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Da multimodalidade à multimídia: conceitos primordiais para entendermos o corpus

2.1. Os gêneros digitais e a sua funcionalidade

Podemos afirmar que as revistas escolhidas como nosso corpus vêm sofrendo processos tecnológicos que têm mudado a relação entre o leitor e as mídias disponíveis. Segundo Pinheiro (2010, p. 44), “o desenvolvimento da mídia transformou a constituição espacial e temporal da vida social, criando novas formas de ação e interação não mais ligadas ao compartilhar de um local comum”.

Esse ponto de vista é compartilhado por Marcuschi (2010), que aponta para a existência de uma gama de gêneros emergentes dentro das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), que ainda mantêm, em sua maioria, similaridades com outros ambientes em que foram previamente idealizados e produzidos, considerando, pois, as modalidades orais e escritas. Por isso, na visão do autor, há polêmica nos estudos dos gêneros digitais (ou gêneros eletrônicos, como o autor os nomeia) devido à sua natureza e ao tamanho do impacto que eles causam na linguagem e na vida social: “Isso porque os ambientes virtuais são extremamente

versáteis e hoje competem, em importância, entre as atividades comunicativas, ao lado do papel e do som” (MARCUSCHI, 2010, p. 15).

O desenvolvimento de novos gêneros digitais deve ser acompanhado pela academia. A esse respeito, Pinheiro (2010) afirma que o conceito de gênero digital tem sido crucial nas pesquisas sobre novos letramentos no âmbito da Linguística Aplicada. Segundo o autor, um número considerável de teóricos tem observado e lidado com o surgimento dos gêneros digitais como novos meios de comunicação no mundo virtual. Ao mesmo tempo, esses novos gêneros são influentes na própria evolução de outros gêneros tradicionais. Não podemos deixar de mencionar que essa evolução dos gêneros tradicionais para a internet deve-se ao fato de ser possível reunir várias formas de expressão (texto, som, imagem etc.) dentro de um só gênero. Isso garante aos textos maleabilidade para a incorporação de múltiplas semioses ao mesmo tempo, o que, por consequência, interfere na natureza dos recursos linguísticos utilizados e penetram com mais facilidade e rapidez entre as diversas práticas sociais (MARCUSCHI, 2010).

Nesse contexto de pesquisa, segundo Marcuschi (2010) há três aspectos que tornam a análise dos gêneros digitais relevantes:

1. o fraco desenvolvimento e o uso cada vez mais generalizado; 2. peculiaridades formais e funcionais, não obstante, terem eles

contrapartes em gêneros prévios;

3. a possibilidade que eles oferecem de rever conceitos tradicionais, o que permite pensar mais uma vez na relação do sujeito com a oralidade e a escrita.

Retomando a discussão de esferas e dos gêneros conforme propostos por Bakhtin (2003[1952-1953/1979])27 e ancorando-nos em Araújo (2010), podemos

afirmar que os gêneros tendem a se reformatar à medida que as esferas se tornam mais complexas. Por isso, ao incluirmos o meio digital nessa discussão, conforme alerta Araújo (2010), confirmamos que o mesmo processo de reformatação de gêneros ocorre, uma vez que os gêneros digitais começam a fazer parte de um processo complexo de informação e hibridização para que as novas demandas trazidas pelas esferas sejam atendidas. Araújo (2010) expande o conceito de transmutação dado por Bakhtin (1997), que, originalmente, só era utilizado em

processos nos quais gêneros primários eram transformados em gêneros mais complexos, os secundários. Nesse sentido, para Araújo (2010), essa concepção pode ser utilizada em processos em que gêneros secundários são transmutados em outros gêneros secundários, uma vez que, ao pensarmos na web e no conceito de gênero digital, encontramos gêneros secundários que foram absorvidos e reinterpretados dentro desse meio, como as reportagens multimídia que foram formuladas a partir de reportagens impressas.

