamos as categorias para gênero e tema trazidas no Capítulo 1 e complementadas pelo site da Superinteressante, conforme se viu no Quadro 14, neste capítulo.

De modo similar, fizemos o mesmo com as versões do tablet e dos sites das revistas para, além da incidência dos gêneros e dos temas, evidenciarmos os elementos somente encontrados no meio digital, conforme mostrado pelo Quadro 15.

Quanto aos infográficos, evidenciaremos como aparecem em cada periódico de modo a explicitar a incidência de cada tipo (vide Quadros 16 e 17). Para isso, faremos uma análise descritiva de seus elementos, para os relacionarmos às informações trazidas pelos textos/enunciados, dando atenção, portanto, ao resumo das informações principais, ao papel da imagem e da interatividade, se houver.

Nossa análise, desse modo, envolverá as seguintes etapas:

1. comparação do projeto gráfico-editorial das versões impressas e digitais, tendo a incidência de gênero e tema como foco;

2. análise geral dos papeis dos elementos multissemióticos encontrados nas versões digitais;

3. levantamento e análise geral dos infográficos que apareceram nas revistas;

4. discussão qualitativa dos exemplos de infográficos mais relevantes na observação.

A seguir, portanto, nos Capítulos 4 e 5, apresentaremos a análise da incidência dos gêneros mais e menos recorrentes na revista Superinteressante e na Ciência Hoje, assim como mostraremos os elementos extras responsáveis pela remidiação das versões do tablet e dos sites das revistas. Nesses capítulos, também faremos o levantamento e a análise dos infográficos encontrados nos exemplares selecionados.

4. CAPÍTULO 4