Pinheiro (2010) defende ainda que os gêneros digitais têm sido caracterizados por seu conteúdo, forma e funcionalidade, atrelados às capacidades disponíveis das novas mídias. Por isso, afirma que esses gêneros não podem ser desvinculados dos aparatos tecnológicos em que são reproduzidos. Ao mesmo tempo, contudo, surge a questão de que a própria tecnologia incorpora diferentes gêneros discursivos. De forma complementar, Rojo (2013, p. 21) destaca que as mídias digitais, além de facilitarem a modificação de conteúdos, ainda tornam mais fácil a recombinação de conteúdos produzidos por outras mídias:

os processos de digitalização reduzem qualquer conteúdo informativo, originado de qualquer mídia, codificado em qualquer linguagem, a um código número/binário comum, o qual pode ser manipulado de forma autorizada.

Esse processo é comentado também por Marcuschi (2010, p. 32-33):

os gêneros surgem dentro de ambientes como locais que permitem “culturas” variadas. Além disso, revelam que a internet não é um ambiente virtual homogêneo, mas apresenta uma grande heterogeneidade de formatos e permite muitas maneiras de operação relativas à participação e os processos interativos.

Dessa maneira, tem-se uma adaptação às novas mídias, assim como transformações nos antigos gêneros, conforme descrito a seguir:

Para se estabelecer com um meio de comunicação tão poderoso, como de fato é, o mundo virtual incorporou, em grande parte, gêneros discursivos presentes em outros tipos de mídia, tais como aqueles encontrados em jornais, revistas, televisão e rádio. Contudo, já é possível observar que a Internet, por outro lado, vem imprimindo um novo modo de veicular a informação, uma vez que sua tecnologia é capaz de reunir recursos variados que lhe permitem lidar, ao mesmo tempo, com o texto escrito, som, fotos e vídeos etc. O advento da tecnologia digital, por exemplo, fez com que gêneros discursivos sofressem adaptações: encurtamento dos textos, uso de links eletrônicos, uso de hipermídia, entre outros. (PINHEIRO, 2010, p. 52).

Pinheiro (2010) também aponta que a questão dos gêneros digitais, dentro do próprio contexto digital, pode ser considerada um resultado de novas necessidades de interação verbal. Por isso, ao considerarmos a visão de Bakhtin (2003[1952- 1953/1979]), precisamos, hoje, incluir novos aspectos, uma vez que os gêneros digitais

são também definidos por sua forma, conteúdo, função e suporte, os quais, devido à complexificação tecnocultural pela qual o nosso mundo vem passando, permitem que os elementos constituintes da linguagem passem pelo mesmo processo, gerando e modificando, com isso, os gêneros discursivos existentes. (PINHEIRO, 2010, p. 52).

De acordo com Rojo (2013), as esferas sociais que se apropriam de diferentes mídias para a circulação de seus discursos fazem uma seleção de diversos e diferentes recursos tecnológicos “parar atingir suas finalidades e ecoar seus temas, provocando mudanças nos gêneros”, e causando, assim, “efeito nas formas de composição e nos estilos dos enunciados, inclusive em termos de multimodalidade” (ROJO, 2013, p. 29).

Assim, ao compararmos essa nova perspectiva com o quadro expresso por Rojo e Barbosa (2015) no Capítulo 1, temos a seguinte modificação:

No esquema modificado, a autora considera que as diferentes semioses, dentro de suas esferas, tornam-se parte do estilo dos gêneros textuais, assim como são inseridas diferentes modalidades também na composição deles. A título de exemplificação, temos reportagens na web em que não encontramos somente o texto criado pelo jornalista, mas também diferentes depoimentos e opiniões dos envolvidos nos fatos ocorridos, além de uma imagem que, de certa forma, complementa o fato noticiado. Em outras reportagens, também é possível encontrar vídeos, infográficos e hiperlinks, alterando, assim, uma ordem (que pode ser caracterizada como obsoleta) das especificações da produção desse gênero no meio digital. Isso se faz possível, porque, na visão de Rojo (2013), estão inseridas, na relação entre o gênero do discurso e a situação de comunicação, as mídias e tecnologias disponíveis.